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A derradeira traição

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Mandar rapazes e moças para o outro lado do mundo, equipados com as armas mais terríveis que existem ? e que, no entanto, não os põem a salvo de ações de guerrilheiros que os irão deixar cegos ou inválidos ? é a última traição do governo americano para com seu povo e sua juventude

Howard Zinn - (01/04/2004)

Normalmente se omite que, para cada soldado morto, quatro ou cinco foram gravemente feridos

Não consigo esquecer a foto publicada na primeira página do New York Times, de 30 de dezembro de 2003, como ilustração de um artigo de Jeffrey Gettleman. Mostrava um rapaz sentado numa cadeira, de frente para os alunos de uma turma de sexta série numa escola de Blairsville, no Estado da Pensilvânia. De pé, a seu lado, estava uma mulher. Não era a professora, mas a mãe do rapaz. Estava ali para o ajudar, pois ele era cego.

Aquele jovem de 24 anos, sargento nos Rangers do exército, chama-se Jeremy Feldbusch. No dia 3 de abril, quando montava guarda numa barragem do rio Eufrates, teve o rosto atingido pelos estilhaços de uma bomba que explodiu a cerca de trinta metros de onde ele estava. Quando saiu do coma, cinco semanas após ter sido internado num hospital militar, tinha perdido a vista. Duas semanas depois, foi condecorado com as comendas Purple Heart e Bronze Star, mas continuava cego. À cabeceira de sua cama, seu pai disse: “Com certeza, Deus achou que você já tinha visto matanças demais.”

Naquele mesmo dia, os jornais noticiavam que 470 soldados norte-americanos já haviam perdido a vida durante aquela guerra. Mas o que normalmente não é dito é que, para cada soldado morto, quatro ou cinco foram gravemente feridos.

Tragédias escondidas

Quantos dos “gravemente feridos” – três mil, ou mais – não voltaram cegos, ou com as pernas ou os braços amputados?

A expressão “gravemente feridos” está longe de refletir a realidade em todo seu horror. Charlene - a mãe do sargento Feldbusch e que, nos últimos dois meses, passa praticamente todo seu tempo ao lado do marido, à cabeceira do filho ferido - um dia viu uma jovem com uniforme militar que se arrastava pelos corredores do hospital, acompanhada de seu filho de três anos. Tinha as duas pernas amputadas.

Charlene chorou. Mais tarde, disse a Gettleman: “Você não imagina o número de vezes que percorri esses corredores, passando por pessoas sem pernas e sem braços, e pensando: ‘Por que não poderia ocorrer isso com meu filho? Por que seus olhos?’”

Quantos desses homens “gravemente feridos” – três mil, ou mais, neste momento – não voltaram cegos, ou com as pernas ou os braços amputados? Há pouco tempo, em entrevista ao canal de televisão C-Span, a atriz Cher declarou que havia passado o dia no hospital Walter Reed, de Washington, com soldados que voltavam da guerra. “Quando cheguei ao hospital, a primeira pessoa com que deparei era um rapaz, de dezenove ou vinte anos, que tinha perdido os dois braços. [...] Ali, todo mundo perdeu um braço, ou uma perna, e, às vezes, ambos. [...] Se não existiam motivos para fazer tal guerra, acho que esta é a coisa mais escandalosa que já vi. [...] E também me pergunto por que [...] Cheney, Wolfowitz, Bremer, o presidente, enfim, por que eles não tiram fotografias com toda essa gente? Não compreendo por que escondem tão cuidadosamente essas pessoas. [...] É inacreditável.”

Em defesa do petróleo

A guerra por petróleo foi vendida à opinião pública e aos soldados como se fosse algo que nunca foi

Mandar esses rapazes e moças para o outro lado do mundo, para o meio de um país estrangeiro, equipados com as armas mais terríveis que existem – e que, no entanto, não os põem a salvo de ações de guerrilheiros que os irão deixar cegos ou inválidos – não constituiria a derradeira das traições cometida por nosso governo para com nossa juventude?

Muitas vezes, os pais compreendem isso antes que seus filhos, ou filhas, e discutem com eles antes de sua partida. Foi o que fez Ruth Aitken, que tentou convencer seu filho que se tratava de uma guerra pelo petróleo, enquanto ele, capitão do exército, afirmava que iria proteger seu país do terrorismo. Morreu no dia 4 de abril, durante um tiroteio nas cercanias do aeroporto de Bagdá. “Ele estava fazendo seu trabalho”, disse ela, antes de acrescentar: “Mas o que me enlouquece é saber que essa guerra toda foi vendida à opinião pública e aos soldados como se fosse algo que nunca foi”.

Em Baltimore, o pai de Kendall Waters-Bey, sargento dos fuzileiros navais, acenava, diante das câmeras de televisão, com uma foto de seu filho morto, declarando: “Presidente Bush, o senhor me tomou meu único filho.” [...] Em Escondido, na Califórnia, Fernando Suarez del Solar, declarou aos jornalistas que seu filho, cabo dos fuzileiros navais, morreu em defesa do “petróleo de Bush”.

Massacre e colapso no Iraque

O exército invasor limitou-se a assistir à destruição e pilhagem de monumentos históricos iraquianos

É claro que não foram só pais e filhos que foram traídos. O povo iraquiano, a quem se prometera libertar da tirania, viu seu território, já devastado por duas guerras e dez anos de sanções internacionais, atacado pela maior potência militar da história. Os militares norte-americanos anunciaram orgulhosamente essa operação “Choque e Pavor”, que fez mais de dez mil vítimas, entre homens, mulheres e crianças, sem contar milhares de feridos, lançando o país numa situação de colapso total. O exército invasor, tão eficiente quando se trata de destruir, limitou-se a assistir, em seguida, à destruição e pilhagem de monumentos históricos iraquianos.

A lista de traições é longa. Este governo traiu as esperanças que o mundo depositava na paz. Após os 50 milhões de mortos da II Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas e sua Carta de Princípios promete “preservar as gerações futuras do flagelo da guerra”.

O povo norte-americano foi traído porque, apesar do fim da guerra fria e do desaparecimento da “ameaça comunista” – que servia para justificar o desvio de trilhões de dólares para o orçamento militar –, continua a pilhagem da riqueza nacional. E continua às custas dos doentes, das crianças, dos idosos, dos sem-teto, dos desempregados, varrendo, dessa maneira, a esperança – nascida após o colapso da União Soviética – de que “os benefícios da paz” pudessem garantir a prosperidade geral.

História de traições

As mentiras começam no passado e chegam hoje aos jovens enviados para a guerra com discursos sobre liberdade e patriotismo

E voltemos, para terminar, à derradeira das traições, a traição desses jovens enviados para a guerra com promessas grandiosas e discursos mentirosos sobre a liberdade e a democracia, sobre o dever e o patriotismo. Nossa cultura histórica é muito limitada para permitir que nos lembremos de que essas promessas e mentiras começaram bem longe, em nosso passado nacional.

Rapazes – na verdade, quase crianças, pois todos os exércitos do mundo, inclusive o nosso, sempre foram compostos por crianças – foram atraídos para o exército revolucionário dos Pais Fundadores, inspirados pela retórica grandiosa da Declaração da Independência. Mas compreenderam rapidamente que tinham sido enganados. Enquanto seus uniformes se transformavam em trapos andrajosos e não tinham mais botas, seus oficiais viviam na luxúria e os comerciantes se enriqueciam com a guerra. Milhares deles se amotinaram e alguns foram executados por ordem do general Washington. Terminada a guerra, quando os lavradores endividados da região a oeste de Massachusetts – alguns deles, ex-combatentes – se recusaram a entregar suas terras, foram subjugados pela força das armas.

História clássica da traição desses mesmos que hoje enviam jovens à guerra para matar e morrer. Mas quando os soldados compreendem, se revoltam. Durante a guerra contra o México, milhares de soldados desertaram. Durante a guerra de Secessão, houve um profundo ressentimento quando se viram os ricos pagando para fugir ao alistamento e financistas, como J. P. Morgan, engordando seus lucros à medida que se empilhavam os corpos nos campos de batalha. Os soldados negros que se juntaram ao exército nortista – e tiveram um papel decisivo na vitória da União – voltaram para casa, para a pobreza e o racismo.

Os veteranos esquecidos

Depois do Vietnã, cem mil famílias entraram com a ação judicial devido aos efeitos sofridos com o “agente laranja”

Os veteranos da I Guerra Mundial – que, em grande parte, voltaram para casa inválidos e traumatizados – foram duramente atingidos, doze anos depois, pela Grande Depressão. Vinte mil dentre eles, desempregados e com suas famílias passando fome, marcharam sobre Washington e acamparam na margem oposta do rio Potomac. Exigiam que o Congresso pagasse as compensações financeiras que lhes haviam sido prometidas. Ao invés disso, foram dispersados pelo exército com tiros e gás lacrimogêneo.

Talvez com o intuito de fazer com que fossem esquecidos esses terríveis acontecimentos – a menos que fosse devido à euforia pela vitória esmagadora sobre o fascismo –, os soldados desmobilizados da II Guerra Mundial foram beneficiados pelo famoso GI Bill, que lhes garantiu acesso gratuito aos estudos, empréstimos imobiliários e um seguro de vida com juros razoáveis.

Já os veteranos do Vietnã, de volta ao país, rapidamente compreenderam que o mesmo governo que os jogara numa guerra imoral e inconseqüente, deixando-os traumatizados física e psicologicamente, só pensava em esquecê-los do modo mais rápido possível. Os Estados Unidos espalharam, em várias regiões do Vietnã, o famoso “agente laranja”, um pesticida que provocou centenas de milhares de mortes entre a população vietnamita, assim como cânceres e deformações entre os bebês.

Inúmeros soldados norte-americanos também foram expostos e dezenas de milhares deles, preocupados com doenças que os acometeram e problemas de má-formação em seus bebês recém-nascidos, procuraram ajuda junto ao Departamento de ex-Combatentes. Mas o governo negou qualquer responsabilidade. No entanto, foi aberto um processo contra a Dow Chemical, que produzia aquele desfolhante químico, que terminou num acordo amigável no valor de 180 milhões de dólares. Como cada família recebeu mil dólares, é possível supor que mais de cem mil famílias tenham entrado com a ação judicial devido aos efeitos sofridos com o “agente laranja”.

Herança amarga da guerra

Os que voltam cegos ou inválidos percebem que o governo Bush está cortando orçamentos destinados a ex-combatentes

Se, por um lado, o governo gasta centenas de bilhões de dólares com a guerra, por outro, não dispõe de dinheiro para ajudar os veteranos do Vietnã que vivem na rua, que apodrecem nos hospitais militares, que sofrem perturbações psicológicas e se suicidam em proporções assustadoras... É essa a herança amarga da guerra.

Após a guerra do Golfo de 1991, o governo norte-americano vangloriava-se de que, enquanto do lado iraquiano o número de vítimas fora de quase 100 mil, as vítimas do lado norte-americano haviam sido de apenas 148 soldados. O que o governo não revelou à opinião pública foi que 200 mil veteranos entraram com ações na justiça devido a doenças ou ferimentos adquiridos em conseqüência dessa guerra. Durante os doze anos que se seguiram, 8.300 ex-combatentes morreram e o Departamento de ex-Combatentes recebeu – e aceitou – 160 mil ações reivindicatórias por invalidez.

A traição aos soldados e ex-combatentes prossegue com a chamada “guerra ao terrorismo”. As promessas de que os libertadores norte-americanos seriam recebidos com flores se evaporaram e soldados são diariamente assassinados pela guerrilha iraquiana, o que significa claramente que eles não são bem-vindos ao Iraque. Num artigo publicado no final do mês de julho de 2003 pelo Christian Science Monitor, um oficial da 3ª divisão de Infantaria lotado no Iraque declarava: “Falando francamente, o moral da maioria dos soldados que encontrei estava muito baixo”.

E os que voltam vivos, mas cegos ou inválidos, percebem que o governo Bush está cortando os orçamentos destinados a ex-combatentes. Embora siga agradecendo aos que estão servindo no Iraque, Bush continua, em seu discurso sobre o estado da União, a omitir o número dos que voltaram gravemente feridos dessa guerra cada vez mais impopular.

Para não esquecer

O que nos pedem hoje os veteranos que voltam dessa guerra é que as pessoas não esqueçam

A visita-relâmpago que o presidente fez ao Iraque por ocasião do Dia de Ação de Graças, e que a imprensa transmitiu com tanta generosidade, foi interpretada de maneira bastante distinta por uma enfermeira militar da base de Landstuhl, na Alemanha, para onde são encaminhados os feridos. Eis o que ela diz: “Minha ‘ação de graças presidencial’ foi um pouco diferente. Eu a passei num hospital para dar assistência a um jovem tenente de West Point ferido no Iraque. [...] Quando ele apertava os olhos com seus punhos, balançando a cabeça para trás e para a frente, parecia um garotinho. Todos os meus dezenove feridos de hoje parecem garotinhos, mas perderam uma perna, um braço, a visão e até coisas mais graves. [...] Realmente, foi uma pena que Bush não pudesse convidar-nos para a festa. [...] Os rapazes concordam comigo, mas vocês jamais irão ler isso nos jornais.”

Quanto a Jeremy Feldbush, que ficou cego nessa guerra, Blairsville, uma velha cidade mineira de 3.600 habitantes, festejou sua volta e o prefeito o cumprimentou. Lembrou-me o protagonista do livro Johnny got his gun, de Dalton Trumbo1 , um soldado cego e sem as duas pernas. Estendido em sua maca, sem conseguir falar ou ouvir, ele relembra a festa organizada em sua cidade por ocasião de sua partida para a guerra e de todos os belos discursos sobre a honra de combater em defesa da liberdade e da democracia.

Quando, finalmente, consegue uma forma de se comunicar em código Morse por meio de movimentos com a cabeça, ele pede às autoridades que o levem a todas as salas das escolas do país para mostrar às crianças a realidade da guerra. Mas as autoridades não respondem. “Naquele instante terrível, ele compreendeu tudo. Elas só queriam uma coisa: esquecê-lo.”

De certa maneira, o livro de Trumbo nos pedia – como fazem hoje os veteranos que voltam dessa guerra – que as pessoas não esqueçam.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Dalton Trumbo, Johnny s’en va-t-en guerre (edição francesa), ed. Actes Sud, Arles, 2004. Publicado anteriormente por Editions Solin, Paris, 1987, e Editions du Seuil, Paris, 1993.




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