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IRAQUE

A redescoberta do nacionalismo

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Os iraquianos deixam em segundo plano suas diferenças étnicas e religiosas e se unem para combater os invasores americanos

Juan Cole - (01/05/2004)

Desacreditado, quando ainda detinha o poder o Partido Ba’ath apregoava um nacionalismo local e regional

Há um ano, o nacionalismo iraquiano e o pan-arabismo eram dados como mortos. O Partido Ba’ath tinha grande responsabilidade neste descrédito. Quando detinha o poder, apregoava um nacionalismo “local” e “regional”: glorificava o papel civilizador do Iraque através da história, reivindicando a herança de Hamurabi e Nabucodonosor. Bagdá pretendia tomar do Cairo a função de principal defensor dos interesses do mundo árabe. Mas o caráter odioso do poder do Ba’ath levou inúmeros iraquianos a se afastarem desse nacionalismo de propaganda.

Símbolos do pan-arabismo, os palestinos refugiados no Iraque passaram a ser vistos com desconfiança e ressentimento após a destituição do presidente Saddam Hussein. Os meios de comunicação pan-árabes, como a TV Al-Jazira, foram muitas vezes acusados por políticos iraquianos de terem sido demasiado compreensivos para com a ditadura. Também criticavam a Liga Árabe, na qual prevalecem os interesses sunitas, por ter oficialmente manifestado sua preocupação com a ascensão do poder dos xiitas e dos curdos no Iraque.

Entre os xiitas, o radicalismo religioso parecia se dever mais ao aiatolá iraniano Khomeini do que a pensadores iraquianos. E o principal chefe espiritual xiita, o grande aiatolá Ali Sistani, também é iraniano. Quanto aos árabes sunitas, eles eram receptivos às correntes do nacionalismo árabe e aos movimentos mais radicais de origem jordaniana.

Fogo na palha

No sul, ataque a líder xiita provoca uma insurreição de grandes proporções em várias cidades

No entanto, na primavera de 2004, as insurreições em Falluja, principal reduto dos sunitas, e em toda a região Sul, dominada pelos xiitas, demonstram como a invasão fez ressurgir um nacionalismo que transcende as divisões confessionais. O assassinato do xeque Ahmed Yassin, dirigente do Hamas, por Israel, no dia 22 de março, foi o estopim para o levante em Falluja. Para se vingar, um grupo de moradores adotou seu nome e matou quatro seguranças particulares norte-americanos, ex-mergulhadores da Marinha, e uma multidão profanou seus cadáveres. Os fuzileiros navais revidaram, investindo contra a cidade, decretando o estado de sítio e lançando um bombardeio maciço – o que acarreta inúmeras mortes de civis. Transmitidas pelas emissoras de televisão Al-Jazira e Al-Arabiya, que têm correspondentes in loco, as imagens brutais do cerco de Falluja provocaram indignação através do Iraque e no mundo muçulmano.

O renascimento do movimento salafista1 em Falluja desenvolveu-se devido ao comércio nas estradas que levam à Jordânia, já que a cidade era uma etapa rumo a Bagdá. A versão rigorosa do islamismo político sunita, que se propaga nas pequenas cidades da Jordânia, como Maan e Zarqa (da qual é natural o célebre terrorista Abu Musab Al Zarqawi), também se estende do lado ocidental do Iraque. Já perto de seu fim, o Partido Ba’ath suspendeu algumas restrições que pesavam contra os movimentos religiosos, atualmente considerados como aliados potenciais contra os Estados Unidos.

Paralelamente, a “coalizão” decidiu atacar um dirigente xiita radical de 30 anos de idade, Muqtada al-Sadr – cujos sentimentos anti-americanos já haviam sido atiçados pelo jornal Al-Hawzah, após o assassinato do xeque Yassin. No dia 3 de abril, as autoridades fecharam o jornal e emitiram mandados de prisão contra 28 de seus colaboradores. Persuadido de que os norte-americanos o queriam prender, Al-Sadr desencadeia uma insurreição em Kufa, Nadjaf, Bagdá, Nasiriya, Kut e Basra, cidades em que seus seguidores formaram milícias.

As diferenças com o Irã

Apesar das divergências entre sunitas e xiitas, surgiu uma solidariedade entre as duas comunidades

Embora possa aspirar a uma república islâmica nos moldes da iraniana, Al-Sadr também invoca o patriotismo iraquiano. Queixa-se amargamente da hegemonia iraniana sobre os xiitas de seu país. Sua posição entra em contradição com as pretensões do guia da revolução iraniana, aiatolá Ali Khamenei, que se considera a autoridade suprema, jurídica e espiritual, dos xiitas do mundo inteiro. No Iraque, o movimento foi fundado por seu pai, Sadiq al-Sadr, assassinado pelo Partido Ba’ath em 1999. Seu crime foi ter organizado clandestinamente, nos barracos de favelas em que o Ba’ath tinha dificuldade de acesso, as orações de sexta-feira, as quais o tirano proibira aos xiitas.

Seus sermões criticavam Israel e os Estados Unidos e incitavam as tribos xiitas das regiões rurais a abandonarem seus costumes tribais e a optarem pela tradição escrita de sua religião. Seu movimento era puritano e teocrático. Tinha por objetivo criar, no Iraque, uma república islâmica do tipo khomeinista. Chegou a disputar a liderança espiritual dos xiitas iraquianos com o aiatolá Ali Sistani. Este, em compensação, teve uma atuação muito discreta durante a ditadura, defendendo a posição de que o clero se devia manter alheio aos assuntos de Estado.

Apesar das tradicionais divergências entre sunitas salafistas e xiitas sadristas, surgiu uma solidariedade entre as duas comunidades, à base de nacionalismo iraquiano e pan-islamismo, diante da presença da “coalizão”. Em Bagdá, por exemplo, uma antiga rivalidade opunha o bairro xiita de Kazimiyah ao bairro vizinho, sunita, Azamiyah, mais rico. Ora, eles conseguiram pôr de lado essa inimizade para organizar um comboio humanitário de 60 caminhões, que partiu para Falluja no dia 8 de abril acompanhado por uma multidão agitando cartazes com as fotos do xeque Yassin e de Muqtada al-Sadr. Os fuzileiros navais norte-americanos foram forçados a deixá-los passar.

Unidos contra os invasores

O povo iraquiano forjou uma identidade nacional forte durante o século recém-terminado

Composto por sunitas radicais e dirigido por Abdul Al-Kubaisi, o Conselho do Clero Muçulmano conseguiu algum prestígio nas negociações que patrocinou entre os sitiados de Falluja e as autoridades norte-americanas. Também publicou um comunicado, no dia 17 de abril, apoiando Muqtada al-Sadr e convocando os iraquianos a “expulsar os invasores”. Mohammad Ayyash al-Kubaisi, representante do Conselho no exterior, declarou à emissora Al-Arabiya que os iraquianos engajados na luta contra as tropas invasoras – inclusive Muqtada al-Sadr – não se deixariam dividir.

Esses exemplos levam a pensar que, apesar de uma certa permeabilidade em relação às correntes religiosas e políticas provenientes dos países vizinhos, o povo iraquiano forjou uma identidade nacional forte durante o século recém-terminado. Para as diversas componentes confessionais do país, a identidade religiosa não vem antes do sentimento nacional.

É lógico que os partidos políticos xiitas, como Al-Daawa, foram perseguidos pelo presidente Saddam Hussein e muitos de seus militantes tiveram que se refugiar no Irã ou na Grã-Bretanha. Porém, durante as décadas de 80 e 90, a seção iraniana de Al-Daawa rachou: de um lado, ficaram os nacionalistas, preocupados em manter a independência do partido; e do outro, os partidários do clero, defendendo a subordinação do partido ao aiatolá Khomeini.

O nacionalismo se impõe

A Grande Rebelião de 1920, contra a ocupação britânica, foi a primeira insurreição nacional da história do moderno Iraque

De uma maneira geral, os nacionalistas saíram vitoriosos. Na década de 90, Al-Daawa contribuiu com os esforços de Ahmad Chalabi no sentido de criar uma aliança entre os partidos iraquianos no exílio. Mas rompeu com o Congresso Nacional Iraquiano sobre a questão da semi-autonomia dos curdos. Na realidade, Al-Daawa continua defendendo a idéia de um Estado central forte, composto por sunitas, xiitas e curdos. Seu dirigente Ibrahim Jaafari desempenhou um papel importante no início de abril, quando viajou a Teerã para viabilizar uma mediação do governo de Khatami entre Muqtada al-Sadr e os Estados Unidos. A tentativa fracassou, mas Jaafari saiu prestigiado.

Os observadores que atribuíam aos iraquianos uma consciência nacional frágil e viam o país como naturalmente dividido entre uma região Sul, árabe e xiita, uma região Centro, árabe e sunita, e uma região Norte, curda, deixaram de perceber inúmeros indícios de uma identidade nacional permanente e tenaz.

Ainda no dia 18 de abril de 2003, apenas alguns dias após o fim da ditadura, o jornal Al-Hayat, publicado em Londres, divulgou uma entrevista com Mohammad Rida Sistani, filho do grande aiatolá. Ele declarava que seu pai “se opõe a qualquer potência estrangeira que queira dominar o Iraque” e apelava para a unidade de todos os muçulmanos – sunitas e xiitas. Lembrava que seu pai condenava os ataques xiitas contra mesquitas sunitas, considerando-os pecados, e contribuíra com donativos para sua reconstrução. Para o aiatolá Sistani, “o Iraque pertence aos iraquianos. Cabe a eles governar o Iraque e eles não pretendem fazê-lo sob a proteção de uma potência estrangeira”. Concluía lembrando que no início do século passado os clérigos tinham por costume ir para a frente da batalha, ao lado de seus filhos, para resistir à invasão britânica. Trata-se de uma alusão à Grande Rebelião de 1920, primeira insurreição nacional da história do moderno Iraque e que, conduzida por dirigentes e clérigos xiitas, mobilizou outros setores da população.

Apelos à união

Paradoxalmente, a rivalidade que existe entre os diferentes grupos também pode constituir um cimento político

Embora a preocupação do aiatolá com a estabilidade o tenha levado a moderar suas opiniões, nem por isso ele deixou de criticar a ocupação, procurando a unidade nacional. Uma pessoa que o visitou em fevereiro de 2004 descreveu sua posição da seguinte maneira: “Ele pensa que as divergências entre xiitas e sunitas são muito menos importantes do que o perigo que atualmente ameaça a nação iraquiana... Neste momento, o mais importante é a unidade. ‘Dividir o povo é um ato de traição’, diz ele. ‘Rendo minhas homenagens a todas vossas tribos e ao clero sunita. Diga-lhes que Sistani beija suas mãos e lhes implora que se unam a todos os outros iraquianos – xiitas, curdos, cristãos ou turcomenos. Uni-vos e contem comigo para enfrentar os norte-americanos...’.”

Embora sendo um dirigente xiita, Ali Sistani também se reúne com políticos curdos e sunitas, avaliando que dessa maneira contribui para o interesse da nação. Pouco intervém em assuntos políticos, mas sempre que manifestou sua oposição aos Estados Unidos, foi ele que saiu vitorioso: conseguiu que a Constituição definitiva seja redigida exclusivamente por parlamentares eleitos pelo sufrágio universal e que o legítimo governo do Iraque resulte de uma eleição, o que pôs por terra o projeto norte-americano de uma pseudo-votação na primavera de 2004.

Paradoxalmente, a rivalidade que existe entre os diferentes grupos também pode constituir um cimento político. Kirkuk, a cidade petroleira do Norte, está em ebulição permanente. Sua população, de pouco menos de um milhão de pessoas, divide-se, em partes iguais, entre curdos, turcomenos e árabes. Tradicionalmente, a maioria era turcomena – que também se dividia em xiitas e sunitas. Os curdos vieram atraídos pelos empregos que o petróleo gerava. A ditadura expulsou boa parte deles, substituindo-os por árabes, transportados das regiões Centro e Sul, inclusive xiitas.

Feitiço contra feiticeiro

O nacionalismo não se constrói apenas a partir da unidade da nação, mas também através de seus conflitos internos

Quando, em agosto de 2003, explodiu um conflito entre turcomenos xiitas e curdos sunitas pelo controle de um lugar santo num vilarejo próximo a Kirkuk, os xiitas árabes de Nadjaf enviaram emissários para conter os xiitas turcomenos. Muqtada al-Sadr “condenou qualquer tentativa de isolar o Norte do resto do país” e criticou a limpeza étnica que vinha ocorrendo – os curdos voltavam em massa para a cidade com o objetivo de recuperar suas casas, ocupadas pelos árabes. Embora Al-Sadr articulasse uma solidariedade entre as facções xiitas, também aproveitou a presença xiita em todo o Iraque para aumentar sua influência no cenário nacional.

A tensão entre os grupos étnicos voltaria a se agravar em Kirkuk nos meses de dezembro de 2003 e janeiro de 2004 devido a um projeto de incorporar a cidade a um cantão curdo, semi-autônomo. A resposta de Al-Sadr foi organizar um desfile de 2 mil combatentes de sua milícia, o exército do Mahdi, em apoio aos 300 mil moradores turcomenos em greve. Não surpreende, portanto, que Muqtada al-Sadr tenha conseguido tal apoio entre os turcomenos do norte do Iraque.

O nacionalismo não se constrói exclusivamente a partir da unidade da nação, mas também através de seus conflitos internos, de suas lutas e dos compromissos assumidos. O nacionalismo iraquiano pós-ba’athista destaca-se pelos temas pan-islâmicos, devido ao papel de poder devolvido aos partidos religiosos. Tanto um sunita radical como o xeque Ahmed Yassin (atualmente, um “mártir” para seus seguidores), quanto um xiita radical como Muqtada al-Sadr (que corre o risco de conhecer o mesmo destino), são, para inúmeros iraquianos, símbolos da resistência à ocupação de terras árabes por tropas estrangeiras, sejam estas israelenses, norte-americanas ou britânicas.

Washington imaginava, com sua presença no Iraque, um exercício de nation-building. A grande ironia é que esse projeto pode até ser bem-sucedido, cristalizando-se em torno do objetivo de expulsar os Estados Unidos. A outra grande ironia é que, desde o dia, ainda no século XIX, em que o sultão otomano Abdulhamid II e o reformador Sayyid Jamal Al-Din Al-Afghani lançaram o projeto do Pan-Islamismo – ou seja, a aliança entre sunitas e xiitas contra o imperialismo europeu –, este sempre fracassou. Parece bastante provável que a hiperpotência norte-americana esteja em vias de conseguir fazê-lo passar do sonho à realidade.

(Trad.: Jô Amado)

1 - N.T.: Salafiya foi o nome de um movimento reformista que, no final do século XIX, pregava a volta à doutrina original (salafiya = retorno ao antecedente) e à reconciliação entre a ciência e a fé. Trata-se de uma corrente de idéias associada ao renascimento cultural (al-nahda) do mundo árabe.




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