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“Este povo deve conseguir, querer ser bem sucedido em alguma coisa de impossível! Contra o Destino, contra a História, contra a Natureza...” `La tragédie du Roi Christophe`. Aimé Césaire.

Aminata D. Traore - (01/05/2004)

A resistência à ordem e ao consenso dos ricos impôs-se a mim, mulher negra e africana, como um compromisso moral, intelectual, mas também físico, de todos os momentos, em diferentes frentes. A razão é a antigüidade do ato de agressão e de privação, a amplitude e a gravidade dos prejuízos que são materiais, mas sobretudo culturais e morais.

Durante a colonização, estávamos perfeitamente conscientes desse status de “sub-homens”, atribuído por nossos ex-patrões. Da humilhação e das injustiças nasceram a resistência e as lutas de libertação nacional. Se reconquistamos nossos territórios e a soberania política, deixamos de lutar por nossa humanidade e nossa dignidade. Daí essas feridas invisíveis que tanto nos fragilizam.

Uma vez que a violação do imaginário é uma constante nas relações com nossos ex-patrões, nosso direito de diagnosticar, de ler e interpretar nossa própria história, a fim de ter clareza e viver condignamente, também ele nos é recusado.

Farsa eleitoral

Uma vez que a violação do imaginário é uma constante nas relações com nossos ex-patrões, nosso direito de diagnosticar e interpretar nossa própria história, também ele nos é recusado

É desta forma que, por meio das instituições internacionais financeiras e comerciais, nossos ex-patrões continuam a pensar e a decidir por nosso povo, como no passado, com a diferença de que agora não temos mais a latitude e a legitimidade para questioná-los e condená-los, já que reivindicamos ser independentes.

O voto que deveria corrigir tantas injustiças e aberrações tornou-se uma farsa eleitoral, que por vezes vira drama. Só tiram proveito disso os eleitos, motivados pelo controle dos bens públicos e das instituições, com o objetivo de se enriquecerem com total impunidade. Os povos infelizmente ainda não tomaram consciência de sua instrumentalização do exterior pelos controladores do sistema, e internamente, por seus próprios governantes, que estão a serviço dos primeiros.

As potências ocidentais os desaconselham a questionar, e com mais razão ainda a fazerem objeções a essas mesmas reformas estruturais que, nos próprios países deles, são o verdadeiro centro da política. O Ocidente gostaria que a África brilhe lá onde ele, a despeito da antigüidade de sua democracia e de sua imensa fortuna, é incapaz de garantir emprego decente, fonte de renda, tratamento de saúde a esperança para suas próprias populações.

Os “experts” em África

Por meio das instituições internacionais financeiras e comerciais, nossos ex-patrões continuam a pensar e a decidir por nosso povo, como no passado

Por nossa parte, nós nos atolamos ainda mais facilmente, na medida em que o sistema dispõe de todo um exército de “experts” e de “especialistas” dos quais a África é o ganha-pão. Acrescentam o insulto ao desprezo, quando negam a violência política, econômica e simbólica em nossas relações com os poderosos deste mundo.

A respeito de Ruanda, Boubacar Boris Diop revolta-se contra esse negativismo: “O africano que se interessa pela genocídio ruandês vê constantemente os outros lhe darem um espelho com o pretexto de convidá-lo a enfrentar seus demônios” 1.

A reescritura da história africana por Stephen Smith, em Négrologie. Pourquoi l’Afrique Meurt2 (Negrologia. Por que a África está morrendo), é uma das mais perfeitas ilustrações disso.

A todos aqueles que, africanos e não-africanos, consideram que o campo das possibilidades é imenso e que das devastações e dos horrores dos tempos passados e presentes nascerá, necessariamente, um mundo melhor, dentro do qual uma outra África, esse autor responde que “o presente não tem futuro no continente...”. Trata-se, especifica ele, da África “negra”, “vítima de si mesma”, “ventre mole”, “terra de massacres e de fome endêmica, morredouro de todas as esperanças”.

Enquanto falso especialista da África, ele homenageia o Mali: “... para um Mali de Alpha Oumar Konaré, depois de Amadou Toumani Touré, para alguns eleitos em meios tons, como John Kufour (Gana), Abdoulaye Wade (Senegal) ou Olusegun Obansanjo (Nigéria), quantos Pascal Lissouba (Congo), Frederick Chiluba (Zâmbia) e Ange-Félix Patassé (República Centro-Africana)?”

Jogo de Trapaças

Nós nos atolamos ainda mais facilmente, na medida em que o sistema dispõe de todo um exército de “experts” e de “especialistas” dos quais a África é o ganha-pão

É o tipo de julgamento que nos distrai e nos divide na África, na construção de uma consciência social e política competente. Cabe aos povos da África, e só a eles, julgar o mérito de seus dirigentes. Os povos malinês, senegalês, congolês, centro-africano estão no mesmo ponto, ou seja, numa situação em que alternância política não rima com alternativas econômicas credíveis. Bem ou mal eleitos, nossos governantes interiorizaram tão bem a idéia de nosso “retardo”, que concluem que reformas provenientes dos países ricos só podem nos fazer bem. Aceitam o papel de executores e de guardiães dos interesses das empresas multinacionais.

Só nos resta mobilizarmo-nos contra a abertura para a economia mundial, quando esta se torna camisa de força e jogo de trapaças. Também Anne-Cécile Robert espera da opinião pública do Norte a mesma mobilização contra as políticas implantadas na África “em nome dela, sem a menor transparência, e até com a maior indiferença” 3.

Inovar na resistência

Bem ou mal eleitos, nossos governantes interiorizaram tão bem a idéia de nosso “retardo”, que concluem que reformas provenientes dos países ricos só podem nos fazer bem

A resistência, que se torna uma tarefa estimulante quando as lutas se globalizam, exige, para ter credibilidade, ações concretas e inovadoras, sobretudo na África, em que os povos estão não só exasperados, mas desiludidos por “uma luta contra a pobreza” que consiste em consolidar as reformas que empobrecem. Dessa forma, tentei dar uma base local a minha busca de alternativas por meio de diferentes iniciativas cidadãs, dentre as quais “O eu, os vizinhos, o bairro”. Trata-se de um esforço de reconstrução do elo social por meio do saneamento e da reabilitação das infra-estruturas de base. Em dois anos, o bairro onde moro, Missira, tornou-se uma mina de informações quanto às coações e aos limites da democracia representativa no local em que o dinheiro é rei e as normas são ditadas por Washington, Paris, Bruxelas ou Genebra.

Como ir mais longe e mais depressa no nível local, articulando as experiências inovadoras de transformação social com a educação econômica e política, de uma massa crítica de cidadãos e de cidadãs cientes da ligação entre a globalização liberal e o desemprego, a pobreza monetária, as violências e a emigração?

Pois no dia em que as populações africanas, no caso os jovens (em razão de seu peso demográfico e político), as mulheres (que ocupam as brechas abertas pelo sistema), souberem mais sobre a natureza, as engrenagens e o que está em jogo na globalização liberal, elas se recuperarão e organizarão a resistência sob outras formas que não a violência armada e o exílio.

(Trad. Regina Salgado Campos)

1 - “Les intellectuels africains et le génocide des Tutsi du Rwanda”, Le Quotidien, Dakar, 6 de abril de 2004.
2 - Calmann-Lévy, Paris, 2003.
3 - L’Afrique au secours de l’Occident, L’Atelier, Paris, 2004.




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