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O crime da esterilização forçada

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O maior crime da administração Fujimori continua sem grande repercussão e sem punição dos responsáveis: uma política eugenística que provocou a esterilização forçada de mais de 300 mil mulheres, evidentemente pobres e indígenas

Françoise Barthélemy - (01/06/2004)

Mulheres que iam ao ambulatório para controlar a saúde dos filhos eram trancadas. Sob o pretexto de vaciná-las, eram conduzidas à sala de cirurgia

Hayllacocha. Uma comunidade indígena situada nos pampas de Laguna, a cerca de cinqüenta quilômetros de Cuzco. Terras do altiplano andino que o camponês trabalha segurando, à mão, a lâmina do arado puxado por um touro. Numa das cabanas cobertas de palha, voltando da chacra – a chácara onde cultiva trigo, milho e batata – encontra-se uma mulher corajosa, com as mãos deformadas pela artrite: Hilaria Supa Huamán.

Em 1991, Hilaria estava entre as fundadoras da Federação Camponesa das Mulheres de Anta, uma província de cerca de 80 mil habitantes, em sua maioria, rurais. Três anos mais tarde, ela se tornaria secretária-geral e foi nessa condição que participou, em 1995, da IV Conferência da Mulher, em Pequim. Na oportunidade, discutiu com o presidente Alberto Fujimori: “Ele começou a falar de um programa de saúde, de planejamento familiar, que queria lançar. Eu respondi: ‘Tudo bem, desde que os maridos e as mulheres decidam em conjunto.’ ‘Claro que sim’, respondeu ele.”

Alguns meses depois, bastante pressionada pela enfermeira do vilarejo e sem ter recebido informações detalhadas, Hilaria foi submetida a uma cirurgia na região abdominal da qual se recuperou com dificuldade: “Eles te insultam e dizem: ‘Quer parir filhotes que nem os porcos? Teu marido vai ficar com raiva se você não fizer nada!’ Depois, dizem que você logo ficará boa. Não é verdade. Externamente, a cicatriz sara rapidamente, mas internamente, não, porque nosso trabalho é muito duro”. Não foi só ela a sofrer as seqüelas. Uma amiga, mãe de família e moradora em Mollepata, confessou-lhe que se sentia “muito fraca”. Também ela passara por uma ligação das trompas.

Choque terrível

Foi nessa época que notícias preocupantes começaram a surgir de várias comunidades – Mollepata, Limatambo, Ancahuasi... Mulheres que iam ao ambulatório para controlar a saúde dos filhos eram trancadas, às vezes em número de dez ou vinte. Sob o pretexto de vaciná-las, eram conduzidas à sala de cirurgia, onde eram anestesiadas. Uma a uma, saíam do lugar ainda atordoadas. Mais tarde, compreenderiam – sob um choque terrível – que tinham sido esterilizadas, que jamais poderiam voltar a ter filhos.

Entre 1995 e 2000, 331.600 mulheres foram esterilizadas, enquanto 25.590 homens haviam sido submetidos a uma vasectomia

Juntamente com outras mulheres, Hilaria Supa decidiu denunciar o caso publicamente, o que lhe valeu ser afastada da direção da Federação Camponesa. Segundo as mulheres operadas, as represálias foram armadas pelo ginecologista Washington Ortiz – que permanece no cargo até hoje –, o qual tentou persuadi-las a voltarem atrás em sua ação judicial. Mas o movimento de protesto se alastrou: “Nossos representantes, tanto em termos da comunidade, quanto da região, denunciaram a prática de esterilizações forçadas”, lembra Rosas Beltrán, prefeito da cidade de Anta e dirigente da Rede de Municípios Rurais do Peru. “Com a ajuda da Defensoria do Povo de Cuzco, organizamos uma resistência e uma ajuda às vítimas."

"Relatório final"

No dia 8 de setembro de 2001, menos de um ano depois que Alberto Fujimori, deposto pelo Parlamento, fugisse e se refugiasse no Japão, o ministro da Saúde, Luis Solari, criou uma Comissão Especial para apurar as atividades do programa de Anticoncepção Cirúrgica Voluntária (ACV). Quatro pessoas foram encarregadas de conduzir a pesquisa: o doutor Juan Súccar, presidente da comissão, a doutora Maita García Trovato, presidente da Associação Nacional dos Médicos Católicos do Peru, a antropóloga Esperanza Reyes e Hilaria Supa Huamán.

Naquele mesmo mês de setembro, o Congresso designou uma comissão parlamentar para avaliar as “irregularidades” ocorridas no âmbito do programa ACV durante o governo de Fujimori. À frente da comissão estava Hector Chávez Chuchón, deputado pela Unidade Popular (UP, conservadora) e presidente da Federação dos Médicos da região de Ayacucho, Andahuaylas e Huancavelica.

Em julho de 2002, as pessoas indicadas pelo Ministério da Saúde tornaram público um “Relatório Final” de 137 páginas, onde se constata que, entre 1995 e 2000, 331.600 mulheres foram esterilizadas, enquanto 25.590 homens haviam sido submetidos a uma vasectomia. “Essas pessoas foram envolvidas”, destaca o relatório, “seja por meio de pressões, de chantagem ou de ameaças, seja por meio da oferta de alimentos, sem que fossem devidamente informadas, o que as impediu de tomarem uma decisão com real conhecimento de causa.”

Os responsáveis

Tudo isto foi realizado em nome de um plano de saúde pública cujo verdadeiro objetivo era o de diminuir o número de nascimentos nos setores mais pobres do Peru

Tudo isto foi realizado em nome de um plano de saúde pública cujo verdadeiro objetivo era o de diminuir o número de nascimentos nos setores mais pobres do Peru. Em outras palavras, fundamentalmente a população indígena das regiões deserdadas: a sierra andina, a selva amazônica e as favelas da periferia de Lima.

Embora muitos documentos oficiais tenham sido destruídos, sobravam 56 deles que estabeleciam os fatos e revelavam os responsáveis. Em primeiro lugar, o ex-presidente da República, Alberto Fujimori, que era mensalmente informado sobre o número de intervenções realizadas, principalmente pelos assessores dos ex-ministros da Saúde Eduardo Yong Motta (1994-1996), Marino Costa Bauer (1996-1999) e Alejandro Aguinaga (1999-2000).

Assim que o Relatório foi divulgado, foi desencadeada uma polêmica em torno dos números (“absurdos”, na opinião de pessoas que sabem da existência de 200 ou 300 casos em que as cirurgias não deram certo) e dos objetivos pretendidos. Aguinaga defende com veemência um plano que, em sua opinião, permitiu que centenas de milhares de casais evitassem uma gravidez não desejada, assim como permitiu reduzir “ostensivamente” – o que é óbvio! – a taxa de mortalidade de mães e filhos.

Sem punições

Entrevistado pelo jornal La Republica de 25 de julho de 2002, Costa Bauer apóia-se numa pesquisa realizada por uma agência norte-americana entre 1996 e 2000 para afirmar que “90% das mulheres em idade fértil ficaram inteiramente satisfeitas com os métodos de planejamento familiar com que foram beneficiadas”. Mas, na mesma página do jornal, há um depoimento de uma mãe de família, Ligia Ríos. Ela explica como os membros do Instituto Peruano de Previdência Social infernizaram sua vida até que aceitasse se deixar esterilizar. A partir de então, passou a ter surtos de febre, sangramentos e dores abdominais que a obrigaram a parar de trabalhar.

Depois que o Relatório do Ministério da Saúde foi encaminhado ao Congresso, em 23 de julho de 2002, os deputados decidiram acusar Fujimori, assim como os três ex-ministros da Saúde, por “genocídio” e “crimes contra a humanidade”. Um ano depois, na mesma data, a Comissão de Direitos Humanos do Congresso, presidida pela deputada Dora Nuñez (FIM, Frente Independente Moralizadora) retomou os autos de acusação e solicitou um inquérito que seria confiado ao procurador-geral da nação. A comissão permanente do poder legislativo recusou esse procedimento. De comissão em comissão, os debates vão se atolando...

Durante esse período, de Tóquio, onde fixou residência depois que o governo lhe concedeu nacionalidade japonesa – colocando-o a salvo de uma hipotética extradição – o principal acusado revida: não, ele não procedeu a esterilizações forçadas. Pelo contrário: pela primeira vez na história do país, as peruanas tiveram a possibilidade de optar por uma maternidade responsável!

História abafada

Aquilo que aparecia, como “objetivos a atingir” por parte do governo, em matéria de esterilizações, transformou-se rapidamente em “metas a cumprir”, para cada profissional

No entanto, há vários anos que pesquisadores reconhecidamente sérios, peruanos e de outras nacionalidades, vêm buscando estabelecer a verdade. Em nome da Comissão da América Latina pela Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem/Peru), a advogada e socióloga Giulia Tamayo recolheu depoimentos de uma centena de mulheres em Lima, Cuzco, Loreto, Piura e San Martín. Publicadas em 22 de junho de 1998 pelo principal jornal da capital, El Commercio, suas conclusões revelaram práticas abusivas, sem consentimento prévio, complicações pós-operatórias e vários tipos de excessos. Mortes causadas por negligência, condições precárias de higiene, pessoal despreparado, pacientes debilitadas (tuberculose, desnutrição) e até uma gravidez não revelada.

Um ano mais tarde, esses dados foram incluídos num livro de grande repercussão, associado a um vídeo, i (Nada pessoal). Este contém uma revelação dramática: aquilo que aparecia, inicialmente, como “objetivos a atingir” por parte do governo, em matéria de esterilizações, transformou-se rapidamente em “metas a cumprir”, de maneira obrigatória, para cada profissional e cada estabelecimento de saúde. O bom desempenho significava recompensas. O ruim, punições. Nada personal evoca uma política de Estado friamente concebida, o que implicaria em ameaças e intimidações a seu autor.

As autoridades peruanas da época nunca admitiram a existência das metas a cumprir citadas. No entanto, o que não pode ser negado é o número – e, principalmente, o aumento vertiginoso – das intervenções do programa ACV: de 81.762 ligações de trompas em 1996, passou-se a 109.689 em 1997. Um “pico”. No ano seguinte registrou-se uma queda significativa: 25.995. De qualquer maneira, tanto no Peru como em outros países, o silêncio foi total. “Tentam abafar essa história”, pensa Hilaria Supa antes de voltar ao campo para trabalhar. “Mas nós não vamos deixar barato. Porque muitas mulheres estão mal de saúde. Porque muita gente foi enganada. E porque nenhum dos principais responsáveis foi punido”.

Exigência do FMI

“Cidade Branca”, construída a 2.300 metros de altitude nos Andes ocidentais, na região de Arequipa, a irreverente, com sua longa tradição de lutas sociais, assumiu uma posição de enfrentar o regime de Fujimori. Ex-reitor da Universidade, Juan Manuel Guillén foi eleito prefeito da cidade até 2003. Acompanhou os veementes protestos, por parte da população de Arequipa, que obrigaram o atual presidente, Alejandro Toledo, a desistir da privatização duas empresas de energia elétrica. “Em minha opinião, existe uma íntima relação entre a política neoliberal imposta ao Peru pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial e o projeto de planejamento familiar armado por Fujimori”, diz ele. “Em troca de empréstimos e de uma renegociação da dívida, o FMI exigiu as privatizações – inclusive no setor da saúde – e a abertura ao capital estrangeiro, assim como um controle do crescimento demográfico. Os setores pobres, e principalmente os muito pobres, potencialmente “perigosos”, são os mais visados. Isso viola os direitos individuais, os direitos da família e, de maneira mais ampla, os princípios éticos sobre os quais deveria se basear a sociedade.”

Em 28 de julho de 1995, o famoso plano em questão foi apresentado como o Programa de Saúde Reprodutiva e de Planejamento Familiar. Dali em diante, o Estado permitiria às famílias de baixa renda e com pouca instrução que tenham acesso aos diversos métodos de planejamento familiar de que usufruem as classes de alta renda, declarou, então, Fujimori, antes de concluir com uma observação audaciosa: “Nós fomos e seremos um governo pragmático, sem tabus, nem ‘vacas sagradas’. As mulheres peruanas devem ser donas de seu destino!”

Financiamento norte-americano

“Não vamos deixar barato. Porque muitas mulheres estão mal de saúde. Porque muita gente foi enganada. E porque nenhum dos principais responsáveis foi punido”

E quem financiaria esses projetos? O Tesouro público, mas não sozinho, evidentemente. A Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid) seria a primeira fonte de assistência técnica e financeira, contribuindo com uma parcela de 36 milhões de dólares, sete vezes superior à do segundo doador, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Na realidade, se a Usaid recebeu o apoio do Congresso norte-americano – com maioria republicana e tradicionalmente hostil aos programas de controle de natalidade – foi porque, na época, suas prioridades eram outras e se centravam nas questões internas, principalmente na luta contra a política do presidente William Clinton. Também foi notável a contribuição, de cerca de dois milhões de dólares, da Nippon Zaidan (Fundação Japão), cuja presidente, Ayako Sono, seria atualmente a principal protetora de Fujimori em Tóquio.

Diversas organizações não governamentais recebem dinheiro, tais como a norte-americana Pathfinder ou a organização feminista peruana Manuela Ramos. Estas, que em companhia das militantes da organização Flora Tristán vêm lutando pela causa das mulheres desde a década de 70, não escondem seu entusiasmo diante da ocasião tão esperada de atacar as posições “retrógradas” da Igreja católica ligada, através de alguns de seus membros, à Opus Dei.

A ambigüidade das feministas

Na verdade, a hierarquia da Igreja assumiu de imediato uma guerra contra a decisão de promover o controle de natalidade por vias “artificiais”, assim como de introduzir nas escolas disciplinas de educação sexual. Mais tarde, quando foram avisadas sobre as esterilizações forçadas, as ONG feministas perceberam um perigo considerável: os setores conservadores iriam se aproveitar para pôr fim ao programa de planejamento. Embora condenando alguns “erros” no varejo, seria necessário, portanto, apoiar a estratégia governamental incentivada pelas grandes agências internacionais. Contradições e ambigüidades...

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As feministas, embora condenando alguns “erros” no varejo, seria necessário, portanto, apoiar a estratégia governamental incentivada pelas grandes agências internacionais

Apesar de seu auto-golpe de Estado de 5 de abril de 1992 – dissolução do Congresso e submissão do poder judiciário –, apesar do “Fujichoque” – adoção de medidas ultra-liberais apresentadas como um ajuste necessário –, Alberto Fujimori foi reeleito, em 1995, com 64% dos votos, glorificado pela vitória contra o terrorismo do Sendeiro Luminoso. “Foi aí que ele começou a tomar decisões radicais sobre esse assunto tabu que é o controle de natalidade”, diz Raul Wiener, cientista político e coordenador do movimento de oposição à Área de Livre Comércio Latino-americana (Alca). “Como bom matemático, Fujimori tem a paixão pelos números. Reduzir o número de nascimentos por mulher, para reduzir a pobreza, faz parte da matemática. Vale qualquer coisa para que esse cálculo dê certo, inclusive os métodos mais brutais.”

“Festivais de ligação de trompas”

No dia 9 de setembro de 1995, Fujimori apresentou ao Legislativo um projeto de lei modificando a “Lei geral da população” para permitir o recurso à esterilização. No mesmo mês, o Congresso aprovou um texto que legitima o uso desse método, assim como outros anticoncepcionais: injeções, pílulas, diafragmas, preservativos etc. Ponto importante: a esterilização seria gratuita. Daí decorreu um zelo frenético, com a participação de todos os ministérios – comandados pelo Ministério da Promoção da Mulher e do Desenvolvimento Humano (então, recentemente criado) –, das forças armadas e da polícia.

Para os médicos, contratados por períodos renováveis de, no máximo, três meses, a opção da objeção de consciência não era permitida. Foram organizados “Festivais de ligação de trompas” (sic) no campo e nos pueblos jóvenes (favelas). Eram dias de jogos, dança, concertos, teatro, marionetes, fogos de artifício, esporte, lautas refeições e passagem gratuita pelo dentista e pelo cabeleireiro. Cartazes ilustrados mostravam famílias “modernas” (com poucos filhos) e “atrasadas” (uma penca de crianças, de quatro). Outros exibiam anúncios em espanhol: “Gratis: ligadura de trompas y vasectomia”. Ao final do dia, os médicos vindos das cidades tinham cumprido sua tarefa. Mas, o que teriam aqueles camponeses e suas mulheres, que só falavam quíchua e em sua maioria eram analfabetos, compreendido das informações que lhes eram dadas e das “cartas de consentimento” que os obrigavam a assinar?

“As médicas, as enfermeiras e as atendentes conversavam com as camponesas no ambulatório local, ganhavam sua simpatia e lhes ofereciam óleo, trigo, açúcar e arroz”, conta D. W., de 35 anos, guia turístico de Machu Picchu, formado na Universidade Central de San Antonio Abat, em Cuzco. “Tudo aquilo coincidia com a criação de programas de assistência alimentar pelo Estado e a realização de obras de infra-estrutura nos rincões mais isolados. Vestindo um poncho, descendo do helicóptero e filmado pelas emissoras de televisão, Fujimori vinha pessoalmente inaugurar as obras. Chamavam-no o “Chino Bueno’.”

A revelação do abuso

“Como bom matemático, Fujimori tem a paixão pelos números. Reduzir o número de nascimentos por mulher, para reduzir a pobreza, faz parte da matemática”

Tal contexto evidencia, sem dúvida – pelo menos, parcialmente – a prudência assumida por jornais sérios, como La Republica ou El Commercio. Principalmente porque, no exterior, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não poupava elogios ao “sucesso” que vinha obtendo o Peru na questão do planejamento familiar. Seriam confiáveis, ou teriam fundamento, as acusações que se ouviam internamente, originárias da Igreja católica, contra eventuais “abusos”?

Foi só no segundo semestre de 1996 que uma jornalista de El Commercio, Julia Maria Urrunaga, se interessou em saber o que vinha se passando nas províncias mais distantes. Ela ouvira uma história triste, que ocorrera em Tocache, um vilarejo da floresta amazônica. Dirigiu-se ao local para ouvir como uma jovem mãe de família morrera. Após ter sido esterilizada, no hospital, mandaram-na de volta para casa numa moto-táxi: vinte minutos numa estrada de terra, sacudida pelos buracos. Surgiu uma infecção que a matou.

“Fui até a casa dela”, contou Julia. “Encontrei-me com vizinhas, que tremiam de medo. Tinham feito a mesma operação e enfrentavam a raiva de seus maridos, que só tinham um insulto para elas: ‘Putas!’ Vi dois filhos daquela mulher morta. A foto daquelas crianças abandonadas saiu na primeira página do jornal e a reportagem foi o marco que revelou o que vinha sendo escondid”. Sindicatos, grupos de mulheres, parlamentares de oposição, como Beatriz Merino (FIM), e militantes católicos começaram a se mobilizar. Mas a sociedade propriamente dita, predominantemente urbana, não se comoveu. “Atualmente, ainda menos, com os problemas sociais e a crise que enfrentam os peruanos. É aquela história do cada um por si, além de um profundo desencanto para com os dirigentes políticos.”

“Limpeza étnica”

Em Cuzco, esse “museu vivo” da civilização inca pendurado a mais de 3.400 metros de altitude na Cordilheira dos Andes, o doutor Ramón Figueroa era, em 1995, cirurgião no setor da saúde pública (salubrista). Também ocupou, por alguns meses, o cargo de diretor do hospital regional. Através da Federação dos Médicos, e juntamente com outros colegas, ele iria denunciar as campanhas de esterilização a partir de 1996, insistindo sobre seu caráter racista. “O clima estava tenso. Enfrentar de forma direta um governo autoritário e repressivo, com a rede de corrupção que ele alimentava, valeu-nos sérias ameaças”, declara esse homem de esquerda, hoje militante do Partido Democrático Descentralista (PDD). “Éramos apontados como ‘agentes da subversão’. Finalmente, e aos poucos, essa política desumana foi mais ou menos abandonada pelo governo, mas sem qualquer autocrítica.”

As médicas, as enfermeiras e as atendentes conversavam com as camponesas no ambulatório local, ganhavam sua simpatia e lhes ofereciam óleo, trigo, açúcar e arroz

De origem aimará, 43 anos, Fernando Robles Callomanay é prefeito de Ilave há dois anos – a segunda principal cidade da região de Puno. “O governo da época desencadeou uma autêntica ‘limpeza étnica’ visando à raça indígena, e não aos brancos ou mestiços”, diz ele. “As conseqüências afetaram vários aspectos da vida econômica e social, em especial a demografia”. Os nascimentos diminuíram muito, as escolas e os colégios se esvaziaram. Alguns centros escolares terão que se fundir e outros irão desaparecer por falta de alunos. Além disso, a maioria das camponesas que passaram por aquela operação vem padecendo de diversos tipos de problema – doenças, depressão. “Elas são mal-vistas em sua comunidade. Quanto aos homens que passaram por uma vasectomia, são chamados ‘os castrados’.”

Reações tardias

Nos Estados Unidos, algumas reações de indignação – embora tardias – se fizeram ouvir, principalmente depois que o Population Research Institute (PRI) enviou ao Peru seu representante, David Morrison, acompanhado por uma equipe de cinegrafistas. Realizada no final de 1998, a reportagem provocou, junto ao Congresso norte-americano, suficiente interesse para que fossem organizadas audiências públicas, às quais as vítimas compareciam para depor. Simultaneamente, em Lima, a Defensoría Del Pueblo coletava um número crescente de queixas e acusações.

Tudo isso levou o Congresso norte-americano a rever a ajuda destinada aos Programas de Planejamento Familiar. No dia 22 de outubro de 1998, foi aprovada a Emenda Tihart, dispondo sobre o uso dos fundos da Usaid concedidos ao Peru, assim como a outros países. Ou os governos beneficiários aceitavam condições inegociáveis, ou não receberiam mais verbas. Advertências louváveis, no que se refere ao respeito pelos direitos humanos... Porém, após uma segunda missão, enviada em dezembro de 1999 às províncias de Ayacucho e Huánuco, o mesmo David Morrison demonstrou que as manobras de coerção, a informação precária, as ameaças e os trambiques persistiam. E denunciou: “O fato é que a Usaid não parou de enviar dinheiro ao governo peruano. Um financiamento que agora passou a ser ilegal.”

Reviravolta conservadora

Os nascimentos diminuíram muito, as escolas e os colégios se esvaziaram. Alguns centros escolares terão que se fundir e outros irão desaparecer por falta de alunos

Daí em diante, as normas aplicadas à esterilização passaram a ser estritamente revistas e corrigidas. Como, aliás, toda a política envolvendo o controle de natalidade. As correntes reacionárias ganharam peso dentro da Igreja e passaram a influenciar o curso da vida política. O deputado Luis Solari, atual nº 2 do partido Peru Posible, do presidente Alejandro Toledo, é médico, formado pela Universidade San Marcos. Membro do Departamento de Defesa da Vida, da Assembléia Episcopal Peruana, ele se define como um “homem de fé”. Quando se tornou ministro da Saúde, em 2001, tomou a iniciativa de criar a comissão especial que, um ano depois, publicaria o espetacular Relatório Final sobre as esterilizações forçadas.

“Ao fazê-lo, ele revogou as medidas anteriores – principalmente as que colocavam a liberdade da mulher no centro da questão – e impôs suas próprias concepções conservadoras”, avalia Roxana Vasquez, advogada da comissão Cladem/Peru e diretora da ONG Estudo para a Defesa dos Direitos da Mulher (Demus). “Mas qual é nossa preocupação principal? Que os direitos das mulheres sejam garantidos! Tomemos o caso do aborto, que é proibido e passível de processo judicial. Uma mulher de classe média pode fazê-lo sem riscos. Mas as que morrem – mais de 350 mil por ano – são as que recorreram ao uso de agulhas, e são as pobres. Luis Solari e seu sucessor no Ministério da Saúde, Fernando Carbone, sempre se opuseram, e continuam se opondo, ao uso de meios anticoncepcionais”. Embora o atual ministro, Álvaro Vidal, pareça ter um espírito mais aberto, nada está garantido. As reformas esperadas caminham em marcha lenta, como demonstra a Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR).

Indiferença generalizada

A maioria das camponesas que passaram por aquela operação vem padecendo de diversos tipos de problema – doenças, depressão e são mal-vistas em sua comunidade

A CVR procurou resumir e analisar as causas da violência política durante os últimos 20 anos. O conflito, segundo seu Relatório Final, divulgado em 28 de agosto de 2003, revelou “enormes fraturas sociais que existiram, e persistem, dentro da sociedade peruana”, assim como “o vínculo entre uma situação de pobreza e de exclusão e a probabilidade de ser vítima da violência”. Como as vítimas são basicamente camponeses de língua quíchua que moram nas regiões mais pobres, são consideradas pessoas “insignificantes” e cujo destino não interessa ao resto do país.

“Essa tragédia tem vários pontos análogos à das mulheres esterilizadas à força”, concluiu Salomón Lerner Febres, reitor da Universidade Católica do Peru e presidente da CVR. “No entanto, em relação a elas, a situação é difícil. Em minha opinião, nessa história terrível, a ideologia arrasou com tudo. A teimosia das feministas, a precipitação com que a Opus Dei se quer apropriar da questão, o cinismo dos dirigentes políticos que se apóiam na ignorância e na indiferença generalizadas... Em minha Universidade, iremos fundar um Instituto dos Direitos Humanos e da Democracia. E retomaremos o tema das esterilizações maciças.”

Um crime - e que provocou muito pouca repercussão...

(Trad.: Jô Amado)




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