Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Bolívia: não despreze a resistência

» O adereço de Guedes e o sentido do governo

» O Chile Rebelde quer ir além

» É possível pensar o Brasil após o neoliberalismo?

» América Latina: Povo sem pernas, mas que caminha

» Cinema: Entre a cruz e o maracatu rural

» Atingida por barragem e acossada pelos poderosos

» Como o Google favorece a manipulação política

» Por um novo Pacto das Catacumbas

» Chantagem do governo aos desempregados

Rede Social


Edição francesa


» La figure imposée du dernier poilu

» Les dossiers enterrés de Tchernobyl

» Une femme à la barre de l'Argentine

» La Chine au miroir de l'Occident

» « Choc des civilisations », à l'origine d'un concept

» Les Allemands de l'Est saisis par l'Ostalgie

» A Berlin, le face-à-face des intellectuels de l'Est et de l'Ouest

» Réveil politique à l'Est

» Les Allemands de l'Est, sinistrés de l'unification

» Le difficile chemin de la démocratie espagnole


Edição em inglês


» The fall of liberal triumphalism

» Sarah Seo on Americans, their cars and the law

» November: the longer view

» Ibrahim Warde on the rise and fall of Abraaj

» Fighting ISIS: why soft power still matters

» Life as a company troll

» The imperial magazine

» Setting Socrates against Confucius

» Price of freedom on the road

» Global business of bytes


Edição portuguesa


» Golpe de Estado contra Evo Morales

» Será que a esquerda boliviana produziu os seus coveiros?

» A era dos golpes de Estado discretos

» Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019

» Sempre uma coisa defronte da outra

» OTAN: até quando?

» Alojamento local-global: especulação imobiliária e desalojamento

» Rumo a uma governança participativa da vida nocturna de Lisboa


ISRAEL

O “politicídio” dos palestinos

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

O desejo da sociedade israelense, tanto à esquerda como à direita, de anexar o centro histórico do judaísmo na Cisjordânia, mas não seus moradores árabes, aumentou as contradições existenciais de Israel e é o que explica a derrota de Sharon no referendo interno do Likud

Baruch Kimmerling - (01/06/2004)

O “sionismo romântico revisionista”, ancestral histórico do Likud. Os sionistas revisionistas queriam um estado judeu nas fronteiras do grande Israel (aí incluída a atual Jordânia)

Os problemas políticos do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon começaram, há anos, quando um movimento popular surgiu em Israel exigindo que um muro de separação fosse construído em torno dos principais centros urbanos. Seus defensores esperavam que ele impediria a entrada dos kamikazes em Israel. Os colonos e a maior parte dos israelenses da direita dura opuseram-se a isso por diversas razões: havia o risco de que ele criasse uma fronteira implícita entre Israel e a Palestina, e deixasse vários assentamentos fora dos seus limites; ele poderia também significar o fim da ideologia do “Grande Israel”. Eis por que a maioria do Parlamento, do comitê central do Likud e mesmo do gabinete de Sharon se opôs a esse projeto. Já os defensores do muro – que está sendo construído desde a primavera de 2002 – partiam não de motivações ideológicas, mas da constatação de que o exército não conseguia impedir os atentados suicidas. Mas o primeiro-ministro rapidamente percebeu as vantagens que poderia tirar da separação e da desocupação, e integrou-os, portanto, a seu programa de esmagamento dos palestinos. Assim, para contornar a oposição, houve a realização de um referendo interno no Likud, procedimento esse sem precedentes na cultura política do país. Sharon achava que sua popularidade seria suficiente para convencer os eleitores. A manobra fracassou: em 2 de maio, cerca de 60% dos militantes que votaram rejeitaram o plano.

Abordagens sionistas distintas

Esse fosso entre Sharon e os seus nada tem de surpreendente. O general é oriundo do “sionismo trabalhista”, e não do “sionismo romântico revisionista”, ancestral histórico do Likud. Os sionistas revisionistas queriam um estado judeu nas fronteiras do grande Israel (aí incluída a atual Jordânia). Mas eles não definiam nem a maneira de chegar a isso nem o que seria correto fazer com os árabes do país e da região. Seu postulado: os judeus têm um direito histórico e incontestável sobre sua terra hereditária, direito que deve ser aplicado individualmente. Há três décadas, esse movimento messiânico secular, até então desvinculado da realidade política e social, encontrou aliados nos movimentos messiânicos nacionais e, mais tarde, nos meios religiosos ortodoxos.

Há três décadas, esse movimento messiânico secular, encontrou aliados nos movimentos messiânicos nacionais e, mais tarde, nos meios religiosos ortodoxos

Bem diferente era a abordagem do sionismo trabalhista da fundação de uma nação judia na Palestina. Ela invocava menos os direitos que os fatos progressivamente estabelecidos na região e dava mais importância às mudanças da relação de forças locais e internacionais entre judeus e árabes. A tática básica consistia em adquirir com dinheiro, e depois pelas armas, uma quantidade máxima de territórios que comportavam um mínimo de árabes. O sionismo trabalhista não estabelece um limite sagrado ou fixo, a quantidade de territórios sob controle judeu sempre foi variável, em função de uma combinação complexa que misturava considerações territoriais, demográficas, políticas e sociais. Essa atitude pragmática e sofisticada contribuiu muito para o incrível sucesso do projeto sionista, que parecia, no entanto, fadado ao fracasso. Se a distinção entre essas duas abordagens se confundiu ao longo das quatro últimas décadas, nem por isso deixou de ser menos essencial.

Boom econômico da ocupação

Desde a guerra de 1967, o Estado de Israel e sua sociedade experimentam uma crise que não pára de se aprofundar. Ela resulta de contradições internas provocadas pela absorção progressiva dos territórios ocupados e de sua população. Isso produziu um boom econômico sem precedentes e aumentou a mobilidade social, ao mesmo tempo que dissimulava a crise e a ampliava. A abertura das fronteiras da Cisjordânia e da faixa de Gaza, com efeito, inundou o mercado de trabalho israelense com uma mão-de-obra pouco onerosa e abriu o mercado palestino – e, indiretamente, árabe – para os produtos israelenses, sem falar da colonização. Essa prosperidade dependia, no entanto, da cooperação dos palestinos dos territórios ocupados e, sobretudo, de sua disposição em aceitar que Israel os integrasse economicamente, mas excluindo-os por completo das outras esferas. De fato, uma geração de palestinos aceitou essas regras coloniais, desfrutando de uma relativa prosperidade econômica, mas sofrendo uma privação completa dos direitos humanos e cívicos elementares – contra a qual começaram a se revoltar, sobretudo a partir de 1973. Evidentemente, eles não tinham direito nem à autodeterminação nem ao uso dos símbolos coletivos, nem mesmo ao exercício de uma identidade étnica ou nacional. Viciadas nessa situação assimétrica, as duas sociedades desenvolveram-se em interdependência. E a maioria dos israelenses e palestinos, tendo crescido nessa situação anormal, a consideram normal e acham difícil imaginar outras formas de relacionamento.

O centro histórico do judaísmo

O sionismo trabalhista invocava menos os direitos que os fatos estabelecidos na região e dava mais importância às mudanças da relação de forças locais e internacionais

Foi necessário que acontecesse a primeira Intifada palestina, que começou em 9 de dezembro de 1987, para sacudir esse sistema, que foi completamente abalado com a segunda. Os acordos de Oslo perpetuaram, no entanto, essa situação econômica, ao mesmo tempo em que acalmavam a população palestina, à qual concederam uma promessa de autodeterminação. Desde a primeira sublevação, Israel tinha adotado sua política econômica israelense, recorrendo a trabalhadores imigrados. Independentemente do seu interesse econômico pelos territórios palestinos, Israel viu-se confrontado, depois da guerra de 1967, com uma outra complicação: o desejo da sociedade, tanto à esquerda como à direita, de anexar o centro histórico do judaísmo na Cisjordânia, mas não seus moradores árabes. Ora, em caso de anexação formal, não haveria mais maioria judia. Mesmo se os palestinos não obtivessem uma cidadania plena, a evolução demográfica seria suficiente para destruir a identidade judia do próprio Estado. Diante desse desafio maior, os israelenses não conseguiram tomar as decisões políticas necessárias para a solução do conflito, assim como para a reconstrução econômica, a educação, a qualidade de vida, as relações entre a sinagoga e o Estado, a democratização e a desmilitarização da sociedade. Com o tempo, a crise tornou-se mais explícita, os interesses contraditórios coincidiram cada vez mais com os partidos políticos e integraram-se com as identidades individuais e coletivas.

A questão demográfica

Em 1977, quando o bloco nacionalista de direita dirigido pelo Likud chegou ao poder, esperava-se que anexasse imediatamente a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, consideradas parte integrante da terra de Israel, como seu programa sempre professara. Fora aliás por essa razão que o general Sharon, depois de ter deixado o exército em 1973, tinha levado certos partidos de centro e de direita a se unir em torno do chefe do herdeiro do sionismo revisionista, Menahem Begin. Mas, com exceção das colinas de Golan, na Síria, conquistadas em dezembro de 1981, os outros territórios não foram anexados.

A guerra de 1967 produziu um boom econômico sem precedentes, ao inundar o mercado de trabalho israelense com uma mão-de-obra pouco onerosa e abrir o mercado palestino

Essa mudança de direção está ligada ao crescimento demográfico muito rápido da população árabe dos territórios ocupados. Acrescentada aos cidadãos árabes de Israel, esta transformaria imediatamente o Estado judeu em uma entidade binacional, mesmo que a população anexada não desfrutasse da plena cidadania, do direito de voto ou do acesso aos programas de assistência social. Apesar da onda de imigração sem precedentes que o Estado de Israel experimentou nos últimos anos – com mais de um milhão de habitantes, judeus e não-judeus da ex-União Soviética –, o equilíbrio demográfico permanece frágil: cerca de 5 milhões de judeus (e não-árabes) e 4,5 milhões de palestinos (cidadãos e não cidadãos). As projeções demográficas atuais indicam que, em 2020, 15,1 milhões de pessoas viverão nessa terra, entre as quais os judeus serão minoria, com um total de 6,5 milhões.

Angústias existenciais

Duas angústias existenciais estão enraizadas o mais profundamente possível na cultura israelense: a aniquilação psíquica do Estado, que serve de instrumento de manipulação emocional para muitas personalidades políticas e intelectuais; a perda da frágil maioria demográfica judia, percebida como o prelúdio da eliminação física do Estado judeu. Israel enfrenta dessa maneira dois imperativos contraditórios: a posse da “terra sagrada” impediria a preservação de uma maioria judia maciça nessa terra. Uma grande parte do eleitorado, proveniente das duas escolas sionistas,votou por duas vezes a favor de Sharon para que ele encontrasse uma solução adequada para essas contradições existenciais internas – e acabasse com a segunda Intifada. Este último de fato tinha sua “solução” para o problema palestino: o “politicídio”, um conceito que data da guerra de 1948. Trata-se de uma estratégia político-militar, diplomática e psicológica que tem por objetivo a dissolução do povo palestino como entidade econômica, social e política legítima e independente. Isso pode incluir – mas não necessariamente – sua progressiva limpeza étnica, parcial ou completa, do território conhecido pelo nome de terra de Israel, ou de Palestina histórica. O chamado “campo da paz” e mesmo Itzhak Rabin – no fim da vida – achavam possível resolver esse problema restituindo os territórios ocupados e preservando a unidade espacial e demográfica deles. Foi por isso que ele acabou sendo assassinado. Nas eleições que se seguiram, a maioria dos eleitores judeus rejeitou essa solução, considerada um desvio da abordagem sionista trabalhista. E o governo comandado por Sharon optou por uma inversão da abordagem de Oslo.

As etapas do politicídio

Uma geração de palestinos aceitou as regras coloniais, desfrutando uma relativa prosperidade econômica, mas sofrendo uma privação completa dos direitos humanos e cívicos elementares

A primeira fase do politicídio, a militar, começou em 29 de março de 2002, com a operação Escudo de Defesa, que visava desmembrar qualquer força de segurança palestina organizada, mas também e principalmente destruir as bases principais do regime de Yasser Arafat. Pelas mesmas razões, o exército destruiu sistematicamente a maior parte dos serviços de infra-estrutura, dos serviços públicos e dos ministérios, inclusive bancos de dados importantes como o Bureau Palestino de Estatística. As incursões e cercos das cidades, vilarejos e campos de refugiados palestinos – e as execuções extrajudiciais de militares e de dirigentes políticos de todas as tendências – obedecem a uma outra razão: demonstrar a força do exército israelense e sua capacidade de utilizá-la. Era preciso fazer com que os palestinos sentissem como eram vulneráveis e sem defesas, caso tentassem cometer uma agressão contra alguma entidade israelense. Tanto que os Estados árabes e a comunidade internacional manifestaram apenas formalmente seu interesse pelos palestinos. É de se perguntar se, sob o guarda-chuva de uma administração Bush impregnada de fundamentalismo cristão, Israel não passaria de uma extensão moral dos Estados Unidos. De qualquer forma, o país desfruta de apoio político e militar quase incondicional da única superpotência do mundo.

O pragmatismo de Sharon

O “politicídio”, é um conceito que data da guerra de 1948. Trata-se de uma estratégia político-militar, diplomática e psicológica que tem por objetivo a dissolução do povo palestino

Durante essa primeira etapa do politicídio, a popularidade de Sharon cresceu enormemente entre os judeus israelenses. Depois de ter destruído quase toda possibilidade de resistência palestina organizada, ele chegou à fase política de seu projeto, ou seja, o plano de desocupação. O velho general é pragmático. Ele sabe que as normas internacionais não lhe permitirão impor nem uma limpeza étnica em grande escala, nem a transformação da Jordânia em Estado palestino, sua proposta inicial. Foi por isso que ele deu início à construção do muro e, mais recentemente, anunciou o desmantelamento de todas as colônias judias da faixa de Gaza, assim como quatro pequenas outras, isoladas, da Cisjordânia. Em troca dessa retirada de 7.500 colonos da faixa de Gaza, ele pediu ao presidente George W. Bush – e ao Likud – o apoio à manutenção das principais colônias da Cisjordânia, que somam cerca de 95.000 – e mais Jerusalém-Leste. O primeiro-ministro não faz mistério de suas intenções. A aplicação do “Roteiro da Paz” proposto pelo Quarteto de Madri lhe permitirá criar na Cisjordânia um setor contíguo, separado de Israel e das colônias judias pelo muro em construção. O “Estado palestino” compreenderia quatro ou cinco enclaves em torno das cidades de Gaza, Jenin, Nablus e Hebron. E o plano destinado a ligar esses enclaves por túneis e pontes – de modo que os palestinos não passem pelos check-points – implica uma forte presença israelense na maior parte dos outros setores da Cisjordânia. Algo semelhante ao que acontece na faixa de Gaza, onde Israel, depois da desocupação, continuaria a controlar as fronteiras terrestres e marítimas, assim como o espaço aéreo. Em comparação, os bantustans parecem símbolos de liberdade, soberania e autodeterminação! Todas essas medidas foram concebidas por Sharon para quebrar a esperança dos palestinos, esmagar sua resistência, isolá-los, submetê-los às condições israelenses e, ao final, levá-los a deixar maciçamente a Palestina. Compatível com a abordagem pragmática do sionismo trabalhista, o plano do primeiro-ministro com certeza não está de acordo com a abordagem revisionista e o sonho messiânico religioso do Grande Israel. Daí o fracasso do referendo no seio do Likud. Mas a maioria dos cidadãos israelenses apóia o plano, e muitos, no estrangeiro, vêem nele um avanço rumo a uma resolução do conflito. O politicídio não está terminado.

(Trad.: Marcelo Valécio)




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Israel
» Palestina
» Ocupação da Palestina

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos