Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Rebelião em Londres: é o clima ou o sistema?

» A “inteligência caolha” da família Bolsonaro

» O crime de Guarapuava e as elites sem freios

» Boaventura: os EUA flertam com o direito názi

» Argentina: ainda bem que há eleições…

» O bispo que não vai para o céu

» Prisões brasileiras: relato de dentro do inferno

» Bernardet: “Tirei o corpo fora”

» Bernardet: “Tirei o corpo fora”

» Em Los Silencios, fuga para o não-lugar

Rede Social


Edição francesa


» La justice, pilier ou béquille de la démocratie ?

» La canicule, révélateur d'une santé malade

» La caution des scientifiques

» Dans l'enfer blanc de l'amiante

» Fiasco à La Haye

» L'immigration au miroir des échecs de la gauche

» « Faxer » ou périr, une culture de l'urgence

» Comment Sciences-Po et l'ENA deviennent des « business schools »

» Assimilation forcée dans le Xinjiang chinois

» Les riches entre philanthropie et repentance


Edição em inglês


» Mica mining, why watchdogs count

» LMD's New York debates

» Decriminalizing the drug war?

» April: the longer view

» Housing, rubbish, walls and failing infrastructure in East Jerusalem

» Mining profits go to foreign investors

» Combatting climate change: veganism or a Green New Deal?

» Berlin's fight for expropriation

» Afghanistan: the fighting continues

» The private world of swiping on screens


Edição portuguesa


» Edição de Abril de 2019

» A nossa informação, as vossas escolhas

» O cordão sanitário

» O caso do Novo Banco: nacionalizar ou internacionalizar?

» Edição de Março de 2019

» Sabe bem informar tão pouco

» O presidente e os pirómanos

» Edição de Fevereiro e 2019

» As propinas reproduzem as desigualdades

» Luta de classes em França


ORIENTE

Um exemplo para o Golfo

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

O Qatar, um país rico, pequeno e frágil se lança num projeto de desenvolvimento nacional, que inclui avanços democráticos e sociais

Pascal Boniface - (01/06/2004)

A emissora de TV Al-Jazira é provavelmente mais conhecida que o país em que ela foi criada, o Qatar

A emissora de televisão Al-Jazira1 é provavelmente mais conhecida que o país em que foi criada. O Qatar, pequeno emirado do Golfo Pérsico, povoado por 600 mil habitantes (dos quais apenas um terço nativo), não fazia até agora ninguém prestar atenção nele. Ele recebeu a cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) em novembro de 2001 – a escolha de Doha, sua capital, havia sido apresentada como motivada pela certeza de não ter milhares de altermundialistas se manifestando ali, como em Seattle.

O país serve também há pouco tempo como base para o Estado Maior norte-americano (Centcom) resposável pelas operações de guerra do Iraque. O Qatar ocupa ainda um lugar nas páginas esportivas das mídias ao receber jogadores de futebol renomados em fim de carreira, atraídos pelos salários tentadores. Tudo isso criado à imagem de um Estado de difícil acesso para os estrangeiros, onde se exerce à vontade o controle policial, de uma monarquia do Golfo Pérsico alinhada a Washington, cujos dirigentes gastam pequenas fortunas para saciar sua paixão esportiva.

Faríamos mal em nos determos nestes clichês. Um processo político não apenas de modernização, mas também de democratizaçào está em curso no Qatar. Desde sua chegada ao poder em 1995, o emir Cheikh Hamad Al-Thani2, depois de ter deposto seu pai sem violência, procedeu com uma abertura política progressiva. A censura foi suprimida. A criação da emissora Al-Jazira favoreceu um tom desconhecido no mundo árabe; uma total liberdade foi dada à emissora, com exceção, no entanto, de juízos sobre a política interna.

No triângulo perigoso

Acuado num triângulo extremamente perigoso– Arábia Saudita, Irã e Iraque –, o Qatar está à mercê de um só míssil contra ele

Uma Costituição, adotada em 2003 pelo referendum, prevê a criação de um Conselho Consultivo de 45 membros, do qual dois terços eleitos por sufrágio universal e os restantes designados pelo Emir. Ela inclui também a liberdade de associações, de culto e de independência do poder judiciário. Uma reforma do código penal está em curso, e deverá aproximá-lo das normas européias.A promoção da mulher é uma escolha pessoal do Emir e de sua esposa, que tem um papel discreto, mas efetivo. O país conta com uma ministra desde maio de 2003 e uma reitora de universidade.

A aproximação estratégica com os Estados Unidos, por mais real que seja, não é a escolha do coração, mas da razão, quiçá da coerção. O Qatar se vê como um país rico, pequeno e frágil. Acuado num triângulo extremamente perigoso para ele – Arábia Saudita, Irã e Iraque – o Qatar está à mercê de um só míssil atirado contra ele, que poderia dar um golpe fatal na economia e nos investimentos do emirado. Mesmo partilhando o wahhabismo com Riad, o emirado teme as ambições de seu poderoso vizinho e os dois países tiveram duros confrontos sobre as críticas da Al Jazira contra a monarquia saudita.

A queda do regime de Saddam Hussein alegrou os dirigentes qataris, que acham que ela diminuiu os perigos estratégicos, mas sabem que a partida não acabou: eles não estão persuadidos de que Washington a está quase ganhando. Em contrapartida, o Emir está convencido de que os Estados Unidos estarão lá por muito tempo e que, nestas circunstâncias, ele não tem outra escolha senão trabalhar com eles. Desde 11 de setembro de 2001, o Qatar trabalha para que a guerra contra o terrorismo seja tratada tanto em seus efeitos quanto em suas causas, especialmente a falta de resolução do conflito palestino-israelense, e as escolhas de Washington no Oriente Médio não lhe parecem nem objetivas nem eficazes.

Forte presença americana

A aproximação estratégica com os Estados Unidos não é a escolha do coração, mas da razão, quiçá da coerção

Os dirigentes do Qatar acreditam que têm necessidade dos Estados Unidos para sua segurança imediata e que não têm os meios de partir para uma prova de força com eles. Eles acham, além disso, que, no plano tecnológico e educativo, a contribuição norte-americana pode ser significativa e útil. Eles apreciam o modelo de sociedade de consumo norte-americana. Lamentam as trapalhadas estratégicas de Washington e estão conscientes de que sua opinião pública e do conjunto dos árabes e dos muçulmanos rejeitam o aspecto «rolo compressor» de sua política exterior.

Se o Qatar pedia uma presença militar norte-americana, bem antes da guerra do Iraque, é porque ela consituía uma garantia absoluta de segurança diante deste poderoso vizinho. Assim que os Estados Unidos quiseram reforçar suas posições no Golfo, diminuindo sua presença na Arábia Saudita, houve então um efeito de barganha e o emirado aceitou a instalação do Centcom. Apesar da francofilia do Emir (que tem relações pessoais muito estreitas com o presidente Chirac e vai freqüentemente a Paris em caráter privado) e francofonia do príncipe herdeiro, a impressão que prevalece é a de uma influência norte-americana no emirado.

A presença norte-americana não se limita aos aspectos militares e estratégicos. Ela comporta responsáveis políticos (o ex-presidente William Clinton participou de uma conferência em meados de janeiro), de homens de negócios (há dois anos, a razão entre os investimentos norte-americanos e franceses era de 1 para 1, e agora é de 5 para 1 em favor dos Estados Unidos), de universitários (quatro universidades norte-americanas estão preparadas e já instaladas num campus construído pela Fundação do Qatar) e consultores (a Rand abriu ali um escritório e trabalha por conta de ministérios), todos massivamente presentes. A França, que até aqui fornecia 80% dos equipamentos do exército, tenta resistir, enquanto o ativismo norte-americano coloca em questão as posições conquistadas.

Rico e frágil

A amplitude de suas riquezas e a fragilidade de sua população justificam as ambições do país

O Emir não quer certamente se fechar num corpo a corpo estratégico com Washington, e considera a aliança com a França como um contrapeso necessário, mesmo que a questão do véu tenha obscurecido a imagem de Paris. Em 2002, a França desembolsou um saldo excedente de mais de 628 milhões de euros. A Qatar Airways assinou, apesar das fortes pressões de Washington, um contrato de 5 bilhões e dólares com a Airbus para a compra do novo A 380. Mas o chefe da empresa européia não teve ainda tempo de ir a Doha3 . Além do que, com a redução do orçamento da Quai d’Orsay, a embaixada da França em Doha não tem assessor de imprensa. No país da Al-Jazira, isto pode parecer lamentável.

Por suas riquezas, o Qatar poderia servir de modelo social para o Golfo Pérsico, como o Japão constituía um modelo econômico para os países asiáticos. A amplitude de suas riquezas e a fragilidade de sua população justificam as ambições do país. Depois de uma queda em 2002, a renda do petróleo e do gás permitiu um crescimento de 7,5% para 2003. O PIB per capita ultrapassa 30 mil dólares por ano. O Qatar detém a terceira reserva de gás do mundo, depois da Rússia e do Irã, e dispõe de reservas para mais de 200 anos. Os pesados investimentos neste domínios já estão quase pagos.

Estas vantagens são colocadas a serviço de um projeto de desenvolvimento nacional. Seguro com a existência a longo prazo de reservas naturais, o país gostaria de se projetar no futuro. Os autocratas esclarecidos que dirigem o país são apegados aos benefícios da abertura e da democratização. Eles querem estar adiantados em relação à sociedade, para a fazer evoluir, mas sem riscos. O ponto negro social e humano permanece sendo a questão dos trabalhadores imigrantes. Eles, que representam dois terços da população, não têm nenhum direito sindical ou político, poucos direitos sociais e nenhuma perspectiva de integração.

Esporte e educação

Para o Sheik, é mais importante ser reconhecido no Comitê Olímpico Internacional que na ONU

O emirado possui importantes excedentes financeiros. Estes últimos vão evidentemente satisfazer as necessidades de consumo, mas serão igualmente colocados a serviço de uma maior visibilidade internacional do Qatar. É com esse objetivo que o país investe no esporte. Além do futebol, o país criou um torneio de tênis (é o primeiro torneio do ano e tem então uma boa visibilidade internacional) e uma volta ciclística em fevereiro, que aparece como a preparação ideal inclusive em termos climáticos antes das provas européias.

O Qatar chegou a ganhar uma medalha de ouro nos campeonatos mundiais de atletismo de Paris, em agosto de 2003 – na verdade graças a um ex-queniano, Stephen Cherono, que acabava de ser naturalizado e rebatizado Saif Shaeed Shaheen em troca de um salário perpétuo. O Qatar propôs até mesmo a nacionalidade qatari a jogadores de futebol que não tenham sido selecionados em seus países, a fim de classificar o emirado para a Copa do Mundo de 2006, mas a FIFA, Federação Internacional de Futebol, vetou o projeto4.

Tracy Edwards recebeu 55 milhões de euros para batizar seu barco de Qatar 2000. 40 milhões de euros foram injetados no campeonato de futebol em que Batistuta, Leboeuf, Effenberg e Guardiola ganham entre 100 mil e 200 mil euros por mês, sendo que Shaheen recebe mil euros por mês. Com os jogos asiáticos de 2006, o Qatar organizará o terceiro evento esportivo mundial, depois da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos – e será a primeira vez em que um país árabe irá receber um tal evento.

Segundo o Sheik Hamad Al Thani, "é mais importante ser reconhecido no Comitê Olímpico Internacional (COI) que na Organização das Nações Unidas. Todo mundo respeita as decisões do COI". Mas o verdadeiro projeto é fazer falar do país. Os jornais esportivos consagram inúmeras páginas ao Qatar ou falam dele. Al-Mulla, o diretor de comunicação, resume perfeitamente a filosofia de seus dirigentes: "O esporte é o meio mais rápido de enviar uma mensagem e de garantir a promoção de um país. Quando alguém diz ‘Oriente Médio’, você pensa imediatamente ‘terroristas’, não é verdade? Então, nossos dirigente querem que o Qatar tenha boa reputação5". Se o esporte é a parte mais visível da política do Qatar, o domínio mais importante é o ensino. A Qatar Foundation construiu uma cidade da educação, destinada a receber estudantes do país e do Golfo Pérsico: 250 milhões de dólares já foram gastos para construir este campus de alta qualidade. Enquanto as universidades norte-americanas já estão presentes, a França demora a responder aos chamados do Qatar. E, no entanto, é uma questão essencial.

(Trad.: Fabio de Castro)

1 - Ler David Hirst, "A televisão árabe que incomoda”, Le Monde diplomatique, agosto de 2000.
2 - Ler Françoise Sellier, “O Qatar na corte dos grandes”, Le Monde diplomatique, novembro de 1997.
3 - Challenges, Paris, 22 de janeiro de 2004.
4 - L’Equipe, Paris, 9 de março de 2004.
5 - Journal du Dimanche, Paris, 15 de fevereiro de 2004.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Alternativas Democráticas no Islã
» Resistências Institucionais ao Neoliberalismo
» Golfo Pérsico
» Mundo Árabe

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos