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ISRAEL

Viver com os árabes

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O sóciologo e historiador orientalista nos deixou em maio passado. Autodidata, Rodinson tornou-se um lingüista excepcional (dominava cerca de 30 línguas e dialetos) e escritor prolífico. Lutou principalmente para que fosse feita justiça ao povo palestino. Na véspera da eclosão da guerra de 1967, no Le Monde datado de 4-5 de junho, ele publicou um artigo premonitório, que aqui reproduzimos.

Maxime Rodinson - (01/07/2004)

n tenm

O Estado sionista escolheu viver na Palestina, ou seja, no meio do mundo árabe. A escolha era perigosa. Avisos não faltaram, vindos sobretudo da parte dos judeus não sionistas

No dia 9 de agosto de 1903, o conde Serge de Witte, ministro das finanças do czar Nicolau II, explicava candidamente ao jornalista vienense Theodor Herzl, que tinha vindo lhe demonstrar como a aplicação da doutrina do sionismo político (que ele acabara de fundar) devia ser sustentada pelo imperador ortodoxo: «Eu tinha o costume de dizer ao pobre imperador Alexandre III: "Se fosse possível, Majestade, afundar no mar Negro seis ou sete milhões de judeus, eu ficaria plenamente satisfeito com isso. Mas não é possível. Então, temos de deixá-los viver!"» Outros encontraram as possibilidades técnicas que faltavam aos anti-semitas russos. Mesmo isso, definitivamente, não lhes serviu de grande coisa. Talvez apesar de tudo haja algo a se tirar da resignação do barão russo. O Estado sionista escolheu viver na Palestina, ou seja, no meio do mundo árabe. A escolha era perigosa. Avisos não faltaram, vindos sobretudo da parte dos judeus não sionistas, e não sionisantes, que foram durante muito tempo a grande maioria. Mas no final esse grupo de judeus que projetou e depois realizou esse Estado manteve a escolha. Essa teve então o tempo de manifestar todas as suas conseqüências. Não é mais hora de voltar atrás. Mas toda árvore é julgada por seus frutos. A crise atual faz surgir um fato novo (não levando em conta o desenrolar dos acontecimentos). Israel, até então, tinha tido em relação ao mundo árabe uma linguagem simples e clara: «Estamos aqui porque somos os mais fortes. Vamos ficar aqui enquanto formos os mais fortes, quer vocês queiram, quer não. E seremos sempre os mais fortes graças a nossos amigos do mundo desenvolvido. Cabe a vocês tirar as conclusões, reconhecer sua derrota e sua fraqueza, aceitar-nos como somos, na terra que tomamos de vocês». Como responder a isso a não ser pela resignação ou pelo desafio?

A recusa árabe

A paz pode ser obtida pela resignação árabe. Mas essa resignação, quer seja comemorada, quer ser seja lamentada, não parece à vista. Os árabes não querem «ouvir a razão», ou seja, aceitar a derrota que lhes foi infligida, sem uma contrapartida, como a Irlanda terminou por aceitar (mas foi mesmo sem contrapartida?) a amputação do Ulster com base em uma colonização inglesa e protestante com três séculos de idade. Quem sabe eles a aceitem um dia. Os políticos israelenses estão livres para apostar que acreditam poder se manter até lá.

A crise atual só nos leva a pensar que os políticos israelenses começam a duvidar de sua capacidade de esperar tanto tempo e a suspeitar que os árabes não irão se conformar num futuro previsível.

É preciso, portanto, viver com os árabes, quer queira, quer não. E com árabes que não se conformam. Então, como fazer?

O que vemos então de fato? Enquanto os sionistas e seus partidários sempre declararam que a hostilidade em relação a Israel nos países árabes era um fenômeno artificial, espertamente atiçado pelos dirigentes, vemos os chefes árabes que mais têm a temer uma mobilização popular fornecerem armas a seus piores inimigos, vemos os rivais mais ferozes do presidente egípcio Nasser vir em seu socorro ou colocar-se sob suas ordens. É no entanto público e notório que o maior desejo desses rivais árabes seria aliar-se a Israel para estrangular o incômodo Egito. E a recíproca também é com freqüência verdadeira. Só que essa atitude é impossível para ambos. Eles só podem seguir suas tropas. Como explicar esse fato a não ser pelo ressentimento popular contra Israel?

Política mais anti-israelense

O que fazer então? Israel pode certamente continuar o diálogo sozinho, como diz R. Misrahi. Pode continuar a explicar ou fazer explicar por meio de seus amigos aos árabes que eles estão muito errados ao agir assim, apelar a seu senso de humanidade, estigmatizá-los como retrógados, fanáticos, anti-semitas, fascistas etc. Não parece que vinte anos de prática dessas exortações e dessas denúncias encorajem a esperar muito desse método.

Alguns, como o marxista-sionista árabe A. R. Abdel-Kader, único em sua espécie, ainda podem esperar uma revolução política ou social que levaria ao poder nos países árabes elementos dispostos a aceitar Israel. As revoluções que esses países conheceram na verdade trouxeram elementos cuja política era cada vez mais anti-israelense. Ou, se eles quisessem uma regulamentação, a pressão das reações, tornada possível apenas pela sensibilidade de sua opinião pública ao problema, rapidamente os levaria de volta ao anti-israelismo habitual. Todos são livres para sonhar ainda com uma revolução inédita que seria o milagre e a surpresa divina para Israel. Mas poucos realistas vão fazer isso. No ano passado, Abdel-Kader dedicou seu último livro a Mao Tsé-tung. Este mostrou-se mais radical no anti-israelismo que todos seus precursores. Irônica lição!

Como os árabes insistem obstinadamente em escolher o desafio, só resta a força. Mas, pela primeira vez, Israel parece duvidar de sua força. Pelo menos é o que seus amigos nos dão a entender.

Uma chance mínima

Tem que se abrir a negociação com os árabes, não na base da aceitação do fato consumado em detrimento deles, mas proclamando em princípio que se quer fazer justiça, reparar o mal que lhes foi feito

E além disso, suponhamos que o conflito venha a eclodir e que Israel seja vencedor. O que fazer com os árabes? Voltemos ao Comte de Witte. É possível afogá-los todos no mar Vermelho? Mantê-los sob administração direta israelense? Ainda mais impossível. Instalar em toda parte regimes pró-Israel? Ninguém duvida, e os israelenses menos que ninguém, que seriam regimes fantoches sacudidos por revoltas, presas de uma guerrilha incessante. Também nesse caso uma solução impraticável.

É preciso, portanto, viver com os árabes, quer queira, quer não. E com árabes que não se conformam. Então, como fazer?

Só há uma chance, ainda assim mínima, fora desse impasse em que se precipitaram os sionistas como os mercenários de Cartago no desfiladeiro de la Hache2. É de abrir a negociação para os árabes, não mais como tem sido feito há vinte anos na base da aceitação pura e simples do fato consumado em detrimento deles, mas proclamando em princípio que se quer fazer justiça a eles, reparar o mal que lhes foi feito. Esta é, penso eu, a única linguagem que teria alguma chance de ser aceita pela outra parte. A única linguagem que poderia talvez provocar no outro esse reconhecimento tão esperado do fato nacional israelense, agora adquirido pelos trabalhos e sofrimentos desses últimos decênios, e de forma alguma pela lembrança de um mito de vinte séculos.

Israel pode recusar uma concessão como essa, altamente declarada. O chauvinismo desenvolvido, infelizmente, numa grande parte de sua população pode indignar-se com uma tal «covardia» e não permitir aos dirigentes essa sabedoria. E além disso, Israel ainda pode ganhar essa disputa, sobretudo graças a seus poderosos protetores. Mas quem não vê que essa vitória não poderia se repetir indefinidamente? A emoção atual não é um sinal disso?

O caminho da vida

Estamos em 1967. Seria a hora de buscar o acordo dos árabes a quem essa terra foi tomada. Não dos árabes míticos, dos árabes desejados

Aos zelotas de Israel e a seus amigos, não podemos lembrar que os sionistas buscaram muito, de forma às vezes encarniçada, o consentimento das potências européias desde os tempos de Herzl? Eles pediram ao czar, ao sultão, ao papa, à Inglaterra. Sua instalação não seria feita, digam eles o que disserem, sem a declaração Balfour, ato político britânico, sem a decisão de partilha da ONU em 1947, ato político soviético-americano.

Estamos em 1967. Seria a hora de buscar o acordo dos árabes a quem essa terra foi tomada. Não dos árabes míticos, dos árabes desejados, dos árabes como os que se gostaria de ver convertidos milagrosamente às teses israelenses pelas exortações dos pró-sionistas do mundo, as lições dos professores de moral, a leitura do Antigo Testamento ou dos clássicos do marxismo-leninismo. Mas sim dos árabes tal como eles são, dos árabes que se recusam a aceitar sem contrapartida uma conquista realizada em detrimento deles. Pode-se lamentar que seja assim. Mas isso não passa de uma maneira de perder tempo.

Se há uma tradição da história judia, é a do suicídio coletivo. Permite-se aos estetas puros que admirem a beleza feroz dele. Talvez, como Jeremias, àqueles cuja política conduziu à destruição do primeiro templo, como Yohanan ben Zakkai, àqueles que causaram a ruína do terceiro, podemos lembrar que há uma outra via, que foi tornada tão estreita pela política passada? Podemos esperar que aqueles que se proclamam acima de tudo construtores e plantadores escolham essa via da vida?

(Trad.: Marcelo de Valécio e Frank de Oliveira)

1 - Entre seus livros destacam-se em especial Mahomet (Club Français du Livre, 1961, reed. Seuil), Islam et capitalisme (Seuil, 1966), Marxisme et monde musulman (Seuil, 1972), Les Arabes (PUF, 1979), La fascination de l’Islam (Maspero, 1980), Peuple juif ou problème juif? (Maspero, 1981), L’Islam: politique et croyance, Fayard, 1993) e Entre islam et Occident, entretiens avec Gérard D. Khoury (Les Belles Lettres, 1998).
2 - Revolta de mercenários na primeira Guerra Púnica, que acabaram exterminados por Amilcar quando se precipitaram neste desfiladeiro.




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