Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Dinheiro: o novo sonho de controle do Facebook

» Mulheres na política: uma nova onda a caminho

» Sertanejo, brasilidade e Nelson Pereira Santos

» A crise do Brexit e o capitalismo impotente

» Pilger: é hora de salvar o jornalismo

» Missão: extinguir o BNDES

» Etiópia: a eterna marcha da humanidade

» O direito ao sagrado dos povos do terreiro

» Como derrotar a “direita Trump-Bolsonaro”

» As pedras da contracultura (ainda) rolam

Rede Social


Edição francesa


» Quand la gauche renonçait au nom de l'Europe

» Un « New Deal » pour l'école

» La Chine bouscule l'ordre mondial

» L'affirmation homosexuelle

» Faut-il larguer la république ?

» Comment les apprentis sorciers ont aggravé le chaos au Proche-Orient

» Quarante ans de conflits et d'échecs nourris par les interventions occidentales

» Décentraliser l'éducation pour mieux la privatiser

» L'avenir du temps

» Ces Espagnols qui ont libéré Paris


Edição em inglês


» How US climate deniers are working with far-right racists to hijack Brexit for Big Oil

» Confessions of a map-maker

» The Spaniards who liberated Paris

» Fighting for communication control

» June: the longer view

» Niger, a migration crossroads

» Niger, a migration crossroads

» Whatever happened to Bob Woodward?

» Europe in space

» The Corbyn controversy


Edição portuguesa


» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto

» EUROPA: As CaUsas das Esquerdas

» Edição de Maio de 2019

» Os professores no muro europeu

» Chernobil mediático

» Edição de Abril de 2019

» A nossa informação, as vossas escolhas


EDITORIAL

Violência machista

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

A violência doméstica atinge, em escala planetária, um tal grau de brutalidade que deveria ser considerada uma violação importante dos direitos humanos, assim como um problema considerável de saúde pública

Ignacio Ramonet - (01/07/2004)

Nos 15 países que constituíam a União Européia morrem mais de 600 mulheres por ano – quase duas por dia! – vítimas da brutalidade machista em seu círculo familiar

Isto ocorre na Europa. A violência exercida contra a mulher por um parceiro íntimo do sexo masculino atinge proporções alucinantes. Em cada residência, a brutalidade tornou-se, para os europeus de 16 a 44 anos, a principal causa de invalidez e de mortalidade, superando, inclusive, os acidentes rodoviários e o câncer...

Conforme os países, de 25% a 50% das mulheres são vítimas de maus-tratos. Em Portugal, por exemplo, 52,8% das mulheres declaram ter sido objeto de violência por parte do marido, namorado ou amante. Na Alemanha, três mulheres são assassinadas a cada quatro dias por homens que viviam com elas, o que representa 300 por ano. Na Grã-Bretanha, uma mulher é assassinada, nas mesmas circunstâncias, a cada três dias. Na Espanha, uma a cada quatro dias, quase cem por ano. Na França, em decorrência de agressões masculinas no lar, morrem seis mulheres por mês – uma a cada cinco dias: um terço delas, apunhaladas; outro terço, assassinadas a tiros; 20% estranguladas e 10% espancadas até a morte1.... Considerando a totalidade dos 15 Estados da União Européia (antes da ampliação para 25), morrem mais de 600 mulheres por ano – quase duas por dia! – vítimas da brutalidade machista em seu círculo familiar2.

Flagelo mundial

Um relatório do Conselho Europeu afirma que “a incidência da violência doméstica até parece aumentar de acordo com a renda e o nível de instrução

O perfil do agressor nem sempre corresponde ao que poderíamos imaginar. Por deformação ideológica, há quem tenha tendência em associar essa atitude assassina a pessoas com pouca instrução, originárias das camadas desfavorecidas. É um equívoco. O drama da atriz Marie Trintignant, assassinada no dia 6 de agosto de 2003 por seu companheiro, um artista famoso, é prova disso. Um relatório do Conselho Europeu afirma que “a incidência da violência doméstica até parece aumentar de acordo com a renda e o nível de instrução”. E destaca que, na Holanda, “quase a metade dos autores de ações violentas para com as mulheres são graduados, com diploma universitário3”. Na França, segundo as estatísticas, os agressores são, majoritariamente, homens que, por força de sua formação profissional, dispõem de algum poder. Nota-se uma proporção bastante significativa de executivos (67%), de profissionais da saúde (25%) e de oficiais da polícia ou do exército4.

Outra idéia pré-concebida é a de que as ações de violência de gênero são mais freqüentes nos países “machistas” do Sul da Europa do que nos Estados nórdicos. Na realidade, a Romênia destaca-se como o país europeu em que a violência contra as mulheres é mais grave: para cada milhão de romenas, 12,62 delas são anualmente assassinadas por seus parceiros masculinos. Porém, nesse sinistro placar dos Estados em que mais se matam mulheres, situam-se, logo após a Romênia, países em que, paradoxalmente, os direitos das mulheres são mais respeitados, como a Finlândia onde, para cada milhão de finlandesas, 8,65 são trucidadas dentro de casa, seguida pela Noruega (6,58), pelo Luxemburgo (5,56), pela Dinamarca (5,42) e pela Suécia (4,59). A Itália, a Espanha, Portugal e a Irlanda ocupam os últimos lugares. A violência doméstica é um flagelo que existe em todos os países, em todos os continentes e em todos os grupos sociais, econômicos, religiosos e culturais.

Isto prova que a violência é o flagelo mundial melhor dividido, que ela existe em todos os países, em todos os continentes e em todos os grupos sociais, econômicos, religiosos e culturais. É verdade que acontecem casos de violência por parte da mulher em suas relações com homens; e não foi necessário ver as imagens da tortura praticada por soldados contra presos masculinos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, para saber que existem, infelizmente, torturadores do sexo feminino5. Também se poderia acrescentar que as relações homossexuais não são isentas de violência. Porém, na imensa maioria dos casos, as mulheres são as principais vítimas.

A política do foro privado

Essa violência – para a qual as organizações feministas vêm chamando a atenção dos governantes há muito tempo6 – atinge, em escala planetária, um tal grau de brutalidade que, atualmente, ela deve ser considerada uma violação importante dos direitos humanos, assim como um problema considerável de saúde pública.

O fato de que a violência ocorra na residência da vítima foi sempre um pretexto para que as autoridades lavassem as mãos, recusando ajuda a pessoas em perigo

Porque não existe apenas a violência física, por mais criminosa que seja: existem também a violência psicológica, as ameaças e intimidações e a brutalidade sexual. Em inúmeros casos, aliás, há um acúmulo de todas essas agressões.

O fato de que a violência ocorra na residência da vítima foi sempre um pretexto para que as autoridades lavassem as mãos e a considerassem “problemas de foro privado”. Tal atitude constitui uma recusa coletiva de ajuda a pessoas em perigo. Uma hipocrisia escandalosa. Todo mundo sabe que o privado também é político. E que esse tipo de violência é o reflexo das relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres. O que decorre, especialmente, do patriarcado, sistema baseado na idéia de uma “inferioridade natural” das mulheres e de uma “supremacia biológica” dos homens. É esse sistema que gera a violência. E que deve ser liquidado por meio de leis adequadas. Há quem argumente que isso leva tempo. Então, por que não começar imediatamente, instituindo, como muitas organizações feministas reivindicam, um tribunal internacional permanente para julgar a violência praticada contra as mulheres?

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler o Relatório Henrion, Ministério da Saúde, Paris, fevereiro de 2001. Ler também, de Elisabeth Kulakowska, “Brutalité sexiste dans le huis clos familial”, Le Monde diplomatique, julho de 2002.
2 - Ler os relatórios Mettre fin à la violence contre les femmes, un combat pour aujourd’hui, ed. Amnesty International, Londres, 2004; Les violences contre les femmes en France. Une enquête nationale, ed. La Documentation française, Paris, junho de 2002; e Rapport mondial sur la violence et la santé, em especial o capítulo 4, “La violence exercée par des partenaires intimes”, ed. Organização Mundial da Saúde, Genebra, 2002.
3 - Ler, de Olga Keltosova, Rapport à l’Assemblée parlementaire sur les violences domestiques, Conselho Europeu, Strasburgo, setembro de 2002.
4 - Rapport Henrion, op. Cit.
5 - Ler, de Gisèle Halimi, “Torturador, substantivo feminino”, Libération, Paris, 18 de junho de 2004.
6 - Ler, por exemplo, o texto “La violence envers les femmes: là où l’autre monde doit agir”, apresentado pela Marcha Mundial das Mulheres por ocasião do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em janeiro de 2002. Leia o texto, na íntegra, no site: http://www.marchemondiale.org/




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Direitos Humanos
» Saúde
» Violência Sexual
» Lutas contra o Patriarcalismo e o Machismo
» Feminismo

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos