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ESTADOS UNIDOS

As prudências de Kerry

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Crítico da incapacidade de Bush de internacionalizar o conflito no Iraque, que deixou os soldados norte-americanos vulneráveis, o candidato democrata não acha que houve exagero na guerra contra o terrorismo, mas sim que não foi feito “o suficiente”

Michael T. Klare - (01/07/2004)

O desafiante de Bush articula um discurso sobre a segurança nacional que, ainda que afastado do discurso dos republicanos, não deixa de se confirmar igualmente agressivo

Faremos tudo para defender a segurança nacional e continuaremos dispondo do exército mais poderoso do mundo”, declarou, no dia 2 de setembro de 2003, o candidato democrata à Presidência John Kerry. E, caso fosse confirmada a necessidade do uso da força no combate aos terroristas, “eu não hesitaria em fazê-lo1”. Foi num cenário incomum e marcial que o senador de Massachusetts lançou sua campanha: sob a silhueta imponente do porta-aviões USS Yorktown, atracado.

Desde então, Kerry não deixou de assumir a postura de chefe militar, chegando até a acusar o atual presidente de falta de determinação nos assuntos de defesa – coisa (quase) jamais vista num candidato democrata: “George Bush herdou o exército mais poderoso do mundo e o enfraqueceu”, afirmou no último dia 27 de fevereiro, em Los Angeles. “São demasiado freqüentes as vezes em que nossas tropas enfrentam o perigo sem dispor de armas e equipamentos que lhes permitam proteger-se de maneira adequada.” Também criticou o atual presidente por não ter desenvolvido uma estratégia eficiente e global contra o terrorismo: “Não acuso George Bush de ter exagerado na guerra contra o terrorismo; pelo contrário, penso que não fez o suficiente2.”

Nova doutrina democrata

O candidato democrata propõe uma transferência de autoridade para as Nações Unidas e que as operações de manutenção da paz no Iraque sejam assumidas pela Otan

No clima da escalada nacionalista acirrado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, o desafiante de George W. Bush articula um discurso sobre a segurança nacional que, ainda que afastado do discurso dos republicanos, não deixa de se confirmar igualmente agressivo. Para essa tarefa, ele contou com a ajuda de um pequeno grupo de intelectuais especializados em questões militares, a maioria dos quais trabalhou para o governo Clinton. Após terem forjado a nova doutrina, esses especialistas a divulgaram em conferências, em artigos publicados em revistas e junto aos grandes meios de comunicação.

As figuras importantes desse grupo são Samuel R. (Sandy) Berger, assessor do presidente Clinton para assuntos de segurança nacional; William J. Perry, ex-secretário da Defesa; Ashton B. Carter, ex-assessor do secretário da Defesa e professor na Kennedy School of Government, em Harvard; e Lawrence J. Korb, ex-assessor do secretário da Defesa no governo Reagan e, atualmente, membro do Center for American Progress, um novo “laboratório de idéias” do Partido Democrata.

A reflexão por trás do desenvolvimento dessa nova estratégia começou após as eleições de novembro de 2002, na metade do mandato do atual governo, quando os democratas perderam algumas cadeiras importantes no Senado e na Câmara dos Representantes. Membros influentes do partido, entre os quais William Clinton, acusaram, na ocasião, a direção do partido de ter desempenhado um papel pacifista num momento em que o país inteiro temia um novo atentado terrorista. “Abandonamos a área da segurança”, declarou o ex-presidente diante do Conselho de Lideranças Democráticas (Democratic Leadership Council), um grupo de democratas conservadores que ele presidiu antes de ser empossado na Casa Branca. “Quando as pessoas estão preocupadas, preferem ter um presidente que erre, mas pareça forte, ao invés de um presidente que possa ter razão, mas pareça frágil”. Para ganhar em 2004, o ex-presidente avalia que os democratas “devem ter uma posição clara e bastante firme sobre as questões de segurança nacional3”.

“Estratégia inábil” de Bush

Kerry não hesita em replicar que serviu no Vietnã, enquanto republicanos de sua geração, como Bush e Cheney, conseguiram escapar a essa obrigação

Após o fim das eleições primárias, em março de 2004, o senador de Massachusetts vem tratando essas questões com mais freqüência. Em abril, quando estouraram violentos combates no Iraque, criticou a maneira pela qual o governo conduzia a guerra, explicando que a incapacidade do presidente em internacionalizar o conflito colocara os soldados norte-americanos numa situação extremamente perigosa. “Nossos soldados pagam o preço de uma estratégia inábil”, declarou, em entrevista à rádio, em 17 de abril. “Essa obstinação em se lançarem sozinhos na guerra faz com que nossas tropas corram 90% dos perigos e das perdas”. Para reduzir a pressão imposta aos soldados norte-americanos e acelerar a reconstrução do Iraque, ele propõe uma transferência de autoridade para as Nações Unidas e que as operações de manutenção da paz sejam assumidas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), enquanto acusa o presidente Bush por seu unilateralismo que isolou os Estados Unidos.

Kerry também conseguiu resistir aos sucessivos ataques por parte de republicanos, que punham em dúvida sua capacidade de comandante-em-chefe das forças armadas. O vice-presidente Richard Cheney, por exemplo, declarou no dia 26 de abril: “O senador de Massachusetts nos deu inúmeros motivos para questionar sua conduta em caso de uma ameaça iminente contra a segurança naciona”. Mas Kerry não hesita em replicar que serviu no Vietnã, enquanto republicanos de sua geração, como Bush e Cheney, conseguiram escapar a essa obrigação: “Lutei no Vietnã, fui ferido. Tenho orgulho de ter servido naquele país. E considero profundamente incômodo ser criticado nessa questão por pessoas que fizeram opções diferentes”. Os republicanos irão gastar dezenas de milhões de dólares em spots, na televisão, destinados a questionar a determinação de seu adversário em matéria de questões de segurança. Os democratas gastarão quase a mesma quantia para exaltar as qualidades marciais de seu candidato...

Crítica ao unilateralismo

Para os democratas, deve-se defender os interesses norte-americanos por meio da exibição de poder militar mesclada de multilateralismo

Embora não deixe de ter certas semelhanças com o programa de defesa e de política externa do atual governo, o democrata se diferencia dele em relação a alguns pontos importantes. A “doutrina Bush” privilegia o uso unilateral e preventivo da força norte-americana com o objetivo de esmagar qualquer ameaça que pareça pairar contra os Estados Unidos. Segundo a Casa Branca, esse tipo de recurso é necessário para impedir o uso de armas de destruição em massa por organizações terroristas e “Estados delinqüentes” que não se detêm diante da diplomacia e da dissuasão clássicas. Os Estados Unidos também teriam o direito de atacar preventivamente, concordem ou não seus aliados com a opinião de Washington sobre a gravidade da ameaça.

Para os republicanos, a “doutrina Bush” representa uma evolução natural da estratégia de defesa nacional, considerando os novos perigos que existem contra o país. Os democratas, por seu lado, consideram que ela rompe com a orientação tradicional dos Estados Unidos, teoricamente baseada na dissuasão e cooperação com os países aliados. A abordagem do governo representa “uma mudança radical na própria natureza de nossa política externa”, declarou Samuel (Sandy) Berger, assessor para a segurança nacional do governo Clinton. “De certa forma, [Bush] abandonou a própria idéia de dissuasão, que era a pedra angular da segurança nacional há mais de cinqüenta anos4.”

Além do mais, a opção pelo unilateralismo “significa o fim das alianças duráveis”, que haviam permitido definir claramente “as ameaças globais” e pôr em prática ações comuns durante a guerra fria5. O melhor meio de proteger os Estados Unidos seria restabelecer vínculos estreitos com seus aliados de longa data, reunindo-os em torno dos objetivos vitais que são a guerra contra o terrorismo e a reconstrução do Afeganistão e do Iraque. No dia 3 de dezembro de 2003, Kerry esclareceu diante do Conselho de Relações Exteriores: “Se eleito, substituirei o isolacionismo de Bush por uma nova era de alianças. É verdade que a guerra fria acabou, mas os novos perigos que nos espreitam tornam mais indispensável que nunca a presença de nossos aliados6.”

“Nacionalismo esclarecido”

Para os democratas, a melhor demonstração do fracasso na luta contra o terrorismo estaria na incapacidade, por parte do exército, de localizar e capturar Osama bin Laden

Ainda que a formulação não seja explícita, a expressão “nacionalismo esclarecido”, proposta em novembro de 2003 pelo senador, resume bastante bem o estado de espírito dos democratas7. De fato, trata-se de defender os interesses norte-americanos por meio da exibição de poder militar mesclada de multilateralismo. O objetivo, evidentemente, continua sendo o de eliminar a ameaça que representam os “Estados delinqüentes” e as organizações terroristas, mas com a participação da “comunidade internacional”. Isso significa, antes de tudo, incentivar a capacidade dos outros países de localizarem e destruírem as células terroristas, impedir os “Estados delinqüentes” de terem acesso a tecnologias nucleares e dirigir a reconstrução das nações dizimadas pela guerra. Os Estados Unidos continuarão contribuindo com a parte do leão em termos de poderio militar e dos recursos necessários à realização desses objetivos, mas num contexto de colaboração com outros países.

A doutrina dos democratas distingue-se, portanto, da dos republicanos. No entanto, também se confunde em inúmeros pontos com a atual linha dura. Segundo Berger, “um governo democrata deverá reafirmar a determinação dos Estados Unidos em usarem o poderio militar – de maneira unilateral, se necessário – para defender seus interesses vitais”. Deverá dedicar mais tempo à diplomacia, mas também não hesitará em empregar a força. Kerry não poderia ser mais claro: “Enquanto presidente, não farei a segurança dos Estados Unidos ficar atrás da segurança de qualquer nação ou instituição”, declarou em 3 de dezembro de 2003. “Nossos inimigos jamais poderão pôr em dúvida minha determinação em usar a força, caso isso se mostre necessário8.”

Logicamente, portanto, os democratas prometem desenvolver ainda mais a capacidade militar norte-americana. Pretendem, por exemplo, aumentar os contingentes de infantaria (com duas novas divisões, ou seja, mais cerca de 40 mil soldados) e de fuzileiros navais (marines), as duas armas do exército mais fortemente envolvidas em combates terrestres e em operações de “manutenção da paz” ou de estabilização pós-conflito. Prometeram acelerar a entrega de equipamentos, como coletes à prova de balas, veículos blindados e helicópteros de combate9. Na realidade, os democratas enfatizam freqüentemente sua vontade de melhorar a capacidade das tropas convencionais – as que combatem as guerrilhas e mantêm a “estabilidade” no Afeganistão, no Iraque e no Kosovo –, ao invés dos programas de armamentos sofisticados defendidos pelo atual governo.

Fracasso duplo da Casa Branca

Para os democratas, o governo Bush criou arestas com alguns Estados que poderiam ter ajudado a neutralizar a Al-Qaida e suas múltiplas ramificações internacionais

Em janeiro de 2004, Korb explicou que “o debate sobre a transformação das forças armadas deve ir muito além de considerações exclusivamente tecnológicas. Devemos centrar nossa atenção nas pessoas que estão lutando. Precisamos de forças armadas suficientemente numerosas, e bem equipadas, para cumprirem as tarefas mais variadas e em diferentes lugares do globo10 ”. Em matéria de recrutamento e armamento, os democratas estão dispostos a gastar mais – até 6 bilhões de dólares a mais por ano. Para não aumentar o orçamento da defesa, propõem reduzir o ritmo do programa do escudo antimísseis e cancelar o desenvolvimento de alguns sistemas bélicos, como o caça F/A-22 e o submarino da classe Virginia.

Enquanto o presidente Bush se apresenta como o candidato melhor preparado para ter êxito na guerra contra o terrorismo, os democratas pretendem que a Casa Branca fracassou por duas vezes nessa questão. Ao se concentrar quase exclusivamente no Iraque a partir de 2001, o presidente Bush teria desviado a atenção e os recursos norte-americanos do combate à Al-Qaida. “Virando-se de costas” para a comunidade internacional, ele teria enfraquecido o apoio de que Washington necessita para identificar, localizar e eliminar as células terroristas. A primeira dessas afirmações foi confirmada pelas declarações de Richard Clarke. No dia 24 de março de 2004, durante uma intervenção estarrecedora perante a comissão de inquérito que investiga os atentados de 11 de setembro, o ex-chefe do programa contraterrorista da Casa Branca declarou que o presidente Bush e seus principais assessores optaram por não levar em conta os riscos de atentados apontados pelos serviços de espionagem. E que, após os atentados, eles insistiram, obstinadamente, em acusar Saddam Hussein, apesar da ausência de provas.

Para os democratas, a melhor demonstração desse fracasso na luta contra o terrorismo estaria na incapacidade, por parte do exército, de localizar e capturar Osama bin Laden. No dia 27 de fevereiro de 2003, Kerry declarou: “Dois anos atrás, ele estava à nossa mercê, em Tora Bora [Afeganistão], mas George Bush convocou de volta as tropas norte-americanas e deixou a tarefa a chefes de clãs afegãos que não tinham qualquer tipo de lealdade para conosco”. A Casa Branca, por sua vez, aproveita para dizer que esse seria o tipo de comentário que teria “minado nossa luta contra o terrorismo11”.

Mas acima de tudo, para os democratas, o governo Bush criou arestas com alguns Estados que poderiam ter ajudado a neutralizar a Al-Qaida e suas múltiplas ramificações internacionais. “O presidente Bush diz que a cooperação com outros países, e principalmente com nossos aliados, é vital para o combate ao terrorismo”, lembrou o candidato democrata. “Tem razão, mas seu governo só mostra desprezo para com as questões que preocupam aqueles países, tais como a luta contra o desequilíbrio climático ou a criação de um Tribunal Penal Internacional. Devemos trabalhar juntos com a comunidade internacional para que seja possível estabelecer uma estratégia coletiva global, ao invés de imperial12.”

Reestabelecer vínculos estremecidos

Kerry está até disposto a enviar mais tropas para o Iraque, para não permitir que ele se torne “um imenso campo de treinamento para terroristas anti-americanos.”

Os Estados Unidos deverão mudar as prioridades e as táticas, aumentar os recursos empregados no combate ao terrorismo – especialmente em matéria de informação – e restabelecer os vínculos estremecidos com os principais aliados. Para Berger, “é evidente que precisamos conservar nossa capacidade de travar guerras convencionais, mas atualmente temos que caçar um inimigo que se esconde, e muitas vezes entre a população civil. Nosso esforço deverá priorizar a informação13”.

Assim como Ralph Nader, alguns democratas de esquerda, como Dennis Kucinich, do Estado de Ohio, defendem uma retirada rápida das tropas enviadas ao Iraque. O senador de Massachusetts avalia, por seu lado, que o exército norte-americano deve continuar ali. Está até disposto a enviar mais tropas. “Temos que vencer no Iraque”, explicou. “Não podemos permitir que esse país desmorone [e se torne] um imenso campo de treinamento para terroristas anti-americanos.” 14. No entanto, Kerry insiste na necessidade de condicionar a presença norte-americana à proteção das Nações Unidas e confiar à Otan as operações de “manutenção da paz”.

Pouco muda em relação ao Afeganistão. Conscientes do fato de que o caos poderia incentivar a volta dos taliban e da Al-Qaida, os democratas defendem uma participação ativa e prolongada do exército norte-americano. Para Berger, “Os democratas devem encarnar a noção de realismo. Se os Estados Unidos entram em guerra, devemos estar preparados para ficar por bastante tempo no lugar, para consertar o que destruímos. [...] Devemos desenvolver nossa capacidade de reconstrução, e não apenas de destruição15”. Também em relação a esse ponto, a ajuda externa, principalmente do Velho Continente, seria bem vinda: “Se a Otan aceitar, finalmente, dirigir as operações de manutenção da paz no Afeganistão, será urgente que os europeus venham em apoio às tropas norte-americanas.”

As causas profundas do terrorismo

Para o democrata, é urgente criar alternativas aos meios de comunicação anti-americanos que transmitem de países islâmicos

Uma política externa “esclarecida” também deverá fazer desaparecer as causas profundas do terrorismo e enfrentar os movimentos extremistas no terreno ideológico. Os Estados Unidos podem ganhar todas as guerras que quiserem, avalia Kerry, mas “nada irá realmente mudar se não vencermos a batalha das idéias”. Segundo o candidato democrata, é urgente criar alternativas aos meios de comunicação anti-americanos que transmitem de países islâmicos e permitir aos jovens muçulmanos que recebam uma educação de estilo ocidental: “Devemos lançar uma ampla campanha destinada a reduzir o fosso que separa o Islã do resto do mundo. É a única maneira de desacreditar, junto às massas, os extremistas que incentivam o terrorismo16.”

A “batalha das idéias” deverá ser acompanhada por iniciativas concretas destinadas a reduzir a pobreza e o atraso que levam inúmeras pessoas do Terceiro Mundo a abraçar o extremismo. “Nossa segurança”, explicou Susan Rice, ex-assessora do secretário de Estado, em outubro de 2003, “não estará garantida enquanto metade da população mundial viver com menos de dois dólares por dia. Ainda que seja por interesses egoístas, não devemos aceitar o fato de que a luta contra a pobreza só diz respeito ao Terceiro Mundo, pois também toca aos Estados Unidos17.”

Uma vitória contra o terrorismo implica projetos concretos visando a uma solução pacífica do conflito entre Israel e os palestinos. Quando menciona a questão, o candidato democrata sempre começa reafirmando seu apoio irrestrito ao Estado judeu: “O compromisso norte-americano de defender a independência e a sobrevivência de Israel jamais deve diminuir.” Entretanto, Israel deve aceitar o princípio de um Estado palestino e, conseqüentemente, iniciar negociações que levem à sua criação. O candidato democrata defende o “roteiro para a paz” proposto pelos Estado Unidos e os outros membros do Quarteto (ONU, União Européia e Federação Russa). Também propõe uma ajuda norte-americana para o treinamento de forças de segurança palestinas quando estas tiverem demonstrado sua vontade de desmantelar as organizações terroristas existentes na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Redução do tráfico de armas

O “nacionalismo esclarecido” dos democratas os conduz, por fim, à proposta de reduzir a dependência dos Estados Unidos para com o petróleo estrangeiro

Para os democratas, a melhor estratégia para limitar a proliferação de armas de destruição em massa não é a solução militar privilegiada pelo governo Bush. De um lado, o uso unilateral da força irrita inúmeros países, dissuadindo-os de participarem do esforço destinado a limitar a proliferação. De outro, esse comportamento bélico só pode incentivar os inimigos potenciais a acelerarem a corrida armamentista com o propósito de dissuadir os Estados Unidos de atacá-los... Portanto, seria preferível trabalhar de uma maneira coletiva, reduzindo o tráfico de armas ligado às armas de destruição em massa.

Segundo Berger, “um governo democrata deverá utilizar todos os meios a seu alcance em sua disposição de lutar contra a ameaça das armas de destruição em massa, antes de recorrer ao uso da força. E a providência mais evidente a ser tomada consiste em evitar que os terroristas adquiram esses equipamentos e essas tecnologias18”. Também é necessária uma maior contribuição, na forma de assistência, para a destruição dos estoques de armas de destruição em massa situadas na antiga União Soviética, assim como garantir que os equipamentos não sejam destruídos. Essa iniciativa, no âmbito da cooperação para a redução de ameaças, é conhecida nos Estados Unidos pelo nome do programa “Nunn-Lugar”, os dois senadores – um, republicano, e o outro, democrata – que lançaram a idéia desse projeto.

O combate à proliferação também implicaria intensificar as pressões exercidas sobre a Coréia do Norte, no sentido de obrigar esse país a renunciar a seu programa nuclear militar e desmantelar o arsenal já existente. O ex-assessor do presidente Clinton para questões de segurança nacional não hesitou em criticar a Casa Branca por falta de firmeza em sua queda de braço com o regime de Pyongyang. Apesar de indícios demonstrando ser esse o único país com capacidade e vontade de fornecer armas nucleares a terroristas, “nosso governo”, disse Berger, “reagiu com uma indulgência inexplicável diante de um Estado explicitamente decidido a se tornar um supermercado nuclear mundial”. Para fazer com que a Coréia do Norte abandone suas ambições nucleares, os democratas propõem oferecer a Pyongyang incentivos econômicos e políticos e, somente caso isso se mostre ineficaz, pedir a outros países que ajudem os Estados Unidos num recurso a “medidas coercitivas19”.

Nova política energética

Para o senador de Massachusetts, a busca da independência energética permitiria também acabar com o fim da submissão dos Estados Unidos à família real saudita

O “nacionalismo esclarecido” dos democratas os conduz, por fim, à proposta de reduzir a dependência dos Estados Unidos para com o petróleo estrangeiro, o que permitiria limitar os riscos de envolvimento norte-americano no Oriente Médio. “Se eleito”, declarou Kerry em fevereiro de 2003, “assumiremos um esforço histórico para desenvolver combustíveis alternativos e os carros do futuro. Em menos de dez anos, tornarei este país independente do Oriente Médio para que nossos filhos não tenham que morrer pelo petróleo20.”

Essa ambiciosa proposta pode suscitar algumas reservas por parte de eleitores do Estado de Michigan e de outros Estados em que a indústria automobilística continua sendo uma das fontes de emprego melhor remuneradas para as classes populares. O apoio do Congresso a uma política energética radicalmente alternativa não pode ser considerado previamente garantido, a julgar pela experiência infeliz do presidente James Carter, a partir de 1977. Para o senador de Massachusetts, a busca da independência energética permitiria atingir outro objetivo: o fim da submissão dos Estados Unidos à família real saudita. Os estreitos vínculos políticos e econômicos mantidos por influentes dirigentes republicanos – entre os quais, o “clã Bush” – com os dirigentes políticos de Riad, os teriam levado a hesitar em punir as pessoas que continuam financiando instituições de caridade islâmicas ligadas à Al-Qaida e a outros grupos terroristas.

Porque, na opinião do desafiante de Bush jr., “o governo saudita tenta lutar contra os financiamentos ocultos, mas suas ações não estão à altura de seus compromissos21”. Mas a pressão exercida sobre Riad continuará limitada, caso os Estados Unidos continuem dependendo do petróleo e dos investidores sauditas. “É inegável”, admitiu o candidato democrata, “que temos vínculos profundos com a Arábia Saudita, os quais, no momento, são impossíveis de romper. Tal dependência energética e econômica complica imensamente nossas relações com a Arábia Saudita.” Eis porque, concluiu ele, “os Estados Unidos devem adotar uma nova política energética22”.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Discurso da candidatura, Patriot’s Point, no Estado de Carolina do Sul, em 2 de setembro de 2003. Veja o site: http://www.johnkerry.com/audora=”...>www.johnkerry.com
2 - “Observações na Universidade da Califórnia de Los Angeles (UCLA)”, 27 de fevereiro de 2004: http://www.johnkerry.com/audora=”...>www.johnkerry.com
3 - Citado pelo New York Times, 4 de dezembro de 2002.
4 - Conferência organizada em 28-29 de outubro, em Washington, durante a Conferencia sobre novas estratégias norte-americanas para segurança e paz, organizada pelo Center for American Progress (Centro para o Progresso Norte-americano).
5 - “Observações durante a conferência sobre as novas estratégias norte-americanas para a segurança e a paz”, Washington D. C., 28-29 de outubro de 2003. Ver o site: http://www.americanprogress.org/eud...>www.americanprogress.org
6 - Discurso ao Conselho de Relações Exteriores (Council for Foreign Relations), Nova York, 3 de dezembro de 2003. Veja o site: http://wwwwww.johnkerry.com/eudora=...>www.johnkerry.com
7 - “Observações durante a conferência sobre as novas estratégias norte-americanas para a segurança e a paz”, Washington D. C., 28-29 de outubro de 2003.
8 - Discurso ao Conselho de Relações Exteriores, Nova York, 3 de dezembro de 2003. Veja o site: http://wwwwww.johnkerry.com/eudora=...>www.johnkerry.com
9 - Ler, de Lawrence J. Korb, “Six étapes vers une Amérique plus sûre”, ed. Center for American Progress, 29 de janeiro de 2004, p. 5.
10 - Ibid.
11 - Universidade da Califórnia de Los Angeles, 27 de fevereiro de 2004 (veja a nota de rodapé nº 2).
12 - Discurso no Center for American Progress, op. cit.
13 - “Foreign Policy for a Democratic President”, Foreign Affairs, op.cit.
14 - «A strategy to win the peace in Iraq», www,johnkerry.com/issues/iraq
15 - Ibid.
16 - Discurso no Conselho de Relações Exteriores, op. cit.
17 - “Observações durante a Conferência sobre as Novas Estratégias Norte-americanas para a Segurança e para a Paz”, Washington, D. C., 29-29 de outubro de 2003. Veja o site: http://www.americanprogress.org/eud...>www.americanprogress.org
18 - “Foreign Policy for a Democratic President”, op. cit.
19 - Ibid.
20 - Universidade da Califórnia de Los Angeles, 27 de fevereiro de 2004 (ver nota de rodapé nº 2).
21 - Discurso no Conselho de Relações Exteriores, op. cit.
22 - Ibid.




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