Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Uma semana contra o Capitalismo de Desastre

» Na Argentina, algo além de Macri começa a cair

» Transportes: a atualidade da Tarifa Zero

» Aos super ricos, os super genes?

» A Ideologia da Mineração está em xeque

» Orçamento 2020 expõe o Bolsonaro das elites

» A esquecida questão da desigualdade energética

» Crônica de Cuba, em incerta transição

» “Direitos Já”: Uma perigosa contradição

» Cinema: Espelhos deformantes

Rede Social


Edição francesa


» Libye, l'appel du devoir

» La gauche française bute sur l'Europe

» Fédéralisme à l'allemande et évolutions politiques

» « Métro, boulot, tombeau »

» Plus haute sera la prochaine tour

» Le Media Lab aux avant-postes du cybermonde

» Echec à la corruption au Brésil

» Les beaux jours de la corruption à la française

» Parler français ou la « langue des maîtres » ?

» Au Portugal, austérité et contestation


Edição em inglês


» The logs of war

» Benjamin Netanyahu, best friend of the far right

» September: the longer view

» Afghan peace talks: Trump tweets, Taliban fights

» An inexhaustible myth in times of extreme adversity

» What happened to social solidarity?

» Sudan: conflict, violence and repression

» Russia's appointed billionaires

» Another end is possible

» Arms sales: the Swedish model


Edição portuguesa


» Edição de Setembro de 2019

» Portugal não pode parar?

» Quem elegeu Ursula von der Leyen?

» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019


LITERATURA

Ele e seu homem

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

“Mas, para retornar a meu novo companheiro. Eu estava extremamente deleitado com ele, e transformei em meu negócio a tarefa de ensinar-lhe tudo que era apropriado, acessível, e útil; mas especialmente, fazê-lo falar e compreender o que eu falo; e ele era o mais apto aluno, como jamais houve”.
- Daniel Defoe, Robinson Crusoe

J.M. Coetzee - (01/07/2004)

Boston, na costa de Lincolnshire, é uma cidade considerável, escreve seu homem. A mais alta torre de igreja em toda a Inglaterra é encontrada lá; os marinheiros no mar, a usam como guia de navegação. Em torno de Boston fica o país dos alagados, chamados “fen”. Garças noturnas a valer, pássaros agourentos, que dão um pesado gemido, alto o bastante para ser ouvido duas milhas além, como o estalo de uma arma.

Os alagados são moradas de muitos outros tipos de pássaros, escreve seu homem, diversos tipos de patos, gansos e marrecos, e, para capturá-los, os homens dos alagados, os homens-fen, criam patos domesticados, aos quais chamam de isca ou pato-isca. Os alagados são pedaços de pântano. Há muitos alagados na Europa toda, como em todo o mundo, mas não são nomeados de fen, o “fen” é uma palavra inglesa, não migrará.

Estes patos-isca de Lincolnshire, escreve seu homem, são produzidos acima em lagoas-armadilha, e são alimentados a mão. Então quando a estação chega, são enviados ao exterior para a Holanda e Alemanha. Na Holanda e Alemanha encontram com outros de seu tipo, e, vendo como miseravelmente estes patos holandeses e alemães vivem, como seus rios se congelam no inverno e suas terras são cobertas de neve, eles procuram convencer, em uma forma de língua que os façam compreender, que, na Inglaterra de onde eles vêm, é completamente diferente: os patos ingleses têm costas do mar completamente cheias de alimentos nutritivos, marés que fluem livremente acima das pedras; têm lagos, minas de água, lagoas abertas e lagoas protegidas; também existem terras forradas de milho deixadas atrás pelos colhedores; e nenhuma geada ou neve, e muita luz.

Estas representações, ele escreve, feitas em língua de pato, eles, os patos isca ou isca-pato, atraem grande número de pássaros e, para dizer assim, sequestra-os. Guiam-nos de volta, através dos mares da Holanda e Alemanha e os levam para suas lagoas nos “fens” de Lincolnshire, vibrando e dizendo a eles, a toda a hora, em sua própria língua, que estas são as lagoas que lhes disseram, onde viverão com segurança e liberdade.

Enquanto isso, os homens-isca, os mestres dos patos-isca, rastejam encobertos pelos abrigos que construíram ao longo dos fens, e com punhados de milho acima da água; atraem os patos-isca e estes seguem-nos, trazendo seus convidados estrangeiros atrás. E assim durante dois ou três dias conduzem seus convidados acima, por canais mais estreitos e mais estreitos, dizendo a eles todo o tempo para ver quão bem vivemos nós na Inglaterra, levam-os a um lugar onde redes foram estendidas sobre os canais.

Então os homens-isca soltam seus cães de isca, treinados perfeitamente para nadar após os pássaros, latindo enquanto nadam. Alarmados ao último grau por esta criatura terrível, os patos abrem as asas, mas são forçados para baixo, pelas redes armadas acima, e assim deve nadar ou perecer, sob a rede. Mas a rede fica mais estreita e mais estreita, como uma bolsa, e na extremidade estão os homens-isca, que removem seus cativos um por um. Os patos-isca são afagados pelo feito, mas quanto aos patos convidados, estes são presos e vendidos por centenas ou milhares.

Toda esta notícia de Lincolnshire que seu homem escreve a mão livre e rapidamente, com lápis que ele aponta com sua pequena faca cada dia antes de um embate novo com a página.

Em Halifax, escreve seu homem, havia - até que foi removido no reino do rei James, o primeiro - um máquina de execução, que trabalhava assim. O homem condenado colocava sua cabeça na base do cadafalso; então o carrasco puxava um pino que prendia acima a pesada lâmina. A lâmina descia abaixo em sua moldura tão alta quanto uma porta de igreja e decepava o homem de forma tão limpa quanto uma faca de carniceiro.

Porém, diz a lenda em Halifax, que se entre o puxar do pino e a descida da lâmina o homem condenado levantasse sobre seus pés e corresse monte abaixo, e nadasse através do rio sem ser preso novamente, seria deixado livre. Mas em todos os anos que a máquina esteve em Halifax, isto nunca aconteceu.

Ele, (não seu homem agora mas ele) senta-se em seu quarto, do lado da água, em Bristol e lê tudo isso. Está entrando em anos, quase pode ser dito ele é um homem velho agora. A pele do rosto, escurecida pelo sol dos trópicos, antes que ele fizesse um pára-sol forrado de folhas da palma ou do palmeto, é mais pálida agora, mas ainda curtida como um pergaminho; em seu nariz está um ferimento do sol que não sara.

O pára-sol, ele ainda o tem em seu quarto, em um canto, mas o papagaio que voltou com ele morreu. “Pobre Robin!” o papagaio gritaria de sua vara em seu ombro, “Pobre Robin Crusoe! Quem pode salvar o pobre Robin?” Sua esposa não tolerava o lamento do papagaio, “Pobre Robin!” entrava dia, saia dia. “Eu poderia torcer sua garganta”, dizia ela, mas nunca teve a coragem de o fazer.

Quando voltou a Inglaterra de volta de sua ilha, com seu papagaio, seu para-sol e sua caixa repleta de tesouros, viveu por um tempo tranqüilamente o bastante com sua velha esposa na propriedade que comprou em Huntingdon, já que tinha se transformado em um homem rico, e ainda mais rico após imprimir o livro de suas aventuras. Mas os anos na ilha e mais os anos que viajou com seu servo-homem Sexta-feira (pobre Sexta-feira, lamentava pra si mesmo, o papagaio nunca falava o nome de Sexta-feira, somente ele), tornaram a vida de um cavalheiro de volta à terra firme maçante demais para ele. E, verdade seja dita, a vida de casado era um grande e sofrido desapontamento. Ele, cada vez mais, se refugiava em seus estábulos, com seus cavalos, os quais, felizmente não falavam, mas moviam-se maciamente quando ele chegava, para mostrar que sabiam quem ele era, e lhe transmitiam muita paz.

Parecia-lhe, voltando à sua ilha, onde, antes da chegada de Sexta-feira, viveu uma vida silenciosa, este mundo agora parecia demasiado cheio de discurso. Na cama ao lado de sua esposa sentia como se um chuva de seixos fosse derramada em cima de sua cabeça, em um zumbido e um tinido sem fim, quando tudo que ele desejava era dormir.

Assim quando sua velha esposa faleceu, ele lamentou um pouco, mas não ficou pesaroso. Enterrou-a e, após um tempo decente, tomou este quarto no “O Piche Alegre” a beira mar, em Bristol, deixando a administração da propriedade em Huntingdon a seu filho, trazendo com ele somente o pára-sol da ilha que o fez famoso e o papagaio embalsamado preso em vara e a alguns pertences, e tem vivido aqui sozinho desde sempre, dando uma volta ao dia pelo cais, olhando fixamente para o oeste sobre o mar, com sua vista ainda afiada, fumando seu cachimbo. A respeito de suas refeições, estas são enviadas ao seu quarto; já que ele nunca encontrou nenhuma alegria na sociedade, sentimento que apenas cresceu na solidão da ilha.

Não lê, perdeu o gosto; mas a escrita de suas aventuras na ilha impôs-lhe o hábito da escrita, e isto é uma recreação agradável o bastante. À noitinha, à luz do candelabro, ele tomará seus papéis, apontará seus lápis e escreverá uma página ou duas sobre seu homem, o homem que emite os relatos sobre os patos-isca de Lincolnshire, e a grande máquina da morte em Halifax, essa, da qual se pode escapar antes que a lâmina terrível possa descer, se puder pular sobre seus pés e correr monte abaixo, e inúmeras outras coisas. Cada lugar que vai ele emite o relato a respeito, este é seu primeiro negócio, este seu ocupado homem.

Dando uma volta ao longo do muro do porto, refletindo sobre a máquina de Halifax, ele, Robin, a quem o papagaio costumava chamar “Pobre Robin”, joga um seixo e escuta. Um segundo, menos do que um segundo, antes disso, o seixo golpeia a água. A graça de Deus é rápida, mas não seria a grande lâmina de aço temperado, sendo mais pesado do que um seixo e sendo lubrificada com graxa, mais rápida? Como se pode escapar disso? Que espécie de homem pode ele ser que perambula assim através do reino, de um espetáculo da morte a outro, (esmagamentos, decapitações) enviando relato após relato?

Um homem de negócio, pensa consigo mesmo. Deixe-o ser um homem de negócio, um comerciante de grão ou um comerciante de couro, deixe-nos dizer; ou um fabricante e um provedor de telhas para telhado em algum lugar onde a argila é abundante, deixe-nos dizer, que deve viajar muito no interesse de seu comércio. Faça-o próspero, dê-lhe uma esposa que o ame e não fale demasiado e o carregue de crianças, de filhas principalmente; dê-lhe uma felicidade razoável; traga sua felicidade de repente a um fim. O Tâmisa cresce no inverno, as fôrmas em que as telhas são cozidas são varridas pela água, ou as lojas de grão, ou os trabalhos de couro; é arruinado, este seu homem, os credores descem sobre ele como moscas ou corvos, tem que deixar sua casa, sua esposa, suas crianças, e busca se esconder no mais deplorável dos quartos na rua dos mendigos, sob um nome falso e um disfarce. E tudo isso - a enchente, a ruína, a fuga, o pestilência, os farrapos, a solidão – transforma este ser na figura do náufrago da ilha onde ele, “Pobre Robin”, foi excluído do mundo por vinte e seis anos, até ficar quase louco (e certamente ficou de certa forma, quem deve dizer que não?).

Ou deixemos que o homem seja um celeiro com uma casa e uma loja e um armazém em Whitechapel e uma verruga em seu queixo e uma esposa que o ame e não fale muito e o carregue de crianças, filhas principalmente, e dá-lhe muita felicidade, até que a praga desça sobre a cidade, é o ano 1665, o grande incêndio de Londres não veio ainda. A praga desce sobre Londres: diariamente, distrito após distrito, a contagem dos mortos aumenta, rico e pobre, a praga não faz nenhuma distinção, toda a riqueza mundana acumulada com o celeiro não o salvará. Ele envia sua esposa e filhas para o campo e faz planos para fugir também , mas não o faz. “Não temas o terror que campeia durante a noite”, lê, abrindo o bíblia ao acaso, “nem a flecha que busca seu alvo durante o dia; nem a peste que se propaga nas trevas; tampouco o destruir que ataca ao meio dia. Ainda que tombem mil ao seu lado e dez mil a sua direita, não serás atingido”.

Ouvindo o sinal do coração, um sinal da passagem segura, permanece em uma Londres aflita e se aplica na escrita dos relatos. Eu vim seguindo uma multidão na rua, escreve, e uma mulher em seu meio aponta para o céu. Vejam, grita, “um anjo de branco empunhando uma espada flamejante! ” E toda a multidão concorda, “Certamente é assim, dizem: um anjo com uma espada! ” Mas ele, o celeiro, não pode ver nenhum anjo, nenhuma espada. Tudo que pode ver é uma nuvem de forma estranha mais brilhante de um lado do que do outro, iluminada pelo sol.

É um sinal! grita a mulher na rua; mas não pode ver nenhum sinal para a vida dele. Assim em seu relato.

Em um outro dia, andando pela margem do rio em Wapping, seu homem que se tornou um celeiro mas que não tem agora nenhuma ocupação, observa uma mulher que, da porta de sua casa, chama por um homem que margeia em uma canoa: “Robert! Robert! ” Ela chama; o homem, então em terra, examina o conteúdo de um saco que coloca em cima de uma pedra na beira do rio, e se afasta outra vez; e a mulher vem para baixo para a beira do rio e recolhe o saco e o carrega para sua casa, com expressão muito triste.

Aborda o homem Robert e fala-lhe. Robert informa-o que a mulher é sua esposa e o saco contém suprimento para uma semana para ela e suas crianças, carne, cereais e manteiga; mas ele não ousa chegar mais próximo, pois todos, esposa e crianças, estão com a praga em cima deles; e isso quebra seu coração. E tudo isto - o homem Robert e esposa que mantém a comunhão com as chamadas sobre a água, o saco deixado à beira d’água – imagem que existe por si mesmo, certamente, mas também como uma figura dele, Robinson, solitário em sua ilha, de onde, em sua hora de maior desespero, chamou através das ondas a sua bem amada na Inglaterra para salvá-lo, e em outras vezes nadou para fora da arrebentação na busca de suprimentos.

Relato extra dessa época de desespero. Incapaz, não mais por muito tempo, de carregar a dor do inchaço na virilha e na axila que são os sinais da praga, um homem começa a lamentar-se, totalmente despido, na rua, na alameda Harrow em Whitechapel, onde seu homem, o celeiro, o assiste como testemunha enquanto pula e cavalga e faz mil gestos estranhos, sua esposa e crianças que o seguem, gritam, pedindo a ele que volte. E estes pulos e cavalgadas são alegorias de seu próprio pular e cavalgar quando, depois da calamidade do naufrágio e depois que escrutinou a costa em busca de um sinal de seus companheiros de navio e não tinha encontrado nada, exceto dois sapatos que não formavam par, compreendeu que estava preso e sozinho em uma ilha selvagem, para perecer provavelmente e com nenhuma esperança de salvação.

(Mas o que mais ele faz, se pergunta, este pobre homem aflito sobre o qual ele lê, além de sua desolação? O que é que ele chama, através das águas e através dos anos, de seu fogo particular?)

Há um ano ele, Robinson, pagou dois guinéus a um marinheiro por um papagaio que o marinheiro tinha trazido do, disse, Brasil - um pássaro não tão magnífico como sua própria criatura bem-amada mas, de qualquer forma esplêndido, com penas verdes e uma crista escarlate e grande falador, se o marinheiro devia ser acreditado. E certamente o pássaro sentar-se-ia em sua vara em seu quarto, com uma corrente pequena em seu pé para evitar tentativa de vôo, e repetia as palavras “Pobre Homem! Pobre Homem! ” repetidamente até que foi forçado a cobri-lo; mas não podia ser ensinado a dizer nenhuma outra palavra, “Pobre Robin! ” por exemplo, sendo talvez demasiado velho para isso.

Homem Pobre”, olhando para fora através da janela estreita sobre os mastro-altos e, além dos mastro-altos, sobre a curvatura cinzenta do Atlântico: “Que ilha é esta”, pergunta “Homem Pobre”, “à qual estou ligado, assim frio, assim tedioso? Onde estava você, meu salvador, em minha hora de grande necessidade?

Um homem, bêbado tarde da noite (outro dos relatórios do seu homem), cai adormecido em uma entrada em Cripplegate. O carro funerário vem a sua maneira (nós estamos ainda no ano da praga), e os vizinhos, pensando que o homem está morto, colocam-no no carro funerário entre os outros corpos. Mais e mais os carros chegam ao poço da morte em Mountmill e o carregador, com o rosto protegido contra eflúvios, agarra-o para jogá-lo dentro do poço; ele acorda e se esforça a entender. “Onde estou eu? ”, diz. “Você está a ponto de ser enterrado entre os mortos”, diz o carregador. “Mas estou eu morto então? ”,diz o homem. E esta é também uma figura dele em sua ilha.

Alguns, do povo de Londres, continuam a ir a seus negócios, pensando que são saudáveis e irão superar a praga. Mas secretamente têm a praga em seu sangue: quando a infecção alcançar seu coração eles cairão mortos no mesmo lugar, relata assim seu homem, como se golpeado por um raio. E esta é uma figura para a própria vida, o todo da vida. Preparação de vida. Nós devemos fazer a preparação de vida para a morte, ou seja, golpeado onde nós estamos. Como ele, Robinson, foi feito para ver quando de repente, em sua ilha, veio um dia em cima da pegada de um homem na areia. Era uma cópia, e conseqüentemente um sinal: de um pé, de um homem. Mas era mais do que um sinal também. “Você não está sozinho”, dizia o sinal; e também, “não importa quão distante você navegou, não importa onde você se esconde, você será encontrado”.

No ano da praga, escreve seu homem, outros, aterrorizados, abandonaram tudo, seus lares, suas esposas e crianças, e fugiram o mais longe de Londres possível. Quando a praga passou, a fuga foi condenada como a maior covardia por todos os lados. Mas, escreve seu homem, nós nos esquecemos qual o tipo de coragem foi convidada a confrontar a praga. Não era a coragem de um mero soldado, que aponta uma arma e acerta o inimigo: era como acertar a morte, ela mesma, em seu cavalo pálido.

Mesmo o seu melhor, seu papagaio da ilha, o mais amado dos dois, não falou nenhuma palavra que não foi ensinado por seu mestre. Como então vem este seu homem, que é um tipo do papagaio e não muito amado, escreve tão bem ou melhor e do que seu mestre? Que tem uma pena capaz, este seu homem, não há dúvida. “Como acertar a morte, ela mesma em seu cavalo pálido”. Sua própria habilidade, aprendida na casa de contagem, estava em fazer registros e clientes, não em frases de efeito. “Morte ela mesma em seu cavalo pálido”: aquelas são palavras que ele não pensaria. Somente quando se rende a este seu homem é que tais palavras vêm.

E patos de isca, ou patos-isca: O que ele, Robinson, sabe dos patos de isca? Absolutamente nada, até este seu homem começar a emitir os relatórios.

Os patos-isca dos fens de Lincolnshire, a máquina grande de execução em Halifax: os relatos de uma excursão grande que este seu homem parece fazer na ilha de Grã Bretanha, uma figura da excursão que fez em sua própria ilha na jangada que construiu, a excursão que mostrou um lado mais distante da ilha, rochosa, escura e inóspita, a qual ele sempre evitou depois, embora se no futuro colonos chegarem à ilha, talvez a explorem e se estabeleçam; essa também é uma figura: o lado escuro da alma e da luz.

Quando as primeiras levas de plagiadores e dos imitadores desceram sobre sua história da ilha e impingido ao público suas próprias histórias inventadas da vida desperdiçada, estes lhe pareceram não mais ou menos do que um horda de canibais que caem em cima de sua própria carne, e sua vida; e ele não tem nenhum escrúpulo de dizer isso. “Quando eu me defendi de encontro com os canibais, que procuram me golpear, me cozinhar e me devorar”, escreveu, “eu pensei que lutava contra a própria coisa. Eu fiz pouco, suponho, escreveu, estes canibais eram apenas figuras da mais demoníaca voracidade, que poderia devorar a própria substância da verdade”.

Mas agora, refletindo mais e mais, começa a rastejar em seu peito um toque do companheirismo para com seus imitadores. Parece-lhe agora que há um punhado de histórias no mundo; e se os jovens devem ser proibidos de rapinar em cima do velho então devem sentar-se para sempre em silêncio.

Assim na narrativa de suas aventuras da ilha diz como acordou no terror que uma noite convencido de que o diabo estava em cima dele em sua cama na forma de um cão enorme. Assim pulou de pé e agarrou uma adaga e golpeou à esquerda e direita para defender-se quando o pobre papagaio que dormia ao lado da cama gritou alarmado. Somente muitos dias mais tarde compreendeu que nem o cão nem o diabo se tinham deitado em cima dele, mas sim tinha sofrido uma espécie de pânico ou um tipo de passagem, e sendo incapaz de mover sua perna concluiu que havia uma criatura esticada sobre ele. Do evento, tirou a lição que de todas as aflições, incluindo o pânico, vem do diabo, do diabo verdadeiro; que a visita da doença pode ser a figura da visita do diabo, ou do cão que figura o diabo, e vice-versa, a visita figurada como uma doença, como na história do celeiro sobre a praga; e conseqüentemente alguém que escreve histórias de ambos, o diabo ou a praga, deve ser demitido imediatamente como um falsário ou um ladrão.

Quando, há anos, resolveu colocar no papel a história de sua ilha, percebeu que as palavras não viriam, a pena não fluiria, seus dedos eram duros e relutantes. Mas dia após dia, etapa após etapa, dominou o negócio da escrita, até pela época de suas aventuras com Sexta-feira no frio norte a escrita rolava facilmente, quase sem pensar.

Essa velha facilidade de composição o tem, infelizmente, abandonado. Quando se senta na pequena mesa de escrever diante da janela voltada para o porto de Bristol, sente sua mão desajeitada e a pena um instrumento tão estranho como nunca sentiu antes.

O outro, esse seu homem, acha fácil este negócio de escrever? As histórias que escreve dos patos e as máquinas da morte e da Londres sob a praga fluem bonitas o bastante; mas ele também fez assim suas próprias histórias uma vez. Talvez o julgue mal, esse pequeno e elegante homem de passos rápidos e uma marca em seu queixo. Talvez neste exato momento ele senta-se sozinho em um quarto alugado, em algum lugar neste reino enorme e mergulha sua pena e mergulha-a outra vez, cheio de dúvida e hesitações e segundos pensamentos.

Como devem ser tratados, estes homens e ele? Como mestre e escravo? Como irmãos, irmãos gêmeos? Como camaradas em armas? Ou como inimigos, adversários? Que nome deve ser dado a este companheiro sem nome com quem compartilha seus crepúsculos e às vezes suas noites também, aquele que se ausenta somente no dia, quando ele, Robin, anda no cais, inspecionando as novas chegadas e seu homem galopa pelo reino fazendo suas inspeções?

Irá este homem, no curso de sua viajem, alguma vez, voltar a Bristol? Anseia encontrar-se com o companheiro na carne, apertar sua mão, caminhar com ele ao longo do cais e ouvir com atenção sobre sua visita ao norte escuro da ilha, ou de suas aventuras no negócio da escrita. Mas teme que não haverá nenhuma reunião, não nesta vida. Se deve ser estabelecida uma imagem para o par, seu homem e ele, escreveria que são como dois navios que navegam em sentidos contrários, um para o oeste, o outro para o leste. Ou melhor, que são serviçais que labutam no equipamento dos navios, esse em um navio que navega para o oeste, o outro em um navio que navega para o leste. Seus navios passam perto, perto o bastante para acenar. Mas os mares são ásperos, o tempo é tempestuoso: seus olhos chicoteados pelos chuviscos, suas mãos queimadas pelos cabos, cruzam-se sem estar a reconhecer-se, muito ocupados para mesmo acenar-se.

Last modified December 7, 2003 The Official Web Site of The Nobel Foundation Copyright© 2004 The Nobel Foundation

Printout of http://www.nobel.se/literature/laur...




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Prêmio Nobel

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos