Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Bolívia: não despreze a resistência

» O adereço de Guedes e o sentido do governo

» O Chile Rebelde quer ir além

» É possível pensar o Brasil após o neoliberalismo?

» América Latina: Povo sem pernas, mas que caminha

» Cinema: Entre a cruz e o maracatu rural

» Atingida por barragem e acossada pelos poderosos

» Como o Google favorece a manipulação política

» Por um novo Pacto das Catacumbas

» Chantagem do governo aos desempregados

Rede Social


Edição francesa


» La figure imposée du dernier poilu

» Les dossiers enterrés de Tchernobyl

» Une femme à la barre de l'Argentine

» La Chine au miroir de l'Occident

» « Choc des civilisations », à l'origine d'un concept

» Les Allemands de l'Est saisis par l'Ostalgie

» A Berlin, le face-à-face des intellectuels de l'Est et de l'Ouest

» Réveil politique à l'Est

» Les Allemands de l'Est, sinistrés de l'unification

» Le difficile chemin de la démocratie espagnole


Edição em inglês


» The fall of liberal triumphalism

» Sarah Seo on Americans, their cars and the law

» November: the longer view

» Ibrahim Warde on the rise and fall of Abraaj

» Fighting ISIS: why soft power still matters

» Life as a company troll

» The imperial magazine

» Setting Socrates against Confucius

» Price of freedom on the road

» Global business of bytes


Edição portuguesa


» Golpe de Estado contra Evo Morales

» Será que a esquerda boliviana produziu os seus coveiros?

» A era dos golpes de Estado discretos

» Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019

» Sempre uma coisa defronte da outra

» OTAN: até quando?

» Alojamento local-global: especulação imobiliária e desalojamento

» Rumo a uma governança participativa da vida nocturna de Lisboa


OLIMPÍADAS

Esporte é guerra

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

De 13 a 29 de agosto, os Jogos Olímpicos de Atenas ganharão cobertura midiática comparável à da guerra do Iraque. Alguns vêem nos Jogos o símbolo da amizade entre os povos e do esforço de paz. Para outros, nada mais é que o «novo ópio do povo». Mas para além da competição, do espetáculo e do impacto econômico, há ainda outras questões, geopolíticas e estratégicas

Pascal Boniface - (01/08/2004)

Ao longo da competição, a angústia seria grande se a Al Qaeda resolvessse aparecer como convidado surpresa

Em 1896, na época dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, que também aconteceram em Atenas, atletas de apenas treze nações participavam da competição, entre os quais uma equipe de ginastas alemães e uma equipe de atletas norte-americanos. Os outros onze países se apresentavam com um ou dois concorrentes1. No total, não havia mais que 285 participantes para nove esportes representados. E o número de espectadores não ultrapassava alguns milhares.

Em Atenas 2004, as competições serão acompanhadas, no total, por mais de quatro bilhões de telespectadores, unidos pelo evento para além dos fusos horários2. Elas reunirão 10.500 atletas, representando 201 comitês olímpicos nacionais3. Podemos medir assim como os Jogos Olímpicos estão agora globalizados.

Ao longo da competição, a angústia seria grande se a Al Qaeda resolvessse aparecer como convidado surpresa. Isto explica a presença de um participante não habitual, que não concorre em nenhuma prova, mas que será encarregada de organizar a segurança: a Otan. Vários atletas norte-americanos já renunciaram à participação com medo de um atentado, e 50% de seus compatriotas estão convencidos de que os Jogos serão alvo de um ataque4. Todos têm na memória a ação do comando do «Setembro Negro», que seqüestrou e executou nove atletas israelenses nos Jogos de Munique em 1972. Para uma organização terrorista, os Jogos Olímpicos, por concentrarem mídias do mundo inteiro, são um alvo privilegiado suscetível de garantir o máximo eco a qualquer ação. Mas será que o simples fato de pesar sobre os Jogos estando presentes em Atenas nos espíritos será suficiente para satisfazer os afiliados de Osama Bin Laden?

Objetivos estratégicos

Depois da Primeira Guerra o esporte adquire audiência internacional e os governos tentam utilizá-lo para fins políticos

As preocupações estratégicas não estavam ausentes nos planos de Pierre de Coubertin, quando ele tomou a iniciativa de recriar os Jogos Olímpicos. Ele tinha em mente insuflar entre os jovens franceses um espírito de competição a fim de alcançar a Alemanha, para quem a preparação física havia sido um fator determinante da vitória de 1870. Desde 1913, era possível ler na imprensa esportiva alemã: «A idéia olímpica da era moderna simboliza uma guerra mundial que não mostra seu caráter militar abertamente, mas que dá aos que sabem ler as estatísticas esportivas uma noção suficiente da hierarquia das nações» 5.

Os Jogos de Estocolmo em 1912 foram igualmente uma tribuna de expressão e de reivindicações políticas. Assim os povos não independentes, como os finlandeses, os tchecos, os eslovacos ou os húngaros, reinvidicavam o direito de participação autônoma e não sob as bandeiras dos impérios aos quais pertenciam.

Mas é depois da Primeira Guerra Mundial que o esporte adquire uma verdadeira audiência internacional e que os governos se sentem tentados a utilizá-lo para fins políticos. Os Jogos Olímpicos se tornam então um encontro prestigioso, garantindo uma visibilidade internacional, permitindo que o país organizador mostre ao mundo inteiro seus progressos tecnológicos e sua capacidade de organização.

O peso da exclusão

A exclusão dos Jogos confere um estatuto de Estado indigno de ser convidado à mesa do esporte e da amizade

A participação também tem uma importância simbólica evidente. A exclusão vem estigmatizar um estatuto de Estado indigno de ser convidado à mesa do esporte e da amizade. Assim, em 1920, a Áustria, a Bulgária, a Alemanha, a Hungria e a Turquia pagaram com a ausência sua participação na Grande Guerra. Inversamente, a escolha de Berlim para os Jogos de 1936 será considerada como a prova de que a Alemanha está de volta à cena mundial depois de sua derrota de 1918.

Esta decisão havia sido tomada antes da chegada de Hitler ao poder. Este tentou utilizar o evento para mostrar ao mundo a superioridade do nazismo e da «raça ariana», tanto no plano da capacidade de organização quanto da performance esportiva. Sobre este segundo ponto, lembre-se sua decepção diante do sucesso dos atletas negros norte-americanos – especialmente de Jesse Owens, que conquistou quatro medalhas de ouro6.

Depois da Segunda Guerra Mundial, Alemanha e Japão não foram convidados para os Jogos de 1948 em Londres. Já os de 1952, em Helsinki, promoverão a reintegração da Alemanha, a admissão de Israel e a primeira participação soviética7, cuja delegação não ficaria hospedada na Vila Olímpica para evitar os contatos com «o inimigo» e as defecções. Uma segunda Vila seria ainda construída para o conjunto dos atletas dos países do Leste.

Sobressaltos geopolíticos

As Olimpíadas são muito ligadas a sobressaltos geopolíticos, e não raro as ausências significam protesto

Por outro lado, como o Comitê Olímpico Internacional (COI) se adiantou em relação à ONU no reconhecimento da China Popular, Taiwan se retirou a fim de protestar contra a presença em Helsinque de uma delegação de Pequim. Isto não impediria a China, em 1958, de também deixar o COI. O esporte, sob Mao Tsetung, tinha apenas uma função pedagógica e higiênica, não sendo então o caso de fazer vibrar a fibra nacionalista pelo viés da competição esportiva. Seria preciso esperar a morte do Grande Timoneiro, em 1976, para que o esporte voltasse a ser um argumento de afirmação nacional. A China se destacaria, a partir de então, tanto na busca de medalhas, quanto nas graves suspeitas de dopping sobre os sucessos de seus atletas. Taiwan retomou seu lugar no COI em 1981 e compete agora com a China Popular. As duas Coréias falam regularmente, desde a atribuição dos Jogos a Seul, em 1988, em criar uma delegação comum, sem que isso tenha logrado acontecer até agora. O esporte talvez avance mais que a geopolítica, mas não muito. A Palestina, que continua sem Estado, é membro do COI desde 1994. Para os palestinos, participar dos Jogos constitui um começo de reconhecimento internacional e, em Atenas, eles poderão desfilar atrás de sua bandeira.

A escolha de Sydney para a organização dos Jogos de 2000, no lugar de Pequim, foi vivida pelos chineses como um não-reconhecimento de seu novo estatuto mundial. Afronta reparada pela atribuição dos Jogos de 2008, que foi interpretada como a consagração da volta da China à condição de grande potência.

Os acontecimentos olímpicos são muito ligados aos sobressaltos geopolíticos. Assim, em 1956, o Egito, o Iraque e o Líbano boicotaram os Jogos de Melbourne para protestar contra a ocupação franco-anglo-israelense do Canal de Suez, enquanto a Espanha e a Suíça faziam o mesmo para denunciar a intervenção soviética na Hungria.

Em busca da mídia

O COI proclama alto e forte que é apolítico, mas ninguém acredita nisso nem por um só instante

A edição de 1976 aconteceu sem a participação das nações africanas, descontentes por não terem conseguido a exclusão da Nova Zelândia, que se havia tornado culpada de ter enviado uma equipe de rugby à África do Sul do apartheid. É digna de nota também a mobilização orquestrada pelos Estados Unidos (não seguida pela França) contra os Jogos de Moscou em 1980, para protestar contra a invasão do Afeganistão e que privou a União Soviética do reconhecimento internacional ao qual ela aspirava. Moscou se consolaria ganhando muitas medalhas. Em contrapartida, o regime soviético, que tentou sua revanche organizando um boicote aos Jogos de Los Angeles em 1984, seria seguida por apenas 12 países comunistas, o que se mostrou um fracasso.

A arma do boicote parece hoje impraticável. Ninguém iria renunciar à exposição midiática excepcional perpetrada pelos Jogos. Ao contrário, a exclusão é uma ameaça de castigo supremo.

Tudo isso confere então ao COI – organização não-governamental de um gênero particular – um poder temível. Composto de 115 membros, ele foi dirigido por longo tempo por Juan Antonio Samaranch, um ex-dignitário franquista, que no entanto foi ativo para evitar a anulação dos Jogos de Moscou em 1980.

O jogo do COI

Durante a Guerra Fria, Washington e Moscou viam um meio de provar sua superioridade pro meio das medalhas

Para além dos representantes das federações internacionais de esportes e dos representantes dos comitês nacionais olímpicos, o COI é igualmente composto de 70 membros cooptados a título individual, e que estão mais próximo do jet set que do movimento esportivo.

O Comitê detém todos os direitos de organização, de exploração e de difusão dos Jogos. Ele é financiado pelas somas pagas pelas televisões para a retransmissão das competições e por uma parceria frutífera com as empresas «madrinhas» multinacionais, com um orçamento total de 2,8 bilhões de dólares (perfazendo o PIB de um Estado como o Mali, por exemplo). O COI não está ao abrigo do escândalo. Vários de seus membros foram acusados de corrupção em 2002, na ocasião dos Jogos de Inverno de Salt Lake City, nos Estados Unidos. Sete deles foram expulsos, enquanto quatro outros pediram demissão.

O COI proclama alto e forte que é apolítico. Ninguém acredita nisso nem por um só instante. Suas decisões, quer se trate do reconhecimento de um comitê nacional ou da escolha da cidade organizadora dos Jogos, são essencialmente políticas. Não há nenhuma dúvida de que os argumentos geopolíticos terão um papel relevante na atribuição dos Jogos de 2012 (Paris é candidata), decisão que deve acontecer em julho de 2005. Neste sentido, a mudança do governo na Espanha facilitará a candidatura de Madri, que se diferencia das de Nova York ou Londres? Paris conta secretamente com a popularidade de sua política internacional para interferir na decisão final.8

Janela para o mundo

Como em todas as competições esportivas, pode-se deplorar o chauvinismo que os Jogos às vezes suscitam

Se há nações dominantes, assistimos há algum tempo a uma melhor repartição das medalhas9. Pequenos países podem sonhar em existir em escala planetária no momento de uma final. Lembramos de Saint-Kitts-et-Nevis, minúscula ilha-Estado do Caribe, projetada na cena internacional graças à medalha de ouro de Kim Collins nos 100 metros rasos do mundial de atletismo de 2003. Durante a guerra fria, a rivalidade Leste-Oeste se encontrava também nos Jogos Olímpicos. Washington e Moscou viam ali um meio de provar a superioridade de seu sistema por meio das medalhas. Nos Jogos, havia então uma rivalidade particular opondo as duas Alemanhas, enquanto que Cuba via em seus sucessos o resultado positivo de suas políticas educativa e sanitária.

Desde sua segunda participação em 1956, a URSS ultrapassa os Estados Unidos, com 37 medalhas de ouro contra 32. Superioridade confirmada em 1960 (43 contra 34). Em 1964, os Estados Unidos voltam à dianteira (36 a 30), como em 1968 (45 a 29). Em Munique, acontece uma dupla vitória dos países comunistas, a URSS conquista 50 medalhas de ouro, os Estados Unidos com 33, a Alemanha Oriental com 20 e a Alemanha Ocidental com 13. A superioridade é confirmada em 1976 e, evidentemente, em 1980, já que os Jogos de Moscou foram boicotados pelo Ocidente. Os últimos Jogos da Guerra Fria, em Seul, foram ainda um triunfo para os países comunistas. A URSS chegou na frente (55 medalhas de ouro), seguida pela Alemanha Oriental (37). Os Estados Unidos acabaram em terceiro, com 36 medalhas.

A guerra sem armas

Pequenos países podem sonhar em existir em escala planetária no momento de uma final

Como em todas as competições esportivas, pode-se, com efeito, deplorar o chauvinismo que os Jogos às vezes suscitam. Consumido com moderação, ele busca o nível de paixão necessária para permanecer devidamente confinado nos recintos esportivos. Neste quadro, «o outro» é indispensável à competição. Porque as vitórias dos campeões estrangeiros fazem vibrar, apesar de tudo. No final, sem cair nos excessos do discurso moralizador do COI, os Jogos Olímpicos abrem uma janela para o mundo e para outros povos.

O esporte talvez seja a guerra, mas, como queriam os gregos antigos, uma guerra ritualizada, sem armas, sem derramamento de sangue e sem morte. É também uma educação para a paz. Os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning observaram, com justiça: "No nível internacional, as manifestações esportivas como os Jogos Olímpicos ou a Copa do Mundo de Futebol consituem, de maneira visível e regular, a única ocasião de união para os Estados em tempos de paz. Os Jogos Olímpicos permitem aos representantes de diferentes nações que possam se desafiar sem se matarem10".

(Trad.: Fábio de Castro)

1 - Ler Stéphane Pivato, As questões do esporte, Gallimard, Paris, 1994, p. 59
2 - Paroxismo de esporte e espetáculo, vemos os cidadãos de cada país se interessarem por modalidades cujos resultados lhes são normalmente indiferentes, desde que seus representantes tenham alguma chance de medalhas ou de chegarem ao espaço de celebração do pódio. Cf. Paul Yonnet, Sistemas dos esportes, Gallimard, Paris, 1998, p. 50.
3 - A ONU não tem mais que 191 membros.
4 - Cf. Le Monde, 10 de junho de 2004.
5 - Pierre Arnaud, “La nouvelle donne géopolitique 1919 –1939» , in Géopolitique, Paris, julho de 1999.
6 - A Alemanha levaria 33 medalhas de ouro, contra 24 dos Estados Unidos.
7 - A URSS, com 22 medalhas de ouro, terminaria em segundo, atrás dos Estados Unidos, com 40 medalhas de ouro.
8 - Moscou é a 5a cidade que sobrou em competição. Leipzig, Havana, Rio e Istambul foram eliminadas, com o COI refletindo assim uma escolha Norte-Sul ditada por considerações mais financeiras que políticas.
9 - Em Sydney, 80 países receberam.
10 - Norbert Elias, Eric Dunning, Esporte e civilização, a violência controlada, Fayard, Paris, 1995, p. 307.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Esportes
» Geopolítica Mundial

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos