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ALEMANHA

Os alemães se rendem à “ostalgia”

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Quinze anos depois da queda do muro de Berlim, os alemães do leste não encontraram as “paisagens em flor” prometidas após a unificação. Enfrentam o desemprego, a privatização do sistema de proteção social. A dura realidade ocidental do presente é uma das explicações para a nostalgia da experiência da República Democrática Alemã

Dominique Vidal, Peter Linden - (01/08/2004)

Os alemães orientais experimentam certa nostalgia em relação a seu passado, batizada de ostalgia

No Berliner Ensemble de Bertolt Brecht, George Tabori monta Os Judeus, de Lessing. Também poeta, Tabori acrescentou alguns versos de sua lavra: “Ah, os bons velhos tempos. Eles se foram, que pena, graças a Deus”. Pensava ele na ambivalência da nostalgia que os alemães orientais experimentam em relação a seu passado, e que aqui chamamos de ostalgia1?

Marianne Birthler destaca-se em meio a uma montanha de papel: os dossiês da Stasi, a polícia política da ex-República Democrática Alemã (RDA). Sobre o filme Adeus, Lênin, ela diz: “Também me lembro com prazer de um ou outro trecho de música ou objeto. Mas não tenho tanta saudade assim da RDA”. Para ela, a ostalgia “serve de defesa para aqueles que sentem a crítica ao socialismo como um questionamento de sua própria biografia”. Promovido a “presidente” da Alemanha Oriental em Adeus, Lênin, o cosmonauta Sigmund Jähn vê na ostalgia uma expressão da “não-cultura no estilo americano. As pessoas fazem o que lhes dizem para fazer” e que pode “deixar os alemães orientais cozinharem em seu sumo para acalmá-los”.

Sem negar o interesse dos ossis – habitantes dos novos Länder2 – por seu passado, o professor Jens Reich fala de “epifenômeno montado pelos meios de comunicação”. Depois da queda do muro, lembra ele, os partidários de uma “democratização” da RDA haviam reunido, incluindo os Verdes, cerca de 5% dos votos. “E os 95% restantes, desejosos de acabar com o comunismo, nos xingavam”. Para o efêmero deputado, a ostalgia liquida o fim “coletivo e voluntário de uma época”. Em sua opinião, a última chance da reforma do comunismo foi “desperdiçada em Praga em 1968”.

Rastros do passado

A RDA desapareceu sem que fosse feito o seu sepultamento. A ostalgia acontece com atraso

Thomas Brüssig, escritor da moda, observa que a RDA “desapareceu sem que tivéssemos feito o seu sepultamento. A ostalgia acontece com atraso”. A nostalgia “pertence à natureza humana. Todo mundo gosta de lembrar a sua juventude. E o tempo que passa embeleza tudo”. Tanto que se repete aos ossis< /i>: “Da RDA, não há nada para guardar, a não ser a flecha verde3”. Mas esse sepultamento parece impossível para a sra. Brigitte Rauschenbach, professora na Universidade Livre de Berlim, posto que “os alemães orientais não irão assumir a ambivalência de seus sentimentos desse ponto de vista”. Como em 1945: as pessoas sentiam um misto de amor e ódio por Hitler sem ter consciência disso. “A ostalgia”, detalha ela, “parece mais com uma melancolia difusa.”

Com seu livro Zonenkinder4, Jana Hansen fez grande sucesso. Ele permitiu a “passagem da memória individual para a memória coletiva”: seus concidadãos de ontem avaliaram que "sua história não era marginal, e sim central”. Cada um deles – quer tenha ficado no Leste, quer tenha ido para o Ocidente – esforça-se portanto para encontrar os rastros da RDA: canções, produtos alimentícios, programas (ver, nesta edição, A moda e o mercado)...

Paradoxalmente, o último presidente da RDA, Egon Krenz, a quem essa onda deveria alegrar, se faz de rogado. Em sua casa modesta no Báltico, o ex-prisioneiro5 evoca de início o reverso da medalha: não um “trabalho de memória”, mas uma “caricatura” que “ridiculariza a vida na RDA”. Stefan Arndt, o feliz produtor de Adeus, Lênin, recorre ao mesmo termo: “Faz-se uma caricatura: ‘Ah, como era ruim aquela coca! E eles não tinham bananas! E seus horríveis papéis pintados! Ha, ha, ha, vamos rir!’ Nenhuma palavra nesses ‘shows’ sobre a vida real”.

Decepção com o presente

Apesar de tudo que deu errado, havia trabalho para todos, moradias baratas, um sistema de saúde gratuito

Pressionado em suas trincheiras, o sr. Krenz acabou por admitir um “lado bom” da ostalgia: “As pessoas do Leste conheceram duas sociedades e podem portanto comparar”. Elas são 17 milhões e sabem que a RDA “não se resume ao Trabant ou à Stasi. Apesar de tudo que deu errado, havia trabalho para todos, moradias baratas, um sistema de saúde gratuito e que funcionava... Tantas conquistas de que eles sentem saudade”. Célebre tanto no Ocidente como no Leste, o show-man Peter Ensikat analisa a tendência atual como “uma reação ao que aconteceu depois da queda do muro”. Os ossis tinham “jogado tudo fora sem refletir”. Tudo que queriam era “o Ocidente”, do qual não conheciam nada, “a não ser as propagandas na televisão da Alemanha Ocidental”.

E se a ostalgia surgisse justamente do choque entre, de um lado, decepção com o presente e, de outro, saudade do passado? “Quanto mais vivemos o capitalismo, mais nos perguntamos o que havia de errado com o socialismo”, resume o jornalista Wolfgang Herr. Normal, alguém irá dizer: ele escrevia no diário comunista Neues Deutschland. Mas todos os ossis, ou quase todos, repetem: “Nem tudo era tão mal ontem” e “nem tudo é tão bom hoje”.

Face a face, um avô e seu neto, os dois jornalistas: Gerhard Leo, de 81 anos, e Maxim Leo, de 34. Para o primeiro, a ostalgia exprime “a recusa da ‘nova sociedade’ por um número cada vez maior de alemães orientais, desesperados a ponto de esquecer os vícios da RDA”. Maxim, justificando a “autodefesa legítima de uma vida desaparecida”, fala no entanto da “lembrança de uma RDA que nunca existiu”. Gerhard acha que o princípio da sociedade de ontem – “uma vida segura para todos” – deveria reger a sociedade de hoje. Para Maxim, ao contrário, o preço era “muito caro” em termos de liberdade e eficácia. “Segurança rima com mediocridade: impedir as pessoas de serem bem-recebidas é deter o motor social. Se elas conseguirem se tornar ricas, isso será redistribuído depois.” A velha palavra de ordem liberal – “Enriqueçam!” – de Guizot por acaso permitiu a extinção da pobreza?

Promessas traídas

O modelo do Leste era a mulher trabalhadora, no Ocidente é a dona de casa

Jovem sindicalista da IG Metall, Christian Schletze ainda busca as “paisagens floridas” prometidas pelo chanceler Kohl: “A economia da minha região foi destruída, e, por falta de financiamentos, a escola, a saúde, a cultura não funcionam mais normalmente”. Para que serviram os 1.250 bilhões de euros investidos nos Länder do Leste, que oferecem hoje menos de 6 milhões de empregos contra 9,7 milhões em 1989? A jornalista Renate Marschall lembra-se da “ferida” dos ossis convencidos de que daqui em diante somente os “esforços” iriam contar: “Não temos mais necessidade de suas competências, lhes disseram, vocês são inúteis”.

De fato, as “Trinta Gloriosas” anunciadas tornaram-se... as Dez Desastrosas. Autora de coletâneas de entrevistas de ossis6 , Rita Kuczynski data da unificação “o princípio do fim do Estado social”. Ela nota cada vez mais pontos comuns “entre a atual estagnação da RFA e aquela da RDA dos anos 1980”. Daí a saudade da Alemanha comunista – “injustificada: por que 4 milhões de seus cidadãos a deixaram? Será que ela não abriu falência?”

E as mulheres? Saíram ganhando? “O modelo do Leste era a mulher trabalhadora, no Ocidente é a dona de casa”, lembra Inge Dolling, professora na Universidade de Potsdam. Também na RDA o grosso das tarefas domésticas cabia a elas. Mas o crescimento do desemprego conjugado com o desmantelamento das creches minou a liberação – relativa – pelo trabalho: “Na RDA, 86% das mulheres trabalhavam, e hoje não passam de 56%.” E a fertilidade das alemãs orientais diminuiu pela metade em quinze anos, chegando ao nível de 1929! Diz Stefan Arndt: “Entre nós, as mulheres sozinhas com crianças se saíam bem. Agora, elas estão ameaçadas de mergulhar na pobreza. Mesmo quando se consegue uma vaga numa creche, esta abre às 9 horas e fecha às 14. Quem consegue viver trabalhando 3 ou 4 horas?”

Solidariedade e segurança

Mais do que das conquistas sociais, os ossis têm saudade de uma forma de vida sem competição, tranqüila

Mais do que das conquistas sociais, os ossis sentem saudade – sugere Jens Reich – “de uma forma de vida sem competição, tranqüila, onde havia um convívio, uma vida quase familiar”. Nas empresas, durante as pausas para café às 10 e às 15 horas, as pessoas conversavam umas com as outras. “A Alemanha Oriental se integrava confortavelmente no Kollektiv, da creche ao trabalho”, destaca Wolfgang Engler, professor de sociologia da cultura na escola de teatro Ernst Busch. “Seu eu se construía entre necessidades individuais e necessidades coletivas, o que permitia que o grupo encontrasse um equilíbro.” Muitas pressões do alto ameaçavam o grupo, muitas pressões de baixo ameaçavam o Estado. “Essa consciência de estar junto criou sentimentos de solidariedade.”

E de “segurança”, acrescenta Pascal Thibault, jornalista francês sediado em Berlim. De sua história, os alemães herdaram o medo do porvir. Os franceses dizem: “Nunca se tem certeza de que o pior irá ocorrer”. Já os alemães afirmam “É sempre possível ter”. O que mais falta aos ossis é a tranqüilidade da Alemanha Oriental, que o escritor Volker Braun definia como “o país mais tedioso do mundo”. “Os desempregados, os que levam uma vida precária e os sem-teto têm saudades desse tédio”, responde Peter Ensikat. Tratava-se, prossegue ele, de uma “sociedade de nichos”: qualquer pessoa, se não ultrapassasse os limites, poderia “viver uma vida medíocre e segura, sem ter de se envolver com o sistema”. Depois o show-man diz: “Era mais fácil escapar às pressões da burocracia de ontem do que das pressões financeiras de hoje”. Os ossis se sentem tão impotentes quanto antes. “É verdade que hoje se pode esbravejar, mas de que adianta?” Nem o mínimo está garantido...

Testemunho após testemunho, ninguém, ou quase ninguém, se lembra do muro e da Stasi. Os mais hostis falam de “segunda ditadura”. Comparação absurda: o nazismo, com a guerra, matou 60 milhões de seres humanos, entre os quais vários milhões de “genocidados” – judeus, ciganos, deficientes físicos, eslavos... No entanto, as estatísticas de Marianne Birthler impressionam: os quarenta milhões de fichas da Stasi, com a qual 2% da população colaboravam, mencionam a metade dos cidadãos da RDA. A qual totalizou 250 mil prisioneiros políticos...

Vozes dissonantes

Stasi ou não, existem aqueles que são contrários a que se sinta saudades do cenário comunista

“Quem não fosse politizado, não trombava com a Stasi”, responde Marie Borkowski, viúva de um dissidente que ficou longo tempo na prisão. “Voltadas para sua vida particular, as pessoas ignoravam o que se passava.” Rita Kuczynski confirma: era possível viver “uma vida inteira sem problemas”, desde que se conhecesse a “regra do jogo”. Thomas Brüssig concorda: Bastava não se fazer notar, não ‘fazer oposição’ contando piadas”. Mas quais? Segundo o jornalista Wolfgang Herr, “na RDA, uma brincadeira sobre Honecker corria o risco de criar os piores embaraços, mas uma pessoa podia chamar seu chefe de “porco”. Na Alemanha Ocidental, alguém pode xingar Schröder disso, mas não pode fazer o mesmo com o chefe, a não ser que queira ser mandado embora”.

Stasi ou não, alguns são contrários a que se sinta saudades do cenário comunista. Diz a sra. Birthler, com irritação: “Um escravo não pode fazer mal. E nem todo mundo ama a liberdade”. Thomas Brüssig, pontificando: “Muitos homens têm medo da liberdade, preferem a segurança”. O antigo regime convinha a pessoas “com as quais você não conversaria nem meia hora – gente primitiva, vazia em termos emocionais e intelectuais”. Elegante, Iris Radisch louva Wolfgang Hilbig, primeiro escritor a ousar mostrar a RDA “como ela era: morta, fria e cinza7 ". Vulgar, o pintor Jens Bisky, para achar um símbolo para a mentalidade dos ossis, recorre a uma expressão intraduzível – “Duldungsstarre” – que os criadores de gado usam para descrever “a porca que, paralisada pelo cheiro do macho reprodutor, espera o acasalamento8 ”.

Esses intelectuais, retruca Jana Hansen, “queriam democratizar a RDA e fracassaram”. Eles não gostam do povo. “Não têm idéia do que significam 35% de desempregados, de vidas partidas, uma pátria quebrada.” Quanto a Wolfgang Engler, acha “insuportável” esse olhar “de desprezo” que os “esnobes” dirigem às “pessoas simples”. Como se quisessem fazer os ossis pagarem por seu próprio fracasso em 1991: “Eles odeiam aqueles que não os levaram ao poder, optando pela unificação e pelo marco alemão”.

Sem passado, nem dignidade

Ao contrário de outros países do Leste, a RDA desapareceu, e os reunificadores tentaram apagar qualquer traço dela

Os outros povos da Europa do Leste liberados do antigo regime conservaram sua nação. Isso não ocorreu com os alemães orientais: a RDA desapareceu, e os reunificadores tentaram apagar qualquer traço dela. “Nosso país não existia mais, nós não existíamos mais”, lamenta Maxim Leo. E seu avô aponta a insolente injustiça dos vencedores: “Um terço dos ossis tiveram de deixar sua casa, “restituída” a um alemão ocidental, mas nenhum se beneficiou dessa lei – os judeus espoliados pelos nazistas também não”. Com que alimentar a ostalgia. A estudante Anja Weinhold sofreu com a eliminação da DT64, uma emissora de rádio muito popular: “No vilarejo onde moro, essa era minha única ligação com o mundo exterior”. Naquele dia, ela sentiu-se como uma “estrangeira em sua própria terra”. Mesmo o chocolate favorito dos ossis, o Raider, mudou de nome: foi rebatizado de Twix! Conclusão de Vincent von Wroblewski, filósofo e tradutor de Jean-Paul Sartre: “Ao negar nosso passado, nos tomaram nossa dignidade”.

Para Michael Gauling, um dos antigos integrantes do semanário satírico Eulenspiegel, cada geração tem sua ostalgia: “A dos jovens tem a ver com a revolução de 1989-1990, que realmente fracassou, mas nos marcou”. Gerhard Leo se revolta ainda com os “meses de loucura, entre o `Nós somos o povo’ dos partidários da democratização e o `Nós somos um povo’ dos defensores da unificação”. Uma explosão de democracia: panfletos, comícios, manifestações. “Ah!, se isso tivesse continuado”, alguns dizem agora. Infelizmente o marco alemão prevaleceu sobre “a revolução que tantos cidadãos, aí incluídos os comunistas, esperavam há tanto tempo”. Como muitos wessis, acrescenta Rita Kuszynski: “Os partidários das idéias de 1968 se projetavam, apesar de tudo, na RDA”. A queda do muro parecia anunciar, para eles, a revolução. “Depois da reunificação, todos eles nos acusaram: ‘Por que vocês sacrificaram a alternativa?’.”

Futuro da política

A RDA era um Estado operário burocrático, mas também era uma sociedade mais igualitária

Pois a ostalgia não tem a ver apenas com o passado. Cinco estudantes brindam num café, na praça Rosa de Luxemburgo, diante da Volksbühne. “A antiglobalização – sobretudo a Attac – tem futuro no Leste”, assegura Uwe Lorenz, um futuro profissional da informática. Os novos Länder se mobilizam mais que os antigos contra a política de “liquidação social” do chanceler Gerhard Schröder – eles são, na verdade, as primeiras vítimas dela. Em Berlim, mesmo a Universidade Humboldt, no Leste, experimenta greves mais intensas que a universidade livre, do Ocidente. Luigi Wolf, estudante de ciências políticas, insiste: o movimento antiguerra é “mais radical” na ex-RDA.

Os ossis”, retoma Uwe Lorenz, “apóiam-se numa identidade mais assegurada que os wessis, porque conheceram uma forma de socialismo. Se eles imaginarem uma outra, tudo irá mudar”. Christian Scheltze o interrompe: eles sabem qual é socialismo que querem porque “sofreram o stalinismo”. “Meu avô dizia: a RDA não é um Estado socialista. Este ainda está por ser construído. Pessoas acreditaram nesse Estado em 1989, e ainda lutam por ele”. Com sua experiência, os ossis dispõem de um “potencial formidável”. Uwe Lorenz recusa a comparação entre stalinismo e capitalismo. “A RDA era um Estado operário burocrático, mas também era uma sociedade mais igualitária."

Estudante de ciências políticas, Anja Weinhold se confessa “mais pessimista”. Somente 2% dos ossis acham que podem mudar o rumo da política, considerando sua experiência: o regime comunista não os ouvia, e o regime capitalista os transformou em “cidadãos de segunda classe”. “A ostalgia”, prossegue a jovem, “os ajuda a recuperar a confiança”, reabilitando, no passado deles, o que merece ser reabilitado e que deve ser defendido por uma ação coletiva. “Eu sei do que sou orgulhosa e o que desejo reconquistar, mas também sei o que não quero mais.” Uwe Lorenz se considera mais circunspecta: “Um outro mundo é possível”, mas como? As respostas e os exemplos permanecem raros, e, no entanto, a referência aos países do Leste continua sendo um tabu”.

Sonhos e alternativas

Por falta de uma “alternativa convincente”, mesmo os intelectuais investem na carreira, adaptam-se ao sistema

Alguém se exaltou: “Vamos reconciliar o movimento emancipador e a utopia”. Vincent von Wroblewsky tem suas dúvidas. Não se trata de renunciar ao ideal socialista, “mas anunciando francamente o que é possível e o que não é”. Da maturação, rápida, dos ossis, ele diz: “Eternos traídos da história, eles perderam qualquer ilusão”. A resignação, a despolitização e a xenofobia dominam. E os 25% do Partido do Socialismo Democrático (PDS)? Um voto de “mal-estar”, de “rejeição” e de “nostalgia”. Por falta de uma “alternativa convincente”, mesmo os intelectuais investem na carreira, procuram um nicho, adaptam-se ao sistema. A ostalgia portanto representa muito mais uma “fuga para fora da alternativa”.

Alternativa essa que Wolfgang Engler vê tomar corpo: “Meu otimismo é filho da crise. Cada vez mais as pessoas querem recusar as conseqüências dela”. Convencido da necessidade de reformas sociais radicais, irrealizáveis no sistema atual, ele considera as boas conquistas da RDA como uma “perspectiva utópica baseada na satisfação das necessidades humanas9 ”. Daí a importância da lembrança de 1989-1991, quando todo mundo – trabalhador, camponês, intelectual – dialogou sobre tudo com todos. “Quem não gostaria de ter um país que oferecesse trabalho e justiça para todos?” O ex-cosmonauta Sigmund Jähn tem saudades do “humanismo” e continua a “sonhar com uma sociedade de justiça social, que se consagre a educação e a cultura e não exalte a violência”. Silêncio: “Não estamos mais afastados hoje do que ontem”. “Ninguém gosta de dizer adeus a seus sonhos de juventude”, assegurava o dissidente Dieter Borkowski...

Um poema de Bertolt Brecht diz:

“Estou na beira de um caminho O motorista troca um pneu Não me sinto bem lá de onde venho Não me sinto bem lá para onde vou Por que então observo a troca do pneu Com impaciência?”

(Trad. : Marcelo de Valécio)

1 - NT.: Neologismo formado a partir da palavra “ost”, que em alemão significa leste
2 - NT.: Corresponde a uma unidade da federação, o nosso estado.
3 - A RFA adotou a flecha verde, que, na RDA, permitia que, com o farol vermelho, o condutor virasse à direita
4 - “As crianças da zona” (subtenda-se soviética, nome por muito tempo dado na Alemanha Ocidental à RDA).
5 - Julgado responsável – sem prova – pela ordem de atirar nos cidadãos da RDA que tentassem fugir do país, foi condenado a seis anos e meio de prisão. Cumpriu quatro, dois dos quais em período semiaberto. Ainda deve meio milhão de francos ao Estado.
6 - Die Rache der Ostdeutschen (A Vingança dos Alemães Ocidentais) e Im Westen was neues ? (De novo no Ocidente?), Parthas, Berlim, respectivamente 2002 e 2003.
7 - Literaturkritik.de, n° 3, março de 2002.
8 - Berliner Zeitung, Berlim, 11 de março de 2004.
9 - Os valores preferidos do Leste são, pela ordem, a seguridade social, a justiça, a liberdade, a solidariedade e a igualdade. Cf. Wolfgang Engler, Die Ostdeutschen als Avantgarde (Os Alemães do Leste como Vanguarda), Aufbau-Verlag, Berlim, 2002.




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