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HISTÓRIA

O genocídio no tempo de Gêngis Khan

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Cerca de duzentas guerras, 200 milhões de mortos, 2% da população: o século XX está dentro da norma média de barbárie do que os que o precederam. Antes da vez da cristandade européia, Gengis Khan e Tamerlão espalharam terror e morte, arrasando povos da Ásia à Europa

Chistian de Brie - (01/08/2004)

A imensa maioria dos cerca de 40 bilhões de humanos que viveram durante este milênio que acaba de se encerrar sofreram pelo menos uma guerra durante sua curta vida

Que o século XX foi o mais assassino da história é uma opinião comumente partilhada. A acumulação das perdas humanas durante as duas guerras mundiais – sem nem falar das precedentes e seguidas por dezenas de outras – os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade, culminando com o genocídio dos judeus na Europa, a utilização de armas de destruição em massa, inclusive a arma atômica, contra populações civis transformadas em motores dos conflitos, tudo parece contribuir a fazer deste século a “idade dos extremos1 “. Pelo menos no que se refere à amplitude das devastações, número de vítimas e barbárie dos verdugos.

Ora, nada é menos certo. Exceto em referência a um período de calma provisória em um território limitado ou ao mito da « guerra limpa ». Mas se se estende a observação às populações do conjunto do planeta, em toda a duração do segundo milênio que acaba de encerrar-se, as certezas vacilam.

Nem um ano de paz na terra no decurso destes mil anos, mas muitos milhares de conflitos : invasões e conquistas, guerras tribais e étnicas, feudais, dinásticas, nacionalistas, coloniais e imperialistas, guerras civis e guerras de religião, insurreições, guerrilhas, guerras de libertação, revoltas e revoluções, incursões e piratarias... A imensa maioria dos cerca de 40 bilhões de humanos que viveram durante este milênio sofreram pelo menos uma guerra durante sua curta vida2.

Corte de tiranos

Miséria, ignorância, submissão foram o destino comum desta humanidade, camponesa em mais de 90%3 , explorada por uma minoria de predadores cúpidos – senhores feudais, proprietários, usurários – esmagada por corvéias e impostos, subsistindo no limite da sobrevivência, numa insegurança permanente, entre dois conflitos mortais e destrutivos em que é sempre prejudicada, ao mesmo tempo presa e butim.

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Miséria, ignorância, submissão foram o destino comum desta humanidade, camponesa em mais de 90%, sob o jugo de uma interminável corte de tiranos prosperando sobre sua espinha

Sob o jugo de uma interminável corte de tiranos prosperando sobre a espinha dos povos : imperadores, reis, sultões, xás, xoguns, generalíssimos, caudilhos, presidentes, príncipes e barões, ministros e vizires, papas e califas... Todos sedentos de glória, de poder e riqueza, prontos a quaisquer ignomínias para conquistá-los ou preservá-los, moldados por ódios inexpiáveis, em guerra permanente uns contra os outros em nome de Deus, da civilização, da bandeira ou do partido.

Ontem como hoje, paz e relativa prosperidade foram o privilégio provisório de apenas um pequeno número. Aqueles que na Europa Ocidental e na América do Norte se beneficiam há meio século – um décimo da população mundial – não devem iludir. Ao mesmo tempo, em toda parte, as guerras, mais de uma centena, devastaram, das quais os ocidentais, poupados, foram com freqüência os instigadores e os atores. Tanto das mais mortíferas4 quanto daquelas ditas « de baixa intensidade ». Mas o que é um conflito de baixa intensidade para quem teve metade da família massacrada e a outra metade, depois de um interminável êxodo mortal, definha num campo de refugiados sem esperança de voltar ao seu país reduzido a cinzas ?

Barbárie na média

Cerca de duzentas guerras, 200 milhões de mortos, 2% da população do século5 : o século XX está dentro da norma média dos que o precederam. A tal ponto que, ao longo do milênio, encontramos tudo o que acreditamos serem as características sas perseguições do século passado: massacres de populações inteiras, deportações e marchas da morte, campos de extermínio, liquidações sistemáticas de prisioneiros, estupros, torturas e execuções sumárias, terror contra toda veleidade de resistência, sujeição e escravização dos sobreviventes. Mas também pilhagens, destruição pelo fogo e aniquilação de cidades, aldeias, culturas e meios de produção. Crimes de guerra e crimes contra a humanidade provocando o êxodo miserável das populações sobreviventes, abandonadas aos assaltantes e à guerra civil, vítimas de horríveis fomes e logo dizimadas pela propagação de epidemias mais devastadoras do que as carnificinas. Tudo em nome de ideologias na maior parte das vezes messiânicas e racistas. A começar pela veiculada pela santa Bíblia, cujo Deus genocida do Velho Testamento seria hoje passível de comparecer ao Tribunal Penal Internacional6.

O que é um conflito de baixa intensidade para quem teve metade da família massacrada e a outra metade, depois de um interminável êxodo mortal, definha num campo de refugiados?

Guerras e massacres não cessaram de ensangüentar o mundo : em toda época e lugar, é o denominador comum de uma história inumana que não esperou o século passado, a guerra industrial, as tecnologias das armas de destruição em massa e as fábricas da morte para cometer o pior. De resto, com 900 000 mortos em noventa dias, de abril a junho de 1994, o que dá uma média de 10 000 por dia, o último genocídio do milênio, o dos Tutsis ruandeses, vem nos recordar que a machadinha pode se revelar tão « eficiente » quanto a câmara de gás.

O apocalipse de Gêngis Khan

Na litania interminável das perseguições que precederam as do século XX, duas séries, pelo menos, merecem uma menção particular por sua duração, extensão e selvageria, perpetrando durante séculos indizíveis apocalipses. A primeira refere-se aos danos aterradores propagados pela dinasta de Gêngis Khan depois pelos timúridas, do século XIII ao XV, em toda a Eurásia, do Pacífico ao Danúbio, na China, Índia, Oriente Próximo, onde se concentra a maior parte da população humana e as civilizações mais avançadas. Quase ignoradas no Ocidente, deixaram na memória dos povos do Oriente traços indeléveis relatados por cronistas e historiadores chineses, hindus, persas, árabes, eslavos7 ... A segunda, igualmente devastadora, acompanhou, do século XVI ao XX, a conquista do mundo pelas potências européias.

Foram precisos quase trinta anos a Gêngis Khan para unificar pela força sob seu punho de ferro as múltiplas tribos mongólicas que se dilaceravam entre si. Bastaram vinte anos , de 1205 a 1227, para que as investidas selvagens de uns 150 000 cavaleiros pusessem a Ásia a fogo e a sangue, fazendo dezenas de milhões de vítimas, do Pacífico ao Mar Negro, antes que a morte do Grande Khan poupasse, no último momento, a Europa Ocidental. A invasão começou pelo genocídio do povo Tangut do reino Si-Hia, no Noroeste da China. Dezenas de cidades prósperas foram inteiramente destruídas, as províncias arruinadas, definitivamente transformadas em estepe árida, ao longo de uma guerra encarniçada que fez centenas de milhares de vítimas e terminou em uma imensa hecatombe de 600 000 Tanguts: "Até o último homem, foram exterminados. O Khan aniquilou seu povo."

A tomada de Pequim

Com 900 000 mortos em noventa dias, o último genocídio do milênio, o dos Tutsis ruandeses, vem nos recordar que a machadinha pode se revelar tão « eficiente » quanto a câmara de gás

Depois foi a vez do Império Kin do Nordeste da China. Depois de haver esmagado, na primavera de 1211, ao norte da Grande Muralha, um exército de 500 000 homens dos quais se podia ainda, dez anos mais tarde, contemplar, até o infinito, os ossos embranquecidos pelo sol, os mongóis lançam-se sobre o país, massacrando entre outras toda a população da capital, expulsando diante deles em um gigantesco êxodo as populações aterrorizadas, arrasando aldeias e plantações, esfaimando as cidades, incendiando, pilhando, estuprando, matando tudo o que encontram.

Em 1215, sitiam e tomam a imensa cidadela de Pequim. Para escapar dos vencedores, 60 000 mulheres se atiram do alto das muralhas que cercam a cidade ao longo de 43 quilômetros. Dezenas de milhares de pessoas, já enfraquecidas pela fome e reduzidas ao canibalismo são massacradas. Epidemias, em particular o tifo fazem outras dezenas de milhares de vítimas, forçando os invasores a deixar a cidade, sobrecarregados com seus butins de mulheres e rapazinhos, ouro, pedrarias, sedas... depois de ter pilhado e queimado tudo. A população remanescente tenta sobreviver, sem abrigo, sem alimento, sem água, no meio dos escombros onde os cadáveres se decompõem durante meses.

Logo a fome se estende a outras províncias, expulsando para as estradas milhões de chineses misturados em seu êxodo aos que fogem dos mongóis, em uma imensa desordem onde prosperam a concussão, o assalto, guerrilhas e insurreições, como a revolta dos « casacos vermelhos », reprimida como sempre com uma selvageria inaudita. Por toda parte, durante décadas, as terras cultivadas retraem-se, cidades e aldeias arruinadas periclitam, insegurança e força bruta dominam as relações sociais. Um quadro já bem batido que iria repetir-se em toda a Ásia e no mundo todo até nossos dias.

Destruição de uma civilização milenar

A terceira invasão, a pior de todas, atinge o imenso império turco-iraniano do Rharezm, que cobria o Irã, a Transoxiana e o Afeganistão. Berço de uma civilização milenar com suas brilhantes cidades : Samarcanda, Burhara, Gurgendi, Balkh, Merv, Nichapur, Bamyan, Herat, Gazni... Dois anos bastaram aos mongóis, de 1220, para aniquilar um dos espaços mais avançados do planeta, destruir campos e irrigação, pilhar e reduzir a cinzas as cidades mais florescentes, arruinar o comércio e o artesanato, reduzir à escravidão e à deportação populações inteiras e massacrar milhões de seres humanos.

Aqueles que na Europa Ocidental e na América do Norte – um décimo da população mundial se beneficiam há meio século de paz e relativa prosperidade não devem iludir

Não se fazem prisioneiros: os vencidos dos exércitos e guarnições que não são mortos nos campos de batalha são sistematicamente decapitados, assim como todos os seres vivos das cidades sitiadas que resistiram por muito tempo, confinados durante meses « como porcos no cercado antes do matadouro », executados às dezenas de milhares, em torrentes de sangue, os corpos abandonados aos animais carniceiros, as cabeças empilhadas em imensas pirâmides, os homens de um lado, as mulheres e crianças de outro, uma prática que iria perpetuar-se durante séculos até o império otomano e os Bálcãs. Em Nichapur e Hérat "nenhuma cabeça foi deixada num corpo, nenhum corpo conservou sua cabeça", tudo foi massacrado, "inclusive cães e gatos".

Ao mesmo tempo, outra expedição selvagem ocorre no oeste, destrói o Azerbaijão, queimando, pilhando, matando tudo em sua passagem, riscando do mapa Qum, Zendjan, Qazvin, degolando toda a população de Hamadan, depois faz a Geórgia sofrer o mesmo, despedaçando os exércitos cristãos, antes de esmagar uma coalizão de príncipes russos na batalha de Kalka em 31 de maio de 1222. Todos os prisioneiros vencidos são executados e os príncipes deitados sob pranchas pisoteadas pelos cavalos mongóis. Deste dia de luto da história russa data o início de sua servidão aos mongóis da futura "Horda de ouro", que durará mais de dois séculos.

O ataque à Europa Central

Pois os herdeiros de Gengis Khan que dividem o Império entre eles vão continuar sua expansão com os mesmos métodos. Antes de assentar sua implacável dominação, durante um século e meio, sobre os povos subjugados, prosperando da miséria das massas camponesas esmagadas por enormes tributos fiscais, sob o tacão dos senhores feudais locais, colaboradores empenhados em servir os novos senhores invencíveis. .

Na Europa Central, tudo foi devastado em quatro anos, de 1237 a 1241. Reis e príncipes búlgaros, húngaros, russos, poloneses, alemães, seus cavaleiros de elite e seus formidáveis exércitos foram massacrados. Lançando-se pelo norte para a Rússia, os mongóis tomaram Riazan, onde metade da população foi degolada e a outra, queimada viva. Uma a uma, todas as cidades caíram e conheceram um destino comparável: Bielgorod, Moscou, Vladimir, Sousdal, Rostov, Iaroslav...

Bastaram vinte anos, de 1205 a 1227, para que as investidas selvagens de uns 150 000 cavaleiros mongóis pusessem a Ásia a fogo e a sangue, fazendo milhões de vítimas

A Europa Ocidental, que ficara indiferente a todos os genocídios precedentes, de repente ameaçada, invadida por torrentes de refugiados propagando o terror de « uma raça de homens monstruosos e cruéis saída dos confins da terra », arma, para detê-los, 40 000 cruzados e cavaleiros teutônicos. São exterminados, perto de Liegnitz, por mongóis duas vezes mais numerosos, que carregam a cabeça do chefe guerreiro Henri de Silésie na ponta de uma estaca e mandam para o Khan Ogodei 500 sacos de orelhas.

Em três semanas, o país está deserto, inteiramente pilhado e destruído, toda a população massacrada « dos velhos aos jovens e recém-nascidos ». Mesma sorte para os 100 000 guerreiros de Bela IV e toda a Hungria na qual metade da população perece em alguns meses. Ao alcance do Reno, de Viena, de Veneza, os mongóis se reagrupam para preparar a última ofensiva. A morte de Ogodei e as querelas dinásticas que se seguiram decidiram de outra forma.

A destruição de Bagdá

Na Ásia, os mongóis destroem completamente a Anatólia do poderoso reino dos Seljúquidas. De Kharzem, já conquistada e aniquilada, lançam, durante um quarto de século, expedições devastadoras à Cachemira e ao Penjabe, sem conseguir vencer duravelmente o sultanato de Delhi.

Faltava o califa abássida de Bagdá. Ele teve o mesmo destino que os outros. Esmagados seus exércitos, em 1258, a cidade de quase um milhão de habitantes foi sitiada e tomada de assalto, depois, durante oito dias, inteiramente saqueada. A população foi massacrada e o califa, comendador dos crentes e descendente de Maomé, supliciado, para grande alegria de toda a cristandade, que via o Islã aniquilado. Depois foi a vez, em 1259-1260, da Síria dos Aiúbidas, pilhada e arrasada de Alep a Gaza, passando por Damasco e sua Grande Mesquita, com o concurso pressuroso das tropas cristãs da Armênia e a cumplicidade dos cruzados do litoral. Só o Egito dos mamelucos, último bastião do Islã, onde São Luís havia capitulado dez anos antes, escapou dos mongóis.

Eles tiveram menos sucesso no sudeste asiático, no império birmânico, no reino Khmer, em Tchampa e em Annam, onde não puderam manter-se apesar de suas expedições destruidoras. Na Coréia, depois de ter esmagado um exército de 300 000 homens mobilizando todos os coreanos de dezesseis a sessenta anos, foram precisos dez anos de massacres e as piores exações para reduzir guerrilhas e resistência nacional.

A resistência do povo chinês

Dois anos bastaram aos mongóis, de 1220, para aniquilar um dos espaços ,mais avançados do planeta, destruir campos e irrigação, pilhar e reduzir a cinzas as cidades mais florescentes

Depois da derrocada da dinastia dos Kin em 1234, na China do norte, assolada pela fome e a peste que fez mais de um milhão de mortos, os mongóis se lançam ao assalto do sul, o império Song, o povo mais populoso do planeta, berço chinês do nacionalismo e da cultura. Precisaram de décadas para reduzir uma a uma, com seus métodos habituais, a quantidade de grandes cidades, unificar toda a China sob seu punho de ferro e ali fundar a dinastia dos Yuan, que se manteve por menos de um século (1279-1367).

Mas jamais foram aceitos por um povo que embora reduzido de 100 a 60 milhões de habitantes em setenta e cinco anos de guerra, fica em constante rebelião. Até que uma delas, vinda do sul, sob a direção de um ex-mongezinho guardador de gado, Ju Yuanjang, os expulsa depois de anos de guerrilhas sangrentas. Proclamando-se imperador, fundava, por três séculos, a dinastia Ming, que ele inaugura com trinta anos de um dos reinados mais tirânicos e sangrentos da história chinesa.

O Tamerlão e a peste

Os descendentes de Gêngis Khan, emaranhados em suas querelas perpétuas, traições e mortes dinásticas, estavam em plena decadência quando assomaram sobre a Ásia, a partir de 1370, as hordas de cavaleiros nômades turcos de Timor Leng, Timur o manco, Tamerlão, novo cavaleiro do apocalipse, na confusão de outra praga que acabava de precedê-lo : a grande peste. Partindo das estepes ao norte da Criméia em 1347, a peste havia atingido pelo Mar Negro toda a bacia mediterrânea, Bizâncio, a Síria, o Egito, a África do Norte, a Europa Ocidental, Espanha, Itália, França, em plena guerra dos cem anos... Em dois anos, entre um terço e a metade das populações atingidas desapareceu.

Em trinta e cinco anos, Tamerlão, grande mestre em falsidade e traições, chega a resultados comparáveis, ultrapassando os mongóis, de quem se julgava descendente, nas matanças e devastações, aliando sua selvageria ao fanatismo religioso dos combatentes da fé islâmica. Mesmo tendo sido os muçulmanos – sem dúvida, não eram os bons – suas vítimas mais numerosas, aos milhões. Por sua vez, o Irã, o Cáucaso e a Rússia, a Índia, a Síria, o Império Otomano do Bajazet (« Um principezinho como tu pode medir-se conosco? ») foram metodicamente arrasados : populações massacradas, cidades incendiadas, campos, cultivos, irrigações desertificadas. Sem preocupação alguma de ocupar ou explorar os territórios conquistados. Somente destruir após um combate mortal entre nômades e sedentários, cavaleiros e infantaria. Mas « que pode um tropel de potros e bezerras contra tigres e um bando de lobos? » ).

E os timúridas utilizam contra as populações civis os mesmos métodos que os mongóis. Uns e outros não receberam a missão divina de estabelecer, pela guerra, a paz universal sob sua autoridade única ?

Terror indizível

Na Europa Central, tudo foi devastado em quatro anos. Reis e príncipes búlgaros, húngaros, russos, poloneses, alemães e seus formidáveis exércitos foram massacrados

Arrastam-se dezenas de milhares de cativos, vendidos como gado aos mercadores de escravos, massacrados oportunamente quando se tornam incômodos em demasia (100 000 de uma só vez às portas de Delhi, por Tamerlão), ou utilizados em grande escala como escudos humanos sacrificados. Empurrados desarmados à frente das tropas para suportar o primeiro choque com o inimigo ou no assalto das muralhas das cidades sitiadas, por ondas sucessivas, passando uns por cima dos corpos dos outros. Deportam-se às dezenas de milhares, artesãos, mulheres e garotos que fazem parte do butim nas intermináveis marchas da morte semeadas de cadáveres.

E espalha-se assim por toda a parte um terror indizível, inflado de mil rumores que os invasores cultivam, sobre sua bestialidade, sua invencibilidade, sua total ausência de humanidade, até aniquilar qualquer vontade de resistência. « Um dia, conta o historiador Ibn al-Athir, um cavaleiro mongol entrou sozinho numa aldeia e pôs-se a matar todos os habitantes um após o outro, sem que ninguém pensasse em se defender. Outro dia, um mongol desarmado fez um indivíduo que se rendera a ele deitar-se no chão, proibiu-o de sair dali, foi buscar um sabre e o matou8 . »

É preciso recitar de novo a litania dos massacres de « homens e mulheres, jovens e velhos, desde os velhos de cem anos até as crianças nos berços » em |Hérat, Sebzewar, Zarendi, Khandahar, Chiraz, Ispahan, Bagdfá, Moscou, Vladimir, Mojaisk, Astracã, Sarai, Lahore, Multan, Delhi, Alep, Homs, Balbec, Damasco, Brousse, Smyme...?

Ou ater-se às especialidades timúridas, as mais comuns : pirâmides e torres construídas com cabeças (90 000 em Bagdá, 70 000 em ispahan, 100 000 em Delhi, para os recordes...) ; às mais centradas contra os infiéis – milhares de hindus esfolados vivos, cristãos com pés e mãos cortados antes da decapitação, enterrados vivos (4 000 armênios na Anatólia, queimados vivos em suas igrejas.

A vez da cristandade européia

Gostaríamos de nos persuadir de que todas essas abominações só puderam ter sido cometidas por povos bárbaros e primitivos de outros tempos. Mas seria, antes de mais nada, esquecer que na época das invasões de Gengis Khan, os muito cristãos e cavalheiros das cruzadas não se comportavam de modo diferente. Ao bondoso Ricardo Coração de Leão, por exemplo, verdadeiro herói de história em quadrinhos do nosso imaginário popular não repugnava fazer seu cavalo carregar um colar de cabeças inimigas e supervisionou sem titubear, em Acre, o massacre de 5 000 prisioneiros sarracenos, que fez decapitar, violando os compromissos assumidos.

Seria principalmente fechar os olhos para o fato de que toda a cristandade européia não perderia tempo em pegar sua vez, com métodos e resultados igualmente aterradores. Do século XVI ao XX, dilacerando-se em inexpiáveis guerras de religião, dinásticas e nacionalistas, iria barbarizar o planeta, massacrar, deportar, reduzir à escravidão, submeter e explorar os povos, na América, África, Ásia e Oceania. Missão e fardo do homem branco, em nome de Deus e da civilização.

(Trad.: Betty Almeida)

1 - Eric J. Hobsbawm, L’Age des extrêmes, Editions Complexe - Le Monde diplomatique, Paris, 1999.
2 - Gaston Bouthoul, Les guerres, éléments de polémologie, Payot, Paris, 1951.
3 - Pelo menos até à metade do século XIX antes da explosão demográfica e o êxodo rural reduzirem-na a 50% no fim do milênio.
4 - 3 milhões de mortos na Coréia de 1950 a 1953, 3,5 milhões na Indochina-Vietnã de 1945 a 1975, 2 milhões na Argélia de 1954 a 1962.
5 - Aproximadamente 10 bilhões de pessoas viveram no século XX.
6 - Ver em particular o Deuteronômio.
7 - Sobre este período pode-se ler: René Grousset, L’Empire des steppes, Payot, Paris, reedição de 2001 e Jean-Paul Roux, Histoire de l’empire mongol, Fayard, Paris, 1993.
8 - Citado por Jean-Paul Roux, op. cit.




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