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MONGÓLIA

Na terra da estepe cinzenta

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A Mongólia xamânica está no coração do tempo presente e vive também os abalos e mudanças que determinam nossa existência no planeta. A velocidade crescente e tudo o que a acompanha a inunda cada vez mais

Galsan Tschinag - (01/08/2004)

Uma vez na estepe, se está de tal maneira entregue ao tempo, puro tempo de vida, que todas as suas ondas e seus raios penetram em cada poro de sua pele

Na estepe mongol, a maior parte das coisas adquire uma significação em ruptura com a época atual, e em certos aspectos, arcaica. É assim com o abrigo dos homens, a tenda redonda de madeira e feltro que chamam yourte fora de nossas fronteiras. Na nossa terra, o olhar de quem caminha vive sem cessar à espreita ; é sempre excitante o instante em que a yourte aparece em algum lugar nos confins da estepe infinita, como um coração que bate, solitário. Porque ali onde ela se encontra, a água, a vida, o calor durante os invernos rigorosos e o frescor no coração dos verões ardentes nos esperam. A porta da yourte fica aberta a todos. Mesmo quando não há ninguém, deve-se entrar sem hesitar, servir-se de bebida e comida, acender o fogo para fazer a comida. O hóspede que ainda está a caminho com o gado, que talvez esteja com fome e sede, calor ou frio, acabará chegando... A yourte raramente tem um diâmetro de mais de seis passos, e seis visitantes vindos do mundo rico onde dizem que reina o bem-estar, logo a enchem completamente. No entanto, se necessário, sessenta podem entrar ali. É que se aprende, por um lado, a dar com os cotovelos e joelhos, mas por outro, a encolhê-los. É o mesmo para as distâncias. Para percorrer um örtöö, a unidade de comprimento que representa 30 quilômetros, muitas vezes é preciso uma hora inteira de carro, senão mais. E esta hora parece mais longa que todas a que se deixou morrer sem mais se preocupar, em qualquer lugar do mundo. Uma vez na estepe, se está de tal maneira entregue ao tempo, puro tempo de vida, que todas as suas ondas e seus raios penetram em cada poro de sua pele. Ora aquecem, ora refrescam a fina camada debaixo, suas paisagens interiores, atacando-se ativamente ao confinamento que se criou e instaurou, como uma paliçada invisível, mas impenetrável, opondo-se ao faro primitivo sempre desperto das células do corpo humano.

Damdin, com seus cabelos brancos, é um sábio – em uma breve vida humana, ele compreendeu o em outros lugares somente pelo menos três gerações podem captar

Como para a hora é para o dia, que aqui dura mais tempo do que em outro lugar. Não se trata de uma simples sensação que poderia imaginar e da qual sorrir algum materialista, mas de um fato quantificável: da última vez que visitei minha tribo1 na estepe montanhosa do Alto-Altai, 16 de julho de 2002, o jipe em que eu tinha subido mais de cinco horas antes na cidade do distrito a 110 quilômetros dali só chegou ao seu objetivo um pouco antes das 23 horas ; ainda era dia nos arredores. Para acalmar logo quem quiser uma explicação, digamos que a Mongólia faz parte do teto do mundo e não está muito longe do pólo norte. Mas deixemos este terreno da lógica escolar européia ; chegando tão tarde, nada de ir logo deitar-se. Havia que tomar um chá antes da meia-noite, comer uma carne depois da meia-noite e enquanto isso, falar das novidades desde a última vez. Outras horas assim se passaram.

Tempo longo

Na estepe, o tempo é mais longo do que em outro lugar. Isto não pára de se confirmar. Foi assim ontem, quando eu estava diante de Damdin, que aos 58 anos é o mais velho da tribo Alalar. Com seus cabelos brancos, é um sábio – em uma breve vida humana, ele compreendeu o em outros lugares somente pelo menos três gerações podem captar. Sua pele me fazia pensar numa paisagem de deserto, o suor que escorria de sua testa enrugada parecia água de chuva orvalhando de um tremble e enchendo com seu brilho os sulcos da casca. É assim também hoje diante do moço Taewing, de 22 anos, que toma conta dos cavalos. Sua pele e seu olhar, como seus conceitos, parecem diferentes e mais maduros que os dos citadinos de sua idade. O tempo deve ter ventado e soprado mais tempo sobre ele e nele; dir-se-ia, quase, com seu cérebro de criança e seu estômago de leão, que ele poderia rivalizar com alguém de trinta anos de fora daqui.

O cotidiano nômade

O pastor nômade tem de repartir suas forças durante o ano inteiro, por toda sua vida, pois não está protegido nem na infância nem na idade da aposentadoria

Uma opinião largamente difundida quer que a civilização mongólica nômade e xamânica possua várias características pouco envaidecedoras aos olhos dos contemporâneos: preguiça, glutoneria, lentidão, superstição, impureza, etc. Certo, a nação mongólica nada tem de uma raça de senhores que se distinguem por seus atributos nobres, como alguns gostariam de afirmar, em referência a Gêngis Khan (homem do milênio) e ao canto azul mongol (selo celeste). Mas a maior parte dos erros de que nos acusam ou são mentiras voluntárias, imputáveis ao sentimento de vingança hereditária remontando às derrotas passadas ou são mal-entendidos. É verdade que os nômades vivem em outro ritmo, condicionado pela atividade que os nutre. Durante todo o ano, sob o sol, a lua e todas as constelações, é preciso cuidar dos rebanhos e protegê-los. Enquanto que a agricultura exige dos trabalhadores um investimento total na estação quente e o trabalho da fábrica se efetua unicamente por turnos, o pastor nômade tem de repartir suas forças durante o ano inteiro, por toda sua vida, pois não está protegido nem na infância nem na idade da aposentadoria. Na estepe o clima é caprichoso e os bichos também podem mostrar-se imprevisíveis. É preciso estar sempre alerta e pronto para qualquer eventualidade. Como conseguir isso da melhor maneira ? Refletindo em silêncio, os sentidos tensos e os músculos relaxados – conservando exteriormente sua calma e vivendo uma grande tensão interior! Seguro dos meus conhecimentos orais e livrescos, adquiridos graças à arte escolar européia da medida e do cálculo, devo conceder, a posteriori, a meu pai que passou 74 anos na terra, ter sabido se apropriar das experiências essenciais da humanidade ao longo dos últimos 1500 anos. Ele não podia suportar palavras vazias e tinha o costume de dizer: “Por que perder seu tempo sentados conversando? Em vez disso perguntem-se o que ainda falta! Lá fora há esterco suficiente para nos aquecer? Dentro, há bastante para comer? Todos os calçados estão secos? Todas as roupas estão guardadas juntas? Vocês todos dormiram o suficiente? É preciso ao menos fazer suas necessidades na hora!” Os forasteiros não parecem suspeitar de toda a tensão que reina na vida de um pastor nômade. Isso me magoa, cada vez que ouço falar da pretensa preguiça dos mongóis. Quanto à glutoneria, lembremos que comer para constituir, de vez em quando, reservas, faz parte, simplesmente, de nosso modo de vida. Porque muitas vezes, nem sabemos quando encontraremos tempo para sentar e acalmar a fome e a sede.

O que brota da estepe

Os forasteiros não parecem suspeitar de toda a tensão que reina na vida de um pastor nômade. Isso me magoa, cada vez que ouço falar da pretensa preguiça dos mongóis

Que muita gente não se lava direito e ainda por cima não com a freqüência necessária, é injustificável. Mas tratando-se de limpeza, eis o que posso dizer com a consciência limpa: a poeira, a areia, a terra, a lama... sim, tudo isso existe nesta parte do mundo, mas a sujeira, certamente, não. Ao contrário do tempo que é mais longo, todas as coisas aqui têm um crescimento mais breve. É verdade para as ervas, as árvores, os animais e os homens. Todos têm de algum modo dificuldade para crescer e ficam sempre pequenos. Mas há muito valor nutritivo no capim curto, valor calórico na árvore pequena, resistência no cavalinho e força no homem baixo – como se tudo o que brotasse da estepe recebesse largamente sua parte do que ela carrega. E a estepe é sem contestação extremamente grande e poderosa; é o núcleo e o arcabouço de nossa pátria mongólica. Aliás, só aquele que apreendeu a multidão de símbolos reunidos em um owoo pode compreender também a que ponto os elementos como a água, a terra e o ar, sob todas as aparências e nomes estão enraizados na consciência dos homens e a que ponto exercem uma forte influência. O owoo é a fórmula visível e tangível da veneração do povo nômade pelo “grande todo” e por cada uma de suas partes. É saber reunido a seus pés um bem espiritual, a totalidade dos acontecimentos chamejando no espaço material e semi-material de todos os mundos; saber igualmente amontoadas suas preocupações pessoais sobre um montinho de pedras, verdadeiro umbigo do universo criado por suas próprias mãos. Tudo isso representa uma coisa grande demais para denegri-la chamando-a de superstição. E se aqui se precisa a toda hora invocar os espíritos é porque se sente sua onipresença e que se sabe que eles precisam do respeito dos homens.

Ano do Cavalo Preto

A civilização nômade mongólica está ameaçada como nunca, mas continuará capaz por muito tempo de ainda salvaguardar os pilares sobres os quais se apóia

A Mongólia xamânica está no coração do tempo presente, assim como o Tibete budista, o Vaticano cristão, a Meca islamista ou qualquer outro lugar do planeta. Ela vive também esses abalos e mudanças que determinam nossa existência no planeta. A velocidade crescente e tudo o que a acompanha está inundando cada vez mais, com certeza cada vez mais, a terra da estepe cinzenta. Coisas novas nascem, coisas velhas morrem. Isto não se refere apenas ao visível, mas também ao invisível : os ângulos e os pontos de vista. A cronologia mongólica tradicional repousa sobre um cálculo por sessenta anos em vez de cem, como na maior parte dos lugares. E esses sessenta anos se referem a um ciclo de doze anos e a suas cinco cores. O ano de 1990, que marcou uma ruptura no mundo inteiro, foi aqui o do Cavalo Branco. 2002 também foi do Cavalo, mas desta vez preto. Um ciclo interno assim se completou : a oportunidade de fazer um pequeno balanço provisório : a civilização nômade mongólica está ameaçada como nunca, mas continuará capaz por muito tempo de ainda salvaguardar os pilares sobres os quais se apóia. São a estepe, a yourte, o deel (costume nacional dos mongóis) e o cavalo. No momento, nenhum está em perigo. O mundo da estepe, cuja beleza inigualável se vinga de vez em quando e a vida em seu seio continuarão a existir – com seu perfume, sua cor e seu sabor únicos.

(Trad.: Betty Almeida)




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