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DOSSIÊ TERRORISMO

O terrorismo anarquista e a Jihad

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Como o trabalhador do século XIX, o muçulmano é, atualmente, considerado muitas vezes com uma mistura de medo e desprezo. E os EUA representam para o terrorista da Jihad o que o Estado burguês era para seu predecessor anarquista: o símbolo da arrogância e do poder

Rik Coolsaet - (01/09/2004)

Os autores de atentados justificavam seus atos como armas legítimas na luta pela justiça – a autodefesa de um grupo oprimido e marginalizado na sociedade

O terrorismo é tão velho quanto a humanidade. Ele pertence a todos os tempos, todos os continentes e todas as confissões. O que explica, por conseguinte, a obsessão pela segurança que atualmente testemunhamos diante de um inimigo invisível e tentacular que suspeitamos estar por trás de todos os atentados do mundo? Os esconderijos da História guardam períodos em que o terrorismo e a angústia se confundiram em situações com vários aspectos semelhantes aos da nossa época.

Por exemplo, em 24 de junho de 1894, um imigrante italiano, anarquista simpatizante, Caserio, mata o presidente francês Sadi Carnot. Esse atentado marcou o apogeu de uma série perpetrada por anarquistas na França. A comunidade internacional inteira sentiu-se ameaçada, pois a França não era o único país vítima de atentados.

Em 1881, por ocasião de um congresso revolucionário internacional ocorrido em Londres, o príncipe Piotr Kroptkin 1 falou a favor da ação violenta, uma “propaganda através dos fatos”. Alguns anos depois, os primeiros atentados com forte valor simbólico foram cometidos contra Guilherme I da Alemanha, contra o rei da Espanha e contra o rei da Itália.

“Década da bomba”

A maioria dos anarquistas rejeitava a violência. Aqueles que “passavam à ação” eram, quase sempre, solitários, e as células que preparavam os atentados pareciam mais seitas

Porém, os anos 1890 constituíram verdadeiramente a “década da bomba”: atentados à dinamite – uma nova invenção – sucederam-se contra reis, presidentes e ministros. Outros visaram edifícios oficiais. Na França eles tiveram início em 1892. Heróis de lendas e canções populares, o célebre terrorista francês Ravachol2 tornou-se símbolo, segundo a historiadora Bárbara Tuchman, do “sopro da raiva e da resistência3 ”. Muitos intelectuais e filhos de boas famílias flertaram com a violência.

A simultaneidade dos atentados nos vários países deu a impressão de que uma poderosa “Internacional negra” estivesse operando. Na Rússia, um importante núcleo de agitação, o atentado de 1881 contra o czar Alexandre I e outras ações da Narodnaya Volya (Vontade do Povo) inspiraram os anarquistas da Europa inteira. A violência terrorista não poupou também os Estados Unidos. Sob uma atmosfera social tensa, o presidente William McKinley foi assassinado pelo anarquista Leon Czolgosz em setembro de 1901. Para as autoridades e também para a opinião pública era evidente que a América estava, por sua vez, em confronto com uma nova ameaça internacional.

Itália: “viveiro do terrorismo”

É difícil, passado um século, ter uma idéia de a que ponto o mundo vivia na obsessão do terrorismo internacional. Uma cidade como Paris tremia com a idéia de novos atentados. A burguesia não compreendia as causas de tanto ódio e, a cada nova manifestação de violência, os que estavam em cima temiam um pouco mais a revolta daqueles de baixo. Cada trabalhador era visto como um criminoso em potencial e cada anarquista como um “cachorro louco” a ser neutralizado a todo custo. “Um crime contra a espécie humana”, assim o sucessor do presidente McKinley descreveu o terrorismo. Em alguns países, o exército foi posto em estado de alerta.

A cada nova ação, quanto mais o anarquismo era apresentado como um mecanismo internacional, poderoso e bem azeitado, mais sua força de atração aumentava

O assassinato de Sadi Carnot, em 1894, fez os governos e seus serviços policiais realizarem alguma coisa. Da Itália veio a primeira proposta de cooperação internacional. Considerada viveiro do terrorismo internacional, ela procurou recuperar sua reputação. As grandes colônias no estrangeiro, às quais se juntavam inúmeros imigrantes sazonais, suscitavam ressentimentos antiitalianos.

Foi assim que se abriu em Roma, em 24 de novembro de 1889, a Conferência Internacional para a Defesa Social contra os Anarquistas. Todas as vias de acesso ao Palazzo Corsini foram severamente vigiadas. Os vinte e um países participantes decidiram unanimemente que o anarquismo não deveria ser considerado como doutrina política e que os atentados cometidos por aqueles que os assumiam constituíam atos criminosos passíveis de extradição. Contudo, essa vibrante unidade internacional não teve conseqüências concretas. Intensificou-se a cooperação das polícias, mas, na prática, os governos conservaram toda liberdade de extraditar ou não os anarquistas estrangeiros.

A “Internacional negra”

Por que os grandes discursos permaneceram letra morta? Simplesmente porque eles eram ultrapassados. No alvorecer do século XX, o terrorismo anarquista já diminuía na maior parte dos países. Aos olhos de seus contemporâneos a Internacional negra representava uma organização inatacável, envolta por uma aura de poderosa força revolucionária. Na realidade, ela só existia na imaginação da polícia e da imprensa. Evidentemente, alguns terroristas viajavam por toda parte e seus grupos mantinham contatos, a ação de uns inspirava a dos outros. Porém não havia nem rede internacional, nem a fortiori conjuração ou complô. Nem mesmo um comando central. Eram indivíduos organizados em pequenas células que agiam por conta própria. Apenas eram unidos por um ódio comum ao status quo que marginalizava uma grande parte da sociedade.

Já naquele tempo tudo parecia em movimento. Graças à mundialização rápida e aos progressos da tecnologia, podia-se falar, pela primeira vez na história, de um mercado mundial no qual bens, serviços, capitais e pessoas se deslocavam livremente sob todas as latitudes. Mas essa belle époque não era bela para todo o mundo: se uma pequena elite burguesa prosperava, a imensa maioria dos seres humanos mal aproveitava o crescimento sem precedentes das riquezas e não tinham direito à voz.

A “classe perigosa”

O terrorismo além de não enfraquecer o Estado, reforçava o poder da polícia, o exército e do governo

“Classe trabalhadora, classe perigosa”, diziam os poderosos. Desprezado e temido, o trabalhador via-se separado fisicamente do burguês e afastado para as margens da sociedade. Foi nessa atmosfera que o terrorismo anarquista tomou formas mitológicas. Bárbara Tuchman o descreve como um dos sintomas de uma sociedade doente, na qual a classe trabalhadora procurava um lugar de ator pleno. Os autores de atentados justificavam seus atos como armas legítimas na luta pela justiça – a autodefesa de um grupo oprimido e marginalizado na sociedade. Células terroristas se apresentavam como a vanguarda de um proletariado sem pátria, mesmo se alguns dentre eles tinham consciência de serem apenas grupinhos. Piotr Kroptkin escrevera um dia a Enrico Malatesta4 : “ Eu temo que nós, você e eu, sejamos os únicos a acreditar que a revolução está próxima”.

Realmente os terroristas só representavam a si mesmos. Como filosofia política o anarquismo jamais representou um movimento político ou filosófico coerente. Aliás, a maioria dos anarquistas rejeitava a violência. Aqueles que “passavam à ação” eram, quase sempre, solitários, e as células que preparavam os atentados pareciam mais seitas quase religiosas, e além de tudo, mal organizadas. Porém a cada nova ação, quanto mais o anarquismo era apresentado como um mecanismo internacional, poderoso e bem azeitado, mais sua força de atração aumentava. Sempre havia um fanático, aqui ou acolá, para retomar a tocha em nome da família internacional dos oprimidos.

O enfraquecimento do anarquismo

Por volta de 1900, a violência anarquista extinguiu-se quase completamente. Por um lado dirigentes como Piotr Kropotkin se deram conta de que os atos de terror não levavam a mudanças e até que a estratégia escolhida tornava-se auto destrutiva. Cada atentado, na realidade, distanciava cada vez mais os anarquistas da classe trabalhadora, em nome da qual eles pretendiam agir. O terrorismo além de não enfraquecer o Estado, reforçava o poder da polícia, o exército e do governo.

A segunda razão – e não a menor – foi que uma outra via se configurou, que permitiu à classe operária exprimir-se. Entre 1895 e 1914, o movimento operário organizado e os sindicatos exerceram uma enorme atração sobre os anarquistas. O socialismo oferecia aos trabalhadores uma dignidade pessoal, uma identidade própria e, por conseguinte, um lugar pleno na sociedade. Criou-se um movimento graças ao qual o trabalhador não se encontrava mais só face à sociedade. A via legal e constitucional mostrou-se mais eficaz para conquistar um certo número de direitos políticos e sociais, assim como melhorias econômicas.

Na periferia da Europa, no entanto, o terrorismo continuou a sobreviver. Na Rússia, na Espanha e nos Bálcãs, houve atentados até a Primeira Guerra Mundial. É que, em razão da repressão persistente, a classe operária não tinha outra saída diante de um sistema que alimentava incessantemente um sentimento de exclusão social e política de massa.

O mal estar muçulmano

Os seguidores da Jihads assemelham-se aos terroristas anarquistas: embora não passem de uma miríade de grupinhos, se tomam pela vanguarda capaz de sublevar as massas oprimidas

Como o trabalhador do século XIX, o muçulmano é, atualmente, considerado muitas vezes com uma mistura de medo e desprezo. E a América representa para o terrorista da Jihad o que o Estado burguês era para seu predecessor anarquista: o símbolo da arrogância e do poder. Desse ponto de vista Ossama Ben Laden é uma espécie de Ravachol do século XXI – para seus discípulos, símbolo do “sopro do ódio e da resistência”, para os serviços de polícia e de informação um para-raio. Os seguidores da Jjihads assemelham-se aos terroristas anarquistas: se na realidade não passam de uma miríade de grupinhos, eles se tomam pela vanguarda capaz de sublevar as massas oprimidas por ações espetaculares 5 . Quanto à Arábia Saudita, ele desempenha no século XX o papel da Itália do século XIX – o 11 de setembro se parece, em matéria de despertar da comunidade internacional, ao 24 de junho de 1894.

Porém a semelhança entre o terrorismo contemporâneo e seu predecessor anarquista está acima de tudo na razão do seu desenvolvimento. No mundo inteiro, os muçulmanos sentem-se unidos por um mesmo sentimento de mal estar e de crise. Comparando como os anos 1980, o mundo árabe parece mais desiludido, mais amargo e menos criativo; e o sentimento de solidariedade com os outros muçulmanos relaciona-se com a percepção que uma ameaça visa o Islã.

Esse é o caldo de cultura que uma minoria fanática explora decidida a “arrebentar os muros da opressão e da humilhação”, pela força, segundo os termos da célebre fatwa, de 1996, de Bin Laden, Mais uma vez a semelhança com os anarquistas do século XIX é chocante. Assim como seu predecessor anarquista, o terrorismo da Jihad desaparecerá por sua própria violência. Mas esse desaparecimento será, mais uma vez, tão mais rápido quanto o mundo árabe e muçulmano encontre uma via suscetível de apaziguar seu sentimento de exclusão.

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Nascido em 1842 em uma família da nobreza russa, Piotr Alexeievich Kropotkine consagrará sua vida ao anarquismo na Rússia e, também, na Suíça, na França, na Espanha e no Reino Unido. De volta à Rússia, morreu em 1921.
2 - Nascido em 1859, François Claudius Koenigstein-Ravachol foi condenado primeiramente à prisão perpétua por seus atentados, depois à pena de morte por homicídios. Foi guilhotinado em 1892. No momento de seu processo ele escreveu: “É a sociedade que faz os criminosos e vocês, jurados, no lugar de abatê-los, deveriam empregar sua inteligência e suas forças para transformar a sociedade. De uma vez só suprimiriam todos os crimes; e sua obra, combatendo as causas, seria muito maior e mais fecunda do que é sua justiça que se diminui ao punir os efeitos”.
3 - Barbarfa Tuchman l autre avan-guerre, 1890-1914, Plon, Paris, 1967.
4 - Enrico Malatesta 91853-1932), ideólogo e dirigente anarquista italiano.
5 - Ver Pierre Conesa. "Aux origines des attentats-suicides", Le Monde diplomatique, junho 2004. Na versão brasileira - "Duas gerações de atentados suicidas", www.diplo.com.br, junho 2004.




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