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Como os neotrabalhistas de Blair se aproximaram dos democratas de Clinton e sedimentaram uma aliança entre os governos britânico e americano

Keith Dixon - (01/09/2004)

No momento em que os democratas se deslocam para a direita, os neotrabalhistas tecem vínculos com eles

Desde o começo da guerra fria, os governos americanos procuraram sempre mudar o rumo da evolução das duas grandes facções políticas britânicas. Certas correntes direitistas do Partido Trabalhista, por muito tempo considerado potencialmente hostil aos interesses americanos, foram então encorajadas por Washington, inclusive no plano financeiro. Diversos programas de cooperação cultural e política, em particular o Trade Union Committee for European and Transatlantic Unity e o British-American Project for a Successor Generation bajularam, nos anos 1960 e 1970, aqueles em que os Estados Unidos viam futuros dirigentes políticos ou sindicais. Um quarto de século mais tarde, eles serão encontrados no grupo dirigente neotrabalhista, em torno de Anthony Blair.

Esse investimento em longo prazo deu seus primeiros frutos com a chegada de Neil Kinnock à cabeça do Partido Trabalhista em 1983. Desde essa época se constata uma convergência entre os “novos democratas”, sensíveis a alguns dos temas da revolução conservadora americana, e os “modernizadores” do partido trabalhista. Estes últimos irão muito longe na aceitação da nova ordem sob a dominação americana. A influência socialista no pensamento trabalhista, com o papel central do Estado nos campos econômico e social, sem falar dos laços umbilicais com um movimento sindical às vezes marcado à esquerda, fazia com que o trabalhismo se situasse num universo ideológico muito distinto daquele dos herdeiros de Franklin D. Roosevelt e John Kennedy. É, no entanto, no momento em que os democratas se deslocam para a direita que os neotrabalhistas tecem vínculos com eles.

Com selo americano

De tanto fazer o papel de caudal dos interesses americanos, Blair teria acabado por confundi-los com os de seu próprio país

Incapaz de desfazer a imagem negativa que os meios de comunicação britânicos construíram dele, o partido trabalhista se interessa pelo marketing político à americana. Já em 1986, Philip Gould, um de seus especialistas em comunicação, volta de uma visita aos democratas impressionado com a máquina de comunicar desses últimos. Em janeiro de 1993, é a vez de Anthony Blair e Gordon Brown irem a Washington para encontrar os responsáveis pela campanha eleitoral do presidente William Clinton. No ano seguinte, Blair, que se torna dirigente do Labour, acelera a aproximação entre as posições dos “modernizadores” dos dois partidos. Em abril de 1996, ele volta a Washington, desta vez sob a égide do partido democrata, para tranqüilizar os homens de negócios no caso da vitória do partido trabalhista.

Quando isso acontece (em maio de 1997), os dois partidos adotam posições comuns em matéria de política interna, evento fora do comum na história dos dois países. Eles afinam, entre outras coisas, a noção de “parceria público-privada”. Em fevereiro de 1998, de novo, Blair vai aos Estados Unidos, cercado, desta vez, por um certo número de intelectuais neotrabalhistas, entre os quais Anthony Giddens, teórico da “terceira via”. O negócio é explorar uma estratégia que se situa “além da direita e da esquerda”. Os dirigentes neotrabalhistas se mostram impressionados pela técnica que o presidente Clinton utiliza para enfraquecer as posições republicanas usando uma estratégia (“triangulação”) que consiste em recuperar temas de sustentação política dos republicanos, ainda que rompendo com a política democrata (insegurança, fisco, assistência social). A idéia básica é simples: para melhor combater seus adversários, é preciso plagiar capítulos inteiros do seu programa. A nova orientação britânica para os jovens desempregados, batizada de Welfare to work se inspira diretamente no Workfare americano; a noção de “tolerância zero” e o endurecimento penal carregam também o selo americano – do mesmo modo que o recurso às empresas privadas em áreas que antes situadas na esfera pública (administração das prisões ou controle da qualidade do ensino).

Blair passa a celebrar a “guerra justa” e apresenta a visão de um mundo “completamente novo”, que exigiria novas regras de conduta

Se esse eixo político democrata/neotrabalhista continua ou não a estruturar os esforços de coordenação da “governança progressista”, tornou-se menos central para Blair. Seu amigo Bill Clinton não é mais presidente, os democratas são minoritários no Congresso. Entretanto, as relações entre o primeiro-ministro britânico e os dirigentes americanos nunca estiveram melhores. A ponto de certos comentaristas acharem até que Londres havia renunciado à sua soberania política. De tanto fazer o papel de caudal dos interesses americanos, Blair teria acabado por confundi-los com os de seu próprio país.

No campo dos falcões

Em 1997, a retórica do Foreign Office muda. Seu titular, Robin Cook, promete ali introduzir uma “dimensão ética”. A esquerda européia imagina então o abandono de uma política centrada apenas na defesa dos interesses nacionais e, portanto, a revisão de orientações que empalideciam a imagem do Reino Unido, principalmente nos países pobres (apoio aos regimes ditatoriais – na Indonésia, por exemplo, venda de armas...). A noção de intervenção humanitária é sugerida como o correlato da dimensão ética na esfera da ação internacional. A guerra do Kosovo oferece a Blair a oportunidade de se colocar no campo dos “falcões”. Não contente em empurrar os Estados Unidos para uma intervenção armada contra Belgrado, ele cogita (diferentemente do presidente Clinton) o envio de tropas terrestres.

Em abril de 1999, por ocasião do qüinquagésimo aniversário do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e em pleno conflito do Kosovo, o primeiro-ministro britânico faz, em Chicago, um pronunciamento de caráter programático, “A doutrina da comunidade internacional”. Nesse discurso, ele celebra a “guerra justa” e apresenta uma nova visão panorâmica de um mundo “completamente novo”, que exigiria novas regras de conduta. A mundialização comportaria um aspecto político e relacionado à segurança, tanto quanto uma dimensão econômica. E os países não teriam outra escolha a não ser curvar-se às forças (do mercado) que os superam: “Qualquer governo que pensa que pode agir sozinho se engana. Se os mercados não gostam de sua política, punem você”. Esta visão determinista da mundialização reflete a que Anthony Giddens havia traçado alguns anos antes em seu livro Beyond Left and Right1

A guerra justa lembra a velha doutrina imperial que legitimava intervenções contra povos “bárbaros”, invocando “valores” civilizados

Com suas leis inflexíveis, a mundialização obrigaria a assumir novos deveres internacionalistas, que vão da busca resoluta da liberação do comércio, única via para o progresso, até uma estratégia de segurança internacional que volta as costas à doutrina da não-intervenção nos assuntos internos de países soberanos, julgada ultrapassada pelas formas atuais de interdependência internacional: “O problema de política externa mais premente com o qual somos confrontados é identificar as circunstâncias nas quais devemos intervir ativamente nos conflitos dos outros2 ”. Blair não faz referência alguma à autorização de tais intervenções pelas Nações Unidas. Em dezembro de 1998, o governo britânico havia, aliás, participado dos bombardeios contra o Iraque sem apoio de uma resolução do Conselho de Segurança das ONU. Em Chicago, a inflexão é consignada por escrito. O resultado será observado no Iraque.

Velha doutrina imperial

Em julho de 2003, em seu discurso diante do Congresso americano (que lhe rende uma medalha de ouro), Blair aceita a preeminência da potência americana nos assuntos mundiais e reitera seu chamado aos europeus a colaborar com Washington. Partindo dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, que apresenta como um prólogo, e da guerra no Iraque, considerada um “primeiro ato”, ele deixa entrever uma seqüência de ações armadas (“haverá muitas outras lutas antes da peça acabar”) necessariamente conduzidas sob a direção de Washington, sejam quais forem as opiniões dos outros países: “Nunca o poderio americano foi tão necessário nem tão mal compreendido”. Segue-se o elogio do mundo unipolar: “Nenhuma teoria de política internacional é mais perigosa que aquela que pretende que é preciso equilibrar o poderio americano”. Os deveres internacionalistas de uma intervenção “pelos valores” fazem dos Estados Unidos uma potência “necessária e mal compreendida”, uma força do bem. Basta que o governo americano declare uma guerra “justa” para que o Reino Unido o acompanhe. Para o Iraque, Blair seguiu essa inclinação, com todas as conseqüências que se conhece.

A teorização blairista da guerra justa, do combate (militar) por valores, lembra muito a boa velha doutrina imperial que também legitimava suas intervenções contra os povos “bárbaros”, invocando os “valores” civilizados. Para Niall Ferguson, um jovem historiador muito em evidência nos meios de comunicação, que defende as benfeitorias do imperialismo, o balanço da colonização britânica é globalmente positivo para populações inteiras, que teriam sido tiradas do atraso econômico e da opressão social (as mulheres na Índia, por exemplo) . Sem esquecer as virtudes universais do livre-comércio, do Estado de direito, da democracia e dos “valores ocidentais”.

Referências comuns

Blair e Bush se referenciam num substrato comum: o de um liberalismo econômico mesclado de cristianismo

Este revisionismo – fortemente contestado pelos historiadores, principalmente dos países em causa – serviu de argumento para os americanos e permitiu-lhes justificar o tapete de bombas lançadas sobre a Sérvia ou o Iraque. Um dos apóstolos deste imperialismo liberal, Robert Cooper, assessora Blair em matéria de política internacional. Em abril de 2002, em um artigo intitulado “Por que ainda precisamos de impérios”, Cooper tinha conclamado a um novo colonialismo pós-moderno: “Império e imperialismo tornaram-se termos pejorativos e nenhuma potência colonial está pronta a assumir seus deveres. No entanto, a oportunidade – até a necessidade – da colonização é tão grande hoje quanto no século XIX

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