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CHINA EMERGENTE

O risco do nacionalismo

Claude Leblanc*

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A exploração do sentimento nacionalista, especialmente apontado contra o Japão, foi o meio encontrado por Pequim para compensar as frustrações de sua população. Inúmeros incidentes demonstram que este patriotismo exacerbado está tornando-se incômodo para as autoridades chinesas

(01/10/2004)

A luta contra o ocupante japonês foi um dos elementos motores do renascimento do nacionalismo chinês cuja prioridade era, antes de tudo, reconstruir a unidade nacional

Se o esporte, como afirmam os sociólogos, é o espelho de uma sociedade e de suas frustrações, não há nenhuma dúvida de que os acontecimentos ocorridos em 7 de agosto de 2004 dentro e fora do Estádio dos Operários, em Pequim, marcam uma guinada nas relações entre a China e o Japão. Nesse dia, as seleções de futebol dos dois países enfrentavam-se na final da Copa da Ásia das Nações. Inúmeros incidentes já haviam marcado o desempenho dos jogos preliminares, graças aos quais o Japão conseguira qualificar-se para defender seu título, ganho em 2000, sobretudo no decorrer dos encontros em Chongqing, no centro-oeste do país. A hostilidade do público chinês manifestara-se muitas vezes. Não se tratava de alguns assobios, comuns nesse tipo de jogos, mas de atos antijaponeses. As vaias abafaram o hino nacional japonês e recomeçavam cada vez que um jogador japonês pegava a bola. Lembrando que sua cidade fora maciçamente bombardeada pelo exército imperial japonês durante a II guerra mundial, os habitantes de Chongqing pretendiam mostrar aos japoneses, esportistas ou simples espectadores, seu orgulho de serem chineses. Mesmo que isso incomodasse as autoridades de seu país.

“Ninguém pode apoiar um patriotismo dessa natureza”, podia-se ler na primeira página do Diário da Juventude, na véspera do grande final de 7 de agosto. O jornal oficial lembrava a seus leitores que era preciso “não confundir esporte e política”, sugerindo que o governo chinês enfrentava dificuldades cada vez maiores para canalizar o nacionalismo de uma população desejosa de ver o Japão novamente derrotado. Os incidentes que ocorreram em torno do Estádio dos Operários depois da derrota do time chinês (3 a 1), apesar da presença de 16 mil policiais, confirmaram as dificuldades dos dirigentes chineses em controlar essa reação, que contribuíram para alimentar ao longo dos últimos anos.

Conflitos históricos

“Desde que o Partido Comunista chinês não é mais comunista, ele tem o compromisso de ser chinês”, observou Thomas Christensen nas colunas de Foreign Affairs

As relações conflituosas entre a China e o Japão têm uma longa história. Enquanto o Império do Meio, potência dominante na Ásia durante séculos, se submetia à lei dos Ocidentais no final do século XIX (leia, nesta edição, o artigo de Alain Roux sobre as guerras do ópio), o Japão recusava-se a passar pela mesma situação e aceitava o desafio de se colocar no nível de um Ocidente conquistador. Isso implicava, entre outras coisas, que o país do Sol Nascente quisesse também sua parte de colônias. A China sofreu, então, o ataque nipônico, que terminou em abril de 1895 com o tratado de Shimonoseki, que a obrigou a renunciar a Taiwan e a reconhecer o protetorado efetivo do Japão sobre a Coréia. Humilhados, os chineses nunca se recuperaram dessa derrota que, mais de um século depois, figura em lugar de destaque nos contenciosos com o Japão. A luta contra o ocupante japonês foi um dos elementos motores do renascimento do nacionalismo chinês cuja prioridade era, antes de tudo, reconstruir a unidade nacional. Desde então, o orgulho de ter participado da derrota do Japão foi cuidadosamente cultivado pelas autoridades, que souberam fazer bom uso dele quando a situação o exigia (negociações difíceis com Tóquio, ameaças japonesas de suspender sua ajuda ao desenvolvimento etc.).

A expressão desse nacionalismo, no entanto, permanecia circunscrita. Chineses e japoneses não dispunham de meios diretos para rivalizarem na Ásia. Foi só com o fim da Guerra Fria que os dois países voltaram a ter condições para uma oposição direta. Diante de um Japão com dificuldades econômicas, mas mais inclinado a desempenhar um papel político nos negócios asiáticos, a China, com uma taxa de crescimento de dois algarismos, pretendia retomar o lugar central no cenário regional sem que Tóquio interviesse. E diante do aumento das contestações internas, Pequim encontrou na exploração do sentimento nacionalista um meio ideal de compensar as frustrações de uma parte de sua população.

Inimigo preferido

O mais preocupante é a dificuldade que as autoridades chinesas têm para controlar os exageros nacionalistas de uma opinião pública alimentada há vários anos pela propaganda

“Desde que o Partido Comunista chinês não é mais comunista, ele tem o compromisso de ser chinês”, observou Thomas Christensen nas colunas de Foreign Affairs1 . O Japão não é o único alvo, mas a aproximação entre Pequim e Washington, a partir de 2001, em nome da luta contra o terrorismo, contribuiu para fazer de Tóquio o principal inimigo das autoridades chinesas. O governo, portanto, fez do ensino patriótico (aiguo jiaoyu) uma de suas prioridades. Nos livros escolares e sempre que a ocasião se apresenta, é lembrada a humilhação vivida no passado com o incentivo dos “demônios ocidentais” (yang guizi) ou, simplesmente, dos “demônios” (guizi) – ou seja, os japoneses2 . O jornal japonês Yomiuri Shimbun3 enumerava recentemente os exemplos dessa educação patriótica. Na História da China, o livro didático mais utilizado nos colégios chineses e publicado pelas Edições para o Ensino Popular, o Yomiuri relatava que não menos do que nove capítulos abordam a invasão japonesa na China, enfatizando os crimes cometidos pelo exército imperial. “Não há dúvida que, diante do desenvolvimento da economia de mercado e o abalo da ideologia socialista, o Partido Comunista chinês tem como única oportunidade de sobrevivência um patriotismo exacerbado”, considerava o jornal japonês4 .

O mais preocupante é a dificuldade que as autoridades chinesas têm para controlar os exageros nacionalistas de uma opinião pública alimentada há vários anos pela propaganda. O ano de 2003 foi especialmente rico em incidentes. Em junho, militantes chineses organizaram uma primeira e inédita viagem para as ilhas Senkaku (Diaoyu, em chinês), com o objetivo de reativar as reivindicações chinesas sobre essas poucas ilhotas situadas entre Taiwan e Okinawa. O mau tempo e a presença da guarda costeira japonesa não lhes permitiram desembarcar. Tal tentativa, no entanto, obrigou o ministro das Relações Exteriores chinês a assumir uma posição, lembrando que “a soberania da China sobre essas ilhas é indiscutível”. Alguns dias mais tarde, uma petição contra a decisão do governo de atribuir a uma empresa nipônica a construção da linha expressa Pequim-Xangai obteve mais de 90 mil assinaturas.

Ofensiva em rede

Além das operações de mobilização da opinião pública, a Internet é utilizada por hackers chineses para lançar ataques contra os sites oficiais japoneses

Em 4 de agosto, por ocasião de trabalhos de terraplanagem, operários perfuraram acidentalmente obuses japoneses contendo gás mostarda, provocando a morte de um desses operários e ferindo uma dezena de outros. As fotografias publicadas na imprensa desencadearam violentas reações. Uma nova petição exigindo que o governo japonês regulamentasse de uma vez por todas a questão das armas químicas ainda presentes no solo nacional reuniu um milhão de assinaturas e foi apresentada à embaixada do Japão em Pequim, no momento em que os diplomatas dos dois países discutiam o assunto. Duas semanas mais tarde, em 18 de setembro, um grupo de 400 empresários japoneses, hospedados num hotel de Zhu Hai, ao norte de Macau, foram surpreendidos quando contratavam os serviços de cerca de 500 prostitutas chinesas. O caso foi parar nos jornais, provocando uma onda de indignação em todo o país. O incidente coincidia com o 72o aniversário do incidente de Moukden, em 1931, que levou à ocupação da Manchúria pelo exército japonês. Para 90% das pessoas que responderam a uma pesquisa publicada on line no site Sohu.net, esse caso de prostituição revelava bem “a intenção do Japão em humilhar a China”.

Uma grande parte das ações dos militantes nacionalistas chineses foi realizada a partir da Internet. Apesar de seus esforços para limitar a liberdade de expressão na rede mundial, o governo não conseguiu impedir que os mais vingativos se manifestassem. Com uma população de internautas em constante crescimento, as autoridades já têm trabalho demais com a caça à ciberdissidência5 para também irem atrás dos nacionalistas. Além das operações de mobilização da opinião pública, a Internet é utilizada por hackers chineses para lançar ataques contra os sites oficiais japoneses.

Do lado japonês

Atingidos diretamente pela crise econômica, muitos jovens japoneses também foram seduzidos pelas sereias do nacionalismo

Se o governo japonês se mostra muito atento ao crescimento do nacionalismo em seu país vizinho, inúmeros observadores preocupam-se com um desvio similar no Arquipélago, mesmo que este não seja o resultado de uma vontade política confirmada. Percebe-se uma menor resistência diante desse discurso que se fortaleceu e estruturou ao longo da última década. Depois da rendição do Japão em 1945, os nostálgicos de um império do Sol Nascente radioso militaram no interior de pequenos grupos de extrema-direita; uma de suas principais características era circular nas ruas das cidades japonesas dirigindo caminhonetes pretas decoradas com uma bandeira nacional e um crisântemo, proferindo discursos sobre a grandeza do Arquipélago e sobre as injustiças territoriais de que o país foi vítima no final da guerra. Poucas pessoas prestavam atenção a suas gesticulações ruidosas.

Eram mais preocupantes as tentativas do governo de impor uma determinada leitura da história ou a recusa em incluir nos livros escolares passagens que lembrassem as extorsões do exército imperial na Ásia. A cada nova edição de livros escolares, a maioria dos países asiáticos protestava com virulência contra a censura imposta pelo Ministério da Educação japonês; eram apoiados, no interior do Japão, por poderosos sindicatos de professores que, além das ações na justiça, mobilizavam seus associados para que eles abordassem os temas tabu nas aulas. Inúmeros professores recusavam-se a participar do hasteamento da bandeira e da execução do hino nacional, por ocasião das cerimônias do início das aulas, no mês de abril. Se essa vigilância não impediu alguns dirigentes políticos de defenderem temas nacionalistas e de irem regularmente ao santuário Yasukuni, em Tóquio, onde são conservadas as cinzas dos soldados – inclusive as dos criminosos de guerra –, ela desempenhou um papel essencial de proteção.

Isso era ainda mais fácil na medida em que o Japão não tinha necessidade de se afirmar em relação a outros países. Protegido militarmente pelos Estados Unidos, que fizeram dele a última muralha contra o comunismo, o Japão podia dedicar-se a seu desenvolvimento econômico, o que lhe permitiu ascender ao segundo lugar das potências econômicas do planeta.

O jovem nacionalismo japonês

O nacionalismo japonês aproxima-se mais de uma busca de identidade para uma geração entregue a si mesma logo depois da crise da década de 90

As perturbações ligadas à derrocada do sistema soviético, no final da década de 80, coincidiram com o rompimento da bula financeira. Num período de tempo muito curto, os japoneses foram confrontados a uma nova ordem mundial para a qual não se tinham preparado. Acostumados a serem mantidos e protegidos pelo amigo norte-americano, perceberam brutalmente que este último talvez não partilhasse mais de forma alguma os mesmos objetivos. Já que a ameaça soviética desaparecera, Washington voltava-se mais para Pequim do que para Tóquio. O discurso nacionalista estruturou-se, a partir de então, em torno de noções menos vagas do que, por exemplo, o “respeito em relação ao imperador”. O alvo visado também evoluiu. Acabaram-se os nostálgicos do poderio nipônico e deram lugar à juventude.

Atingidos diretamente pela crise econômica, muitos jovens foram seduzidos pelas sereias do nacionalismo, como demonstra o sucesso das histórias em quadrinhos de Yoshinori Kobayashi – autor, sobretudo, do Manifesto do novo orgulho (Shin gomanizumu) –, nas quais ele incentiva seus leitores a se mostrarem mais orgulhosos de serem japoneses e a recusarem as lições dos outros6 . O caso do sangue contaminado, a má gestão do abalo sísmico de Kobe, em janeiro de 1995, ou ainda o atentado com gás sarin cometido pela seita Aum no metrô de Tóquio, em março desse mesmo ano, foram a oportunidade de criticar os poderes públicos e incentivar os japoneses a se recusarem a ser governados por “bundas moles”. Não é surpreendente que um homem como Shintaro Ishihara, a quem se deve, sobretudo, o panfleto O Japão que pode dizer não (No to ieru Nippon), em 19897 , conseguiu finalmente ser eleito para governador de Tóquio com uma diferença muito significativa em relação aos demais concorrentes. Profundamente provocador, Ishihara é freqüentemente manchete dos jornais com suas declarações tonitruantes sobre os países vizinhos e obriga o primeiro-ministro a contê-lo, mostrando-se também intransigente, principalmente em relação à China.

Orgulho do passado

São cada vez mais numerosos os jovens que freqüentam o santuário Yasukuni. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Asahi Shimbun em abril de 2004, 63% dos de 20-30 anos eram favoráveis a uma revisão da Constituição pacifista adotada após a II Guerra Mundial para que seja legalizada a existência de um exército regular8 , enquanto os mais velhos exprimiam majoritariamente sua oposição. São também esses mesmos jovens que enchem os estádios onde não mais hesitam em brandir a bandeira nacional (Hi no maru) e a voltar a cantar em coro o hino muitas vezes criticado no passado. É o que a psiquiatra Rika Kayama chama de “síndrome do ‘puchi’ (transcrição japonesa do adjetivo francês ‘pequeno’) nacionalismo” 9 . Esse movimento é acompanhado por uma redescoberta da língua japonesa e por um retorno às origens. Mesmo permanecendo muito aberta às influências ocidentais, a juventude atualmente parece muito orgulhosa de seu passado e de suas raízes. A seus olhos, a vergonha de ser japonês, ou seja, de suportar o peso do passado militar e agressivo, não tem mais razão de ser.

Esse “pequeno” nacionalismo japonês aproxima-se mais de uma busca de identidade para uma geração entregue a si mesma logo depois da crise da década de 90. Poderia, no entanto, crescer, se amanhã os deslizes descontrolados do lado chinês se multiplicassem. Nunca a China e o Japão estiveram tão afastados desde o final da II Guerra Mundial.

(Trad.: Regina Salgado Campos)

*Jornalista.

1 - Foreign Affairs, n°5, Nova York, 1996.
2 - Chi Li, Triste vie, Actes Sud, Arles, 1998.
3 - Yomiuri Shimbun, Tóquio, 3 de setembro de 2004.
4 - 5 de agosto fr 2004.
5 - Reporters sans frontières, Internet sous surveillance, Paris, 2004.
6 - Ler de Philippe Pons, “Le négationnisme dans les mangas”, Le Monde diplomatique, outubro de 2001.
7 - Publicado na França com o título Le Japon sans complexe, Dunod, Paris, 1991.
8 - O artigo 9 da constituição proíbe o Japão de ter um exército. Tratar-se-ia portanto de suprimir o artigo em questão e de ratificar o fato de o país ter se dotado de forças de autodefesa que têm tudo de um exército regular.
9 - Rika Kayama, Puchi nashonarizumu shôkôgun, ed. Chûô Kôron Shinsha, Tóquio, 2002.




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