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CHINA EMERGENTE

Quem não bebe chá pode ser chinês?

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Na China, o chá está classificado há um milênio entre as sete necessidades da vida cotidiana, no mesmo nível da lenha, do arroz, do óleo, do sal, do molho de soja e do vinagre. Para esse povo, a história do chá está ligada à identidade nacional

Nicolas Zufferey - (01/10/2004)

Ninguém contesta o papel dos chineses na "descoberta" do chá enquanto bebida, ou sua contribuição à "cultura do chá"

Em 1823, o britânico Robert Bruce, oficial da East India Company, coletou plantas de chá selvagens na província indiana de Asam. Até então, era consensual que a planta do chá – batizado como thea sinensis ou camellia sinensis pelos botanistas do século XVIII – era de origem chinesa. Para alguns, a descoberta de Bruce indicava que o chá era, ao contrário, de origem indiana. Em seguida, ganhou terreno a hipótese da «dupla origem» (o chá de folhas pequenas seria de origem chinesa, enquanto o de folhas grandes, de origem indiana); depois a da «múltipla origem», em diferentes áreas geográficas do Sudeste Asiático; e enfim a da cepa única, mas sobre uma área mais vasta, nos confins da China, da Índia e da Birmânia atuais.

O chá, de origem não chinesa? Esta teoria não poderia satisfazer os chineses. Eles procuraram plantas de chá selvagens em seu solo e encontraram em uma dezena de províncias e em pelo menos 200 locais. Descobriram em textos antigos várias referências a planta de chá selvagem; lembraram que na época do aparecimento do chá – entre cem e duzentos milhões de anos – o norte da Índia ou estava imerso, ou separado da Ásia por um oceano. Enfim, fizeram valer que as espécies de folhas grandes e a de folhas pequenas são próximas demais para serem provenientes de cepas separadas.

Nesses tempos remotos, nem os chineses nem os indianos, assim como a China ou a Índia, existiam propriamente, e esta vontade de recuperar o chá a todo custo pode parecer um pouco ridícula – especialmente porque vem às vezes acompanhada de entonações indignadas que lembram o tom de discursos patrióticos sobre questões bem mais importantes, como a independência do Tibete ou a condição de Taiwan. Essa suscetibilidade tem ainda algo de surpreendente, já que ninguém contesta o papel dos chineses na "descoberta" do chá enquanto bebida, ou sua contribuição à «cultura do chá» (cha wenhua).

Parte da história

Sendo o chá de certo modo consubstancial à civilização, a duração da história de um e de outro não deve coincidir?

Que outro povo, de fato, fez do chá um dos «sete tesouros» dos literatos, ao lado da cítara (qin), do xadrez, da caligrafia, da pintura, da poesia e... do álcool? Em que outra cultura humana o chá está classificado há um milênio entre as «sete necessidades» da vida cotidiana, no mesmo nível da lenha, do arroz, do óleo, do sal, do molho de soja e do vinagre? Mais precisamente em razão desta importância, a questão das origens toma uma dimensão particular: a história do chá está ligada à identidade nacional e os chineses têm alguma dificuldade de encarar um recuo.

Desde quando, por exemplo, o chá é utilizado na China? Todos os textos destacam os «cinco mil anos de história1 ». Mas de onde vem este número? Uma ligação freqüentemente é feita entre a descoberta do chá e a figura mítica de Shennong, o «divino lavrador», que teria vivido, segundo a tradição, no início do terceiro milênio antes de Cristo. A tradição quer certamente que o Bencao jing, um tratado de farmacopéia que menciona o chá, tenha sido obra de Shennong; mas o Bencao jing data na realidade do início da nossa era e não prova nada quanto ao consumo de chá três milênios antes.

A segunda explicação destes «cinco mil anos»: a própria duração da história chinesa em geral, que os chineses repetem desafiadoramente que é de 5 mil anos. Sendo o chá de certo modo consubstancial à civilização, a duração da história de um e de outro não deve coincidir? Como diz um manual recente sobre o chá: «assim que folheamos os cinco mil anos de história da nação chinesa, sentimos quase em cada página o perfume do chá2 ». O problema é que «cinco mil anos» constitui uma duração muito exagerada no que diz respeito à história chinesa. Novamente, este número resulta de uma confusão entre história e lendas: ele remete a estas figuras fundadoras que teriam vivido no início do terceiro milênio antes da nossa era, e especialmente o Imperador Amarelo, do qual todos os chineses se consideram filhos ou netos. Mas como os primeiros textos que mencionam estes personagens foram redigidos milênios mais tarde, sua realidade histórica é no mínimo duvidosa.

O momento do chá

É no século VIII que o ideograma «cha», caractere ainda hoje utilizado para designar o chá, se impõe

Se a história (a escrita, o bronze, as primeiras cidades e uma organização social complexa) começa na Suméria (Uruk) ou no Egito, há um pouco mais de cinco mil anos – ela só começa, na China, 1.500 anos mais tarde. Os primeiros documentos escritos na China datam de fato do início da dinastia Shang (séculos 17 a 11), era que vê igualmente o alvorecer do bronze. A China tem então cerca de 3.500 anos de história, o que não é pouco, mas não é suficiente para os historiadores chineses, que parecem sofrer com este atraso em relação às civilizações mediterrâneas.

No que diz respeito ao chá, as primeiras fontes escritas que fazem referência de maneira indiscutível a esta planta remontam à dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C., aproximadamente). Uma destas fontes é o notável «Contrato com um servidor» (Tong yue), datado do ano 59 antes da nossa era, que descreve em detalhes as tarefas cotidianas de um empregado doméstico, inclusive a de comprar e preparar o chá. O chá tem então apenas pouco mais de 2 mil anos de história na China, e seriam necessários ainda alguns séculos antes que seu uso ganhasse a totalidade do país. Até o século III da nossa era, o chá parece essencialmente confinado à província atual do Sichuan, no sudoeste da China.

Uma compilação de anedotas do século V (o Shishuo xin yu) conta que um aristocrata do século precedente não teria reconhecido o chá que lhe era servido, o que sugere que nesta época o chá era ainda uma bebida exótica em certas regiões. Em seguida, o budismo disseminaria o chá no norte da China, mas seria preciso esperar a dinastia Tang (618-907), e mais precisamente o século VIII, para que ele se tornasse um produto relativamente corriqueiro. É também no século VIII que o chá se estabelece na grande cultura chinesa, com o célebre Clássico do Chá, de Lu Yu (733-804), primeiro de uma longa série de tratados consagrados ao chá. E é ainda no século VIII que o ideograma «cha», caractere ainda hoje utilizado para designar o chá, se impõe. Estamos então muito distantes dos cinco mil anos dos manuais, o que não deve fazer esquecer que a história do chá na China é muito mais longa que na Europa, onde foi introduzido apenas no meio do século XVII.

Renovação da cultura

Na China, assiste-se a todo tipo de tentativas de ligar o chá a aspectos fundamentais da cultura chinesa

Inúmeros livros e revistas, produtos derivados e um público de conhecedores – que não deixam de lembrar alguns traços da enologia na França – testemunham uma renovação do interesse pela «cultura do chá» há alguns anos. Esta «chaologia» é certamente um fenômeno de moda e um gigantesco mercado. Mas é um outro aspecto deste fenômeno que nos interessa aqui: a saber, a concepção segundo a qual a «cultura do chá» equivale à cultura chinesa em geral. O chá foi elevado ao posto de bebida nacional (guoyin), e é preciso tomar a expressão no sentido mais forte: segundo vários autores, haveria uma relação de certo modo essencial entre o chá e a nação chinesa. Certamente, o vinho na França ou o whisky na Escócia remetem também a questões identitárias; mas não se chegaria a dizer que a «cultura do vinho» iguala ou resume a cultura francesa inteira. Na China, assiste-se a todo tipo de tentativas de ligar o chá a aspectos fundamentais da cultura chinesa, talvez à essência (ou a quintessência) nacional.

Assim, o chá compartilharia com a pintura e a poesia antigas o fato de ser «insípido» ou «sem sabor» (dan), palavras que são muito pejorativas para descrever o estado de sutil indiferenciação que os especialistas da estética chinesa consideram como uma qualidade essencial da obra de arte. Outros laços são feitos com a filosofia, a religião ou, mais fundamentalmente, com a maneira chinesa de ver o mundo ou de viver em sociedade. O chá é então freqüentemente associado à noção de «harmonia» (he), com discursos que oscilam entre o simples e o mais complexo: «Normalmente, água e fogo não se toleram, mas através do chá, não apenas eles se toleram, mas se aproveitam um do outro3 ». Em outros termos, o chá permite harmonizar os contrários: tomar chá junto com alguém, é aceitar, ao menos por um instante, a deposição de armas. As entonações podem ser grandiloqüentes, como neste manual segundo o qual «a cultura do chá se tornou um vetor espiritual para os homens deste mundo que buscam a paz e a serenidade e ela já tem um papel importante nas relações internacionais4 ».

A idéia de um «caminho do chá» (cha dao), associando dimensões técnicas (o bom chá, a boa água, os bons utensílios, a boa preparação) e dimensões espirituais é mais que milenar. Lu Yu, no «Clássico do chá», mencionado acima, já afirmava que «ao se consagrar ao chá, impregnando-se de sabedoria, de princípios morais, de virtude, por meio do chá cultivando sua natureza e desenvolvendo uma boa conduta, refletindo sobre a existência, medita-se e busca-se a verdade, de modo a encontrar o bem estar espiritual e a pureza moral, então atinge-se o reino superior do chá: o caminho do chá». O que muda na época recente é que, ao contrário dos antigos, que não tinham a idéia de uma nação chinesa, e cuja mensagem era então de certo modo universal, os autores recentes conferem às suas teorias sobre a questão uma conotação identitária muito forte, ligando esta «cultura do chá» a traços segundo eles típicos, talvez essenciais, da nação chinesa.

Diferenças étnicas

Os Hans, que bebem o chá sem nada adicionarem, estariam no estágio mais avançado desta cultura

Para um autor, «o chá se encontra nos meus próprios ossos5 »: ele se torna um componente quase biológico da identidade chinesa. Um outro avalia que «o caminho do chá é a natureza chinesa profunda6 » e se pergunta se «aquele que não bebe chá pode, apesar disso, ser chinês7 ». Muitos textos insistem no fato de que o simples hábito de oferecer chá «reflete perfeitamente a cultura e a polidez da nação chinesa8 ». Em oposição radical com o Ocidente, que «prega o fogo e o poder enquanto a China pode se descrever como pacífica, suave e amável, firme e tenaz. Estas qualidades aparecem bastante nas noções de caminho do meio e de harmonia, características do pensamento conficionista. O chá, que é suave e pacífico, condiz com estas características9 ».

Na mesma linha, os chineses opõem seu caminho do chá à cerimônia do chá japonesa (chanoyu): o uso do chá na China «não obedece a exigências tão inflexíveis quanto o caminho do chá japonês; do ponto de vista dos hábitos de vida dos chineses, a maneira japonesa de beber o chá é totalmente desprovida de alegria de viver10 ». Os japoneses seriam, do ponto de vista chinês, formalistas demais, rígidos demais, e esqueceriam o essencial: «Nós os chineses consideramos que a maneira artística (japonesa) de beber o chá não passa de pura forma, enquanto o objetivo deveria ser a manifestação do espírito interior11 ». Os japoneses apreciarão.

Mais incômodo ainda é o uso do chá como cimento nacional, como meio de transcender as diferenças, eventualmente os antagonismos, entre Hans e não-Hans: «As 56 etnias [da República Popular da China] têm todas uma relação afetiva profunda com o chá. Isso se explica talvez pelo fato de que todas descendem de [soberanos míticos] Yandi e Huangdi e são unidos pelos laços de consangüinidade12 ». Esta preocupação com harmonia não impede as hierarquizações: vários outros autores afirmam que a maneira como certas etnias consomem o chá (por exemplo, misturando-o a outros ingredientes), corresponde a um estado primitivo da «cultura do chá». Os Hans, que bebem o chá sem nada adicionarem, estariam no estágio mais avançado desta cultura.

É interessante ler esta instrumentalização do chá em relação ao contexto político atual. Desde o início do século XX, a ortodoxia política oscila entre ideologia revolucionária, que pressupõe a rejeição mais ou menos total do passado, e o discurso nacionalista, que ao contrário insiste na grandeza da história nacional. Desde o fim dos anos 70, idéias revolucionárias estão em forte declínio na China e o poder se apóia num discurso nacional, ou nacionalista, para embasar sua autoridade, manter uma forma de coesão social, ou simplesmente fazer as pessoas esquecerem de seus verdadeiros problemas. Esta estratégia joga bastante com o orgulho nacional, com uma valorização das tradições e valores antigos (inclusive a «cultura do chá») e é, com isso, que alguns destes valores (especialmente confucionistas) podem aparecer como uma moral substituta numa sociedade em crise.

(Trad. : Fabio de Castro)

1 - Huang Zhigen, Zhonghua cha wenhua [A cultura chinesa do chá] , Editoras universitárias do Zhejiang, Hangzhu, 2000, p. 28.
2 - Ye Yu, Chadao [O caminho do chá] , Editoras populares do Heilongjiang, Ha’erbin, 2002, p. 1. Notaremos que o sobrenome do autor signifca «folha», e seu nome é o mesmo que o de Lu Yu, o “santo do chá”, autor do Clássico do chá no século VIII da nossa era.
3 - Ye Yu, op. cit., p. 18.
4 - Huang Zhigen, op. cit., p. 28.
5 - Kit Chow and Ione Kramer, All the Tea in China, China Books and Periodicals Inc., San Francisco, 1990, p. xii.
6 - Huang Zhigen, op. cit., p. 62
7 - Ibid., p. 1.
8 - Wang Congren, Chaqu [Os prazeres do chá] , Edições Xuelin, Pequim, 2002, p. 191.
9 - Wang Ling, Chinese Tea Culture, Foreign Languages Press, Pequim, 2000, p. 52.
10 - Ye Yu, op. cit., p. 2.
11 - Wang Ling, op. cit., p. 51.
12 - Ye Yu, op. cit., p. 1.




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