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O povo simplório de Bush

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Estado com riquíssima história social, a Virgínia Ocidental era um baluarte democrata até a última eleição presidencial. Sua conversão ao candidato republicano é exemplar para a compreensão do entusiasmo que sustenta o atual presidente

Serge Halimi - (01/10/2004)

Nos vilarejos mais afastados da Virgínia Ocidental, em casas que, definitivamente, não são opulentas, cartazes “Bush-Cheney” foram afixados por moradores que não sonham com uma nova baixa de impostos sobre a mais-valia. Vêem-se também muitos com os dizeres “We support our troops” (“Apoiamos nossos soldados”). Na residência de um casal que entrevistamos, o voto republicano é certo, mas “por razões religiosas”. No entanto, o marido é professor, sem direito a assistência médica.

No Estado da Virgínia Ocidental, o que mais conta é o carvão. Entre a rodovia e o rio, entre a montanha e a estrada de ferro, encontram-se muitas minas, com seus grandes elevadores em forma de cisternas. Na região, o livre comércio é pouco conhecido. Mas também o são os ecologistas, de quem se desconfia que ponham em risco os poucos empregos industriais que as mudanças de local de exploração e os fechamentos de poços ainda não engoliram. No mais, a questão das armas de fogo beneficia os candidatos mais reacionários. No início de novembro, as escolas fecham por ocasião do dia da abertura da caça aos veados. Logo nas primeiras horas, milhares de animais serão mortos, porém, “você sabe, aqui eles são tantos quanto os pombos”.

Costumes rompidos

Na residência de um casal que entrevistamos, o voto republicano é certo, mas “por razões religiosas”. No entanto, o marido é professor, sem direito a assistência médica

Piedade, pátria, carvão e fuzil: são esses os elementos-chave de que não se devem esquecer os dois principais candidatos à Casa Branca, que já vieram a este Estado uma meia dúzia de vezes desde o mês de janeiro. E voltarão. Ainda mais pobre do que os Estados do Mississipi ou da Louisiana, a Virgínia Ocidental irá designar, no próximo dia 2 de novembro, os cinco únicos “grandes eleitores” (entre 538) que elegerão, por sua vez, o próximo inquilino da Casa Branca no colégio eleitoral. A incerteza em relação ao resultado nesta região das montanhas Apalaches torna o Estado um dos dez mais disputados do país.

Com uma riquíssima história social, a Virgínia Ocidental é um feudo do Sindicato dos Mineiros. Personalidade famosa do movimento operário, Mother Jones participou, no início do século passado e durante quase vinte anos, de alguns dos conflitos entre os escravos da indústria e seus senhores1. Em seguida, o Estado se transformou num baluarte do New Deal que, por sinal, salvou da fome muitos de seus moradores mais pobres. Em 1960, foi a rampa de lançamento da candidatura de John F. Kennedy à Casa Branca. Vinte anos depois, foi um dos raros Estados (seis, entre 50) que rejeitaram Ronald Reagan. No entanto, esse baluarte democrata (o governador, quatro dos cinco representantes no Congresso, 70% dos parlamentares locais e dois de cada três eleitores inscritos) cometeu o impensável por ocasião da última eleição presidencial: pronunciou-se a favor do candidato republicano2. A história do país teria sido diferente se, naquele dia, a Virgínia Ocidental não tivesse rompido com seus costumes.

O mistério de Bush

“Como é que uma pessoa, que tenha sido empregada por outro partido, pode votar republicano, votar contra seus interesses?”, é a pergunta perplexa de Thomas Frank, autor de um best-seller inesperado que decifra, de modo brilhante, os motivos para uma tal “reviravolta3 ”. Loucura ou não, o fato é que o partido de Bush passou a controlar, em parte graças ao apoio de um eleitorado popular, os poderes executivo, legislativo, judiciário e a maioria dos cargos de governador. Uma vez que o senador Kerry dá ouvidos aos conselhos de William Clinton, seria bom que não esquecesse que a combinação de liberalismo econômico e de um pseudoprogressismo social do ex-presidente fez com que seu partido se tornasse minoritário nos Estados Unidos.

O antiintelectualismo e o culto ao homem simples de Bush vão ao encontro das expectativas e impaciência de seus partidários menos afortunados

Eventualmente ele irá se lembrar, ao fazer campanha nas montanhas Apalaches. Na verdade, nenhuma outra região parece tão distante do humor dos bairros burgueses-boêmios de Nova York, Boston e São Francisco, ou do credo das redações dos jornais e dos salões de reunião de intelectuais. Isso porque, aqui, os dois principais partidos – que rivalizam em termos de piedade e de protecionismo – proclamam seu compromisso com a caça, com o carvão, com a política industrial e com as “virtudes” de outrora. Assistir a um comício do presidente Bush na Virgínia Ocidental contribui rapidamente para a compreensão do mistério de uma popularidade que as desilusões da guerra no Iraque e os fracassos na política econômica e social não parecem ter abalado. Embora sem o carisma manipulador de Reagan ou de Clinton, o homem sabe tocar no ponto certo, sem dúvida porque seu antiintelectualismo e seu culto ao homem simples vão ao encontro das expectativas e impaciência de seus partidários menos afortunados. No final de agosto, foi recebido por dez mil pessoas que o esperavam, espremidas e super-excitadas, em Wheeling. Dez dias mais tarde, estava em Huntington. E a qualquer outra região pobre que vá, é a mesma atmosfera, o mesmo discurso.

O “homem de aço”

Na primeira fila, em Wheeling, as bandeirolas proclamam: “Metalúrgicos com Bush”, “W, como West Virginia”. Numa fala breve e calorosa, um operário, Rick, apresenta “o homem que salvou o aço, um homem de aço, nosso presidente George W. Bush”. O discurso que se seguiu foi longo, detalhado, quase sempre invariável. Educação, proteção social, carvão, terrorismo, Iraque, aço... Nada foi esquecido. Uma frase já pronunciada centenas de vezes desencadeia uma ovação maior do que as outras: “Jamais abandonarei a preocupação de garantir nossa segurança em relação a outros países”. Segurança militar e também segurança energética. Num Estado pobre, em que as indústrias são importantes e estão ameaçadas, o presidente tem que medir as palavras. A “comunidade internacional” não é bem vista, principalmente quando também se manifesta por intermédio de uma Organização Mundial do Comércio (OMC), que pretende proibir os Estados Unidos de protegerem a siderurgia na região das Apalaches. Aqui – mas também em outros Estados cobiçados pelas estratégias eleitorais porque oscilam entre um lado e o outro (Ohio, Pensilvânia, Michigan) – o liberalismo comercial dos líderes democratas joga contra eles.

É claro que Bush não “salvou o aço”: como seu partido, também ele é adepto do livre comércio. Mas, pelo menos, aparenta preocupar-se4 . E, como demonstrou a guerra do Iraque, não tem medo do unilateralismo; ele nunca menciona a globalização para teorizar sobre sua impotência. São os Estados Unidos, proclama ele, que devem determinar a maioria das regras da nova ordem mundial (estratégica e comercial). Com Bush, as coisas são simples, as posições, nítidas; com Kerry, no entanto, tudo é complicado, ninguém se arriscaria a fazer previsões sobre o que ele faria no Iraque, por exemplo: depende do dia e das pesquisas. Mas há mais. Se o presidente é um patrício rico, ele exibe seus privilégios com menos ostentação do que seu riquíssimo adversário (de uma grande família da costa Leste, que estudou num colégio particular na Suíça, que casou com uma bilionária, que tem cinco residências, que tem um avião particular para se deslocar de um lugar para outro, que faz snow-board no inverno e wind-surf no verão e que tem uma bicicleta avaliada em 8 mil dólares...).

O lobby das armas

Numa fala breve e calorosa, um operário, Rick, apresenta “o homem que salvou o aço, um homem de aço, nosso presidente George W. Bush”

Com Bush, não se ouve falar em dinheiro. Orgulhoso de seu país, mesmo arrogante, ele se mostra, por outro lado, humilde diante de seus habitantes: “Obrigado aos metalúrgicos que me apóiam. Obrigado a todos. É bom estar com vocês de novo. Obrigado pela hospitalidade de vocês. Vocês sabem, esta não é a primeira vez que venho aqui (aplausos). Gostei muito das outras visitas que fiz a vocês (aplausos). Porque aqui, as pessoas são razoáveis, trabalhadoras, honestas. E, como eu, amam os Estados Unidos (aplausos). Venho pedir que votem em mim. E quero que saibam que estou disposto a ir às casas das pessoas para lhes dizer: ‘Preciso de seu voto’, isso é importante (O auditório explode: Four more years! [Mais quatro anos!]).”

Alguns dias depois, em Huntington, a humildade proclamada é associada a um tema que, em parte, foi responsável pela vitória de Bush na Virgínia Ocidental, quatro anos antes: “Estou aqui porque gosto de caçar e de pescar (aplausos). Sei que alguns de vocês gostam de caçar (aplausos). Como nunca consigo dar à caça o tempo que gostaria, estou à caça de votos”. Detestado pelos intelectuais e pelos artistas, o poderoso lobby dos detentores de armas de fogo apóia os republicanos que, em troca, lhe concedem tudo o que querem. E é um movimento de massas, atuante, entusiástico, popular. Bush engata: “Vocês sabem, no outro dia revelou-se uma das diferenças mais notáveis quando meu adversário disse que o coração e a alma dos Estados Unidos poderiam ser encontrados em Hollywood (a multidão ruge). Eu acho que o coração e a alma dos Estados Unidos se encontram aqui, em Huntington, na Virgínia Ocidental (aplausos).”

“Valores familiares”

Como se sabe, este presidente não parou de enriquecer os ricos, ainda mais abertamente do que seus antecessores. Também se sabe que ele comete erros de sintaxe, ou de vocabulário, que é simplório, que dedica uma parte de suas férias a andar de botas e a capinar seu rancho. Querendo ou não, esse tipo de coisa pesa. Durante a convenção republicana, o filme de apresentação do candidato à Casa Branca – calcado, exclusivamente, no 11 de setembro – tinha a seguinte passagem lida pelo narrador: “Existem facetas de George Bush que todo mundo conhece. Sua naturalidade, por exemplo”. Querem uma prova? Via-se o presidente num hospital militar, convidando um soldado norte-americano que tivera uma perna amputada no Iraque, para vir à Casa Branca fazer jogging, com sua prótese.

Os “valores familiares” nunca são esquecidos, mas também aí o tema é muitas vezes personalizado, ao mesmo tempo em que é apresentado de modo afável, não ameaçador. Homenagear “Laura” permite lembrar que, em outros tempos, houve uma “Monica”: “Zell [Zell Miller, senador democrata que apóia o atual presidente] me disse, no avião, que era uma pena que Laura não tivesse vindo. Está coberto de razão (risos). Vocês sabem, quando pedi a Laura que casasse comigo, ela disse: ‘Tudo bem, mas com a condição de que você nunca me peça para fazer discursos políticos.’ Ela era bibliotecária numa escola pública e não gostava de política. Eu aceitei. Amo-a muito (aplausos). Talvez um dos melhores motivos para vocês me reelegerem seja o de ter Laura como primeira-dama por mais quatro anos”. O encontro termina ao som de uma ária de música country que menciona a eterna história de casais amorosos: “Não sei usar palavras complicadas. Mas todo mundo compreende o que quero dizer. Meu temperamento é um pouco rude. Mas acredito que sou exatamente a pessoa que é necessária...”

A outra América

Com Bush, as coisas são simples, as posições, nítidas; com Kerry, no entanto, tudo é complicado, ninguém se arriscaria a fazer previsões sobre o que ele faria no Iraque

Entrevistado em Charleston (capital da Virgínia Ocidental), um militante republicano, ex-eleitor democrata, estava muito emocionado por ter assistido a uma reunião idêntica: “Quando você vê fotos de Bush em seu rancho, no Texas, com seu jeans e seu chapéu de caubói, você percebe que ele é autêntico. Eu estava em Beckley quando ele veio, há duas semanas. Havia umas 4 mil pessoas, todos adoram esse homem. Você tinha que estar lá para compreender. Esse tipo de espontaneidade não se fabrica, não há fingimento algum. É por isso que as pessoas gostam dele. Ele capta a atenção das pessoas, elas acham que ele as compreende – e eu também acho.”

Beckley fica situada numa bacia carbonífera. Sente-se a poluição. Foi no final da década de 50, quando fazia uma reportagem sobre regiões pobres desse tipo, descobrindo, longe dos caminhos de terra batida, na zona rural, “a pobreza mais bem-vestida que o mundo já viu”, que Michael Harrington teve a idéia de escrever L’autre Amérique. Na época, as pessoas comemoravam a “sociedade da abundância”, prelúdio ao fim da política. A repercussão do livro foi tão grande que ele acabou contribuindo para o surgimento de programas federais de luta contra a miséria. Mas quase nada sobrou desses programas, visto que o governador democrata da Virgínia Ocidental decidiu reduzir em 25% as ajudas sociais, que passaram, a partir de 1ºde agosto deste ano, de 453 para 340 dólares mensais para uma família de três pessoas. O auxílio por casamento (100 dólares) foi simplesmente suprimido. Na mesma ocasião, aproveitando o fato de que o caixa do Estado estava cheio, o parlamento local, de maioria democrata, concedeu uma subvenção de 750 mil dólares para um torneio de golfe.

“A beleza natural e os mitos dissimulam a pobreza”, escreveu Harrington. O viajante atravessava as Apalaches em tempo bom. Via as montanhas, os rios, o verde, mas não os pobres5 . Na realidade, é preciso sair da rodovia, pegar as estradas mais estreitas (mas em perfeito estado de conservação: a influência, em Washington, de um dos dois senadores, faz maravilhas) para ver proliferarem as pequenas igrejas batistas, em estado deplorável, e as mobil homes. A população (o Estado conta, atualmente, com 1.810.000 habitantes, menos do que há 20 anos) se amontoa junto aos vales escarpados. No vilarejo de Mullens (1.800 habitantes), metade das casas e das lojas parece abandonada há muito tempo. A visita de Bush a Beckley (“a primeira de um presidente dos Estados Unidos”) ainda repercute: “As pessoas daqui”, dizem-nos, “ficaram muito entusiasmadas. Bush é a favor do carvão. Ele quer que se explore o carvão na Virgínia Ocidental e que se proíbam as importações.”

Contra o aborto e a favor do carvão

Como demonstrou a guerra do Iraque, Bush não tem medo do unilateralismo; ele nunca menciona a globalização para teorizar sobre sua impotência

O jornal local dedica a primeira página à volta, em licença, do soldado Adam T. Johnston, mais conhecido pelo nome de “Lattie”. O artigo conta: “Quando entrou para a Guarda Nacional, em seu último ano do segundo grau, Adam nunca tinha sonhado que seria, um dia, mandado para o Iraque para defender a liberdade. “Eu pensava que ia ficar lá só por alguns fins de semana e que, em troca, conseguiria dinheiro para cursar a universidade6 ”. Sua bolsa de estudos poderá custar-lhe mais caro do que era previsto. Não longe dali, em Justice (500 habitantes), na porta de um pequeno restaurante, o Gwens Country Kitchen, que serve comida fortificante e torta a 1 dólar por pedaço, um cartaz com os dizeres “Support our troops” está, lado a lado, com a programação do culto da igreja.

Segundo a garçonete, o voto democrata, ainda majoritário na região, decorreria de uma excentricidade herdada dos pais: “Uma vez que as pessoas tenham botado isso na cabeça, pouco importa se o presidente é bom. Pessoalmente, acho que este trabalhou bem. Um dos principais motivos para que eu goste de Bush é que ele não apóia o aborto. Além do mais, Gore defendia o meio ambiente, o que teria sido ruim para um Estado como o nosso. Também era contrário à exploração da madeira. De qualquer maneira, aqui no condado de Logan, se você é contra as minas de carvão, você está frito”. Aquela jovem jamais tinha ouvido falar de um filme chamado Matewan, inspirado numa sangrenta greve que, em 1920, marcou a história do Estado. E, no entanto, talvez tenha sido por causa dessas lutas que as pessoas botaram “na cabeça” que não votariam nos candidatos dos patrões. O vilarejo de Matewan fica a cerca de 20 quilômetros de Justice.

Tradição de lutas esquecida

O pseudopopulismo dos republicanos e sua constante apelação às questões de identidade cultural (religião, caça, tradição) lucra com o desaparecimento da memória social. Kenny Perdue, tesoureiro da central sindical AFL-CIO local, cita a sólida tradição de luta de classes da Virgínia Ocidental. Os 12 mil mineiros que atualmente existem, em sua maioria sindicalizados, devem-lhe salários superiores, por exemplo, aos dos empregados – perdão, “associados” – do supermercado Wal-Mart, principal empregador do Estado. Para eles, portanto, a luta valeu e foi ainda mais indispensável porque iriam ter que enfrentar a Guarda Nacional e os bate-paus de um patronato quase sempre mais preocupado em proteger a vida das mulas do que a dos homens (3 242 mortos nas minas somente no ano de 1970, com uma taxa de acidentes de trabalho quatro vezes superior à da França, no mesmo período).

Se o presidente é um patrício rico, ele exibe seus privilégios com menos ostentação do que seu riquíssimo adversário

“Temos uma história social formidável. Vimos tentando fazer com que seja ensinada nas escolas, mas é muito difícil”, lamenta Perdue. Os sindicatos produziram um manual, Labor History Class, apaixonante e pedagógico (cartas de mineiros, antigos recortes de jornais, temas dos deveres). O objetivo é resumido de imediato: “Durante meus doze anos de escola na Virgínia Ocidental”, diz o narrador fictício, um jornalista encarregado de cobrir o noticiário social, “nunca ouvi falar das grandes guerras da mina”. O manual não foi permitido. A escola prefere a promoção de marcas de produtos à promoção das lutas operárias e da história popular.

Identidade com os patrões

A questão social e a ambiental estão vinculadas. É por se identificarem muitas vezes com os interesses dos patrões – que fundaram uma associação em defesa do carvão, “Friends of coal”, a qual, sob os auspícios de uma estrela local do futebol americano, patrocina atividades cívicas e torneios esportivos – que os mineiros não vêem com bons olhos os ambientalistas que os querem proteger de acidentes de trabalho e da poluição dos rios e da água potável. A explosão dos cumes das montanhas, feita à base de dinamite, e o escoamento dos escombros e do arsênico para os vales e os rios são considerados como um último meio de preservar os empregos. A política do governo Bush facilitou esse tipo de exploração (mountaintop removal) e, de uma maneira mais geral, atendeu a todas as exigências feitas pelos patrões, inclusive com um certo relaxamento das normas sanitárias (a silicose ainda mata várias centenas de mineiros por ano, no país).

Mas os republicanos dispõem de uma resposta bem preparada que Kris Warner, presidente executivo do partido na Virgínia Ocidental, nos vende com convicção: “O sul do Estado é uma região muito acidentada. É impossível desenvolvê-la sem dinamitar o topo das montanhas para extrair o carvão que ali se encontra. Já basta os constantes processos e os impostos que nos assassinam. Mas é necessário que as pessoas trabalhem, senão não irá sobrar ninguém na região! A existência das empresas está em perigo. Se amanhã, por exemplo, a Massey Energy resolver sair da Virgínia Ocidental, então não haverá quaisquer esperanças. E essas pessoas são bons vizinhos. Não só respeitam a legislação federal, como constroem quadras esportivas para a garotada, organizam festas. Sem eles, a vida seria mais difícil.”

O “extremismo ecológico”

O pseudopopulismo dos republicanos e sua constante apelação às questões de identidade cultural lucram com o desaparecimento da memória social

Percebe-se a dificuldade da tarefa dos ecologistas num Estado em que uma parte do eleitorado se declara favorável aos republicanos por causa da questão ambiental. Os meios de comunicação não os ajudam e apresentam cada iniciativa dos defensores da natureza contra os proprietários das minas como uma nova máquina de fabricar o desemprego. “Houve uma decisão da justiça, em junho de 2004”, conta Anna Sale, que trabalha para uma organização ambientalista, a Sierra Club. “Para nós, significou uma grande vitória. Ficamos felizes em dar entrevistas aos jornalistas da televisão local, quando nos procuraram, comunicando-lhes a nossa satisfação. O título que eles deram à matéria foi: ‘O veredicto do tribunal provocará a supressão de centenas de empregos: os ecologistas comemoram’.”

Mas a causa ambientalista não deixa de avançar na Virgínia Ocidental, como Anna Sale, muito culta e recém-formada na Universidade de Berkeley, na Califórnia, deixa escapar: “Os empregos dos mineiros representam apenas 2% da população economicamente ativa. Portanto, o número de empregos perdidos no caso de fechamento de uma mina deveria ser comparado com o número de rios perdidos, caso prossiga a atividade”. A organização Sierra Club pede votos para John Kerry. Este, no entanto, evita ser vinculado ao tipo de “extremismo ecológico” de que foram acusados, há quatro anos, grupos que apoiavam Albert Gore. Robert Byrd, senador democrata do Estado e muito influente, dá seus conselhos, apesar de ter votado contra a ratificação do protocolo de Kyoto: “Gore e o governo Clinton foram longe demais nessa questão do meio ambiente, em particular no que se refere ao carvão. Mas John Kerry já veio várias vezes a Virgínia Ocidental. Passa um pouco de carvão na cara, nos cabelos, e logo ficará OK.”

Na convenção democrata de Boston, em julho de 2004, Nick Casey dirigia a delegação da Virgínia Ocidental. Homem de esquerda – simpatizante dos sindicatos, conhecedor da história social de seu Estado, pouco chegado a modismos intelectuais e reservado em relação à globalização – era também, como a maioria dos delegados de Boston, contra a guerra do Iraque. De saída, seu candidato preferencial não era Kerry, mas, como bom soldado, previu uma vitória sua na Virgínia Ocidental de “60/40”. Casey, que detesta o cinismo do atual presidente, reconhece seu talento político. Ao contrário de um Michael Moore ou de vários outros militantes progressistas norte-americanos, ele se abstém de considerar Bush um cretino manipulado por seu círculo mais próximo, ou um pregador iluminado antecipando o Apocalipse para precipitar o reino do Senhor sobre a terra. “Bush fica muito à vontade com as pessoas. Sabe dar seu recado. Seu comportamento de caubói, infelizmente, é uma coisa de que os norte-americanos gostam muito. É uma característica, do tipo ‘Se alguém me acerta, dou o troco’.. Ele é desprovido de sabedoria, mas sabe tomar decisões – às vezes, idiotas. Politicamente, ele é temível.”

“Dar o troco”

A escola prefere a promoção de marcas de produtos à promoção das lutas operárias e da história popular

Desde o 11 de setembro – e o horror, constantemente repetido, dos atentados (para o qual contribuem os alertas permanentes) – a maioria dos norte-americanos compreende muito bem o que é “dar o troco”. E esperam de seu presidente que ele saiba “tomar decisões”. Nesse item da liderança, o contraste não favorece o senador do Massachusetts. A política iraquiana de Bush é um beco sem saída – alguns republicanos o reconhecem7 – mas a apresentação que ele faz é mais ou menos constante e coerente. Inicialmente delicada, a questão das mentiras de guerra foi habilmente reformulada na seguinte idéia: se um punhado de homens armados de canivetes pode destruir duas torres em Manhattan e uma ala do Pentágono, um ditador antiamericano constitui, por si só, uma arma de destruição em massa.

Em Huntington, Bush explica, então, a um público antecipadamente convencido à medida que é imune a esse efeito: “Sadam Hussein não queria respeitar as decisões das Nações Unidas. Tive que escolher: deveria confiar na palavra de um louco, esquecer as lições do 11 de setembro, ou deveria agir em defesa dos Estados Unidos? Colocado diante de tal alternativa, eu decidiria sempre em favor da defesa da América (aplausos e gritos de USA! USA!). Por termos agido, por nos termos defendido, porque a obrigação mais solene de um Estado é a defesa da segurança de seu povo, mais 50 milhões de pessoas conheceram a liberdade no Afeganistão e no Iraque.”

Rancor pelo desdém da elite

Ao tomar, atualmente, por alvo principal a elite da cultura, esse populismo de direito norte-americano poupa a elite do dinheiro

Os europeus, os intelectuais e os artistas podem argumentar o quanto quiserem sobre os exageros nas ameaças, sobre a tortura em Abu Ghraib, sobre saques e pilhagem: seu crédito continuará nulo junto ao povo simples, conservador. E os republicanos brilham ao se apresentarem como acuados, perseguidos por uma “elite progressista” (liberal elite) que reúne advogados astuciosos, doutores universitários arrogantes, uma mídia sem moral e atores metidos a professor. E a caricatura nem sempre é infundada. O isolamento social da maioria dos intelectuais, dos “especialistas”, seu individualismo e seu narcisismo, seu desdém pelas tradições populares e seu desprezo por esses “capiaus”, espalhados por esses grotões e que continuam a apoiar Bush, cegariam um observador distante. E isso provoca um ressentimento com o qual a rede Fox News e os republicanos fazem, em seguida, sua festa.

Isso porque – e o caso da região dos Apalaches o demonstra – o populismo de direita norte-americano já não se limita a matar a sede na fonte de um racismo, ainda que velado (aliás, a Virgínia Ocidental se constituiu em Estado por ocasião da guerra de Secessão contra a defesa da escravatura), ou de uma xenofobia, de um ódio pelo outro, mas, sim, num rancor contra o desdém evidente nas pessoas da elite. Ao tomar, atualmente, por alvo principal a elite da cultura, esse populismo poupa a elite do dinheiro. E consegue fazê-lo porque a suficiência dos que sabem se tornou mais insuportável do que a insolência dos que têm.

(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Mary Harris Jones, Autobiography of Mother Jones, ed. Dover Publications, Mineola, Estado de Nova York, 2004.
2 - George W. Bush obteve 51,92% dos votos, contra 45,59% de Albert Gore e 1,65% de Ralph Nader.
3 - Ler, de Thomas Frank, What’s the Matter with Kansas? e, também, o artigo “Cette Amérique qui votera républicain”, Manière de Voir nº 77 (“Les Etats-Unis en campagne”), outubro-novembro de 2004.
4 - Em 2003, o presidente Bush instituiu tarifas alfandegárias para a redução do volume das importações de aço. Suspendeu-as alguns meses depois em virtude de uma decisão da OMC.
5 - Ler, de Michael Harrington, The Other America/Poverty in the United States, ed. Simon & Schuster, Nova York, 1962, p. 3.
6 - “Lattie Home from Iraq for R&R”, Mullen’s Advocate, Mullens, 4 de agosto de 2004.
7 - Bill O’Reilly, apresentador “tradicionalista” do programa mais popular da Fox News, admitiu, em agosto deste ano: “A guerra do Iraque é um enorme fiasco e todo mundo sabe disso.”




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