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Receita americana para reprodução da elite

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Como o sistema educacional norte-americano joga fora as idéias de “concorrência” e mérito para garantir que os filhos da elite tenham lugar cativo em um clube fechado de proteção e reprodução de seus quadros

Rick Fantasia - (01/11/2004)

O sistema reproduz as elites e, ao mesmo tempo, nega a existência de um sistema de classe e sua influência sobre o poder

Na noite da eleição presidencial, o champanha correrá num edifício de pedra – “La Tombe” [O Túmulo], situado no coração do campus da Universidade de Yale, em New Haven, no Connecticut. As comemorações vão acontecer qualquer que seja o vencedor, John Forbes Kerry ou George Walker Bush.

Parecido com um mausoléu, “O Túmulo” é a sede da Skull and Bones Society (Associação do Crânio e dos Ossos). É o mais fechado dos grupos iniciáticos de Yale. A cada ano, 15 estudantes, em licença, encontram-se nessa sociedade secreta, trampolim para o poder desde que nasceu, há 172 anos. Tem 800 membros vitalícios que, por meio de ritos secretos e encantações, foram unidos numa lealdade testada. Não é só George W. Bush que é um “Bonesman”, também o são seu pai, o ex-presidente George H. W. Bush, seu tio Jonathan Bush, os tios de seu pai, John Walker e George Herbert Walker III, e seu avô, Prescott Bush; por outro lado, o atual presidente dos Estados Unidos nomeou pelo menos cinco membros desse grupo para cargos em seu governo. Se o candidato republicano vier a perder a eleição, será sucedido por um outro diplomado de Yale e membro da Skull and Bonés: John Kerry.

A Skull and Bones Society serve igualmente como correia de transmissão para a Corte Suprema, para a Central Intelligence Agency (CIA), para as bancas de advogados e para os conselhos de administração mais prestigiosos do país. A rede constituída por essa sociedade oferece um abundante material a quem quiser elaborar uma história tecida de complôs e de intrigas. Entretanto, é mais produtivo partir desses clubes e associações para dissecar os mecanismos habituais de privilégios de classe que funcionam no interior do sistema educacional através de clubes privados. Porque, assim como Yale tem sua Skull and Bonés, Harvard tem seu Porcellian Club e a Universidade de Princeton tem seu Ivy Club. Com as instituições menos conhecidas que a elas se vinculam, as oito universidades de elite norte-americanas da “Ivy League” compõem um mecanismo de seleção social bem regulado que permitiu reproduzir as elites norte-americanas e, ao mesmo tempo, negar a existência de um sistema de classe e sua influência sobre o poder.

Mudança no pós-guerra

As instituições privadas da elite tiveram aceitar os que eram socialmente bem colocados e os que eram escolarmente bem preparados

No pós-guerra, teve início uma dinâmica de democratização do ensino secundário norte-americano graças ao desenvolvimento do sistema público de ensino superior e universitário. Uma população importante e diversificada teve acesso a estudos superiores, o que não deixou de induzir mudanças no âmbito da elite e das instituições privadas. Até então, as universidades da Ivy League funcionavam a serviço da classe alta, recebendo quase unicamente filhos das famílias aristocráticas, geralmente na base de uma “piscada e de um aperto de mãos” (o que equivale a dizer em função da rede de relações sociais). Uma vez admitidos, esses filhos de família de “sangue azul” levavam uma vida universitária tranqüila num clima de veneração institucional. Estabeleciam sólidas ligações com seus pares, destinadas a durar a vida toda e que iam do Rotary Club aos conselhos de administração, passando pelos terrenos de golfe (é o que ainda se chama de old boy network, ou “rede dos rapazes de idade madura”).

No decorrer das décadas seguintes, sob a pressão das novas políticas governamentais de ajuda aos estudantes sem dinheiro, do Movimento dos Direitos Civis dos Negros e das lutas feministas, as instituições privadas da elite tiveram que fazer coexistirem os que eram socialmente bem colocados e os que eram escolarmente bem preparados. As universidades da Ivy League apoiaram, então, critérios de admissão mais meritocráticos do que aristocráticos (resultados nos exames, histórico escolar). Com a multiplicação dos estabelecimentos públicos de qualidade e uma escolaridade a baixo custo, o aparecimento de bolsistas nos campi da maioria dos faculdades e universidades de elite fortaleceu a idéia de um sistema de ensino superior aberto a (quase) todos. Bastava trabalhar muito.

Seleção social

As portas das instituições abriram-se, mas o mundo fechado dos clubes ainda desempenha um papel social maior

O sistema norte-americano de educação superior, entretanto, continua a obedecer a poderosos mecanismos de seleção social, embora sejam mascarados pelos importantes fundos que os faculdades e universidades investem em suas relações públicas, apresentando, externamente, uma imagem de excelência educacional e de neutralidade social. As portas das instituições abriram-se, mas o mundo muito fechado dos clubes, das associações estudantis e das sociedades iniciáticas ainda desempenha um papel social maior nos estabelecimentos da Ivy League. Eles se encarregam da seleção que as universidades efetuavam abertamente antes da democratização” 1. Esses clubes reproduzem o mundo social da elite como uma espécie de conflito cultural, uma conserva cultural da exclusão de classes num sistema de educação baseado, em princípio, na negação das estratificações sociais.

Ainda que os estabelecimentos da Ivy League recebam estudantes originários de um espectro mais amplo da população que no passado, o essencial de seus efetivos provém das elites sociais norte-americana e internacional. Por outro lado, estimulam a presença de clubes reservados à classe superior porque eles asseguram quase automaticamente um pool de doadores potenciais no momento de suas campanhas de arrecadação de fundos.

O ensino superior norte-americano é assegurado por mais ou menos 2 mil instituições cuja hierarquia, com freqüência, estabelece uma correlação entre nível de seletividade e de prestígio com a antiguidade – a hera, ivy, leva tempo para cobrir a fachada de um edifício –, o volume de sua dotação financeira e a origem social de seu corpo discente. No ápice, encontra-se Harvard (fundada em 1636), Yale (1701) e Princeton (1746), as três universidades mais seletivas e mais famosas. Cada uma está à frente de um fundo de dotações equivalente ao capital de firmas multinacionais (com 22 bilhões de dólares, Harvard é a universidade mais rica do planeta; tanto Yale como Princeton detêm, cada uma, cerca da metade desse montante). Cinco outras universidades privadas da Ivy League possuem vários bilhões de dólares, o mesmo ocorrendo com cerca de uma dúzia de outras faculdades privadas entre as mais cotadas.

Negócio universitário

As doações de famílias ricas são estimuladas por “escritórios de desenvolvimento” instalados no interior das universidades

Essa fonte de riqueza é fruto das relações estreitas e antigas entre os estabelecimentos e as famílias norte-americanas mais ricas e eminentes, cujas copiosas doações são cuidadosamente estimuladas por “escritórios de desenvolvimento” instalados no interior das próprias universidades. Aos olhos das multidões, os clubes privados podem passar por bastiões dos privilégios e da exclusão; aos olhos dos administradores das faculdades, são sobretudo frutos maduros a serem colhidos. Os legados dos ex-alunos da Ivy League se sucederam ao longo das gerações, oferecendo aos estudantes atuais as vantagens (equipamentos, professores) de uma herança considerável: as dotações de Princeton, Harvard e Yale, por estudante, chegam, respectivamente, a 1,3 milhão de dólares, a 1,065 milhão de dólares e a 947 mil dólares. A prática que consiste em fazer donativos pessoais a sua alma mater começa a se estender aos estabelecimentos públicos.

Isentas de impostos, as universidades, com freqüência, dão aos municípios uma contribuição voluntária que lhes permite manter boas relações com os políticos locais. Não contentes com investir seus fundos de dotação nos mercados financeiros, várias delas possuem também um enorme parque imobiliário. Amplos setores de Cambridge e de Boston, por exemplo, pertencem a Harvard. Yale possui um patrimônio imobiliário muito apreciável na região de New Haven. Quanto à Universidade de Columbia, seu fundo de dotação de 5 bilhões de dólares faz dela um dos maiores proprietários de terras de Nova York, cidade em que os imóveis são dos mais caros do mundo.

Atrás dos estabelecimentos da Ivy League vêm dezenas de faculdades privadas classificados em função de sua seletividade, de sua reputação, de sua antiguidade, de seus fundos de dotação e da origem social dos alunos. Voltadas para a aquisição de uma “cultura geral” (i) e para a formação dos alunos para a reflexão “gratuita”, essas instituições atraíram os filhos das elites sociais que não sofrem pressão financeira e parental para adquirir conhecimentos práticos e entrar no mercado tão logo acabem os quatro anos de estudos e obtenham a licença.

Regime de exclusão

Ameaças de privatização e medidas fiscais regressivas obrigaram algumas das maiores universidades públicas a acumular seus próprios fundos de dotação

Um grau mais baixo na escala social, encontram-se os estabelecimentos públicos. Financiados pelos Estados, sua influência não alcança a de seus congêneres privados, embora os de maior prestígio (Berkeley, o MIT, Caltech, Michigan State University etc.) compensem com sua reputação científica o que lhes falta no plano social2. Durante as décadas do pós-guerra, sua base financeira foi fortalecida pela popularidade de suas equipes de futebol, a qual garantiu um apoio popular e a benevolência dos políticos encarregados do controle de seu orçamento. Porém, mais recentemente, as pressões conjugadas da privatização e de medidas fiscais regressivas obrigaram algumas das maiores universidades públicas a acumularem seus próprios fundos de dotação a fim de atenuar os limites financeiros.

Além dos quase 150 estabelecimentos, públicos ou privados, que combinam qualidade de ensino, nível científico e reputação social, existem mais ou menos 2 mil instituições de ensino superior. A metade delas é constituída por centros universitários públicos de ciclo básico que asseguram, em dois anos, apoio escolar e formação profissional destinada, ao mesmo tempo, a compensar as lacunas do ensino secundário e a formar operários qualificados. Esses estabelecimentos, os community colleges, conservaram, entretanto, uma aparência de função universitária e possibilitam que estudantes de origem popular tenham acesso a universidades para fazerem aí uma graduação de quatro anos. Ainda que menos importante do que no passado, foi essa função de antecâmara, de “transferência”, que contribuiu para dar ao ensino superior seu verniz democrático, disfarçando um sistema injusto atrás do véu simbólico das promessas de futuro, da “oportunidade” aberta aos menos favorecidos3.

O processo de exclusão social opera em todos os níveis de um sistema que tem experiência em travestir uma seleção de classe dando-lhe a aparência de performance universitária. O exemplo mais flagrante de tal viés é o tratamento de favor dispensado aos “legados” (legacies) pela maior parte das instituições de elite. Esse termo designa o tratamento preferencial em matéria de admissão de que se beneficiam os filhos e os netos dos alumni (ex-alunos). Para os filhos daqueles que contribuem generosamente para o fundo de dotação da universidade, a admissão é quase garantida, a menos que se trate de um aluno verdadeiramente incapaz de demonstrar um mínimo de aptidão escolar4.

As escolas do poder

No ápice da pirâmide social, não é a qualidade do ensino que conta, e sim as relações sociais que se estabelecem e se consolidam nas faculdades privadas

Os filhos e as filhas de privilegiados podiam considerar sua admissão a uma das universidades de elite igual a um direito herdado ao nascer; sua experiência universitária lhes servia antes de tudo para tecer os laços e para fortalecer relações entre pessoas originárias do mesmo mundo. Nos últimos anos, o número dos que pretendem atuar na corte dos grandes e poderosos aumentou. Alguns têm os meios financeiros necessários, mas não têm as relações. Os filhos das famílias abastadas que não têm o pedigree social da elite acham-se diante de um problema. Como evitar que sejam excluídos por causa dos mecanismos instituídos pelas gerações anteriores (graças aos quais a classe alta mantinha sua coesão social) e, ao mesmo tempo, por causa de exigências universitárias rigorosas que nem todo mundo está apto a satisfazer?

Para responder a esses problemas, implantou-se, nos últimos dez anos, uma indústria de consultoria que oferece um amplo leque de serviços aos filhos de pais endinheirados que aspiram a um estabelecimento da Ivy League. Os consultores tiram proveito desse engarrafamento no ápice. Propõem cursos particulares e sessões de preparação para os exames de ingresso exigidos pelas faculdades e pelas universidades. Segundo a diretora de uma agência de consultoria, as tarifas para uma preparação de alto nível decuplicaram no decorrer da última década. Sua empresa fornece diferentes serviços cujos preços variam entre 100 dólares (por uma simples avaliação dos alunos) e 10 mil dólares pelo “programa de admissão garantida à Ivy League”. O programa é acompanhado de uma “promessa de reembolso” caso o candidato não seja admitido. Contudo, os alunos são cuidadosamente selecionados antes de poderem comprar esse serviço...

No ápice da pirâmide social, não é a qualidade do ensino que conta mas, sim, as relações sociais que se estabelecem e se consolidam nas faculdades, que são mais apreciados ainda à medida que são exclusivos. Para a classe alta, esses laços vêm muito antes da experiência universitária. Eles foram fortalecidos em escolas primárias privadas, nas férias de verão passadas num pequeno número de localidades litorâneas do Maine (para Bush) e do Massachusetts (para Kerry) e, principalmente, num grupo de escolas secundárias privadas muito fechadas, que são chamadas de prep schools. Dentre elas, 16 são famosas por seus serviços prestados às famílias norte-americanas da classe alta5. Situados em áreas rurais, geralmente na Nova Inglaterra, esses pensionatos foram destinados a isolar seus hóspedes da decadência moral e dos hábitos malsãos imputados às cidades do Nordeste para onde afluíam os imigrantes no século XIX. Como seus congêneres britânicos, buscavam “fortalecer a cepa” da classe alta impondo um regime de levantar-se de madrugada, duchas geladas, regulamentos rígidos e trabalho escolar obstinado.

Recrutamento na elite

O pessoal encarregado das admissões universitárias tende a favorecer o recrutamento de estudantes originários da elite

Esses conservatórios sócio-culturais continuam a prosperar e a preparar seus alunos para se moverem no meio da elite, inculcando-lhes uma certa maneira de ver as coisas, de agir e de falar e empenhando-se para lhes assegurar o máximo de chances de serem aceitos numa faculdade ou numa universidade de elite. Providas de dotações mais importantes que aquelas de que dispõem muitas faculdades privadas, e exigindo despesas de escolaridade da ordem dos 25 mil a 30 mil dólares por ano, essas escolas preparatórias têm os meios de recrutar um exército de consultores que prepararão dossiês elaborados e negociarão diretamente, em nome de seus alunos, com os comitês de admissão das universidades.

Os critérios de admissão – que permitem uma classificação por notas (médias obtidas ao longo do curso de nível médio ou resultados de exames) – conferem uma aparência científica ao que se mantém como um processo social. Porque os exames continuam beneficiando os detentores de um capital cultural, em parte herdado. De resto, os estabelecimentos do ensino médio que atribuíram as notas aos alunos (em vista de sua admissão à universidade) foram, eles próprios, objeto de uma classificação hierárquica estabelecida em função da riqueza do distrito geográfico em que se encontram e conforme se trate dessa ou daquela instituição privada do ensino médio (algumas são conhecidas por servirem de incubadoras para as universidades da Ivy League)6.

O pessoal encarregado das admissões universitárias tende a favorecer o recrutamento de estudantes originários da elite. As universidades já são predispostas a examinar favoravelmente o dossiê dos diplomas dos prep schools. Com freqüência egressos dos estabelecimentos da Ivy League, os consultores sabem persuadir seus interlocutores, na linguagem nuançada típica da classe alta, dos fundamentos para a admissão de seus alunos. As escolas públicas não têm condições de fazer concorrência nesse contexto: devido às restrições orçamentárias que sofrem, a relação média entre estudantes e consultores é, nelas, de 401 para 17. No entanto, os propagandistas da “meritocracia” são, freqüentemente, sinceros. Como venceram dentro do sistema, têm interesse em divulgar seus mitos fundadores.

Sistema vitalício

Pode-se compreender, numa sociedade que não garante nada a ninguém, a preocupação permanente com sua vantagem pessoal

Como seu pai, o presidente George W. Bush freqüentou a Phillips Academy, em Andover (Massachusetts) e John Kerry, a St. Paul’s School, em Concord (New Hampshire). Cada uma dessas escolas tem um fundo de dotação de 300 milhões de dólares e ambas fazem parte dos estabelecimentos privados mais famosos do ensino médio. Aqui, o que conta não é apenas o fato de que os homens (e as mulheres) de poder são produzidos socialmente num estrato muito reduzido da sociedade ou que o sistema educacional funciona segundo um princípio que responde ao palavrão impronunciável “classe”. A maneira como se desenrola a vida da elite social revela a contradição fundamental aninhada no coração da sociedade norte-americana: uma tal existência aristocrática viola abertamente a ideologia do mercado que domina o pensamento dos grandes partidos e o das elites sociais.

Pode-se compreender, numa sociedade que não garante nada a ninguém, a preocupação permanente com sua vantagem pessoal. “Dar a meu filho todas as vantagens”: uma prática que está encaixada na que já faz pender a balança social para o lado dos beneficiários da maior parte das vantagens. Porque os 10% de norte-americanos situados no ápice da escala, que detêm cerca de 72% da riqueza nos Estados Unidos, viram sua renda anual aumentar numa média de 90% entre 1970 e 2000, ao passo que a renda dos outros estagnava.

Embora repisem o discurso da concorrência, do mérito e da economia liberal, as elites sociais não poupam esforços nem dinheiro para protegerem seus filhos em lugares privados, longe da violência que corre em outros locais e longe do risco de ver sua prole se unir a alunos estranhos a seu meio social, suscetíveis de influenciá-los e de rivalizar com eles. Esse mundo de relações em espaço fechado, onde se vive cercado em cada etapa da existência por altas muralhas institucionais, protegido por listas de membros, critérios de admissão na frente do cliente e dos estratos sucessivos de ritos e de práticas de exclusão, gera um intenso fenômeno de classe numa sociedade que se imagina desprovida de classes. Quando se observa que essas instituições de elite, que atraem os membros de uma elite, os recrutam para a vida toda (alunos do primário escolhidos com o maior cuidado, prep schools, universidades da Ivy League, enclaves privados no interior dessas universidades, como a Skull and Bonés, clubes reservados aos homens ou às mulheres), é impossível não ficar chocado com algo paradoxal: um sistema vitalício, elaborado, de associações coletivas e de “proteções sociais” que representa – mas no seio da elite e para seu proveito – uma forma de socialismo “do berço até o túmulo”.

(Trad. Iraci D. Poleti)

1 - A abertura dos faculdades de maior prestígio para categorias de estudantes que deles eram excluídas anteriormente, como as mulheres e os negros, não significa que essas instituições tenham recrutado muito entre os pobres ou na classe operária. Um estudo recente sobre as 146 faculdades e universidades mais competitivos indica que só 3% dos estudantes admitidos vêm de famílias econômica e socialmente modestas (ver "Class Rules: the Fiction of Egalitarian Education", Peter Sacks, The Chronicle of Higher Education, 25 de julho de 2003). Henry Louis Gates Jr., presidente do Departamento de Estudos Africanos e Afro-americanos de Harvard, estima que “as crianças negras que entram em Harvard ou em Yale vêm das classes médias. Ninguém mais é admitido nelas”.
2 - A riqueza e a fama das universidades da Ivy League se convertem em capital (ou em recursos) científico, pois esses estabelecimentos conseguem, mais facilmente, atrair os melhores professores e pesquisadores, oferecendo-lhes bolsas de pesquisa muito importantes.
3 - Ver, de Steven Brint e Jerome Karabel, The Diverted Dream: Community Colleges and the Promise of Educational Opportunity in America, 1900-1985, Oxford University Press, Nova York, 1989.
4 - Cf., de Jacques Steinberg, “Of Sheepskins and Greenbacks: College-Entrance Preferences for the Well Connected Draw Fire”, The New York Times, 13 de fevereiro de 2003.
5 - Ver, de Caroline H. Persell e Peter P. Cookson, "Pensionnats d’élite: ethnographie d’une transmission de pouvoir" in Actes de la recherche en sciences socials, n° 138, junho de 2001, p. 56-65; e Preparing for Power: America’s elite boarding schools, Basic Books, New York, 1985.
6 - Nos Estados Unidos, as escolas são amplamente financiadas pelos impostos sobre bens imóveis, embora o financiamento das escolas seja em função do nível de ensino e da riqueza dos contribuintes da localidade (e do Estado). O governo federal (Washington) dá somente cerca de 10% da verba destinada ao ensino de primeiro grau e ao ensino médio.
7 - Dados extraídos de The State of College Admission, 2003-2004, publicado pela National Association for College Admission Counseling, Alexandria, Virgínia, fevereiro de 2004, p. 4-6.




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