Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Como apoiar Outras Palavras

» Duas cosmovisões em choque na Amazônia

» A cultura alimentar proibida pela lei

» A sociedade dos afetos regredidos

» UberCapitalismo: a contrarrevolução do século 21

» UberCapitalismo: a contrarrevolução do século 21

» Revolução Russa: mitos, erros e atualidade (1)

» Frugalidade, opção anticapitalista

» Henrique Meirelles e o Consenso de Washington

» Rio Doce, a farsa da “recuperação”

Rede Social


Edição francesa


» Darboussier, mémoire tenace de l'esclavage

» Quand l'art du roman s'empare de l'histoire

» Relire Marcuse pour ne pas vivre comme des porcs

» L'autre combat des femmes kurdes d'Irak

» Révolte silencieuse pour sauver l'Unesco

» La France condamnée à désarmer

» Ces grandes puissances, obstacles à un monde non nucléaire

» Des champs pétrolifères contestés

» Les frontières incertaines du Kurdistan

» Pour un nouvel ordre économique mondial


Edição em inglês


» Gabriel Gorodetsky on the early years of Soviet foreign policy

» Trump's game plan

» “Tell me how this ends?”

» “Enemy Combatants” again?

» The empire comes home

» The scandal of Pentagon spending

» Autopilot wars

» The Trump presidency

» Trump is in your head

» China's new Silk Road


Edição portuguesa


» Que SNS temos? Que SNS queremos?

» Ordenar a floresta contra incêndios: não basta a silvicultura

» Os incêndios florestais, mais uma vez

» Edição de Outubro de 2017

» Trabalho à esquerda

» O século de Lenine

» «Nova rota da seda»: um trunfo geopolítico para a Rússia

» Edição de Setembro de 2017

» Blocos de actividades para o Estado e para o mercado

» Donald Trump ultrapassado pelo partido anti-russo


EDITORIAL

Bush II

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

As eleições norte-americanas confirmam que a democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos

Ignacio Ramonet - (01/12/2004)

É preocupante que Bush tenha sido o candidato mais votado da história eleitoral norte-americana

A reeleição, no último dia 2 de novembro, de George W. Bush para a Presidência dos Estados Unidos constitui uma afronta ao espírito da democracia norte-americana, a mais antiga do mundo e, por isso mesmo, sua referência primordial. É evidente que, tecnicamente falando, não há – desta vez – o que reclamar. Ninguém pode contestar o caráter legítimo da votação. Usando de seus direitos, os eleitores escolheram segundo seus desejos1. Nem por isso esta eleição é menos inquietante, e até chocante. Confirma que a democracia – apesar de ser o menos imperfeito dos regimes políticos – não está isenta de escolhas que podem levar ao poder perigosos demagogos.

É realmente preocupante que Bush, conhecido por seu fundamentalismo religioso, por sua mediocridade intelectual e por sua incultura, tenha sido o candidato mais votado da história eleitoral norte-americana. Principalmente por ter enganado seu povo e mentido ao Congresso para conseguir autorização de conduzir uma “guerra preventiva” (não autorizada pela ONU) e invadir o Iraque; por ter incentivado um uso desproporcional de força, provocando a morte de milhares de civis iraquianos inocentes2; por ter ignorado a “ordem executiva” de 1976 do presidente Gerald Ford (ainda em vigor e que proíbe os serviços secretos de assassinarem dirigentes políticos estrangeiros) e ordenado a execução de supostos “terroristas3”; por ter violado as Convenções de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros de guerra; por ter permitido a prática de tortura na prisão de Abu Ghraib e em outros centros de detenção secretos; e porque ressuscitou o espírito do macartismo, que consiste em considerar culpado qualquer cidadão que possa ser suspeito de manter vínculos com uma organização inimiga.

Plebiscito da ilegalidade?

As duas primeiras nomeações, Alberto Gonzáles e Condoleezza Rice, confirmam que Bush interpreta sua vitória eleitoral como um plebiscito à sua política

Com um quadro de honra de tal maneira sinistro, qualquer outro dirigente seria declarado pouco recomendável e banido do mundo civilizado. Não George Bush que, além do mais – e enquanto presidente da única hiperpotência mundial – ocupa o lugar central do dispositivo político internacional.

Seu segundo mandato promete dar continuidade ao anterior. E as duas primeiras nomeações de ministros confirmam que Bush interpreta sua vitória eleitoral como um plebiscito à sua política. A escolha de Alberto Gonzales para o Departamento de Justiça, por exemplo, constitui uma resposta de desprezo a todos os que criticam a tortura em prisioneiros acusados de terrorismo. Isso porque, na condição de assessor jurídico do presidente, o próprio Gonzales foi o autor dos dispositivos legais que permitiram contornar as Convenções de Genebra – qualificando de “inimigos combatentes” os prisioneiros das guerras do Afeganistão e do Iraque – e da criação da base de Gunatánamo. Contrariando a legislação norte-americana e os tratados internacionais, Gonzales não hesitou em suspender a proibição de que fossem exercidas “pressões físicas” sobre esses prisioneiros sob o pretexto de que “na condução da guerra, a autoridade do presidente é total4”.

Limites do instrumento militar

A incapacidade das forças armadas se imporem no Iraque contra os insurrectos prova os limites do instrumento militar

Quanto à nomeação de Condoleezza Rice para o Departamento de Estado, é impossível não ver na medida uma reivindicação do unilateralismo puro e duro defendido pelos republicanos autoritários do círculo presidencial e que parecem confirmar novas ameaças contra o Irã.

No entanto, a incapacidade das forças armadas se imporem no Iraque contra os insurrectos prova os limites do instrumento militar. Constatação que também se pode fazer em Israel, no momento em que desaparece Yasser Arafat, o general Ariel Sharon, principal aliado de Bush no Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense constata que a capacidade de sofrimento dos palestinos continua superior à capacidade de destruição de seu exército. Saberia ele compreender as conseqüências disso?

Seria Bush capaz de acabar reconhecendo que os aspectos negativos da globalização (pobres cada vez mais pobres, injustiças planetárias, rivalidades regionais, desequilíbrios climáticos etc.) podem degenerar em conflitos caso não se consiga uma mediação conjunta multilateral? Ou que uma potência não pode pretender impor a lei sozinha?

(Trad.: Jô Amado)

1 - Um desejo que, no entanto, foi fortemente condicionado pelo marketing político e pela propaganda na mídia. Veja o documentário Outfoxed (2004), de Robert Greenwald, sobre a manipulação da informação nos Estados Unidos em favor do presidente Bush.
2 - Segundo a organização Iraq Body Count (www.iraqbodycount.net), o número de civis mortos em decorrência da intervenção militar no Iraque chegaria, em 21 de novembro de 2004, a 14.454. Porém, segundo a revista médica britânica The Lancet de novembro de 2004, o número de civis iraquianos mortos em conseqüência direta ou indireta da invasão norte-americana seria da ordem de 100 mil...
3 - Ler, de Seymour Hersch, Permission de tuer. Les nouveaux services secrets, ed. Empêcheurs de penser em rond, Paris, 2004.
4 - El País, Madri, 11 de novembro de 2004.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Estados Unidos
» Eleições
» Crise da Democracia Representativa

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos