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PALESTINA

No coração do segredo palestino

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Com a morte de Arafat, dois grandes segredos permanecem: a doença que causou seu desaparecimento e as condições para a conquista do Estado palestino

Elias Khoury - (01/12/2004)

Arafat acaba de encontrar seus companheiros, os fundadores do movimento Fatah, que redesenharam a Palestina

A morte de Yasser Arafat vira uma importante página da história da Palestina. Arafat morreu em um hospital parisiense levando consigo dois segredos. Será preciso esperar muito tempo antes de ver o primeiro segredo elucidado. Trata-se dessa doença misteriosa que dá a impressão de um assassinato. Poderíamos dizer que Abou Ammar acaba de encontrar seus companheiros, os fundadores do movimento Fatah, que redesenharam a Palestina com seu sangue. Ele penetrou no segredo da morte revoltando-se, após ter conversado inúmeras vezes com ela durante a longa doença que os médicos não conseguiram explicar. Foi envenenado? O longo seqüestro em Mouqata teria agido como um envenenamento sharonien que o fedayin palestino deve ter tomado antes de partir para sua última viagem?

O segundo segredo importante é conhecido de todos, mas parece ao mesmo tempo tão inconcebível e tão claro, que ninguém ousa admitir. Trata-se deste país, chamado Palestina, que surgiu do fundo da ausência ao ritmo da palavra e do sangue, este país que surgiu dos escombros da Nakba pela magia das palavras e dos sacrifícios. Nos anos 60, enquanto Ghassan Kanafani se consumia com seus Hommes sous le soleil1 [Homens sob o sol] e que Mahmoud Darwich se proclamava como Un Amoreux de Palestine2 [Um apaixonado pela Palestina], Yasser Arafat, Khalil al-Wazir (Abou Jihad) e outros companheiros se engajavam na aventura da luta palestina.

E portanto, é um segredo urdido, ao mesmo tempo, por duas aventuras: a das palavras, que busca tirar o nome do esquecimento, e a do combate para que seu nome se torne verdade. A Palestina nasceu do reencontro destas duas aventuras.

A maior resistência

Os palestinos carregaram seu país sobre seus ombros, não é seu país que os apoiou e abrigou

A Palestina resiste diante da morte e aí está o verdadeiro segredo. Uma resistência maior que todas as palavras e mais elevada que todos os sacrifícios. Os palestinos carregaram seu país sobre seus ombros, não é seu país que os apoiou e abrigou. Eles o construíram com força de vontade e de imaginação, atravessaram com ele o fogo do Setembro Negro na Jordânia e o inferno de Sabra e Chatila no Líbano, o levaram com eles à Tunísia antes de provocar a volta à terra palestina. E aí, esperaram por um longo tempo seu nascimento antes de entrar no purgatório da segunda Intifada. Arafat estava no coração desse segredo, perfeitamente consciente de ser um dos artesãos de uma epopéia que não se prestava ao mercantilismo. Sua última escolha foi, portanto, permanecer fiel aos princípios, sabendo perfeitamente que pagaria com o preço de sua vida. Aqueles que conheciam Arafat sabiam de sua profunda obsessão e seu temor de ser obrigado a reviver o drama de Hajj Amine al-Husseini3 e de sofrer o mesmo destino que o Conselho Árabe Supremo após a Nakba, a grande catástrofe de 1948. Por isso, decidiu permanecer firme, sem perder as rédeas, renunciando a enfrentar as dificuldades de uma segunda Intifada.

Presente ou ausente, defendeu o legado que tinha nas mãos. Por isso os israelenses e os americanos queriam se desfazer dele custe o que sustasse. Talvez tenham conseguido, pois essa misteriosa doença bem poderia ser o nome secreto de um “sucesso” que se assemelha muito a uma infâmia.

Como um cavaleiro, ele parte – e, com ele, desaparece toda uma estrutura complexa e ágil que, ao mesmo tempo, soube aliar estratégia à astúcia. O segredo do Fatah é ter conseguido reunir os contrastes, elaborar um vasto quadro para abarcar todos ao mesmo tempo. Em suas fileiras juntaram-se todas as correntes palestinas, quer sejam nacionalistas, esquerdistas ou islamitas esclarecidos, criando, desta forma, uma frente-movimento cuja única missão era recuperar o direito a uma Pátria, de fazer o significado aderir ao significante.

União pela Palestina

O Fatah era um movimento que agrupava todas as iniciativas, permitia todos os tipos de correntes e obedecia a uma só dinâmica

Portanto, não se poderia compreender as ambigüidades do Fatah sem antes compreender o personagem que Yasser Arafat encarnou e no qual reuniu tanto as variantes políticas quanto as culturais. E fez dele um movimento único, que reagrupava todas as iniciativas, permitia todos os tipos de correntes e obedecia a uma dinâmica única conduzida pelo trio Abou Jihad – Abou Iyad – Arafat, antes deste último se tornar os três ao mesmo tempo.

O mundo todo sempre se mostrou perplexo diante da estruturação do Fatah e aos múltiplos arranjos de suas instituições. Entretanto, à semelhança de sua dinâmica, o segredo deste movimento era simples, consistia em uma só palavra: a Palestina. O Fatah se constitui no amargor e no sofrimento, e se tornou a tribo de todas as tribos e a instituição de todas as instituições sob a liderança do “Velho”, que tinha compreendido que seu segredo residia em sua tenaz capacidade de desenvolver a luta. Ele foi, desta forma, o primeiro fedayin e o primeiro combatente.

No que concerne ao percurso de Arafat, a questão primordial teria por eixo os anos durante os quais esteve na liderança da Autoridade Palestina, criada depois da primeira Intifada, à sombra de um acordo misterioso e ambíguo. De fato, os acordos de Oslo não desenharam um futuro palestino. Na verdade, o deixaram à mercê dos conflitos e do arbítrio dos poderes. E por isso Arafat dá a Autoridade Palestina um duplo papel: por um lado, é uma autoridade eleita que possui suas próprias leis fundamentais e, por outro, é uma autoridade revolucionária que se encontra numa certa etapa da libertação nacional ainda não acabada.

Novos desafios

Depois de Arafat, ficam os desafios de eleger um novo presidente e garantir a continuidade do Fatah

Essa natureza dupla da Autoridade suscitou muitas críticas, pois ela não soube impedir que o espectro da corrupção se infiltrasse em muitas de suas instituições governamentais. Não obstante, essa dualidade fazia parte da etapa em curso, que não poderia prosseguir sem a faculdade que tinha Arafat de concentrar todas as instituições na sua pessoa e de encarnar somente nele a resistência que opunha os palestinos às condições impostas pelos americanos. Na verdade, apesar da dificuldade e da complexidade de sua missão, ele soube preservar o legado que lhe tinha sido confiado desenvolvendo uma luta encarniçada e quase impossível. O que acontecerá após seu desaparecimento?

À primeira vista, dois problemas se impõem. O primeiro é de ordem organizacional, que pressupõe apego às instituições e o respeito às leis e ressalta principalmente a necessidade de eleger um novo presidente. Apesar das dificuldades, a legitimidade política que representa a OLP e o Fatah deve se apoiar em uma legitimidade democrática. O momento é crucial, é preciso usar muita sabedoria e se basear em um certo número de princípios.

O segundo problema é de ordem política: sua essência não é lutar unicamente por objetivos como um Estado independente, Jerusalém e a questão dos refugiados. Trata-se também de manter o patrimônio do Fatah, que construiu uma frente nacional unindo todos os ramos do movimento nacional, afirmando dessa forma a diversidade na união.

Arafat está no coração do segredo palestino e sua história está apenas no começo. Não diremos também “Adeus, Abou Ammar”, pois sabemos, de forma pertinente, que o encontro coincidirá com a aurora da libertação da Palestina, quando os restos mortais de Arafat forem transportados a Jerusalém pela qual ele lutou durante toda sua vida. (Traduzido do árabe por Rania Sâmara. Tradução para o português: Celeste Marcondes)

1 - Publicado em francês por Sindbad, em 1990.
2 - Coletânea organizada em 1966, em árabe, reproduzida no livro Anthologie 1966-1982, Editions de Minuit, 1988.
3 - Dirigente palestino durante os anos 1930/1940, que simbolizou a derrota e a ruína da Palestina.




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