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LITERATURA

A palavra disfarçada em carne

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Eu não faço jorrar sangue, apenas palavras. Mas quem tem necessidade delas, por mais que se esforcem para ser contemporâneos, quem tem necessidade delas?

Elfriede Jelinek - (01/12/2004)

Tenho trabalhado com cuidado, tenho feito tudo para que as palavras sejam aperfeiçoadas, para que tenham direito de cidadania

Convém ficar em cólera diante da necessidade de tantas pessoas de terem um deus, ou fugir diante do perigo? Que educação humana pode evitar o sangue dos mártires? Por que esses “imoladores” acreditam que sua pessoa é a coisa mais preciosa que podem oferecer a seu Deus? E quais são as “promessas de eterna recompensa” que os confortam? De que devem se proteger? Por que essa vontade de punições e de recompensas, se é para entrar no paraíso, exatamente depois, sem ter tido necessidade de contribuir para as maravilhas desse paraíso que se apresenta como uma mesa bem posta - na verdade, eles temem voltar à terra. É claro que ninguém lhes disse que isso só seria possível se esquecessem quem tinham sido. Então, por quê? Prefere-se, então, instalar-se no paraíso das virgens que, talvez, sejam apenas uvas brancas1.

Eu não faço jorrar sangue, apenas palavras. Mas quem tem necessidade delas, por mais que se esforcem para ser contemporâneos, quem tem necessidade delas? Tenho trabalhado com cuidado, tenho feito tudo para que as palavras sejam aperfeiçoadas, para que tenham direito de cidadania. Tudo isso para que sejam esquecidas, até mesmo por mim. Não posso me projetar na eternidade para me convencer de que tudo que “devo esquecer” hoje não será “esquecido para sempre”, como diz Lessing no livro genealógico dos homens2. Para que servem exércitos inteiros que vêm a meu encontro, mas que correm em sentido inverso e me rolariam para baixo sem avisar? Em que direção devo soprar minhas palavras quando outros querem apenas morrer empurrados por um instinto de verdade e não de uma vida interior – empurrados, na verdade, pela falta de instinto ou por uma espécie de excesso de honra ou qualquer coisa do gênero, com o objetivo único de se livrarem de sua vida?

Eu, por exemplo, eu mesma não tenho objetivo. Digamos que já tenha chegado a pensar em um objetivo ao escrever, não para deixar uma certa impressão ou para educar o gênero humano – tive educação demais em minha vida, ela me fez tão pouco bem que não gostaria de chatear outras pessoas com isso, como com um terno feito sob medida que não assenta bem para o homem e nem o engrandece, pouco importa em que assunto o gênero humano ficou submerso todos os dias e com que falatório. Não, mesmo a irrigação intensiva não serve para nada. Eu deveria ter tomado as medidas antes, mas os seres humanos são freqüentemente terrivelmente desmesurados.

Sem medidas

Durante muito tempo, eu me preocupava com o que escrevia, para quem e por quê. Agora, isso me é indiferente

É verdade que muitas vezes eles não são feitos na minha medida, que no entanto não é desmesurada. Ela cabe perfeitamente na capa de um livro. As pessoas querem se adaptar a medidas cada vez maiores em que se agitam, então, nervosamente – por que se encheriam tanto? – sem atingir os limites, sem sequer encontrá-los. Esqueceram-se também de medir bem os seres humanos que matam ou que querem matar, para não matar os maus com um uma falsa medida e em quantidade desmesurada. Dá na mesma. Por mais que sejam numerosos! Por sua causa, começam a despedaçar a carne e os ossos de outros homens, acreditando ao mesmo tempo que é uma honra pagar com sua própria vida. A carne pela carne, a carne contra a carne. Contra isso, os óculos. O livro. Parece que são essas as últimas palavras de Heiner Müller.

Durante muito tempo, eu me preocupava com o que escrevia, para quem e por quê. Agora, isso me é indiferente. Escrever não tem tido conseqüências, o pretenso engajamento também não, exceto tavez para mim mesma. Agora faço isso, pois independente do que se diga não serve para nada. Continuo a dizer coisas, mas compreendi que os que me escutam, me escutarão por acaso. E isso não tem mais importância. Pois não se trata de saber para quem e por que se escreve. Ao contrário. O que se diz não deve ter efeito, é preciso voluntariamente renunciar – renunciar totalmente – à eficácia, a qualquer poder de influência. Ninguém deve se ajoelhar diante de ninguém, e menos ainda diante de mim. Tampouco eu, não me coloco de joelhos diante de ninguém, no máximo estou estirada calmamente em minha cama, com outros alunos, mais ou menos bons, dos dois lados, que também lêem e nada mais, tornando-se assim eternos alunos do curso de primeiro grau, situação que aliás eles deveriam ultrapassar.

Não, não temos tempo para a carne agora, embora eu já esteja na cama, o que é prático. Recusamos, por princípio a carne humana, embora seja interessante observá-la. Há alguém pendurado e que sangra, isso pode ser interessante, imaginamos, eu e meus alunos. Foi até feito um filme com suspense ultimamente3! Já observamos essa carne que vai além do livro e que nos interessa em todas as suas formas? A carne de Deus, do mártir crucificado?

A palavra derrotada

A palavra de Deus, independente de que Deus, tornou-se tão conhecida quanto foi novamente esquecida

Não, não nos ajoelhamos também diante de uma doutrina. A palavra de Deus, independente de que Deus, tornou-se tão conhecida quanto foi novamente esquecida. Essa palavra teve seu tempo, teve sua chance. Agora acabou. Ela nem sequer nos tocou. Foram a carne ou a imagem que a venceram, a palavra não pode sair vencedora, qualquer que seja a celebridade atacada, desde que foi vista ou ouvida pela última vez.

O mesmo acontece com a palavra escrita no Alcorão que “em cada página abala o bom senso” como polemiza Voltaire. O imaginário é atiçado no forno carnal, até que se acredite não importa em que e que se faça o que foi impossível até o presente. Depois de ter analisado bem, Lessing inverte então tudo isso para ver se o inverso é também apresentável. E de uma vez por todas o islamismo torna-se a religião mais racional e o cristianismo uma doutrina que faz acreditar nas coisas mais irracionais. Pouco importa em que se acredita para ter razão, eu bato os pés contra tudo isso e o deixo sem socorro. Só posso fazer isso. Uma dessas religiões tem necessidade de milagres para que se acredite – e para que outros acreditem – nela; a outra vive sem isso, ela não tem necessidade de fazer que se acredite no inacreditável por outros fatos inacreditáveis. Ela difunde doutrinas contidas em um livro, isso lhe basta. Mas infelizmene há quem não se contente com os óculos, com o livro e com nenhuma “Luz”, que consideram insuficientes.

O Velho Testamento, o Novo Testamento, o Alcorão, nenhum livro, meus poucos pobres livros felizmente nem mesmo representam a lia nas ondulações do lago de meu jardim. Quando se aproxima uma borrasca, não há aviso, ela simplesmente chega, nada se pode fazer. Onde estão as crianças que lêem agora os livros elementares, onde estão os filhos da humanidade para ler os livros da humanidade (felizmente, não os meus!), que acreditam compreendê-los, que acreditam ter necessidade deles? O Velho Testamento é o livro da infância, o livro do curso elementar, o bom elemento para a criancinha, mas do qual a criança deve tomar distância, diz Lessing. Quem pode saber como ela deve evoluir? Se ela evolui, é para chegar a si, e jamais ela tem nada a perder exceto ela mesma e nada a não conseguir exceto a eternidade. Quase ninguém pode pensar mais longe do que o lance de uma pedra, do mesmo modo que a criança que cresce hoje em qualquer parte do mundo. Mal cresce, já lança a pedra. Outros que enrolam seu corpo em explosivos pensam mais longe; pensam que seus próprios pedaços de carne e os de outras pessoas podem voar; eles pensam no Todo em sua Totalidade. Eles estão prontos, a qualquer hora, para entrar na terra para alcançar a eternidade.

Livros para crianças

Cada livro elementar é adaptado a uma certa idade: trata-se, então, de colocar mais do que a criança pode absorver, o máximo

Eu adoro os trocadilhos. Você não pode ter nada contra isso, eu lhe digo logo, comigo, é preciso passar por isso! Pois os trocadilhos fazem você perder rapidamente sua eficácia, e é o que finalmente quero. De qualquer maneira, é melhor escrever do que fazer. Você não consegue me fazer desistir de minhas blagues estúpidas, de minhas palavras desabusadas, mesmo empregando a força – bom, talvez com força. Quando quero dizer alguma coisa, digo como quero. Quero, pelo menos, ter essa gratificação, mesmo se não colho nada, mesmo que não tenha o menor eco.

Cada livro elementar é adaptado a uma certa idade, diz Lessing. Trata-se, então, de colocar mais do que a criança pode absorver, o máximo. Aliás, antigamente, eram utilizadas máquinas de impressão que não mais são usadas a não ser para livros particularmente belos. A criança deve ser apertada como um buquê de feno para que possa chegar até Deus. Nós lhe enchemos de segredos dos quais ninguém tem a chave. Como Lessing ainda chama a inteligência da criança? Mesquinha, complicada, minuciosa. Bem falado! Isso a torna misteriosa, supersticiosa, cheia de desprezo em relação a tudo o que é inteligível e fácil. O rabino educa suas crianças com a escritura, ele enche essas crianças da espécie humana com tudo o que elas podem absorver. O caráter do povo assim educado torna-se exatamente semelhante ao que entra na escritura, e ao que sai também, mas isso subsiste na escritura. Isso continua aquela escritura maravilhosa, que não leva à conseqüência, que se pode seguir ou não. Não siga a minha, continue recuado! Não se aproxime muito de mim!

A escritura pode fustigar, agitar, mergulhar, mas ela não pode matar e não pode ser assassinada. Ela pode ser razoável e, no entanto, provocar a maior besteira examente no que é a mais razoável. Tudo é possível. A doutrina pode tornar uma criança inteligente, porque ela acredita nos milagres e, assim, no fundo, nada lhe pode acontecer. Infelizmente, uma outra doutrina pode tornar uma criança estúpida, porque ela não acredita nos milagres e, assim, tudo pode lhe acontecer. Pode fazer tudo com todos os outros. A pátria pode matar, a ciência pode matar, a guerra também pode evidentemente há muito tempo. Mesmo Jesus foi morto, para que outros, em seu nome, também possam matar.

Falando com Deus

Quando eu era criança, Deus falou várias vezes comigo, e durante muito tempo eu temia ser estigmatizada

Mas a escritura enquanto escritura não mata ninguém. Inteligência e verdade, sim, acredito que as palavras nos são necessárias, pois aquele que pára de falar assassina, talvez logo depois. Então, é preciso um pedagogo melhor para, enfim, arrancar “o livro elementar esgotado” das mãos da criança. Cristo veio e até ele começou a se dilacerar. A cortina do templo se rasgou, Jesus também, literalmente, e uma nova era de imortalidade começou, mas uma imortalidade para a qual primeiro era preciso morrer. Impossível fazer o contrário, isso não dá nem um chinelo, um pedaço de pé cortado que passa, o chinelo que arrasta no chão. Pois o Cristo veio e, se você quer saber, eu não teria vindo em seu lugar. Vale mil vezes mais continuar sem eco e sem ser ouvida do que se tornar um Cristo! Criança, ele revelou verdades, mas a infância acabou, agora Deus se abre, um lado dele é aberto para ver o que a carne humana contém: sangue. E quando ela está morta, sangue e água.

Quando eu era criança, Deus falou várias vezes comigo, e durante muito tempo eu temia ser estigmatizada, tal como acreditei em tudo o que ouvi dele. “O que é que faz que todos os filósofos confundam suas convicções com a verdade? Sua superioridade, sua inteligência prática?” pergunta Nietzsche. Não sei. Mas faço uma pequena idéia sobre essa arrogância que antigamente eu também tinha, mesmo que jamais tenha conseguido ser filósofa. De todo modo, esse lugar não convém a uma mulher, há correntes de ar, quanto mais se pensa, menos se torna atraente. Então a mulher – que é apenas carne e, portanto, particularmente perecível – começa logo a colar um poema em um álbum de poesia, para que tenha menos correntes de ar. Pois a mulher tem um lado prático. Antigamente, ela renunciava de boa vontade a qualquer poder. Mas agora a mulher também se faz explodir em nome de sua causa, para que haja o maior número de mortes possível. É horrível. Posso dizer somente como sinto e gosto muito da palavra horror, todavia a prefiro em histórias que fazem tremer, não na realidade. Infelizmente, a realidade não é uma história com tremores, ela se torna História.

No que diz respeito ao tremor, outros o provocam, não os poetas que escreveram o melhor que podiam, mas aquilo não os satisfez. Eu me satisfaço. Eu queria tomar qualquer coisa como a verdade e dizê-la o maior número de vezes possível. A vontade de um pouco mais de justiça, acredito que foi esse meu primeiro elã, mas na Áustria, onde vivo, o que conta mais são os elãs4 que se inscrevem na neve (e a neve fresca os cobre, favorecendo o turismo e, ao mesmo tempo, apagando tudo). Essa “escritura” – sempre mais considerada que tudo o que se poderia “fixar” no papel – é ridículo, em alemão se diz “banir”, pois o que se “bane” pretensamente no papel muitas vezes leva ao exílio nesse país, então é melhor não dizer nada.

Basta ler

Pouco importa as idéias que faço, em todo caso, sou eu que as faço

Sempre me aconselharam. Gentilmente, se ouve. Agora, não quero mais tentar ter efeito. Não, eu tricoto e não tenho efeito, não posso fazer milagres. Se o mártir na cruz não conseguiu isso com todo seu corpo, então como posso eu chegar com meu ridículo “banimento no papel”? Ou melhor, será que faço passar por um banimento incontornável o que de fato era apenas amor pelo papel? Será que não gostei de fazer alguma coisa simplesmente porque não tinha outra coisa para fazer? E não exagerei o que faço, a fim de poder fazer passar, com vanglória, como uma obrigação de educar o gênero humano, não o aumentei até não ficar mais em pé sozinho porque o peso o faz cair por terra no seu lugar? Mesmo que esse não seja o terreno das realidades, realidades que infelizmente não conheço pessoalmente, porque não conheço nada, e raramente saio para conhecer alguém. É vantagem mentir para si mesma, persuandindo-se que se persegue um grande objetivo com o que se faz, e em que o discurso patético dessa mentira em relação a si mesma se distingue do discurso patético da convicção? perguntaria Nietzsche.

Eu me produzo. Imagine isso! Não produzo nenhuma outra pessoa. Eu não me produzi. Não quero produzir nada que possa ir além de mim mesma. Mas mantenho, no entanto, uma pequena manufatura, imagine como ela é minúscula! Ela não lança nada, não atira, não faz nada saltar, talvez ofenda, mas funciona, é sadia. Utilizo idéias para fabricar para mim meu próprio deus ou não importa o que seja, a natureza por exemplo, pouco importa as idéias que faço, em todo caso, sou eu que as faço. E se quiser saber de que posso fazer uma idéia, você tem apenas que ler, nada mais.

(Tradução do alemão para o francês: Brigitte Pätzold. Tradução do francês para o português: Wanda Caldeira Brant)

1 - NDLR - O termo huris que, no Alcorão, designa as virgens foi traduzido por certos especialistas em língua da época por “uvas brancas ”.
2 - NLT - Gotthold Ephraïm Lessing (1729-1781), autor principalmente de Nathan le sage [Natan, o sábio] (1779).
3 - NLT - A autora faz alusão ao filme de Mel Gibson, La Passion du Christ [A paixão de Cristo], março de 2004.
4 - Rastros (nota da tradutora francesa).




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