Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» A desigualdade brasileira posta à mesa

» Fagulhas de esperança na longa noite bolsonarista

» 1 de setembro de 2020

» O fim do mundo e o indiscreto racismo das elites

» O milagre da multiplicação de bilhões — para os bancos

» Movimento sindical em tempos de tormenta

» 31 de agosto de 2020

» A crucificação de Julian Assange

» Nuestra America: os cinco séculos de solidão

» Ir além do velho mundo: lições da pandemia

Rede Social


Edição francesa


» Du « grand tour » à Sciences Po, le voyage des élites

» Pouvoirs du roman

» Guérilla contre l'avortement aux Etats-Unis

» Au-delà de la fraude électorale, le Pérou profond

» Privés de vie privée

» Tous les chemins mènent au Maghreb

» Ni dieu, ni maître, ni impôts

» La France se penche sur sa guerre d'Algérie

» Injustice française

» Accaparement des méninges


Edição em inglês


» Fake news: A false epidemic?

» The financiers who backed Brexit

» January: the longer view

» Mutual suspicion in Greece's borderlands

» Border tensions

» Disunited States of America

» The British monarchy's smoke and mirrors

» UK Brexiteers' libertarian goal

» Time to reform the Peruvian system

» Russia's attempted return to Africa


Edição portuguesa


» Edição de Janeiro de 2021

» O presidente, a saúde e o emprego

» Quem será o próximo inimigo?

» Edição de Dezembro de 2020

» A democracia desigual e os neoliberais autoritários

» A amarga vitória democrata

» A segunda morte da Europa

» Ofereça uma assinatura de 6 meses, apenas €18

» Edição de Novembro de 2020

» A máquina infernal


LITERATURA

A escandalosa de Viena recompensada

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

A escritora desprezada pela mídia e pela direita liberal-conservadora austríaca recebe o Nobel de literatura, com uma obra que põe o dedo nas feridas de seu país

Brigitte Pätzold - (01/12/2004)

A “pornográfica comunista”, autora de uma “arte degenerada”, segundo seus detratores, começou a escrever por revolta

No dia 8 de dezembro, Elfriede Jelinek entrou para a história como a primeira austríaca e a décima escritora a receber o prêmio Nobel de literatura. Na linha dos polêmicos Karl Kraus e Thomas Bernhard, ela põe o dedo nas feridas de seu país, no passado reprimido e com a consciência tranqüila, revelando as relações de poder e de discriminação. Normalmente desprezada pela mídia e pela direita liberal-conservadora austríaca, houve vezes em que ela se isolou em uma “emigração interna” e, em alguns momentos (em 2000), até proibiu que suas peças fossem apresentadas em seu país natal.

Durante a campanha eleitoral em 1995, o partido populista de Jörg Haider alimentou sua rejeição pela opinião pública, colando cartazes: “Você gosta de Jelinek – ou da arte e da cultura?”. Vítima de uma caça às bruxas como Günter Grass, na Alemanha, também recompensado pelo prêmio Nobel (em 1999), ela desconfia dos projetores. Temendo as viagens e as aglomerações, ela não iria a Estocolmo para receber o prêmio prestigioso do qual ela teme uma recuperação por “conta da Áustria”.

A “pornográfica comunista”, autora de uma “arte degenerada”, segundo seus detratores, começou a escrever por revolta. Revolta contra seus pais – sobretudo contra sua mãe autoritária – que queria transformá-la em música de grande talento. Revolta também contra seu país. A herança é pesada para carregar.

Linguagem crua

Seus textos têm como único leitmotiv as relações de dominação sexual, econômica e racial, que disseca com frieza cáustica e linguagem crua

Elfriede Jelinek nasceu em 1946, em Styrie (Áustria), de mãe católica burguesa e um pai judeu, ligado à “Viena vermelha”, que conseguiu escapar do holocausto. Desde os quatro anos de idade, foi levada para uma instituição religiosa e, com sete, foi matriculada no conservatório de Viena para ser submetida a um treinamento musical exagerado: violino, órgão, piano, harmonia. Depois de entrar para a universidade, passou por uma depressão nervosa. Seu pai morreu louco em um hospital psiquiátrico em 1968. Ela tinha 22 anos.

Talvez tenha sido seu pai quem lhe legou o gosto pelas palavras. Seja como for, dois anos após a morte paterna, ela escreve seu primeiro romance estilo pop-art: Wir sind Lockvögel, Baby! [Somos chamariz, Menina!] 1. Talvez tenha sido, também, a rebelião contra a mãe paranóica que, no entanto, jamais deixou e de quem cuidou até a morte aos 97 anos. Em A pianista2, ela retrata as relações infernais entre mãe e filha, que são também laços sadomasoquistas entre a filha e seu amante. Esse romance tornou Jelinek conhecida, muito além das fronteiras austríacas. Foi também o primeiro romance traduzido para o francês em 1988, graças à editora Jacqueline Chambond.

Além disso, seus textos têm como único leitmotiv as relações de dominação sexual, econômica e racial, que ela disseca com uma frieza cáustica e uma linguagem crua, recusando-se a qualquer apelo à psicologia. Em Lust [Prazer], pretenso romance pornográfico que se tornou best-seller na Alemanha, ela inventa a linguagem da obscenidade feminina. Ao voltar o discurso dos homens contra eles, ela desmonta os mecanismos da dominação masculina. Sem jamais recorrer aos clichês da mulher vítima, pacifista e boa, nem ao do homem sedutor, agressivo e cruel. Condicionadas pela educação em uma sociedade autoritária e patriarcal, as mulheres aparecem tão ambiciosas e estúpidas quanto os homens. Muitas vezes, como em Avidité [Avidez], pretenso romance policial, as mulheres são as vítimas permissivas obcecadas pela paixão amorosa.

Questionamento radical

Pode-se esperar que a entrega do prêmio Nobel incite os diretores de teatro a montar suas peças pouco conhecidas

Foi com Die Kinder der Toten3 [Os filhos dos mortos] (1995), que ela escreveu seu opus magnum de 660 páginas sobre o passado enterrado da Áustria. Extraordinário. Os mortos voltam entre os vivos na pitoresca pensão Rose dos Alpes para cobrar o que lhes é devido.

Pode-se esperar também que a entrega do prêmio Nobel incite os diretores de teatro a finalmente montar suas peças pouco conhecidas4, apesar do desafio que representa seu questionamento radical do teatro institucional. Sua subversão talvez encontre concorrentes.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Wir sind Lockvögel, Baby! Rowohlt, Reinbeck, 1970, 272 p. 6,5 euros.
2 - Die Klavierspielerin. Publicado na França: La Pianiste, Point-Seuil, Paris,1995. 6,50 euros. Adaptação para o cinema, com o mesmo título francês, por Michael Haneke, 2001. No Brasil, o filme foi intitulado A professora de piano.
3 - A Seuil deverá publicar a tradução francesa - Les enfants des morts - em 2006. Está também em andamento a tradução, para a publicação, de seus textos mais recentes sobre a guerra no Iraque, Bambiland et Babel.
4 - Na França, somente foram encenadas as peças Clara S. [Clara S.], Ce qui arriva quand Nora quitta son mari [O que aconteceu quando Nora deixou seu marido], Les Exclus [Os excluídos], Désir et Permis de conduire [Desejo e Permissão de dirigir] e Les Amantes [Os amantes].




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Prêmio Nobel
» Arte e Utopia

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos