Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Graeber narra o declínio da Ciência Econômica

» Boaventura: a História absolverá Evo Morales

» Insurgências e reações na América Latina

» A Revolta Latina, a crise dos EUA e a esquerda

» No cinema, o ser fragmentado dos indígenas

» Seriam os neoliberais terraplanistas?

» Paulo Guedes sonha com seu 18 Brumário

» A hegemonia pentecostal no Brasil

» O que muda (para pior) no financiamento do SUS

» Outra Contrarreforma – dessa vez, Administrativa

Rede Social


Edição francesa


» Mystiques violentes et stratégie non violente

» La pêche doit être gérée à l'échelle mondiale

» Le problème juif en Union soviétique

» Le vent s'est levé

» Citoyens, ou... nécessiteux ?

» Une sixième vague

» Retraite à points... de non-retour

» L'offensive libérale contre le monde du travail

» « Donner confiance aux hommes »

» Naissance d'un charisme


Edição em inglês


» Shattering the conspiracy of silence

» This must be called murder

» Bolivia's coup

» Algeria's massive movement for change

» Islamists make common cause with the Hirak

» Grenfell's untold story

» DUP no longer kingmaker

» DUP no longer kingmaker

» Northern Ireland's deep state

» Law's disorder in Nigeria


Edição portuguesa


» Edição de Dezembro de 2019

» Uma fractura social exposta

» «Uma chacina»

» Assinatura de 6 meses: só 18 €

» Golpe de Estado contra Evo Morales

» Será que a esquerda boliviana produziu os seus coveiros?

» A era dos golpes de Estado discretos

» Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019


COMUNICAÇÃO

Os escravos do celular

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

O avanço espetacular da telefonia móvel no mundo vende a ilusão de liberdade e nos torna dependentes do “contato permanente”

Dan Schiller - (01/02/2005)

A comunicação móvel é uma necessidade criada por quem controla os meios de produção

Nós nos emancipamos e estamos bêbados de liberdade. Graças a uma miríade de bugigangas que funcionam sem fio, comunicamo-nos com o mundo inteiro enquanto nos locomovemos. Esse comportamento novo é chamado pelos especialistas de “contato permanente1 ”. As formas de dependência multiplicam-se e ganham raízes. No fim de 2003, mais de 500 milhões de telefones celulares haviam sido vendidos no mundo; um terço da população japonesa utilizou Internet em seu celular; os assinantes norte-americanos passaram mais de 15 bilhões de horas ao telefone celular; os europeus enviaram 113 bilhões de SMS (Short Message Service). Com 220 bilhões de mensagens-texto, é a China que está em primeiro lugar nessa categoria.

Como outras antes dela, a comunicação móvel é, na origem, uma necessidade criada por quem controla os meios de produção e também tem interesse político na expansão do individualismo. Tudo se decide do lado da oferta. QualComm, Motorola, Intel, Nokia, Sony Ericsson, Samsung, Vodafone, Hutchison Whampoa, NTT DoCoMo, Microsoft e muitos outros comercializam em escala mundial gadgets/i< e serviços sem fio. Esforços prodigiosos de desenvolvimento transformam todos os setores do mercado: material, rede, sistemas de operação, software etc. As tecnologias sem fio beneficiam-se de investimentos maciços, comparáveis às expectativas que estão em jogo: o número de telefones celulares já ultrapassou o de telefones fixos. E tudo indica que a verdadeira explosão do sem-fio ainda não aconteceu.

A multiplicação dos aparelhos e dos serviços, bem como o marketing que a acompanhou, acarretaram uma transformação social de grande amplitude. O mundo maravilhoso da mobilidade é um produto emblemático do neoliberalismo no poder há vinte anos. Como ele, baseia-se numa atividade predatória e ameaça gerar o caos. Desenvolvendo padrões incompatíveis, consórcios rivais tomam os assinantes como reféns e fragmentam o mercado, tornando difícil, senão impossível, a utilização de um só aparelho para telefonar e baixar arquivos. A competição que se desencadeia em torno das próximas gerações de tecnologias móveis ameaça ampliar esses problemas2 . Embora atrasados em relação à Europa e à Ásia no que diz respeito a telefone celular, os Estados Unidos estão “adiantados” quanto ao desencadeamento da concorrência.

Moda milionária

Só nos Estados Unidos, entre 40 e 50 milhões de telefones celulares são lançados a cada ano

A obsolescência atinge, em todos os níveis, o mercado dos terminais. Só nos Estados Unidos, entre 40 e 50 milhões de telefones celulares são lançados a cada ano3 . Modelos que abrem uma tela de alta resolução, aparelhos multicoloridos que parecem balas, tampas deslizantes ou removíveis, a moda muda a cada seis meses e as inovações multiplicam-se: identificação vocal, máquina fotográfica ou câmera integrada, acesso à Internet etc. “As grandes operadoras, como a Sprint e a Verizon, nos Estados Unidos; a Vodafone, na Grã-Bretanha; ou a Hutchison, em Hong Kong”, observa o Wall Street Journal, “disputam as últimas novidades. Só os aparelhos mais sofisticados podem ter acesso aos novos serviços que essas operadoras tentam vender aos assinantes a fim de aumentar os lucros4 .” O fabricante que deixa passar a nova moda corre o risco de pagar caro.

No Japão, país de ponta das tecnologias sem fio, a concorrência feroz que opõe o líder do setor – DoCoMo – a um recém-chegado – KDDI – inunda os consumidores com um dilúvio de inovações. Em 2004, 20% dos lucros da DoCoMo, isto é, 9 bilhões de dólares, decorreram das operações de baixar arquivos efetuadas pelos 42 milhões de usuários do serviço Internet I-mode. O que vende o I-mode? Horóscopos, jogos e, sobretudo, diferentes toques de chamada de telefone5 . Tendo em vista os lucros gerados, as operadoras se atropelam para propor esses “serviços” em todos os lugares do mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, o crescimento das aplicações em multimídia móvel impressiona mais à medida que ainda diz respeito a um número relativamente modesto de usuários. Combinada com o aperfeiçoamento dos aparelhos, a nova onda de investimentos efetuados por uma multidão de fornecedores de serviços redefine a função social do telefone.

Mas o desenvolvimento das redes de telecomunicação sem fio depende de fatores fortuitos dificilmente controláveis. O mais importante é o acesso a amplos segmentos do espectro eletromagnético, essa fonte invisível utilizada para a transmissão via satélite e pela maioria das formas de comunicação eletrônica. Tal dependência já é fonte de instabilidade. Em 2000 e 2001, no auge da especulação em relação às novas tecnologias, operadoras em pânico gastaram somas colossais para comprar as freqüências postas em leilão pelos governos britânico (33 bilhões de dólares), alemão (48 bilhões) e norte-americano (17 bilhões), a fim de serem os únicos a poder estabelecer a nova geração de redes de alta velocidade. As dívidas contraídas para essas operações vieram juntar-se às somas astronômicas gastas na absorção de concorrentes (como a agressiva aquisição pela Vodafone de parte da Mannesmann, por um montante de 181 bilhões de dólares) e provocaram o colapso da indústria das telecomunicações em 2001-2002.

Serviço medíocre

Nos Estados Unidos, o número de reclamações relativas à qualidade do serviço e às práticas de faturamento das operadoras explode

A falência acarretou a destruição de dezenas de milhares de empregos, freqüentemente nas profissões em que o índice de sindicalização é mais alto e que envolvem a fabricação de equipamento e do telefone com fio. Desde então, a concorrência selvagem tomou conta de todo o setor das telecomunicações. Ela mantém uma supercapacidade que impede as operadoras de estabilizar os preços. Essa perda de controle é constantemente antecipada por analistas cada vez mais preocupados.

O desenvolvimento anárquico de um mercado eternamente saturado cria outros problemas. Nos Estados Unidos, o número de reclamações relativas à qualidade do serviço e às práticas de faturamento das operadoras explode6 . Suplementos maquilados de “taxas federais” foram faturados pelas maiores companhias e, segundo uma pesquisa, 11% dos assinantes já constataram graves irregularidades em sua conta7 . Por outro lado, em 2002, 60% dos assinantes reclamaram pelo menos uma vez junto aos serviços de atendimento aos clientes8 . No ano seguinte, um relatório governamental atribuía ao baixo investimento a responsabilidade pela pouca garantia do serviço, pela perturbação das freqüências e pela saturação das redes que interrompem as chamadas: um quinto dos usuários tiveram, em cada dez ligações, mais de uma interrompida repentinamente.

Seriam todos esses distúrbios de funcionamento o preço inevitável do progresso e de seus sobressaltos? Um jornalista do New York Times considera, por exemplo, que “a utilização dos telefones celulares aumentou de forma tão vertiginosa que as redes estão constantemente sobrecarregadas, acarretando uma multiplicação igualmente vertiginosa de reclamações9 ”. Porém, a sobrecarga das redes é apenas um sintoma. A mediocridade do serviço se explica principalmente pelo fato de que, nos Estados Unidos, “os telefones celulares são bem menos eficientes que seus ancestrais fixos10 ”. Mesmo em casos de urgência (as operadoras fizeram da segurança um de seus argumentos de venda), as performances da rede sem fio são claramente inferiores às da velha rede com fio: desprezada pelos grandes papas do neoliberalismo high-tech, ela foi, na verdade, concebida segundo padrões de confiabilidade que superam amplamente tudo o que se faz hoje. No mundo inteiro, o capitalismo “avançado” ensina as gerações jovens a se satisfazerem com um serviço apenas medíocre.

Frágeis redes

Baixos investimentos colocam as redes à mercê dos acontecimentos imprevisíveis, como se constatou no 11 de setembro de 2001

A fragilidade das redes de comunicação móvel tem uma origem estrutural: os relés são desprovidos de geradores de segurança, um problema que a rede com fio não tem, pois a corrente passa ao mesmo tempo que as comunicações. Principalmente, os baixos investimentos colocam as redes à mercê dos acontecimentos imprevisíveis, como foi possível constatar no dia 11 de setembro de 2001.

Se construíssem geradores e melhorassem a cobertura e a capacidade, as operadoras poderiam remediar esses problemas e atingir, dessa forma, o nível de excelência da rede com fio norte-americana, na qual 99,99% das chamadas são concluídas sem dificuldade. Entretanto, isso necessitaria investimentos colossais que nenhuma operadora pode considerar sem correr o risco da falência. Chegamos ao paradoxo que mina o mercado das telecomunicações: a concorrência exacerbada que preconizam os ultras do mercado gerou uma imensa supercapacidade no âmbito global e um subinvestimento crônico no âmbito local. Diante dessa constatação, os Estados tornaram-se impotentes, dado que a indústria do telefone móvel é quase totalmente desregulamentada. Desse modo, depois de 15 anos de desenvolvimento do mercado do sem fio, a Federal Communication Commission (FCC) ainda não estabeleceu nível mínimo de qualidade do serviço11 . Todo o setor está numa posição extremamente frágil. Sua queda ameaçaria acarretar a queda da economia mundial.

Mas a concentração em oligopólios e o baixo investimento não explicam tudo. O que aconteceu com a demanda? Por que, em menos de 15 anos, o número de telefones celulares ultrapassou o número de telefones fixos?

Privatização via mobilidade

Alguns analistas consideram que a explosão da demanda decorre do subdesenvolvimento das redes de telecomunicação nos países do hemisfério Sul e nos países que pertenciam ao bloco soviético. Quando, no decorrer da década de 80, começou a investir para modernizar essas redes, o setor privado teria vindo satisfazer uma necessidade frustrada durante muito tempo. Mas por que, então, essa necessidade foi canalizada para a telefonia móvel? De onde vem essa busca de eterna mobilidade?

Não há necessidade inata de “contato permanente”; atores econômicos decidem se determinada tecnologia vai desenvolver-se ou não

Principalmente de pressões de origem social. Não há no ser humano qualquer necessidade inata de “contato permanente”. Atores econômicos decidem se essa ou aquela tecnologia vai desenvolver-se ou não. Ora, a necessidade de estar incessantemente conectado é uma nova etapa da “privatização por meio da mobilidade” já analisada, há trinta anos, pelo grande intelectual britânico Raymond Williams12 . Esse movimento baseia-se no desaparecimento da produção em pequena escala e no deslocamento do lugar de residência para longe do trabalho e da tomada de decisão. Segundo Williams, isso não é a conseqüência mecânica do progresso técnico, mas, antes, o produto das relações de força que moldam a sociedade.

Essa dinâmica gerou a urbanização dos países capitalistas, depois a extensão dos subúrbios ricos norte-americanos. Para tornar paisagens solitárias habitáveis, eram necessários carros e estacionamentos, mas também novas formas de comunicação: o desenvolvimento do rádio e da televisão permitiu concentrar a atenção de milhões de lares numa fonte única de informação e de distração.

Invasão da vida privada

O desenvolvimento da mobilidade sem fio é apenas uma conseqüência suplementar dessa tendência historicamente enraizada nas sociedades capitalistas. É difícil libertar-se das novas tecnologias, como é impensável viver sem o telefone. Há mais de um século, esse milagre tecnológico permitiu ligar os milhões de lares que viveriam, no futuro, isolados uns dos outros nas grandes cidades. Foi necessário, então, definir as regras de um novo modo de comunicação que parecia muito prático e agradável, mas igualmente invasivo, a ponto de, às vezes, se tornar insuportável. Tal perturbação cultural necessitou da invenção de novos códigos apropriados à conversa telefônica: como começar, terminar, deixar o interlocutor falar etc. A generalização desse novo meio engendrou mudanças profundas nas relações entre a moradia e o trabalho, entre os homens e as mulheres – e entre as classes.

n em

Os instantes efêmeros de liberdade oferecidos pelo celular se inserem num dispositivo maior, de intrusão do trabalho na esfera da vida privada

Uma das principais conseqüências dessa nova fase de privatização por meio da mobilidade é a evolução da relação entre vida privada e trabalho. Esse processo nada tem de simples nem de unívoco. O telefone celular permite-nos, por exemplo, dedicar alguns minutos de nossa jornada de trabalho à nossa vida pessoal. Porém, ao mesmo tempo, permite à hierarquia nos “prender” mais estreitamente. Os instantes efêmeros de liberdade oferecidos pelo celular vêm, então, se inserir num dispositivo mais global de intrusão do trabalho na esfera da vida privada.

Com seus 269 milhões de assinantes, a China tornou-se o maior território da telefonia móvel. Esse desenvolvimento vertiginoso está tão ligado à constituição de uma classe média urbana quanto às vastas migrações internas provocadas pela entrada do país no mercado planetário13 . Milhões de pessoas deixam seu lugar de nascimento para encontrar um trabalho. A maioria é superexplorada: segundo o diretor-adjunto do Departamento Chinês de Inspeção do Trabalho, “no delta do Rio das Pérolas, só 30% das pessoas trabalham oito horas por dia [o tempo de trabalho legal], e 46% trabalham 14 horas14 ”. Nos Estados Unidos, a jornada de trabalho aumentou 20% a partir de 1970, principalmente por causa da redução do poder de compra dos salários. Para as mulheres, a entrada no mercado de trabalho acrescentou-se às tarefas domésticas, das quais elas conservam quase o monopólio. O desenvolvimento das telecomunicações móveis coincidiu, com freqüência, com essa degradação da qualidade de vida; e o recuo dos serviços públicos forçou as famílias a fazerem um malabarismo permanente e em tempo real entre as necessidades do trabalho, das compras, da guarda das crianças e do atendimento dispensado às pessoas idosas.

Sociedades em desequilíbrio

O carro não é a manifestação da marcha irresistível do progresso, mas a dos desequilíbrios de que sofrem nossas sociedades

O urbanismo descentralizado das grandes cidades é o terreno sonhado da privatização por meio da mobilidade. Na ausência de transportes coletivos de qualidade, o carro desempenha um papel central. No âmbito de sua atividade profissional, os norte-americanos efetuam, a cada ano, 405 milhões de deslocamentos superiores a 75 quilômetros, dos quais 80% são feitos de carro. Se, além do mais, forem contadas as compras, as idas ao médico, as atividades de lazer e a ida e a volta cotidianas entre a casa e o trabalho, eles fazem 1,1 bilhão de viagens por dia, das quais 87% em veículos privados. Ir a pé representa apenas 9% desses deslocamentos; os transportes públicos, entre os quais os ônibus escolares, 3%. Cada motorista passa, em média, uma hora por dia em seu carro15 . Conseqüência desse grave desequilíbrio, de que a obesidade é um dos preços: 40% das ligações sem fio (ou seja, 400 bilhões de minutos em 2003) são realizadas a partir dos carros dirigidos por nossos milhões de “trabalhadores móveis”.

Também aqui não se trata de uma evolução “natural”. A superpotência do automóvel foi o resultado da privatização por meio da mobilidade que se impôs após a Segunda Guerra Mundial. O carro não é a manifestação da marcha irresistível do progresso, mas a dos desequilíbrios de que sofrem nossas sociedades. As tecnologias da mobilidade só prolongam essa tendência irracional.

A saúde pública é posta numa situação difícil por essas perturbações. Em 2002, os telefones celulares foram responsáveis por 6% dos acidentes em estradas nos Estados Unidos, o que representa 2.600 mortos e 330 mil feridos16. Vários países e dois estados norte-americanos (Nova York e Nova Jérsei) reagiram proibindo o uso do celular dentro dos carros.

Liberdade ilusória

Como o do automóvel antes dele, o sucesso fulminante da telefonia móvel nada tem de espontâneo. Indica a tentativa de racionalizar um entorno cada vez mais irracional, de encontrar um certo grau de controle individual numa sociedade que vai à deriva. Utilizado para localizar as pessoas, o “contato permanente” pode, de fato, servir de instrumento de vigilância para um capitalismo mais autoritário. A polícia e as grandes empresas reciclam tecnologias militares que lhes permitem localizar a totalidade da população17 .

O “contato permanente” pode, de fato, servir de instrumento de vigilância para um capitalismo mais autoritário

A propaganda das operadoras faz-nos espelhar a liberdade infinita da mobilidade individual, que permitiria que nos elevássemos acima dos pesados limites do mundo antigo. Desde há pouco tempo, o marketing insiste numa outra dimensão desse mesmo fantasma: graças à telefonia móvel, o indivíduo poderia escapar de seu lugar habitual na sociedade. A imprensa relata como as crianças se divertem às custas de seu professor graças ao celular, como alguns presos montaram sua fuga usando seu telefone. Dando ouvidos a isso, o sem fio ajudaria o indivíduo a transgredir as normas e as práticas dominantes18 . Mas a necessidade de liberdade não é a força motriz da insaciável necessidade de “contato permanente”.

Evidentemente, a utilização das tecnologias sem fio facilita alguns aspectos da vida cotidiana dos indivíduos e de sua família. Essa flexibilidade, contudo, só agrava as desigualdades. Numa sociedade em que o lazer e o trabalho são divididos de maneira desigual entre as classes, em que o prolongamento de duração da jornada de trabalho, particularmente nos Estados Unidos, o desemprego e a destruição dos serviços públicos tornam mais difícil a vida dos cidadãos, estes se voltam para a comunicação móvel para tentar superar, individualmente, dificuldades cotidianas inatingíveis tanto quanto esmagadoras.

O “comércio móvel” transforma igualmente os telefones celulares em instrumentos de promoção e de venda. Operadoras como a Vodafone esperam logo enviar “conteúdos personalizados a cada usuário, onde quer que ele se encontre”. Serão informações relativas ao trânsito, à meteorologia ou à atualidade e, caso se deixe as operadoras agirem livremente, à publicidade. Na Austrália, os assinantes da Telstra, em via de privatização, já são vítimas do marketing: ao comporem o número inscrito nos distribuidores de Coca-Cola, eles podem comprar uma bebida que pagarão, assim como o preço da comunicação, em sua próxima conta de telefone19 . Na Europa, as operadoras constituíram um consórcio, “Sympay”, destinado a promover a utilização do celular como modo de pagamento utilizável em todo o continente. Duas das maiores gravadoras de música, a Universal e a Sony, chegam a pedir a suas estrelas que forneçam versões curtas de suas canções (90 segundos), destinadas a venda para os que utilizam telefones celulares20. Assim avança o mundo lúdico e sem coerção que nos promete a telecomunicação móvel.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Cf. James Katz and Mark Aakhus, Perpetual Contact, Cambridge University Press, 2002.
2 - Ler, de Stephanie Mehta, “Phone Companies See a Wireless Future”, The Wall Street Journal, 15 de novembro de 1999.
3 - Lisa Guernsey, “Phones in the Drawer or in the Trash, or to a Good Cause”, The New York Times, 28 de fevereiro de 2002.
4 - Cf. David Pringle, Jesse Drucker e Evan Ramstad, “Cellphone Makers Pay a Heavy Toll For Missing Fads”, The Wall Street Journal, 30 de outubro de 2003.
5 - Phred Dvorak, “DoCoMo’s I-Mode Growth Slows at Home”, The Wall Street Journal, 4 de março de 2004.
6 - Ler, de Ryan J. Foley, “Consumer Complaints Soared in 2002”, The Wall Street Journal, 25 de novembro de 2003.
7 - Cf. Jesse Drucker, “Cellphone Bills See New Round Of Hidden Fees”, The Wall Street Journal, 1 de maio de 2003, e “Three steps to better cellular”, Consumer Reports, New York, fevereiro de 2003.
8 - Simon Romero, "Cellphone Service Hurt By Success", The New York Times, 18 de novembro de 2002.
9 - Cf. Simon Romero, “Cellphone Service Hurt By Success”, The New York Times, 18 de novembro de 2002.
10 - Ler, de Dennis Berman e Jesse Drucker, “Static, Problems Are Hampering Wireless Growth”, The Wall Street Journal, 24 de novembro de 2003.
11 - “FCC Should Include Call Quality in its Annual Report on Competition in Mobile Phone Service”, in U.S. Government Accountability Office (GAO), www.gao.gov/cgi-bin/getrpt?G..., abril de 2003.
12 - Ler, de Raymond Williams, Television: Technology and Cultural Form, Fontana, Londres, 1974, p. 26.
13 - Sobre o assunto, ler o dossiê do Monde diplomatique, outubro de 2004.
14 - Josephine Ma, “Migrant Work Still Fraught With Risk”, South China Morning Post, Hong Kong, 19 de junho de 2004.
15 - Cf. U.S. Department of Transportation, Bureau of Transportation Statistics, National Household Travel Survey.
16 - Ler, de Jesse Drucker e Karen Lundegaard, “As Industry Pushes Headsets in Cars, U.S. Agency Sees Danger”, The Wall Street Journal, 19 de julho de 2004.
17 - Cf. Amy Harmon, “Lost? Hiding? Your Cellphone Is Keeping Tabs”, The New York Times, 21 de dezembro de 2003.
18 - Para um apanhado dessa literatura: Raymond Flandez, “Cell Use Leads Schools to Alter Phone Options”, The Wall Street Journal, 7 de agosto de 2003; Fox Butterfield, “Inmates Use Cellphones to Maintain a Foot on the Outside”, The New York Times, 21 de junho de 2004; e Matt Richtel, “For Liars and Loafers, Cell Phones Offer an Alibi”, The New York Times, 26 de junho de 2004.
19 - Ler, de Gren Manuel, “Dial-A-Coke Is Slaking Thirsts in Australia”, The Wall Street Journal, 20 de outubro de 2003.
20 - Cf. David Pringle e Charles Goldsmith, “Now Hear This: Cellphone Remixes”, The Wall Street Journal, 18 de março de 2004.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Comunicações
» Consumismo e Alienação
» Tecnologia
» Mercantilização da Vida

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos