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HISTÓRIA

A reinvenção da Ásia

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Para dar sentido à identidade asiática, é preciso transcender o nacionalismo e superar a dicotomia ocidente versus oriente, numa nova visão da história mundial

Wang Hui - (01/02/2005)

A mundialização liberal e o “novo império” constituem a trama de tratados militares, associações econômicas e instituições políticas internacionais

Na Ásia, como na Europa, o debate sobre a construção de entidades regionais fortes, capazes de contrabalançar o poderio americano, tem se ampliado. Efetivamente, a mundialização liberal e o “novo império” - duas noções aparentemente diferentes – constituem doravante a trama dos tratados militares, das associações econômicas e das instituições políticas internacionais. Conjuntamente, estabelecem uma ordem global que abrange as esferas política, econômica, cultural e militar – ordem que se pode denominar “império” ou “imperialismo neoliberal”.

As sociedades européias tentam se proteger recorrendo a uma forma de regionalismo. Assim, o filósofo alemão Jürgen Habermas, em seu artigo “Por que a Europa precisa uma Constituição” 1, propõe construir uma democracia pós-nacional em torno de três grandes eixos: formar uma sociedade civil européia, instaurar uma esfera pública política no âmbito da Europa e criar uma cultura política de que todos os cidadãos da União Européia (UE) possam compartilhar.

Por sua vez, há alguns anos, a China pensou em aderir ao tratado da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), de acordo com a fórmula do “dez mais um” 2, e imediatamente o Japão a imitou, sugerindo a fórmula “dez mais três” (China, Japão e Coréia do Sul). Em 2002, uma agência da imprensa japonesa afirmava que “se a unificação da Ásia se acelera, (...) o sentimento de distância entre o Japão e a China tenderá a desaparecer naturalmente durante a unificação regional; uma conferência reunindo os dirigentes da Asean, do Japão, da China e da Coréia do Sul, que aproveitaria a primeira oportunidade de iniciar negociações regionais excluindo os Estados Unidos, acabaria talvez chegando a uma versão asiática da reconciliação entre a França e a Alemanha” 3.

Quando os dez países do Leste europeu entraram na União Européia, em 1º de maio de 2004, um diplomata japonês e um pesquisador indiano na área de ciência política propuseram que a China, o Japão e a Índia se tornassem os pilares de uma versão asiática da Otan.

Contraposição de modelo

Montesquieu, Adam Smith, Hegel e Marx, entre outros, elaboraram a idéia da Ásia por contraste com a da Europa

Mas convém saber o que os asiáticos querem dizer quando falam da Ásia. O que desencadeia três questões. Em primeiro lugar, desde o século XIX, os diferentes aspectos do “asianismo” sempre foram estreitamente ligados às diferentes formas de nacionalismo. Em segundo lugar, a idéia de que a Ásia corresponde a duas noções opostas: o conceito colonial japonês com o eixo na “grande esfera asiática de co-prosperidade” e a concepção socialista da Ásia, que se baseia nos movimentos socialista e de libertação nacional. No contexto da decadência do movimento socialista e de uma reconstrução das representações da Ásia, o que fazer com a herança socialista? Em terceiro, se buscamos ultrapassar o Estado-Nação, a reinvenção da Ásia implica substituir a representação do século XIX pela do Estado supranacional.

Na verdade, a idéia da Ásia não é uma noção asiática, mas européia. Nos séculos XVIII e XIX, as ciências sociais (lingüística, história, geografia moderna, filosofia dos direitos, teorias do Estado e das raças, historiografia e economia política) desenvolveram-se rapidamente na Europa, ao mesmo tempo que as ciências naturais. Juntas, esboçaram um novo mapa do mundo. As representações da Europa e da Ásia integraram-se à noção de “história mundial”.

Montesquieu, Adam Smith, Hegel e Marx, entre outros, elaboraram a idéia da Ásia por contraste com a da Europa, e a integraram a uma visão teleológica da história4. Podemos resumi-la assim: oposição entre os impérios asiáticos multiétnicos e o Estado monárquico/soberano europeu; entre o despotismo político asiático e os sistemas políticos e jurídicos europeus; entre o modo de produção asiático, nômade, agrícola e a vida urbana e o comércio europeus.

Civilização ’primitiva’

O discurso europeu apresentou a Ásia como o “ponto de partida” da história do mundo

Sendo o Estado-Nação europeu e a expansão do sistema do mercado capitalista considerados como o estágio avançado da história mundial, a Ásia foi relegada a um estágio de desenvolvimento inferior. Do ponto de vista dos europeus, ela não era apenas um espaço geográfico, mas também uma civilização, com uma forma política oposta ao Estado-Nação europeu, uma forma social oposta ao capitalismo europeu, e uma fase transitória entre um estágio a-histórico e um estágio histórico. Esse discurso forneceu, aos intelectuais europeus assim como aos reformistas asiáticos, um quadro para representar a história mundial e as sociedades asiáticas, definir uma política revolucionária ou reformista, e interpretar o passado e o futuro asiáticos. Nos séculos XIX e XX, a idéia da Ásia fazia parte de um discurso que universalizou a modernidade européia e forneceu um panorama narrativo idêntico para os colonialistas e para os revolucionários.

O discurso europeu apresentou a Ásia como o “ponto de partida” da história do mundo. Georg Wilhem Friedrich Hegel, por exemplo, escreveu: “A História do mundo viaja do Oriente para o Ocidente, pois a Europa é absolutamente o fim da História, a Ásia seu começo. (...) O Oriente sabia e ainda hoje sabe que a primeira é livre; o mundo grego e romano, que alguns são livres; o mundo alemão sabe que todos são livres. A primeira forma política que observamos na História é o despotismo; a segunda, a democracia e a aristocracia; e a terceira, a monarquia” 5.

Essa concepção é um resumo filosófico dos discursos europeus sobre a questão. Em A riqueza das Nações, Adam Smith analisa a relação entre a agricultura e a irrigação na China e nos outros países asiáticos, salientando o contraste com as cidades ocidentais-européias, caracterizadas pelas manufaturas e pelo comércio. Sua definição dos quatro estágios históricos – caça, nomadismo, agricultura e comércio – corresponde àquela das regiões e das raças. Evoca principalmente “as tribos indígenas da América do Norte” como o exemplo de “nações de caçadores, o grau de sociedade mais baixo e mais rudimentar”; os tártaros e os árabes como o das “nações de pastores, um estágio de sociedade mais avançado”; e os antigos gregos e romanos como o das nações de agricultores, “um estágio de sociedade mais avançado ainda” 6. Na perspectiva de Hegel, todas essas questões dependem da esfera política e da formação do Estado: as raças que praticam a caça situam-se no nível mais baixo da escala, pois as comunidades que vivem da caça e da colheita são de tamanho tão reduzido que a especialização do trabalho exigida por um Estado é impossível. Em sua descrição da história do mundo, Hegel exclui deliberadamente a América do Norte (caracterizada pela caça e pela colheita) e situa o Oriente no início da história. Adam Smith a divide de acordo com diferentes esquemas econômicos ou de produção; Hegel segundo a região, a civilização e a estrutura do Estado. Ambos associam os sistemas políticos e de produção a espaços precisos como a Ásia, a América, a África e a Europa, e os colocam em uma relação de periodização histórica.

Nacionalismo determinante

Apesar de sua oposição na história, os diferentes discursos nacionalistas foram todos baseados na oposição entre o Estado nacional e o império

Quando expõe a evolução de sistemas socioeconômicos, Marx define quatro estágios – asiático, primitivo, feudal e capitalista. Sua noção original do modo asiático de produção é fruto de uma síntese entre a concepção hegeliana da história e a de Adam Smith. Segundo Perry Anderson7, Marx constrói essa noção do modo de produção asiático buscando uma série de generalizações sobre a Ásia na história intelectual da Europa desde o século XV: propriedade de terras pública ou do Estado (Harrington, François Bernier, Charles de Montesquieu), ausência de obrigação legal (Jean Bodin, Montesquieu, Bernier), religião que substitui os sistemas jurídicos (Montesquieu), ausência de aristocracia hereditária (Nicolas Machiavel, Francis, Bacon, Montesquieu), agricultura predominante em relação à indústria (John Stuart Mill, Bernier), estagnação da história (Montesquieu, Hegel, Mill) etc. Todas essas pretensas características da Ásia são consideradas inerentes ao despotismo oriental. Reconhece-se esse conjunto de idéias nas discussões do pensamento grego sobre a Ásia8.

Para os asiáticos, o nacionalismo moderno permanece determinante na idéia da Ásia. Apesar de sua oposição na história, os diferentes discursos nacionalistas – o “deixar a Ásia para se juntar à Europa” dos japoneses, a “autonomia nacional” dos revolucionários russos, e o “pan-asianismo” dos revolucionários chineses – foram todos baseados na oposição entre o Estado nacional e o império.

O slogan japonês nacionalista encontra sua origem em um breve ensaio de Fukuzawa Yukichi (1835-1901), publicado em 1885. “Deixar a Ásia” traduz a determinação de acabar com um mundo centrado na China, sua política e sua ideologia confuncionista. “Se juntar à Europa” quer dizer fazer do Japão um Estado nacional com base no modelo europeu. O que pode ser resumido assim: em primeiro lugar, a Ásia é considerada culturalmente homogênea, como um espaço confuncionista; em segundo lugar, ela busca romper com o confuncionismo, transformando o Japão em um Estado-Nação.

Contexto colonial

Os movimentos de libertação nacional inventaram uma nova concepção da Ásia, ecoando a idéia socialista trazida pela revolução russa

Em outras palavras, o Japão toma consciência de ser um Estado-Nação, separando-se da Ásia e reproduzindo a dicotomia civilizado/bárbaro, ocidental/oriental na própria região. Fukuzawa afirma que o Japão não devia só romper com sua identidade passada, mas também constituir um novo eixo em toda a Ásia. Na realidade, esse caminho para o Estado-Nação não consiste em o Japão “deixar a Ásia para se juntar à Europa”, mas em “entrar na Ásia para enfrentar a Europa”. A “grande esfera de co-prosperidade leste-asiática”, desenvolvida em um slogan colonial no início do século XX, serve para legitimar a invasão japonesa na Ásia. Esse contexto colonial explica que a maior parte dos intelectuais chineses tem uma certa hesitação em desenvolver essa noção, e até mesmo em se referir a ela.

Os movimentos de libertação nacional inventaram uma nova concepção da Ásia, ecoando a idéia socialista trazida pela revolução russa. Enquanto movimento social anticapitalista que combate também o Estado-Nação burguês, o movimento socialista se orienta, desde o início, para o internacionalismo e para o anti-imperialismo. No entanto, exatamente como a teoria japonesa do “deixar a Ásia”, a do direito das nações à autodeterminação foi concebida no âmbito da dicotomia entre Estado-Nação e Império.

Vinte e sete anos depois do ensaio de Fukuzawa Yukichi, e pouco tempo depois da revolução republicana e da instauração do governo provisório da República chinesa (janeiro/fevereiro de 1912), Lenin publicou uma série de artigos sobre a Ásia9. “A China [atual] é um país em que a atividade política ferve, cenário de um movimento social vigoroso e de uma insurreição democrática” 10, escreve ele. E condena o fato de que a Europa civilizada e avançada “com sua indústria mecânica altamente desenvolvida, com a riqueza de sua cultura multiforme e de suas constituições” venha, sob o cajado da burguesia, a “sustentar tudo o que tem de atrasado, de moribundo e de medieval” 11. As visões opostas de Lenin e de Fukuzawa baseiam-se na idéia comum de que a modernidade asiática resulta da modernidade européia; sua importância manifesta-se apenas nas relações com a Europa, independentemente do status e do destino da Ásia.

Ásia multicultural

A Ásia que renasce é uma Ásia multicultural, cuja unidade se baseia na independência dos Estados soberanos

Em termos de epistemologia histórica, não existe diferença fundamental entre a opinião revolucionária de Lenin e as de Smith e de Hegel. Uns e outros concebem a história do capitalismo como um processo de evolução, do Antigo Oriente ou Ásia à Europa moderna, da caça, do nomadismo e da agricultura ao comércio ou à indústria. A concepção hegeliana da história do mundo e sua caracterização da Ásia como medieval, bárbara e a-histórica está na origem da idéia de Lenin sobre a Ásia. Essa idéia – Hegel mais a revolução – se adapta ao esquema do desenvolvimento histórico em três estágios: antigo, medieval e moderno (feudalismo, capitalismo e revolução proletária ou socialismo). Ela fornece à era capitalista um quadro acompanhado de uma temporalidade e de uma periodização para compreender a história das outras regiões do mundo.

Os argumentos de Lenin, principalmente o vínculo natural entre nacionalismo e capitalismo, dão um fio condutor para compreender a relação entre o nacionalismo chinês moderno e a idéia da Ásia. Sun Yat-sen12, em seu famoso discurso sobre o “grande asianismo” 13, pronunciado durante sua visita a Kobe em 1924, distingue duas Ásias: uma na origem da civilização mais antiga e que não tem nenhum Estado independente, e outra que se apressa em renascer. Segundo ele, o Japão é o ponto de partida dessa renovação, pois aboliu um certo número de tratados injustos impostos pela Europa e tornou-se o primeiro Estado independente da Ásia. Sun Yat-sen vangloria-se do triunfo japonês durante a guerra russo-japonesa: “O triunfo japonês contra os russos é a primeira vitória obtida por nações asiáticas contra uma nação européia há várias centenas de anos (...). Todas as nações asiáticas estão eufóricas e começam a alimentar uma grande esperança (...). Elas esperam, assim, vencer a Europa e iniciar movimentos de independência. (...) A grande esperança da independência na Ásia nasceu” 14.

Não se trata mais somente do Leste Asiático, compreendido na esfera cultural confuncionista, mas da Ásia multicultural, cuja unidade se baseia na independência dos Estados soberanos. “Todas as nações asiáticas”, é a esse acordo que aspiram os movimentos de independência nacional, e não a uma imitação mal feita dos Estados-Nações europeus. Sun Yat-sen está convencido de que a Ásia possui sua cultura e seus princípios próprios – o que denomina “a cultura da via real”, ao contrário da “cultura da via hegemônica” dos Estados-Nações europeus. De acordo com sua concepção, a unidade natural da Ásia não é o confuncionismo e tampouco qualquer outra cultura homogênea, mas uma cultura política que integra religiões, crenças, nações e sociedades diferentes. Sua idéia de “grande asianismo” ou de “pan-asianismo” é, portanto, contrária ao “grande asianismo oriental” do nacionalismo japonês moderno. Ela contém uma dinâmica socialista que opõe capitalismo e imperialsmo, e conduz a um novo tipo de internacionalismo.

Resistência e crítica

Existe uma oposição muito nítida entre a idéia socialista da Ásia e a idéia colonialista

A ligação entre os valores socialistas e as tradições chinesas incitou pesquisadores contemporâneos a reconstruírem a idéia da Ásia. Assim, Mizouguchi Yuzo afirma que categorias como “os príncipes celestes” (tianli) e o “público/o privado” (gong/si) existiram na história intelectual e social da China dos Song (960-1279) até os Qing (1911), formando uma continuidade entre alguns temas da revolução chinesa moderna e as idéias de regulamentação agrária. Essa tentativa de definir a cultura asiática com a ajuda desses valores expressa uma resistência e uma crítica em relação ao capitalismo moderno e ao colonialismo15. Em outros termos, existe uma oposição muito nítida entre a idéia socialista da Ásia e a idéia colonialista.

Desde os anos 1940, Ichisada Miyazaki, eminente historiador da escola imperial de Kyoto, começou a estudar “o início do capitalismo Song”, analisando a história das comunicações de longa distância em diferentes regiões. Segundo ele, os “que consideram a história desde os Song como marcante para o desenvolvimento da modernidade chegaram a analisar a história ocidental moderna à luz dos acontecimentos da história moderna leste-asiática” 16. Sua teoria da modernidade leste-asiática confirma a idéia japonesa de “grande esfera do Leste Asiático”, mas isso não tira a perspicácia de sua análise. Trabalhando em um quadro histórico mundial, ele observa que a construção do Grande Canal, o desenvolvimento das metrópoles e de algumas mercadorias, como as especiarias e o chá, estabeleceram o vínculo entre as redes comerciais européia e asiática. A expansão do império mongol, que favoreceu o crescimento das trocas artísticas e culturais entre a Europa e a Ásia, não só modificou as relações nas sociedades chinesa e asiática, como religou a Europa e a Ásia por vias terrestre e marítima17.

Se as características políticas, econômicas e culturais da “modernidade asiática” aparecem desde o século X e XI, três ou quatro séculos antes que semelhantes especificidades aparecessem na Europa, o desenvolvimento histórico desses dois mundos foi paralelo ou conjunto? Miyazaki avalia que o Leste Asiático, sobretudo a China, não só forneceram um mercado e meios necessários à Revolução Industrial, como também alimentaram a marcha do humanismo que se manifestou na Revolução Francesa. Assim, explica ele, “a Revolução Industrial européia não foi absolutamente um acontecimento concernente somente à Europa, pois não se tratava simplesmente de mecânica, mas de uma questão que envolvia toda a estrutura social. Para que ela se produzisse, foi preciso a prosperidade da burguesia; e, além disso, a acumulação graças ao comércio com o Leste Asiático também foi indispensável. Para fazer as máquinas funcionarem, foi preciso não só energia, mas também algodão como matéria-prima. Na verdade, o Leste Asiático fornecia as matérias-primas e o mercado. Se não existisse comunicações com o Leste Asiático, a Revolução Industrial não poderia ter acontecido” 18.

Reconstrução da história mundial

A crítica ao eurocentrismo não deve tentar confirmar o asiacentrismo, mas eliminar a lógica egocêntrica e expansionista da dominação

O movimento do mundo é o processo segundo o qual mundos múltiplos comunicam-se e lutam entre eles, interpenetram-se e transformam-se mutuamente. Assim, quando os historiadores situaram a Ásia nas relações mundiais, apreenderam que a modernidade não se define em relação a uma ou outra sociedade, mas em função do resultado de uma interação entre regiões e civilizações diferentes. Neste sentido, a idéia da Ásia perde sua validade, pois não se trata de uma entidade independente, nem de um conjunto de relações. Essa reinvenção de uma Ásia que não é nem o começo de uma história mundial linear nem o fim, nem sujeito autárquico nem objeto subordinado, dá oportunidade de reconstruir a história do mundo. E isso deve também nos levar a analisar novamente a idéia da Europa, pois não se pode continuar a considerar a Ásia em relação à visão que a Europa tem de si mesma.

As representações da Ásia já evocadas ressaltam a ambigüidade e as contradições que compreende a idéia da Ásia. Esta é ao mesmo tempo colonialista e anticolonialista, conservadora e revolucionária, nacionalista e internacionalista; ela encontra sua origem na Europa e transforma a interpretação que a Europa tem de si mesma; ela é estreitamente ligada à questão do Estado nacional e confirma a visão imperial; é um conceito de civilização em contraste com o da Europa, e uma categoria geográfica estabelecida nas relações geopolíticas. Quando estudamos a independência política, econômica e cultural da Ásia atual, é preciso termos em conta efetivamente o fato de que a idéia da Ásia surgiu nos deslizes, na ambigüidade e nas contradições. Não poderemos encontrar as chaves para transcender ou dominar esses deslizes e essas contradições a não ser compreendendo as relações históricas particulares que lhes deram nascimento.

A crítica ao eurocentrismo não deveria tentar confirmar o asiacentrismo, mas eliminar a lógica egocêntrica, exclusiva e expansionista da dominação. Será impossível compreendermos a importância da modernidade asiática se esquecermos as condições e os movimentos históricos descritos acima. Por isso, as novas representações da Ásia devem ultrapassar os objetivos e os projetos dos movimentos socialista e de libertação nacional do século XX. Nas circunstâncias históricas atuais, elas devem refletir sobre os projetos históricos não realizados desses movimentos. O objetivo não é criar uma nova guerra fria, mas abolir a antiga e suas formas derivadas; não é de restabelecer a relação colonial, mas de eliminar os vestígios e impedir que se desenvolvam formas nascentes de colonialismo.

Portanto, a questão da Ásia não diz respeito somente à Ásia geográfica, mas à “história mundial”. Reconsiderar a “história asiática” exige reconstruir a “história mundial” e ultrapassar a ordem do “novo império” do século XIX e sua lógica.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Jürgen Habermas, “Why Europe Needs a Constitution ”, New Left Review, Londres, n°11, 2001, p. 5-26.
2 - A Asean, criada por cinco membros em 1967 – Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia – compreende agora mais cinco: Camboja, Laos, Vietnã, Brunei, Mianmá.
3 - Nishiwaki Fumiaki, “Les relations entre le Japon, les Etats-Unis, la Chine et la Russie vues sous l’angle de la stratégie chinoise du XXIe siècle ”, Seikai Shuho, agência Jiji, Tóquio, 12 de fevereiro de 2002.
4 - Teleologia, doutrina segundo a qual o mundo é um sistema de relações entre os meios e a finalidade. No prefácio de sua Contribution à la critique de l’économie politique, Marx considerava a história da Europa ocidental como uma “época que marcou um progresso no desenvolvimento econômico da sociedade”. Esse prefácio jamais foi republicado enquanto ele era vivo. E, em 1877, ele observou que não convinha “ transformar [seu] esboço histórico do desenvolvimento do capitalismo ocidental-europeu em uma teoria histórico-filosófica do desenvolvimento universal predeterminada pelo destino para todas as nações, quaisquer que fossem as circunstâncias históricas em que elas se encontrassem”. Ver, de Saul K. Pandover, The Letters of Karl Marx, Englewoodcliffs, Prentice-Hall, New Jersey, 1979, p. 321.
5 - Georg Wilhelm Friedrich Hegel, La Philosophie de l’histoire, tradução de Jsibree, Colonial Press, 1899, p.103-104.
6 - Adam Smith, Enquête sur la nature et les causes de la richesse des nations, dans The Glasgow Edition of the Works and Correspondence of Adam Smith, Oxford University, Londres, 1976.
7 - Perry Anderson, Lineages of the Absolute State, Verso, Londres, 1979, p. 472.
8 - Perry Anderson, ibid. , 1979, p. 472.
9 - “Démocratie et narodisme (do termo russo que significa populismo) en Chine ” (1912), “Le réveil de l’Asie ” (1913), e “Europe arriérée et Asie avancée ” (1913).
10 - Vladimir Illich Lénine, “Le réveil de l’Asie ”, em Collected Works, vol. 19, ed. Robert Daglish, Moscou, 1963, p. 85.
11 - Vladimir I. Lénine, “Europe arriérée et Asie ”, em Collected Works, vol. 19, p. 99.
12 - Sun Yat-sen (1866-1925) foi o presidente da 1ª República chinesa.
13 - Sun Yat-sen, “Dui Shenhu Shangye Huiysuo Deng Tuanti De Yanshuo” (Dirigido a vários organismos da Câmara de Comércio de Kobe), em Sun Zhongshan Quanji (Obras completas de Sun Zhongshan), Zhonghua shuju, Pequim, 1986, p. 401-409.
14 - Ibid. , p. 402.
15 - Ver Mizoguchi Yuzo, Chugoku No Shiso (Pensamento chinês), Hoso daigaku kyoiku shinkokai, Tóquio, 1991, Mizoguchi Yuzo, Chugoku Zen Kindai Shiso No Kussetsu to Tenkai (As viradas e reviravoltas no pensamento chinês pré-moderno), Tokyo daigaku shuppankai, Tóquio, 1980.
16 - Ichisada Miyazaki, Toyo Teki Kinsei [A idade moderna do Leste Asiático], Osaka, Kyoiku Taimusu, p. 240.
17 - Ibid. , p. 151 a 154.
18 - Ibid. , p. 238. Ler também, de Philip S. Golub, “Retour de l’Asie sur la scène mondiale”, Le Monde diplomatique, outubro de 2004.




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