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ECONOMIA

A sorte do dólar se decide em Pequim

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A cotação do dólar e a gravidade do déficit comercial dos Estados Unidos, país que compra 50% a mais do que vende para o exterior e mantém inabalável seus vultuosos gastos militares, dependem em grande parte das orientações dos dirigentes chineses

Ibrahim Warde - (01/03/2005)

Um dólar anêmico favorece a competitividade dos produtos fabricados nos EUA; torna as compras dos ativos norte-americanos mais atraentes e desvaloriza uma dívida externa

“A moeda é nossa, mas o problema é de vocês” 1. A célebre fórmula de John Connally, ex-secretário do Tesouro do presidente Richard Nixon, data de 1971. Poderia ser aplicada à política do dólar do primeiro mandato de George W. Bush. Preocupados prioritariamente com a “luta contra o terrorismo” e a guerra do Iraque, os dirigentes norte-americanos pouco se interessaram pelas grandes questões econômicas internacionais. Evidentemente, declararam sua adesão a uma moeda forte, para não incitar os especuladores a maltratarem demais a “verdinha”, mas voltaram-se para o “mercado”, a fim de melhor ocultar a questão desses “déficits gêmeos” (orçamentário e da balança comercial), que aumentaram maciçamente.

Em matéria orçamentária, o governo Bush herdou excedentes próximos a 240 bilhões de dólares em 2000. A recessão de 2001 (que provocou menor arrecadação fiscal), mas também as baixas maciças de impostos, votadas por um Congresso republicano (acreditando que os excedentes se tivessem tornado estruturais) e o novo aumento do orçamento da defesa e da segurança interna, consecutivo aos ataques de 11 de setembro, transformaram esse acréscimo apreciável em déficit considerável, sobretudo num período de retomada do crescimento – atingiu 412 bilhões de dólares em 2004, ou seja 3,6% do PNB (Produto Interno Bruto). Paralelamente, o déficit comercial, que não parou de se aprofundar durante três anos consecutivos, atingiu um recorde histórico de 619 bilhões de dólares (5,3% do PNB), numa progressão de 24,4% em relação ao ano anterior.

Todas as reuniões do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, Canadá, Itália) e outras grandes conferências internacionais mencionam a questão dos “déficits gêmeos”. Mas as soluções habitualmente preconizadas para reequilibrar as contas dos Estados Unidos implicam opções dolorosas (aumento de impostos, diminuição das despesas militares, incentivo à poupança) que esbarram nas grandes orientações políticas do governo Bush.

Vantagens do dólar anêmico

As previsões do final do ano revelavam o consenso dos banqueiros e dos economistas: o ano 2005 marcaria uma derrocada da moeda norte-americana mais espetacular ainda

Os Estados Unidos compram 50% a mais do que vendem para o exterior. E são os investidores internacionais que, com suas aquisições de bônus do Tesouro norte-americano, financiam o padrão de vida da principal potência econômica mundial. Esse ajuste pelo dólar tem a vantagem de remeter os custos para o resto do mundo, pois significa retomar o crescimento, gerar empregos e poupança nos outros países. Um dólar anêmico favorece a competitividade dos produtos fabricados nos Estados Unidos; torna as compras dos ativos norte-americanos mais atraentes para os investidores estrangeiros (na medida em que são mais baratos) e desvaloriza uma dívida externa estimada em 3 trilhões de dólares.

Não é freqüente, na história, que o guardião da moeda de reserva seja também o país mais endividado. Em 1913, o Reino Unido, no auge de seu prestígio imperial, era simultaneamente o principal credor do planeta. Exauriu-se, em seguida, durante meio século para defender – com pura perda, mas às custas de um enfraquecimento de seu poderio industrial – o valor da libra esterlina. A arma da baixa do dólar, nova versão do que o general de Gaulle qualificava outrora de “privilégio exorbitante” dos Estados Unidos – o de imprimir uma moeda da qual os países estrangeiros não pedem a contrapartida desde que seus bancos centrais a estoquem –, permitiria, em teoria, ver os dois déficits norte-americanos, orçamentário e comercial, serem absorvidos sem dificuldade.

Considerações políticas vieram acrescentar-se a esta análise. Perto das eleições de novembro de 2004, as pesquisas indicavam que uma maioria de eleitores considerava o senador democrata John Kerry como o mais apto para dirigir o restabelecimento econômico do país. Já que a votação se anunciava apertada, o presidente Bush tinha uma necessidade imperiosa de boas taxas de crescimento e de emprego. Só um dólar subvalorizado lhe permitiria conseguir esse resultado2.

Aceleração da desvaloriação

A reeleição de George W. Bush deixa pressagiar que tanto o aventureirismo em política externa, quanto a tolerância orçamentária prosseguirão

No entanto, nas semanas que se seguiram à reeleição do presidente é que a queda do dólar, já iniciada, teve sua mais alta aceleração. Durante o mês de dezembro de 2004, o dólar batia todos os dias, ou quase, novos recordes de baixa, atingindo, na véspera do Natal, o piso histórico de 1,35 dólar para um euro. No total, entre 2002 e 2004, a “verdinha” perdeu 20% de seu valor diante do euro. As previsões do final do ano, rituais e nem sempre confiáveis, revelavam o consenso dos banqueiros e dos economistas: o ano 2005 marcaria uma derrocada da moeda norte-americana mais espetacular ainda.

Vários fatores permitem compreender esse prognóstico. A reeleição de George W. Bush deixa pressagiar que tanto o aventureirismo em política externa, quanto a tolerância orçamentária prosseguirão. Ainda mais porque o presidente, apesar de obter, na reeleição, uma margem de votos pouco expressiva (três pontos a mais do que seu rival), declarou-se munido de um “mandato” para empreender reformas tanto audaciosas como onerosas. E prestes a “dar início a seu capital político” para levar adiante medidas controvertidas, como, por exemplo, a privatização parcial do sistema federal de aposentadorias (que, num primeiro momento, custará várias centenas de bilhões de dólares ao Tesouro norte-americano3).

A desconfiança em relação ao dólar explica-se também pelo fracasso da política de redução “pelo mercado” do déficit externo. Um dólar fraco devia favorecer os exportadores norte-americanos e penalizar os importadores. Ora, mais do que um reequilíbrio das contas, essa política contribuiu para o aprofundamento de déficits que destacaram as fragilidades estruturais da economia norte-americana. Os operadores financeiros concluíram que o dólar não baixara suficientemente. Alguns até sugeriram que, para reduzir pela metade o déficit comercial, a moeda norte-americana deveria perder 30% a mais – e não mais valer senão 0,55 euros...

Perda de apetite pelo dólar

Os déficits comerciais norte-americanos financiam... o endividamento dos Estados Unidos e a muito reduzida disposição de seus cidadãos para a poupança

Daí a preocupação dos detentores de dólares – em particular a dos bancos centrais, que até então aceitavam o dólar sem restrições. Em 2003, os bancos centrais financiaram o déficit corrente norte-americano em 83%, absorvendo, sem convertê-los, os dólares adquiridos em contrapartida das compras dos Estados Unidos no exterior. O excedente em dólares dos bancos centrais asiáticos, por exemplo, atingiria atualmente 2 trilhões de dólares. Por que a China, o Japão e outros países acumularam tantos ativos emitidos numa moeda cujo valor estava caindo? É que eles quiseram impedir a cotação de suas próprias divisas no mercado de câmbio, o que teria acontecido se tivessem trocado seus dólares excedentes. Dessa forma, esses países privilegiaram a competitividade de suas exportações. E como investiram seus dólares em obrigações do Tesouro norte-americano, contribuíram ao mesmo tempo para manter, nos Estados Unidos, taxas de juros muito baixas. No final desse ciclo estranho, os déficits comerciais norte-americanos financiam... o endividamento dos Estados Unidos e a muito reduzida disposição de seus cidadãos para a poupança.

Mas, em resposta à derrocada do dólar, um certo número de bancos centrais decidiu reduzir suas compras de dólares em proveito de outras moedas, em especial o euro. Essa reviravolta estratégica pode ser explicada: uma coisa é sofrer algumas perdas para favorecer suas vendas no exterior; outra coisa é arcar com os custos de uma debandada contínua. Em 19 de novembro, Alan Greenspan, o presidente do Federal Reserve (banco central norte-americano), lançou um argumento de peso na discussão ao lembrar que os investidores estrangeiros um dia se cansariam do acúmulo dos déficits e que uma “perda de apetite para com os ativos emitidos em dólar” era inevitável4. Alguns dias mais tarde, Yu Yongding, membro do comitê monetário do Banco Central da China, indicava que a China “diminuíra a parte relativa de suas reservas de câmbio, mantidas em bônus do Tesouro norte-americano, mas não seu montante absoluto, para se prevenir contra o enfraquecimento do dólar”.

Essa tendência acaba de ser confirmada por uma pesquisa em 67 bancos centrais apresentada pela revista Central Banking Publications: no decorrer dos quatro últimos meses de 2004, mais de dois terços dos estabelecimentos interrogados diminuíram a parte relativa do dólar em suas carteiras de títulos (ela continua imensa, próxima de 70% do total, mas, há cerca de trinta anos, situava-se em 80%). Para Nick Carver, um dos autores do estudo, “o entusiasmo dos bancos centrais com o dólar parece ter esfriado. Os Estados Unidos não devem mais contar com seu apoio incondicional” 5. Os países produtores de petróleo, que dirigem uma boa parte de suas compras para a zona euro, também não estão mais encantados em ver a alta das cotações de sua matéria-prima amplamente atingida pela queda de valor da moeda de faturamento. E, além de tudo, determinados Estados árabes temem que, um dia, seus bens nos Estados Unidos sejam congelados, em nome da luta contra o terrorismo.

O preço do desmoronamento contínuo

Em resposta à derrocada do dólar, um certo número de bancos centrais decidiu reduzir suas compras de dólares em proveito de outras moedas, em especial o euro

A política de câmbio é uma ciência inexata cheia de efeitos perversos. Para além de um determinado patamar, os efeitos negativos de uma desvalorização suplantam suas vantagens. Incapazes de deter a queda de sua divisa, os dirigentes norte-americanos descobrem que a arma do dólar poderia voltar-se contra eles. Para manter o valor de sua moeda, os Estados Unidos precisam de um aporte diário de 1,8 bilhão de dólares. E quando o crédito é atingido, o dólar deixa de ser simplesmente “o problema dos outros”. Na realidade, a previsão de um desmoronamento contínuo pode provocar reações em cadeia: os investidores estrangeiros exigem rendimentos mais elevados para adquirir ou conservar dólares, ou para subscrever bônus do Tesouro. Quanto maior for o risco de desvalorização, mais elevado deve ser esse incentivo, sob a forma de taxa de juros. Ora, uma grande elevação das taxas tem efeitos temíveis sobre os investimentos e sobre o consumo, em particular nos Estados Unidos, onde a compra a crédito está mais generalizada do que em outros lugares. Haveria, por exemplo, um risco de queda do mercado imobiliário, até então favorecido por taxas de juros historicamente baixas. E a imbricação entre os sistemas econômicos e monetários é tal que uma recessão norte-americana teria conseqüências para a economia mundial.

A Europa, e em menor escala o Japão, viram-se quase que sozinhos para pagar o preço da queda do dólar. Na Europa, a alta cotação do euro fez com que poucos ficassem felizes, embora Wilhelm Duisenberg, o primeiro presidente do Banco Central Europeu (BCE) tivesse como divisa “um euro forte para uma Europa forte” 6. A primeira parte de seu desejo foi atendida... Mas atualmente seu sucessor, Jean-Claude Trichet, lamenta a queda “brutal” do dólar que afetou gravemente a competitividade das indústrias do Velho Continente. Em 2004, o crescimento da zona euro foi um dos menores do mundo. Os otimistas inveterados, entretanto, puderam descobrir uma vantagem num euro forte: a redução do impacto da explosão do preço do petróleo, negociado em dólares. Por isso, quando era ministro das Finanças, Nicolas Sarkozy considerava, em novembro de 2004, que a supervalorização da moeda da União “não era apenas uma desgraça”.

A variável chinesa

A imbricação entre os sistemas econômicos e monetários é tal que uma recessão norte-americana teria conseqüências para a economia mundial

Desde que a China, em 1994, indexou sua moeda (o renminbi, “moeda do povo”, nome oficial do yuan) ao dólar, entrou em acordo monetário com os Estados Unidos. Dessa forma, a queda do dólar permitiu-lhe manter a competitividade diante dos Estados Unidos e aumentá-la diante do resto do mundo. A assimetria das relações sino-norte-americanas é impressionante: o déficit com a China é, só ele, de 207 bilhões de dólares (mais de um terço do total7). Nos Estados Unidos, há quem se satisfaça com a afluência de produtos a preços que desafiam qualquer concorrência: o gigante da distribuição Wal-Mart, que é também o maior empregador do país, importa até 70% de seus produtos do ex-Império do Meio. Mas cada vez mais empresas, assalariados e autoridades políticas norte-americanas vêem aí uma forma de concorrência desleal e pedem a seu governo que exija da China que deixe sua moeda flutuar. Há vinte anos, a política monetária e comercial de Washington era obcecada pelo Japão, suas exportações de automóveis e de eletrônicos, a cotação do iene...

Muitas vezes reiterada, a posição oficial dos dirigentes norte-americanos é de que o yuan estaria subvalorizado em 40% e que o Banco Central chinês deveria parar de intervir maciçamente para regular a evolução da moeda chinesa. A resposta de Pequim é ambígua: se o debate parece bem recebido nos círculos do poder, os sinais emitidos continuam ainda contraditórios. Alguns dirigentes garantem que a China trabalha para tornar seus mercados de capitais mais flexíveis, com vistas a relaxar e até suprimir o vínculo fixo entre dólar e yuan. Segundo o vice-primeiro-ministro, Huang Ju, Pequim quer proceder por etapas “para reformar o regime de câmbio do yuan”, sem com isso anunciar um calendário específico, pois trata-se antes de tudo de criar “um ambiente macroeconômico estável para estabelecer um mecanismo de mercado e um sistema operacional sadio” 8.

A assimetria das relações sino-norte-americanas é impressionante: o déficit com a China é, só ele, de 207 bilhões de dólares (mais de um terço do total)

Outros afastam qualquer idéia de mudança de política. Segundo Yi Gang, diretor do Departamento de Política Monetária do Instituto de Emissão, “Pequim vai dar prosseguimento à sua política monetária de um regime de taxa de câmbio unificada e de flutuação controlada”, a fim de “preservar a estabilidade e estimular a promoção do crescimento da economia chinesa”. Convidado a fazer uma exposição diante dos ministros de Finanças do G7, em 4 de fevereiro de 2005, o governador do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, encerrou o debate, recusando-se a responder à questão que continua a deixar os mercados na incerteza.

Ambições e riscos

Pequim pode querer fazer valer seu direito à soberania monetária. Suas taxas de crescimento excepcionais (9,5% em média anual entre 1997 e 2004) e o gigantesco potencial de seu mercado de 1,3 bilhão de habitantes fazem dela um eldorado para todas as multinacionais. Tendo se tornado uma verdadeira potência econômica, o país representa atualmente 4% da economia mundial, contra só 1% em 1976. Há quem considere que até 2020 a China representará cerca de 15% da produção do globo.

Mais do que a oficina do mundo, o país quer ser uma locomotiva da economia internacional, para não dizer uma verdadeira potência tecnológica e científica. Já está no centro de todas as questões econômicas importantes, desde acolher as instalações de indústrias estrangeiras ao aumento exagerado do preço das matérias-primas, passando pela retomada da economia japonesa. A compra pelo grupo chinês Lenovo da divisão de computadores pessoais do gigante norte-americano IBM é emblemática das ambições de um Estado que já lançou com sucesso mais de quarenta satélites ao espaço, e que prevê vôos tripulados a cada dois anos, bem como um programa lunar.

Os dirigentes chineses têm consciência dos riscos que sua economia correria com uma nova organização monetária. São muitos os sinais de instabilidade: inflação, especulação imobiliária, fragilidade do setor bancário, subdesenvolvimento dos mercados de capitais. Se levarmos em conta o aumento das desigualdades sociais e a ausência de democracia, dá para avaliar a possibilidade de uma explosão política9. E compreende-se a prudência das elites, preocupadas, antes de tudo, em evitar uma desaceleração repentina do crescimento, que teria conseqüências econômicas e políticas incalculáveis, inclusive nas relações com os Estados Unidos. Pois com muita freqüência se esquece que em inúmeras questões delicadas – Irã, Coréia do Norte, Taiwan –, a China continua a se opor a Washington.

Lógica de confronto

Os dirigentes chineses têm consciência dos riscos que sua economia correria com uma nova organização monetária

O mundo todo, exceto talvez os especuladores, entende que uma gestão coordenada das moedas é preferível à política de cada um por si. A maioria das análises da situação monetária internacional sugere, no entanto, uma lógica de confronto. Trata-se de “equilíbrio do terror monetário”, de aliança entre a Europa e o Japão para intervenções comuns no mercado de câmbio e até de “aliança muito grande” opondo a China e os Estados Unidos ao resto do mundo, e em razão da qual os norte-americanos comprariam da China seus produtos, enquanto a China financiaria os déficits norte-americanos10. A possibilidade de que certos países ponham em prática suas ameaças – que o Japão ceda uma parte importante de bônus do Tesouro norte-americano de sua carteira de títulos, ou que os Estados Unidos tomem medidas de represália contra a China – vem periodicamente abalar os operadores dos mercados financeiros.

Intervenções combinadas dos “quatro grandes” (Estados Unidos, Europa, China e Japão) são capazes de frear a especulação e reduzir as turbulências, conforme o modelo do acordo do Plaza, que marcou uma reviravolta nas relações monetárias internacionais. Em 22 de setembro de 1985, os ministros das Finanças e os presidentes dos bancos centrais dos países membros do G5 (Estados Unidos, Japão, Inglaterra, França, República Federal Alemã) reuniram-se nesse hotel de Nova York e decidiram que “era desejável uma nova cotação ordenada das divisas que não fossem o dólar”. Comunicavam que “estavam prontos a cooperar mais estreitamente para encorajar isso, quando lhes parecesse útil”. Essa linguagem codificada foi o prelúdio para uma queda coordenada do dólar, sob a direção de James Baker, secretário do Tesouro do presidente Reagan11.

Um acordo desse tipo é hoje pouco provável. O unilateralismo que prevalece, assim como diversas considerações “ideológicas”, trabalham contra o próprio princípio de um acordo. Mas, sobretudo, nenhum dos responsáveis econômicos atuais está apto a desempenhar o papel que James Baker desempenhou. Há vinte anos, o Departamento do Tesouro gozava de uma importância internacional que hoje já não tem mais. Paul O’Neill, o primeiro titular do posto escolhido por George W. Bush, foi rapidamente destituído devido à sua independência. E, num livro em que relata sua experiência em Washington, ele descreveu o atual presidente como desconhecedor das realidades econômicas e comportando-se, com seu gabinete, como “um cego cercado de surdos” 12. Desde a guerra do Iraque, Bush, preocupado com as grandes cruzadas em prol da liberdade, interessa-se menos ainda pelas questões de intendência...

A interpretação norte-americana

O mundo todo, exceto talvez os especuladores, entende que uma gestão coordenada das moedas é preferível à política de cada um por si

Por outro lado, sua reeleição, em novembro de 2004, reafirmou a disposição de Bush de só se cercar de bajuladores. A qualidade essencial para uma nomeação política parece ser a lealdade e não a competência. O secretário do Tesouro, John Snow, é impedido de opinar, no processo de decisão, pelos conselheiros políticos do presidente. Quanto a Alan Greenspan, este inicia, aos 79 anos, seu último ano de presidência do Federal Reserve. A batalha pela sucessão está aberta. Os pretendentes devem realizar o impossível – obter a confiança absoluta do presidente (que escolhe o titular) que os obriga a defender com entusiasmo opções econômicas dificilmente justificáveis e a dos “mercados” 13. Diante dessa espécie de vacância do poder econômico, aqueles mesmos que conseguiram “vender” a guerra do Iraque e garantir a reeleição do presidente esforçam-se para convencer o público da boa fundamentação de sua política orçamentária e financeira.

Desde 20 de janeiro de 2005, data oficial da posse do novo governo Bush, os “déficits gêmeos” são objeto de um novo discurso e de uma nova estratégia. A política de indiferença calculada (benign neglect) diante do dólar foi longe demais; existe o risco de queda livre da “verdinha”. Declara-se que a redução dos déficits não será mais feita por meio da desvalorização do dólar, mas graças a um forte crescimento, ele próprio induzido por novas reduções de impostos. Para o presidente Bush, “a longo prazo, a melhor maneira de reduzir o déficit é fazer com que a economia progrida e tomaremos medidas para permitir que a economia norte-americana seja mais forte, mais inovadora e mais competitiva”.

Atualmente, o déficit comercial é interpretado como o reflexo da boa saúde relativa da economia norte-americana. Não reivindicaria, portanto, atenção especial: cabe aos outros, os europeus em especial, retomarem, por sua vez, o crescimento em seus países por meio da diminuição de impostos e políticas mais propícias ao investimento. Para John Snow, “o déficit comercial reflete duas coisas: nossa economia tem uma taxa de crescimento rápida, mais alta do que a de nossos parceiros comerciais. A renda pessoal está em alta e o emprego está em alta; temos, portanto, mais renda disponível da qual uma parte é usada para a compra de bens de nossos parceiros comerciais” 14. Da mesma forma, Alan Greenspan, que inicialmente expressou sua decepção com a extensão dos déficits, adota atualmente um discurso inverso, destinado a apoiar o dólar: “A maior flexibilidade da economia norte-americana vai sem dúvida facilitar um ajuste sem conseqüências graves para o conjunto da atividade econômica”.

A “austeridade” orçamentária de Bush

A sustentação orçamentária de Bush baseia-se em hipóteses pouco sérias e exclui algumas das despesas mais onerosas, como as operações militares no Iraque e no Afeganistão

Como durante o primeiro mandato Bush, a política oficial consiste em afirmar a necessidade de uma moeda forte, mas, desta vez, os atos visam verdadeiramente a impedir uma nova derrocada do dólar. Em 2 de fevereiro de 2005, o comitê de política monetária do Federal Reserve elevou sua taxa referencial para 2,5%. O aumento do rendimento das aplicações nos Estados Unidos permite manter o dólar em relação ao euro, no momento em que o conselho dos presidentes do Banco Central Europeu manteve suas taxas referenciais de juros em 2%.

No plano orçamentário, o presidente Bush reafirma sua intenção de “reduzir o déficit pela metade” por meio de uma política “de austeridade” que deve se estender a todos os setores, exceto a segurança e a defesa (que obterá 19 bilhões de dólares a mais do que no ano anterior). O projeto de orçamento 2006 reduz drasticamente ou suprime mais de 150 programas governamentais considerados pela administração “ineficazes, redundantes ou não prioritários”. Os programas sociais, em particular aqueles destinados às crianças e aos indigentes, estão na linha de mira, ainda que o montante deles seja reduzido de um ano para outro, em valores absolutos.

Mas a sustentação orçamentária da Casa Branca baseia-se em hipóteses pouco sérias e exclui algumas das despesas mais onerosas. As operações militares no Iraque e no Afeganistão, verdadeiro sorvedouro para as finanças norte-americanas, são esquecidas15. Assim como os 754 bilhões de dólares em dez anos, que representam o custo mínimo da privatização parcial do sistema de aposentadorias.

Para determinadas autoridades, e não das menos importantes, é sempre mais urgente reduzir os impostos do que os déficits orçamentários

Simultaneamente, o governo Bush e seus aliados parlamentares contam com um aumento da receita, graças a uma... diminuição dos impostos. O presidente norte-americano propôs, portanto, tornar permanentes as enormes reduções de impostos (da ordem de 1,8 trilhão de dólares), votadas em seu primeiro mandato, com vistas a manter o consumo e o crescimento. Em 2004, as receitas fiscais só representaram 16,3% do Produto Interno Bruto, seu nível mais baixo desde 1959, contra 21% quatro anos antes, numa época em que o orçamento ainda tinha excedentes...

Para determinadas autoridades, e não das menos importantes, é sempre mais urgente reduzir os impostos do que os déficits orçamentários. O vice-presidente Richard Cheney, por exemplo, que pretende realizar grandes reformas de política interna a partir de agora, está convencido disso: “Os déficits, como demonstrou Ronald Reagan, não têm importância alguma.” 16

(Trad. Regina Salgado Campos)

1 - Barry Eichengreen, Globalizing Capital: A History of the International Monetary System, Princeton University Press 1996, p. 136.
2 - Isso não o impediu, alias, de ser o primeiro presidente dos Estados Unidos desde Herbert Hoover em 1932 a se recandidatar, embora, durante seu primeiro mandato, o saldo de criação de empregos tenha sido negativo.
3 - Se o projeto der certo, os trabalhadores poderão destinar uma parte do desconto operado em seus salários à formação de um capital privado destinado a sua própria aposentadoria. Sem receitas, o Estado fará empréstimos para pagar as aposentadorias dos beneficiários atuais (fala-se na cifra de 754 bilhões de dólares em dez anos).
4 - Larry Elliott, “US risks a downhill dollar disaster”, The Guardian, Londres, 22 de novembro de 2004.
5 - Mark Tran, “Move to euro hits US finances”, The Guardian, 24 de janeiro de 2005.
6 - Wilhelm F. Duisenberg, “The first lustrum of the ECB”, discurso pronunciado durante o International Frankfurt Banking Evening, Francfort, 16 de junho de 2003 : http://www.ecb.int
7 - David E. Sanger, “U.S. Faces More Tensions Abroad as Dollar Slides”, The New York Times, New York, 25 de janeiro de 2005.
8 - William Pesek, Jr., “Dollar skeptics in Asia have prominent company”, International Herald Tribune, New York, 3 de fevereiro de 2005.
9 - Ler o dossiê que Le Monde diplomatique dedicou à China, em setembro de 2004.
10 - Ver, por exemplo de Eric Le Boucher, “La très grande alliance entre les Etats-Unis et la Chine contre le reste du monde”, Le Monde, 25 de janeiro de 2004; Pierre-Antoine Delhommais, “L’’équilibre de la terreur monétaire’”, Le Monde, 5 de janeiro de 2005.
11 - O dólar que passara de 4,15 francos no primeiro trimestre de 1980 para 9,96 francos no primeiro trimestre de 1985, não valia mais do que 7,21 francos no primeiro trimestre de 1986 e 6,13 francos no primeiro trimestre de 1987. Em relação ao marco alemão, os valores respectivos foram 1,77 marcos, 3,26 marcos, depois 2,35 marcos et 1,84 marcos. Cf. para o valor do dólar em relação a 18 moedas, trimestre por trimestre, de 1972 a 2002, Jean-Marcel Jeanneney e Georges Pujals (org.), Les économies de l’Europe occidentale et leur environnement international de 1972 à nos jours, Fayard, 2005.
12 - Ron Suskind, The Price of Loyalty: George W. Bush, the White House, and the Education of Paul O’Neill, Simon and Schuster, New York, 2004.
13 - Paul Krugman, “The Greenspan Succession”, The New York Times, 25 de janeiro de 2005.
14 - Elizabeth Becker, “Trade Deficit At New High, Reinforcing Risk to Dollar”, The New York Times, 13 de janeiro de 2003.
15 - Programas orçamentários são apresentados separadamente ao Congresso no decorrer do ano. O último pedia 81 bilhões de dólares, não contabilizados no orçamento, para financiar a presença norte-americana no Iraque e no Afeganistão.
16 - Ron Suskind, op. cit.




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