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O evento hollyoodiano que se tornou as comemorações do 60º aniversário da libertação dos últimos prisioneiros de Auschwitz pelo Exército Vermelho não conseguiu cobrir o vazio de significado e a indiferença, impedindo a verdadeira compreensão da empresa de genocídio nazista

Dominique Vidal - (01/03/2005)

Supondo que ela vença os perigos que a ameaçam, da instrumentalização à sacralização, a memória judaica da Shoah não poderia sozinha se premunir contra o esquecimento

Paradoxalmente, a comemoração no último 27 de janeiro do 60º aniversário da libertação dos últimos prisioneiros de Auschwitz pelo Exército Vermelho mobilizou mais governantes e a mídia do que o 50º aniversário. Será que isso se deve à consciência de estar próxima a morte das últimas testemunhas da Shoah e, com elas, a memória viva do horror? Mais ninguém para atestar: “Eu vi as câmaras de gás exterminarem milhares de judeus por dia, e os crematórios em brasa com a força de reduzir os cadáveres a cinzas”? Ou à vontade de contra-atacar firme e maciçamente o aumento das violências anti-semitas, na França e em vários países da Europa?

Infelizmente, o inferno está cheio de boas intenções: a cobertura das cerimônias e a multiplicação – mais do que pelos aniversários do desembarque na Normandia e da Libertação de Paris – de programas especiais de rádio e televisão suscitaram sentimentos contraditórios. Por um lado, a irresistível empatia pelos últimos sobreviventes, frágeis silhuetas octogenárias envolvidas em pobres cobertores para resistir ao frio intenso de Birkenau; por outro, a amargura diante desse “imenso vazio” de uma encenação hollywoodiana, cujos símbolos esmagam a mensagem...

Nem mesmo os estudantes escaparam do fenômeno. A historiadora Annete Wieviorka1 explicou perfeitamente esse “sentimento de saturação”: “É que não se cessa de fazer sermão e isso chateia os alunos. Se considerarmos Auschwitz sobretudo como algo que continua a levantar questões, essa saciedade desaparece. É preciso substituir o sermão pela reflexão”. E acrescenta: “Nós temos a consciência tranqüila, enquanto deveríamos nos inquietar com o mundo que construímos e em que muitos jovens vivem em condições deploráveis. O que significam nossas aulas sobre a República, a integração, o anti-racismo enquanto eles são submetidos à exclusão, às discriminações ligadas às suas origens e têm tanta dificuldade para imaginar seu lugar na sociedade?” 2

Reflexão em jogo

A lembrança do holocausto nazista somente será registrada realmente por muito tempo quando a maioria das pessoas se apropriar de seus ensinamentos

Refletir, eis o que está em jogo. Ora, nessa emulação das cadeias de tv, abertas e a cabo, em que o melhor beira o pior, a emoção de maneira geral prima sobre a razão3 . Quantas delas convidaram historiadores para debater e lhes deram tempo para isso? Quantas reconstituíram o genocídio de acordo com a estratégia do Reich nazista? Quantas evocaram suas outras vítimas? Quantas se interessaram também pela resistência, até nos campos da morte? Quantas recolocaram o judeocídio na longa cadeia de genocídios que balizam a história e, particularmente, no século XX – antes e depois da Shoah, do Camboja, de Ruanda?

Prisioneiros de seus hábitos, alguns comentaristas reciclaram abundantemente adjetivos que revelam a recusa de compreender: “louco”, incompreensível”, “ininteligível”... Ninguém, é claro, nega a vertigem que nos arrebata o pensamento sobre esses milhões de homens, de mulheres e de crianças aniquilados porque nasceram judeus. Mesmo quando o III Reich cedeu sob o ataque brutal do Exército Vermelho e dos anglo-americanos, os agentes de Adolf Eichmann ainda saqueavam judeus a deportar, seja em uma ilha grega, seja no hospital psiquiátrico do gueto de Veneza, sem falar dos húngaros asfixiados nas câmaras de gás durante o verão de 1944, quando Paris já respirava o ar da liberdade recuperada.

Alvos da empresa de genocídio

Mas essa vertigem deve impedir a reflexão? O que homens fizeram, os homens podem compreender. Vítimas de um genocídio sem precedentes – pois, como escreve o historiador alemão Eberhard Jäckel, “jamais, mesmo anteriormente, um Estado decidiu e anunciou, sob a autoridade de seu dirigente supremo, que um determinado grupo humano deveria ser exterminado, se possível em sua totalidade, [...] decisão que esse Estado, em seguida, aplicou com todos os meios disponíveis” 4 – os judeus não foram, no entanto, os únicos alvos da empresa do genocídio nazista.

Longe de inspirações líricas assim como de discursos dogmáticos, é urgente aliar unicidade e universalidade, ensinamentos judaicos e universais

E por uma razão evidente: uma vez senhores de uma Alemanha esquecida na “distribuição” das colônias, o III Reich lançou-se, após sua vitória-relâmpago no Ocidente, em uma cruzada contra o judeu-bolchevismo” destinada a conquistar seu Lebensraum/i< (espaço vital) na Europa central e oriental. Ao mesmo tempo, era preciso povoar essas terras de “alemães natos” até então dispersos e eliminar – por questões demográficas e raciais – dezenas de milhões de Untermenschen, esses sub-homens judeus, ciganos, doentes mentais e deficientes, sem esquecer as elites eslavas da Polônia e da União Soviética... O caos assim criado, em plena fuga antes da guerra, contribuiu muito para radicalizar o genocídio deliberado, de longa data, por Hitler. Tantas pistas, entre muitas outras, sobre as quais os historiadores – israelenses assim como norte-americanos, franceses e alemães5 - procuram sempre cercar, novos arquivos para confirmar, a verdade...

Risco de dupla tragédia

Principais vítimas da empresa do genocídio nazista, naturalmente os judeus cultivaram sua própria memória, cuja legitimidade é evidente. Eles têm não só o direito, mas também o dever de tentar gravar no mármore esse terrível apogeu de perseguições que, durante séculos, marcaram sua vida na Europa. Mas, supondo que ela vença os perigos que a ameaçam, da instrumentalização à sacralização, a memória judaica da Shoah não poderia sozinha se premunir contra o esquecimento. O que representaria uma dupla tragédia: para as vítimas, assassinadas uma segunda vez; e para toda a humanidade, que esse martírio alerta contra o que ela é capaz. A lembrança do holocausto nazista somente será registrada realmente por muito tempo quando a maioria das pessoas se apropriar de seus ensinamentos. Portanto, longe de inspirações líricas assim como de discursos dogmáticos, é urgente aliar unicidade e universalidade, ensinamentos judaicos e universais.

Não se trata mais de querer “explicar” o Holocausto apenas pela história judaica ou pelas relações entre judeus e alemães, mas de tentar compreender a patologia dos Estados modernos

O historiador britânico Ian Kershaw, autor de uma gigantesca biografia de Adolf Hitler6 , escreve: “Se quisermos tirar uma “lição” do Holocausto, parece-me indispensável admitir – reconhecendo ao mesmo tempo seu caráter único na História, uma vez que não há precedente – que, definitivamente, nosso mundo não foi colocado ao abrigo de atrocidades semelhantes (...) Não se trata mais de querer “explicar” o Holocausto apenas pela história judaica ou ainda pelas relações entre judeus e alemães, mas de tentar compreender a patologia dos Estados modernos, de se perguntar sobre a “civilização”, essa fina camada de verniz pela qual as sociedades industriais avançadas são cobertas” 7.

Genocídio no presente e no futuro

Se a rádio e a tv lhes falaram dessas questões, é muito provável que alguns estudantes não sejam – em qualquer lugar assim como aqui – tão mal comportados quanto dizem seus professores: propostas escandalosas, comportamentos indecentes... Ainda seria preciso confrontá-los não só com os horrores do passado, mas também com as graves questões que o genocídio coloca para o presente e o futuro. O conflito de gerações não explica tudo, e a discriminação dos jovens não é melhor que a discriminação dos velhos. No entanto, como não se surpreender com a surpresa dos professores diante do comportamento de alguns alunos em relação a Auschwitz? Que reação esperar de um jovem de 15 anos colocado, às vezes sem a menor preparação, frente a frente com a barbárie? A pedagogia, assim como a comemoração, alimenta-se e se revigora com a história viva.

Só há um caminho garantido porque baseado em valores universais: abandonar a tribo, subir na crista e combater juntos contra o esquecimento e contra as violências anti-semitas e racistas

Para citar um excelente historiador que, infelizmente, se tornou panfletário durante um tempo sob pseudônimo8 , uma espécie de acne anti-semita tornaria quase impossível o ensino sobre o genocídio nazista. Essa visão simplista não resiste a uma pesquisa séria9 . É verdade que o lugar legítimo da Shoah nos programas escolares assim como na mídia contrasta com o pouco caso feito com os sofrimentos dos povos colonizados, a ponto de suscitar, às vezes, reações inaceitáveis. Em vez de responder por meio de exclusões, por que não tentar compreender os adolescentes, sejam árabes ou não?

Caminho único

O que a França fez na Argélia, de 1830 a 1962, não pode ser qualificado de genocídio e não poderia então ser colocado em pé de igualdade com a Shoah. No entanto, será que não se pode ressaltar que tanto em um caso como no outro, o que está fundamentalmente em questão é a ignóbil concepção da superioridade de uma raça sobre as outras? Será que é escandaloso afirmar que o genocídio nazista tem a ver com os jovens árabes, assim como a guerra da Argélia com os jovens judeus? É claro que não: quem vai com regularidade aos bairros e às cidades para dialogar com os jovens sente isso.

Diante dos recuos comunitaristas, das manobras de divisão e das manipulações políticas, só há um caminho, cheio de escarpas, mas garantido porque está baseado em valores universais: abandonar a tribo, subir na crista e combater juntos contra o esquecimento e contra as violências anti-semitas e racistas. Há melhor maneira de comemorar a libertação de Auschwitz? Como se, assim dizia Jacques Derrida, “o ‘isso’ de ‘nunca mais isso’” estivesse “não só perto de nós, mas diante de nós”...

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Ler, dessa autora, o excelente Auschwitz, soixante ans après, Robert Laffont, Paris, 2005, 286 páginas, 20 euros.
2 - Le Monde, 26 de janeiro de 2005.
3 - Sem esquecer a obscenidade como, em 25 de janeiro, essa grande manchete na p. 24 do Figaro: “PPDA empurra as portas de Auschwitz”.
4 - Die Zeit, Hamburgo, 3 de outubro de 1986.
5 - Ler Les historiens allemands relisent la Shoah, Complexe, Bruxelas, 2002.
6 - Cf. Hitler et le nazisme, Le Monde diplomatique, dezembro de 2000.
7 - Qu’est-ce que le nazisme ? Problèmes et perspectives d’interprétation, coll. Folio, Gallimard, Paris, 1997.
8 - Ler, de Emmanuel Brenner, Les Territoires perdus de la République, Mille et une nuits, Paris, 2002.
9 - Ler, de Benoît Falaise, Peut-on encore enseigner la Shoah ?, Le Monde diplomatique, maio de 2004.




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