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O velho Líbano resiste à mudança

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No país do Cedro, onde centenas de milhares foram às ruas recentemente pela retirada das tropas sírias, as eleições legislativas marcam a manutenção no poder dos patriarcas do Líbano confessional

Alain Gresh - (01/06/2005)

Proclama-se o nascimento de um “novo Líbano” democrático, mas nenhuma voz exprime surpresa face a uma sucessão de tipo feudal

Vindos de Saida, ao sul; da planície da Bekaa, a oeste; da região de Tripoli, ao norte; de diferentes bairros de Beirute, de associações familiares ou caritativas, da liga muçulmana sunita ou de jornalistas, as mensagens de apoio se sucedem. Todas saúdam sem restrição o recém-eleito, sua vontade de seguir o caminho aberto por seu pai, sua capacidade de guiar o Líbano para dias melhores. No mais puro estilo soviético, a televisão desfia, durante longos minutos, estes panegíricos. Uma voz em off se felicita desse apoio maciço trazido à decisão da “família” de se dar um novo chefe. Um grupo de deputados, na presença de diversos ex-ministros, jura fidelidade ao novo dirigente. Nos dias que se seguem, este é recebido durante mais de uma hora pelo presidente Jacques Chirac, e depois acolhido pelo presidente George W. Bush em seu rancho, na presença do príncipe herdeiro Abdallah da Arábia Saudita.

Mas quem é esse salvador supremo? Um homem quase desconhecido, apresentado pelo jornal francófono L’Orient-Le Jour como “um especialista em telecomunicações”, cuja biografia cabe em poucas linhas. Aos 35 anos, Saad Hariri, o filho mais novo do primeiro-ministro assassinado em 14 de fevereiro de 2005, é diplomado pela universidade de Georgetown, em Washington. Foi diretor geral da Saudi Oger, uma companhia que tem faturamento de 2 bilhões de dólares, que emprega 35 mil assalariados. Mulçumano sunita, é ligado à família reinante na Arábia Saudita, especialmente ao príncipe Abdelaziz Ben Fahd, filho do rei e poderoso ministro de Estado. Suas qualificações políticas? Ninguém as exige.

Ele não foi designado para o seu posto por um partido ou organização. Foi a “família” – um termo no qual ninguém aqui percebe conotação pejorativa – que, por um comunicado, participou sua decisão ao bondoso povo. Esta decisão baseia-se em dois pontos. Primeiro, Dona Nazek Hariri, a viúva do primeiro ministro Rafic Hariri, assumirá “a supervisão e a gestão de todas as associações beneficentes e sociais que o mártir do Líbano patrocinava”; por outro lado, seu filho Saad “assumirá a responsabilidade e a liderança histórica de todas as questões nacionais e políticas, a fim de continuar o caminho da reconstrução nacional em todos os níveis”. No momento em que se proclama o nascimento de um “novo Líbano” democrático, nenhuma voz se eleva para exprimir ao menos uma certa surpresa face a essa sucessão de tipo feudal. Nem para se interrogar sobre o escanteio da irmã do primeiro-ministro morto, Bahia Hariri, apesar de deputada e de ter desempenhado um papel de primeiro plano nas mobilizações que sucederam o assassinato de seu irmão.

Mobilização popular intensa

O assassinato de Rafic Hariri, atribuído pela maior parte dos meios de comunicação aos serviços secretos sírios, deflagra intensa mobilização popular

Mas Saad Hariri tranqüilizou os jornalistas que o glorificam: “Nada vai mudar, tudo o que meu pai fazia, eu continuarei; e nós continuamos seu caminho no que concerne as organizações de informação e as caritativas1». Esta observação fez muitos sorrirem, em um país onde todos os meios de comunicação significativos e a maior parte dos jornalistas influentes receberam generosos subsídios de Rafic Hariri... Estranho paradoxo: em um país onde estavam estacionados 20 mil soldados sírios, os meios de comunicação dispunham de uma liberdade desconhecida no resto do mundo árabe – especialmente nos países que “apadrinham” a transição democrática no Líbano: o Egito e a Arábia Saudita. Duas proibições, contudo, continuavam fortes: o papel dos serviços secretos sírios e libaneses; o lugar de Rafic Hariri, de sua fortuna e de sua responsabilidade nos problemas econômicos e sociais, particularmente a insondável dívida do país. Apenas o primeiro desses tabus foi agora levantado...

Todos proclamam em alto e bom som: o Líbano virou definitivamente a página de suas divisões. Em poucos meses, os acontecimentos se aceleraram a tal ponto que ainda não se percebe bem o que aconteceu. A decisão do presidente Bachar El-Assad, no fim de agosto de 2004, de prolongar por dois anos o mandato de seu principal aliado no Líbano, o presidente Émile Lahoud, serviu de acelerador. O diktat surpreendeu até os aliados mais próximos de Damasco, que só foram informados na última hora. Em 1994, uma medida semelhante tinha permitido ao presidente precedente, Elias Hraui, reinar mais três anos sem provocar hostilidade forte, nem interna nem internacional. Mas o contexto regional e internacional mudou. A França e os Estados Unidos decidem não deixar passar; e em 2 de setembro de 2004 o Conselho de Segurança da ONU vota – pela maioria mínima exigida (nove votos em quinze) – a resolução 1559, que impõe às tropas sírias deixar o Líbano e que chama ao desarmamento das milícias (subentende-se o Hezbollah e os grupos armados palestinos).

Lembremos que depois de alguma hesitação o primeiro-ministro Rafic Hariri demitiu-se para expressar sua oposição à política de Damasco. Seu assassinato em 14 de fevereiro de 2005, imediatamente atribuído pela maior parte dos meios de comunicação aos serviços secretos sírios, deflagra uma intensa mobilização popular em torno de três palavras de ordem: al-Haqiqa, isto é, a verdade (sobre o assassinato); a demissão dos chefes dos serviços secretos libaneses ; a partida das tropas sírias. A mobilização culmina, em 14 de março de 2005, numa imensa manifestação em Beirute, que faz sair à rua centenas de milhares de libaneses. A reconciliação de todas as comunidades, maronita e sunita, xiita e druza, estará a caminho?

Um só culpado

Não há dúvida de que a maioria da população estava farta da presença das tropas sírias e da multiplicação das ingerências de Damasco

Esta imagem de uma “revolução do Cedro”, análoga à “revolução laranja” na Ucrânia ou à das rosas na Geórgia, foi amplamente propagada pelos meios de comunicação nacionais e internacionais. Mas, como sempre, tende a apagar a história específica do país, a só compreendê-la a partir de um esquema de leitura simplista: a luta entre o Bem e o Mal, entre a democracia e o totalitarismo. Não há dúvida de que a maioria da população estava farta da presença das tropas sírias e da multiplicação das ingerências de Damasco. Os erros sucessivos cometidos pela direção síria, reconhecidos pelo presidente Bachar El-Assad em seu discurso de 5 de março anunciando a retirada de suas tropas, e o peso dos serviços de segurança na vida interna agravaram o mal-estar e a hostilidade – apesar do papel desempenhado pela Síria para pôr fim à guerra civil ou para ajudar a resistência à ocupação israelense do sul do Líbano.

No entanto, o observador não pode deixar de impressionar-se com esse fato: os mesmos dirigentes responsáveis pela guerra civil, dos quais a maior parte colaborou com a Síria antes de virar a casaca, mantêm-se no topo da cena. Nenhuma figura política nova apareceu nestes últimos meses – e Gemayel, Jumblatt, Hariri, Frangié, Chamum etc. continuam a dominar o jogo. Nenhum deles apresenta a mínima proposta para reformar um sistema político baseado no confessionalismo, clanismo e corrupção. Seu único slogan – “Os sírios são os responsáveis por todos os males do Líbano” – se alimenta dos rumores mais loucos (800 mil famílias sírias estariam usando a rede elétrica libanesa sem nunca pagar pelo que consomem). E a corrupção? “Nós a atribuímos unicamente aos sírios”, confia um economista, “do mesmo modo como jogamos todas as nossas desgraças sobre os palestinos em 1983. E pronto, ninguém se pergunta sobre o dinheiro roubado pelos dirigentes libaneses. Como a dívida acumulada pôde aumentar, entre 1992 e 1998, durante o primeiro governo de Hariri, de 3 para 18 bilhões dólares?”

O Líbano está organizado em uma base confessional, um sistema que remonta a depois da I Guerra Mundial, quando a França recebeu da Sociedade das Nações, em 1920, um mandato para dirigir o país. Entre as 17 confissões reconhecidas, as principais comunidades são, do lado cristão, os maronitas (católicos), os gregos ortodoxos e os gregos católicos; do lado muçulmano, os sunitas e xiitas, aos quais é preciso juntar os druzos. A Constituição imposta por Paris em 1926 especifica, em seu artigo 95: “A título transitório e com uma intenção de justiça e de concórdia, as comunidades serão representadas equitativamente nos empregos públicos e na composição dos ministérios”. Na realidade, esse sistema, confirmado por ocasião da independência, em 1943, garantiu a dominação política da comunidade maronita. Por um acordo não-escrito, o presidente da República é maronita, o primeiro-ministro muçulmano sunita e o presidente do Congresso, xiita. A divisão das cadeiras de deputados faz-se numa base equivalente: 60% para as diferentes comunidades cristãs, 40% para os muçulmanos.

Reformas suspensas

A longa e brutal guerra civil, que tinha por objetivo essencial acabar com o confessionalismo político, chegou ao resultado inverso

Os acordos de Taef modificam esta proporção colocando em igualdade cristãos e muçulmanos, estes últimos representando já uma maioria demográfica estimada em mais de 60%. Assinados em 1989, esses acordos põem fim, sob a égide síria, à guerra civil, que assolou o país a partir de 13 de abril de 1975 e fez dezenas de milhares de vítimas. Os acordos estipulam especificamente que “a abolição do confessionalismo político é um objetivo nacional essencial que exige, para sua realização, uma ação programada por etapas”. Será preciso, depois da eleição do novo Parlamento, “constituir uma instância nacional sob a presidência do Chefe de Estado composta, além dos presidentes do Parlamento e do Conselho de Ministros, de personalidades políticas, intelectuais e sociais. A tarefa desta instância é estudar e propor os meios capazes de abolir o confessionalismo e submetê-los à apreciação do Parlamento e do Conselho de Ministros e supervisionar a execução do período transitório”. Também é dada uma indicação de soluções, já que é proposto que “depois de estabelecido o primeiro Parlamento Nacional não confessional, será criado um Senado, no qual serão representadas as diferentes famílias religiosas, cujos poderes serão limitados às questões primordiais”.

Novas eleições legislativas acontecem em 1992 e Rafic Hariri torna-se primeiro-ministro, mas as reformas políticas são suspensas. A longa e brutal guerra civil, que tinha por objetivo essencial acabar com o confessionalismo político, chegou ao resultado inverso: a barbárie do conflito forçou cada indivíduo a procurar refúgio entre os seus2. As filiações clânicas ou religiosas protegiam melhor que as ideológicas. Além disso, a anistia dada depois de 1989 aos dirigentes das milícias não permitiu à sociedade de retornar à sua história, fazendo crer que a guerra do Líbano tinha sido “a guerra dos outros” – a guerra dos palestinos, dos israelenses ou dos sírios.

O sistema político fechou-se num confessionalismo ainda mais restrito que antes de 1975, inclusive para muitos jovens. “Não nos misturamos”, reconhece Ahmed, estudante da Universidade Americana, uma instituição, todavia, reconhecida por seu caráter multiconfessional. Os amigos se agrupam entre pessoas da mesma fé. “E, apesar de termos nos mobilizado juntos depois do assassinato de Rafic Hariri, a desconfiança tende a crescer: cada um se pergunta, em silêncio, sobre o que o outro pensa, o que quer...” Nenhuma das medidas sugeridas pelos acordos de Taef foi posta em prática – exceto a supressão da religião nas carteiras de identidade.

Clanismo e nepotismo

Enquanto os partidos multiconfessionais de esquerda se enfraquecem, a maior parte das outras formações se organiza em base confessional

Enquanto os partidos multiconfessionais de esquerda (Partido Comunista, Organização da Ação Comunista etc.) se enfraquecem, a maior parte das outras formações se organiza mais que nunca em uma base confessional: Amal e Hezbollah “representam” os xiitas; os sunitas, privados de líder nacional, agruparam-se em torno de Rafic Hariri; o Partido Socialista de Walid Jumblatt só tem de socialista o nome, caracterizado antes de tudo pela religião druza de seus membros. Quanto aos maronitas, “uniram-se” desde 2000 em um grupo dito de Kornet Chahuan, que agrupa as Forças Libanesas de extrema-direita, a Corrente Patriótica do general Michel Aum (que voltou ao país no começo de maio, depois de um exílio de quase quinze anos), o ex-presidente da República Amim Gemayel, o Partido Nacional da família Chamum e alguns independentes detentores de mandatos.

Nesse sistema, os filhos sucedem os pais e as relações clânicas contam mais que as solidariedades políticas. Marginalizados e divididos desde os acordos de Taef, os dirigentes tradicionais maronitas viram seu papel eclipsado pelo patriarca Nasrallah Butros Sfeir. O patriarca é recebido em Washington e Paris como representante da “comunidade maronita”. Ele faz parte de todas as negociações em andamento e dá sua opinião a respeito de tudo, inclusive a lei que organiza as eleições. Com o conselho dos bispos maronitas, ele condena a eleição, pois os cristãos “elegerão somente 14 de seus deputados, enquanto que os outros 50 serão eleitos pelos muçulmanos graças ao sistema de chapas3”. Assim, para o monsenhor Nasrallah, o novo Líbano deveria sem dúvida criar colégios eleitorais separados, maronitas votando em maronitas, druzos em druzos etc. Alguém falou em democracia?

Símbolo da “revolução do Cedro” que agitou o país no começo do ano, a praça dos Mártires serviu de ponto de encontro para os que se mobilizavam em favor da partida das tropas sírias. Ergue-se uma aldeia de tendas, o “acampamento da liberdade”, como o que aconteceu em Kiev ou em Tbilissi. Mas quando a retirada do exército sírio acaba, em 26 de abril, o lugar não atrai mais muita gente. Hoje, no entanto, algumas centenas de jovens, a maior parte estudantes, abandonaram a bandeira libanesa pela bandeira das Forças Libanesas (FL), e pedem a libertação do “mártir da liberdade”, Samir Geagea, que um deputado americano não hesitou em comparar a Nelson Mandela4. Ao mesmo tempo, nas cidades e aldeias maronitas, são realizadas cerimônias para exigir a soltura do ex-chefe das FL, na prisão há onze anos. Dezenas de milhares de círios são acesos pelo “mártir”. Dez mil manifestantes sobem de Beirute e seus arredores rumo a Bkerké, na montanha, a sede do patriarca maronita, no nordeste de Beirute. Uma missa dita pelo vigário patriarcal geral da Igreja maronita, Monsenhor Roland Abujaudé, encerra esta mobilização.

Histórico de crimes

Geagea não é um criminoso como outro qualquer: encorajou, tal qual seu chefe Gemayel, as tropas israelenses a invadir o país em 1982

Sabe-se ao menos quem é Geagea? Algumas poucas linhas num jornal em língua inglesa5 para lembrar que ele é responsável pelo assassinato do primeiro-ministro Omar Karamé e de vários de seus rivais no campo cristão, particularmente Dany Chamum, filho do ex-presidente Camille Chamum, e também de Tony Frangié (filho do ex-presidente Soleiman Frangié), de sua mulher e sua filhinha de 3 anos. A lei de anistia de 1991 excluía os criminosos de guerra cujos casos estivessem em instrução. Geagea foi o único nessa situação e as FL insistem nessa “injustiça”. Vários outros criminosos não estão também em liberdade ? Se o Tribunal Internacional Penal existisse naquele momento, não há dúvida de que muitos políticos da atualidade, tanto da oposição como os chamados legalistas (fiéis à Síria), teriam sido levados ao tribunal de Haia.

Mas o país prefere esquecer sua história – a tentativa de elaborar um manual comum de história para o ensino foi recentemente abandonada – tanto as visões do passado, especialmente da guerra civil (1975-1989), divergem. “Não conhecemos esta história que não está no programa”, admite o estudante Karim. “Cada um aprende a versão dada por sua comunidade e evitamos falar entre nós”. Nenhuma reconciliação sobre esse assunto foi iniciada. No entanto, Geagea não é apenas um criminoso como outro qualquer. Ele encorajou, igual ao seu chefe Bechir Gemayel, as tropas israelenses a invadir o país em 1982, sob a direção do general Ariel Sharon, então ministro da Defesa. Durante o início do cerco de Beirute-Oeste pelo Tsahal, Bechir Gemayel explicava aos israelenses a ajuda que ele lhes estava dando: “Começamos por cortar a água e a eletricidade. Estamos prontos a ir muito mais longe, mesmo militarmente, se for preciso. Se a batalha de Beirute só puder ser feita conosco, combaterei ao lado de vocês. Mas poderei fornecer uma ajuda mais completa quando o poder estiver em nossas mãos6”.

Bechir Gemayel será efetivamente eleito presidente a 23 de agosto de 1983, à sombra dos tanques israelenses, antes de ser assassinado em 14 de setembro. Seu irmão Amim o sucederá, eleito nas mesmas condições. Na época, a “comunidade internacional” não se preocupa muito com o fato de estas duas eleições ocorrerem sob a vigilância dos tanques israelenses. Enquanto isso, de 16 a 18 de setembro ocorrem os massacres de Sabra e Chatila: muitos milhares de palestinos, mulheres, crianças, velhos, são massacrados em condições atrozes. Operados sob a proteção do exército israelense, esses crimes contra a humanidade foram perpetrados sob a direção de dois responsáveis pelas Forças Libanesas, Elie Hobeika, assassinado em condições misteriosas a 24 de janeiro de 20027 e Geagea. É de admirar que sua libertação cause arrepios nos campos palestinos? “O exército libanês é incapaz de proteger os trabalhadores sírios vítimas de exações nestas últimas semanas”, explica Marwan Abdallah, um dos responsáveis pelo campo Mar Elias, situado na própria Beirute. “Como seria capaz de nos defender a nós?”

Reconciliação distante

Longe de estar reconciliadas, as comunidades confessionais se observam com desconfiança

Desde 14 de fevereiro, de fato, os ataques contra os trabalhadores sírios – são centenas de milhares garantindo os trabalhos menos bem pagos, na construção ou na agricultura – se multiplicaram, muitos deles foram mortos, provocando um êxodo que paralisou diversos setores econômicos. A Anistia Internacional lançou um apelo ao governo, para que puna os culpados8.

Se o medo dos palestinos é sensível, a alegria de uma maioria de libaneses por se livrar da Síria e obter a criação de uma comissão de inquérito sobre as circunstâncias do assassinato de Rafic Hariri não esconde bem as preocupações com o futuro. Longe de estar reconciliadas, as comunidades se observam com desconfiança. A ausência de projeto claro para a reforma do país caracterizou as grandes mobilizações e as divisões em relação à lei eleitoral o confirmam, cada um tendendo a preservar os interesses da “sua” comunidade. As propostas de introduzir uma dose de proporcionalidade para “abrir” o sistema foram rejeitadas por todas as forças – com exceção de Amal e do Hezbollah.

Joseph Samaha, do cotidiano Al-Safir, é um dos raros editorialistas que não afundou numa visão idílica. “Nós não assistimos à emergência de um sentido novo de unidade nacional, mas antes a iniciativas paralelas das diferentes comunidades que criaram a ilusão óptica da unidade”. Assim, o que fez os sunitas descerem maciçamente à rua no dia 14 de março foi tanto a vontade de conhecer a verdade sobre o assassinato de Rafic Hariri quanto o medo suscitado pela grande manifestação xiita do Hezbollah de 7 de março. Esta manifestação reuniu várias centenas de milhares de pessoas, entre as quais muitos deserdados dos bairros do sul da capital que se “apoderaram” de um centro da cidade reservado à burguesia sunita ou cristã.

Equilíbrio confessional

O horizonte não é a cidadania, mas um sistema baseado no equilíbrio confessional, e as comunidades mais numerosas reclamam uma parte maior do poder

Num táxi coletivo, o motorista e outro passageiro cantam louvores à França, mas me avisam: “Não vá aos bairros xiitas, eles podem cortar seu pescoço se souberem que o senhor é francês ou americano. Os xiitas não são muçulmanos. Por um dólar o senhor pode comprá-los...” Alguns dias antes, o Hezbollah tinha feito uma batida discreta na sede de uma associação de caridade xiita para destruir os panfletos incendiários que ela distribuía, e que acusavam os sunitas de todos os males. O fosso entre sunitas e xiitas é mais profundo do que nunca e as imagens de mesquitas xiitas vítimas de atentados no Iraque aprofundaram as fraturas. A política americana naquele país, baseada nas divisões étnico-religiosas (xiitas, sunitas, curdos etc.), aviva no Líbano os medos de um “complô” visando dividir a região: “O Líbano confessional representa o ideal que os Estados Unidos querem aplicar a toda a região para dividi-la e enfraquecê-la”, preocupa-se um intelectual.

Uma pesquisa ilustra as linhas de quebra que separam as comunidades9. Uma das questões importantes para o futuro é a do desarmamento do Hezbollah. Enquanto os maronitas são quase unânimes em aprovar este pedido, 31% dos sunitas e 79% dos xiitas se opõem a isso. Os primeiros admitem o engajamento americano e francês nas questões libanesas, mas a grande maioria dos sunitas e xiitas o rejeita.

Paradoxalmente, explica Joseph Samaha, os maronitas poderiam ser os grandes prejudicados com a nova ordem: “Os cristãos se alegraram em ver a bandeira libanesa erguida por todos durante as manifestações. Mas os que desfraldaram estas bandeiras vão querer sua parte do poder. E quando o horizonte da ação não é a cidadania, mas um sistema baseado no equilíbrio confessional, é normal que as comunidades mais numerosas, particularmente xiita e sunita, reclamem uma parte maior do poder. O fim das lutas religiosas ainda está longe”.

(Trad.: Betty Almeida)

1 - Al-Hayat, Beirute, 22 de abril de 2005.
2 - Para uma história do conflito, ler Elizabeh Picard, Liban, Etat de discorde, Flammarion, 1988.
3 - The Daily Star, Beirute, 12 de maio de 2005.
4 - An-Nahar, Beyrouth, 22 de abril de 2005.
5 - The Daily Star, 21 de abril de 2005.
6 - Citado por Alain Ménargues, Les Secrets de la guerre du Liban, Albin Michel, 2004, p. 305.
7 - Ele se preparava para testemunhar perante uma corte belga sobre os massacres de Sabra e Chatila e sobre o papel desempenhado por Ariel Sharon.
8 - Ler a declaração da Anistia Internacional, de 21 de abril de 2005, “Lebanon : Stop attacks on Syrians workers and bring perpetrators to justice”.
9 - The Daily Star, 21 de abril de 2005.




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