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URSS

Revisitando a Perestroika

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Vinte anos depois da ’glasnost’, que propagava valores “alternativos”, socialistas, humanistas, ecológicos, só sobreviveu o valor comercial

Jean-Marie Chauvier - (01/06/2005)

“Está tudo podre. É preciso mudar tudo.” (De Eduard Chevarnadze para Mikhail Gorbatchev, numa noite do inverno de 1984 em Pitsounda, balneário da Geórgia)

A sociedade troglodita cavava, há muito tempo, suas galerias sob o cimento do aparente monolito. Não há “hora da verdade” dos anos glasnost que não tenha amadurecido, aflorado desde “a véspera” da grande virada. Ao contrário do teatro de terror encenado por nossos meios de comunicação, a URSS do pós-Stalin se transformara em profundidade: o poder, o sistema, a sociedade, a cultura, as mentalidades. Invisíveis nos esquemas clichês de leitura, cegueira anticomunista, os sinais precursores da mudança se haviam acumulado: reestruturações oficiais e subterrâneas, comportamentos demográficos e sociais, renascimento de sentimentos nacionais e religiosos, pluralismo real dos interesses e das opiniões públicas, da literatura, do cinema, das músicas, dos movimentos informais da juventude1.

Uma visão retrospectiva “politicamente correta” da perestroika faz dela uma sala de espera, cheia de poetas divertidos, antes do embarque para o Mercado salvador

Na primavera de 1985, “o impensável” aconteceu: o Kremlin mudou de rumo. Do alto do “torreão” da fortaleza vermelha surge Mikhail Gorbatchev, o homem cuja obra mudará a face do mundo. O regime brejneviano se afundava desde 1968 no conservadorismo, na corrupção, no aventureirismo militar no Afeganistão e... na gerontocracia. Desde fevereiro de 1982, o alerta para a crise havia sido dado nas altas esferas2. Na época, relata Nikolai Rijkov, futuro primeiro-ministro de Gorbatchev, “a atmosfera no país era irrespirável, mais que isso, era a morte. [...] Em 1982, pela primeira vez depois da guerra, a renda real da população parou de crescer. Tudo estava bloqueado: o nível de vida, a construção de moradias, de lojas, de jardins de infância, de escolas [...]. O pior era o clima moral3.”

Ao suceder Leonid Brejnev em novembro de 1982, Iuri Andropov, que viera da presidência da KGB, teve uma aguda consciência da degradação e empreendeu as primeiras reformas. Sua morte prematura impôs ainda um ano de espera, sob o regime do brejneviano Constantin Tchernenko. Na própria noite de seu falecimento, em 11 de março de 1985, foi sem uma contestação real que se confiou o secretariado geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) a Mikhail Gorbatchev 4. Seus principais “cúmplices” no bureau político seriam Eduard Chevardnadze, novo ministro das Relações Exteriores, e o ideólogo Alexander Iakovlev.

O "renovador"

Na década de 80, o nível de consumo dos soviéticos, de equipamentos eletrodomésticos, a vida familiar e o lazer estavam longe do modelo frugal do pós-guerra

No decorrer do ano anterior, Gorbatchev havia preparado minuciosamente sua imagem de “renovador” por meio de apelos a uma “reformulação de toda a vida econômica, social, cultural”. Em Londres, pronunciara, diante de Margaret Thatcher, um “credo” raro para um dirigente soviético: “A Europa é nossa casa comum. Casa, e não teatro de operações militares”. Em Roma, assistiu comovido à homenagem do povo italiano ao defunto dirigente eurocomunista Enrico Berlinguer: um “outro comunismo” seria “real” então?

O sinal verde para a “reforma radical” seria dado na plenária do Comitê Central, em abril de 1985 e, depois, no XXVII Congresso, em fevereiro de 1986. Na realidade, foi a opção da cúpula da nomenklatura5” por uma renovação cautelosa. As cabeças pensantes – os mejdunarodniki (internacionais) do Comitê Central e da diplomacia, os economistas dos centros científicos da Sibéria e de Moscou – manejavam discretamente idéias mais audaciosas. Preparam muito mais que uma “reforminha”.

Na frente do palco, acotovelam-se escritores, cineastas, poetas, cantores e jornalistas. Eles abrem as comportas das “verdades amargas”. Tabus e proibições vão pelos ares, revisões dilacerantes se juntam às esperanças por um mundo mais justo. É nesse clima eletrizante, doloroso e romântico que se precipita a glasnost. As centenas de dissidentes ainda presos são libertados. “Um povo reencontra a dignidade”, diria Gorbatchev. Tal foi o começo, até o ano de 1988. As iniciativas sociais autônomas iriam eclodir – e desapareceriam após 1991.

Viveiro de oligarcas

A era Brejnev, por outro lado, “ocidentalizou” o modo de vida: residências privadas, corrida ao consumo, erosão das tradições comunitárias camponesas ou coletivistas

Os “anos da glasnost” propagam então valores “alternativos”, socialistas, humanistas, ecológicos. Dessas “cem flores” só iria sobreviver o que tinha valor comercial. Uns guardarão delas um último sopro de utopias antes de se enterrarem todas as ilusões e outros, o advento das liberdades. Questão de perspectiva, ou de interesse. Uma visão retrospectiva “politicamente correta” da perestroika faz dela uma sala de espera, cheia de poetas divertidos, antes do embarque para o Mercado salvador.

No período 1985-1987, os autores da prosa do futuro avançam disfarçados. Eram os “comerciais” do Komsomol, das empresas que se tornaram autônomas, das “cooperativas” privadas, das joint-ventures, das redes mafiosas. Trata-se do viveiro dos futuros oligarcas do capital financeiro, que logo tomariam posição em Chipre, em Gibraltar, na Suíça.

Há os atores externos. O presidente norte-americano Ronald Reagan lança sua Iniciativa de Defesa Estratégica (IDS) diante do “império do Mal”. Ele jurou que “poria de joelhos” a potência soviética. Departamento de Estado, CIA, Congresso norte-americano, rádios Free Europe e Svoboda e múltiplas fundações se entregam à luta contra o comunismo. Foi em 1983 que se criou o Endowment for Democracy, um dos órgãos coordenadores das recentes “revoluções” na Geórgia, na Ucrânia, no Quirguistão etc. Um apoio moral e financeiro foi dado aos dissidentes do Leste, ao movimento polonês Solidariedade, à resistência afegã e a suas redes “islamistas”, segundo a estratégia precavida de Zbigniew Brzezinski. Sem esquecer o papel histórico do papa João Paulo II. A Assembléia Mundial contra o Comunismo (WACL), a Liga das Nações “Antibolchevistas” (onde eram muito atuantes os emigrantes nacionalistas bálticos e ucranianos), a seita Moon e outras minorias da direita autoritária também fizeram parte da “frente”.

O demônio soviético

Seria entre os novos comerciantes, os intelectuais midiáticos e a nomenklatura modernista que o liberalismo iria encontrar sua base social

Os meios de comunicação ocidentais também foram mobilizados na guerra fria que tornava mais intensa a batalha dos euromísseis. Nela, a URSS era transformada em demônio: sistema “orweliano”, “maior potência de todos os tempos”, prestes a engolir o planeta, uma sociedade e uma cultura “totalitárias” onde não é concebível mudança alguma. O mito do “reformista” Gorbatchev só podia ser, portanto, uma invenção dos agentes de influência do KGB. Mas a “ilusão” que os jornalistas criticavam tão vigorosamente cativou de forma muito rápida assessores para reformas liberais: o economista Anders Aslund (que seria, com Jeffrey Sachs e o FMI, um dos inspiradores das reformas da era Ieltsin) estava na URSS desde 1984; o financista George Soros criava sua primeira fundação em Moscou em 1987. Faltavam dois anos para a queda do Muro...

Além das idéias e dos homens que se encontravam no local, foram as realidades materiais que tornaram imperativa a mudança. Primeiramente, as matérias-primas mostravam-se “esgotáveis”. A extração do petróleo patinava e sua cotação caía. Os preços internos na URSS estavam 20% abaixo do nível mundial. Mesmo as entregas aos países socialistas permaneciam muito abaixo da cotação internacional. Era tentador, para os detentores (principalmente russos) dessas riquezas, aumentar as exportações para os países de divisas fortes e pelos preços do mercado mundial.

Em seguida, investimentos de modernização mostraram-se indispensáveis. Ora, eles eram bloqueados pelos embargos norte-americanos – particularmente pela emenda Jackson-Vannik, vinculando as possibilidades comerciais ao direito de emigração dos judeus soviéticos – e pela recusa da URSS em se abrir ao capital estrangeiro.

A mão-de-obra tornou-se escassa. O êxodo rural (93 milhões de pessoas entre 1926 e 1979) se esgotou. O crescimento demográfico enfraqueceu nos países eslavos, ao passo que crescia em países muçulmanos, acompanhado por um fenômeno de subemprego. Os índices de natalidade não estavam sob controle. Nem, aliás, os movimentos da mão-de-obra.

O esgotamento do sistema

As reformas de 1986-1988 ofereceram aos “circuitos clandestinos” oportunidades de lavagem de dinheiro e de novas remessas, “evadidas” para paraísos off shore

O sonho do far East siberiano estava paralisado – os grandes canteiros de obras, como o novo trans-siberiano Baikal-Amour (BAM) – por falta de mão-de-obra. Do oeste para o leste e vice-versa, as migrações se anulavam. Fim do romantismo dos pioneiros. E os altos salários também já não eram motivação suficiente.

A “economia escondida”, as trocas não controladas (comerciais ou de troca direta), o roubo dos bens públicos e o trabalho não declarado desestabilizavam o sistema planificado. Esse mundo “informal” estava nas mãos de redes clânicas e criminosas que gangrenaram o Estado soviético antes de “colonizar” a Rússia de Boris Ieltsin6. Finalmente, a corrida armamentista que os Estados Unidos comandavam tornou-se financeiramente insuportável, posto que era evidente o avanço tecnológico norte-americano, como comprovou a IDS.

Em resumo, o modo extensivo de desenvolvimento estava esgotado. O sistema não controlava os comportamentos sociais. A potência estava no limite de suas forças na competição. Moscou não podia mais obstinar-se em sustentar Cuba, os movimentos comunistas e antiimperialistas.

Modernização social

O fator-chave para a reviravolta foi a metamorfose da nomenklatura que, com os novos meios de negócios ajudados pelos poderes, formaria a nova classe capitalista

No entanto, a URSS em 1985 não era, como afirmam seus detratores, “o Zaire com bomba atômica”. Era um país desenvolvido em setores primários, como o carvão, o aço, os hidrocarburetos, e em setores mais sofisticados: aeroespacial, nuclear, eletricidade, pesquisa de base, patentes em tecnologias industriais, formações escolares, acesso em massa à educação e à cultura. Aviões, foguetes, armas, mecânica pesada, agricultura, cereais, livros, filmes, centros científicos e escolas de reputação mundial em matemática, física, agronomia, cinema etc. nada têm de “ficção”.

Um sistema de eletrificação unificado atendia às necessidades de 220 milhões de habitantes (de um total de 280 milhões). Cerca de 800 cidades dispunham de aquecimento central urbano. Na década de 80, 48% da população economicamente ativa trabalhava na indústria, contra 30-35% na década de 50; uma maioria de soviéticos estava, então, “urbanizada7”. Os soviéticos da década de 80 acabavam de passar para uma sociedade de maioria urbana, embora o modo de vida rural persistisse nas pequenas cidades. A escola secundária era generalizada. O nível de consumo, de equipamentos eletrodomésticos, a vida familiar e o lazer estavam longe do modelo frugal do pós-guerra8.

Essa melhoria das condições materiais não impedia o profundo mal-estar moral de que falavam escritores, cineastas, cantores e músicos de rock. Uma seguridade social elementar, a educação gratuita, um serviço básico de saúde, a precariedade dos transportes, água e eletricidade eram assegurados aos citadinos. O mundo rural emergiu, nas décadas de 70 e 80, de decênios de subdesenvolvimento material e social e de subcidadania9. Uma elevada mobilidade social, a laicização das mentes, a paixão pela leitura, o gosto pelas artes e pela pesquisa faziam parte igualmente do balanço dessa modernização10.

Consumismo "frustrado"

Segundo críticos que seriam classificados como keynesianos, Gorbatchev teria perdido a oportunidade de uma transição gradual, controlada pelo Estado

Mas os avanços sociais e sanitários, gigantescos, patinavam. A expectativa média de vida – 34 anos em 1923 – subira para 64,6 (para os homens) e 73,3 (para as mulheres) em 1965, o que aproximava a URSS da Europa ocidental. Na seqüência, esse índice estacionaria, diminuiria e, depois, voltaria a subir em 1987 (65 e 74,6) antes de despencar na década de 90, como muitos outros indicadores de saúde pública. Queda de natalidade e alta brutal da mortalidade iriam se somar, então, para provocar uma diminuição absoluta e contínua da população11.

A era Brejnev, por outro lado, “ocidentalizou” o modo de vida: residências privadas, corrida ao consumo, erosão das tradições comunitárias camponesas ou coletivistas. Nasceu uma sociedade de consumo (frustrada), fascinada pelos sucessos do Oeste. Mas o peso específico das indústrias extrativistas e pesadas, os atrasos na agroindústria, na química, na eletrônica e na informática eram apontados como deficiências dessa economia (mal) administrada que, por outro lado, degradava o meio ambiente, como, por exemplo, os lagos industriais ocidentais das décadas de 30-50, numa total irresponsabilidade12. Outro índice de um atraso que se agravava: nas exportações, o setor de máquinas e equipamentos caiu – de 20% na década de 60 para 15,5% em 1987 – enquanto o dos combustíveis e da energia passou de 20% a 60%13.

A glasnost popularizou os diagnósticos econômicos: queda das taxas de crescimento da renda nacional e da produtividade do trabalho, diminuição do rendimento do capital investido, multiplicação dos canteiros de obras inacabadas, atrasos na mecanização complexa e na automatização, na informática – algumas dezenas de milhares de microcomputadores pessoais em 1985, contra 17 milhões nos Estados Unidos. A parte de equipamentos obsoletos aumentava e isso era apenas o começo14. E, finalmente, há os desastres ecológicos: conhecidos, como a poluição do Volga e do lago Baikal, a drenagem do mar de Aral; ou imprevisíveis e desconhecidos, como Tchernobil, em abril de 1986.

Crise do trabalho

A crise atingia a partir de então o “coração do sistema”. E ocorria “numa economia que tem, agora, a quase totalidade das marcas de uma economia industrial desenvolvida. Ela coroa um movimento de crítica do sistema stalinista, iniciado desde 1953, mas nunca levado até o fim15”.

No inventário, se insistiria na “crise do trabalho”: baixos rendimentos, absenteísmo, “licenças de saúde”, pausas para o cigarro, reuniões sindicais e outras atividades esportivas ou culturais durante o horário de trabalho, instabilidade da mão-de-obra. As causas invocadas: falta de estímulos materiais, nivelamento dos salários, superabundância de efetivos, garantia do emprego. De 131,5 milhões de trabalhadores ativos, 10 milhões eram considerados “excedentes” ao passo que se tinha falta de mão-de-obra em outros lugares – 25% de vagas não eram preenchidas. A organização científica do trabalho (OST) e o taylorismo não tiveram êxito na URSS. Nem o fordismo: ganhar mais não basta para motivar o trabalho por falta de uma oferta suficiente de produtos de grande consumo. A quantidade de mercadorias duplicou entre 1971 e 1985; a do dinheiro foi multiplicada por três. Em busca do melhor emprego, os trabalhadores não procuram somente o maior salário, mas a empresa que ofereça apartamento, creche e jardim da infância em melhores condições.

Uma história da perestroika deveria esclarecer o encadeamento de reformas e de decisões políticas que precipitaram a “solução"

Relação de forças desfavorável para os empregadores! Em 1985, eles reivindicam o direito de demitir e obtêm uma reforma, concebida em 1984, que “profissionaliza” o ensino secundário, no qual ainda predomina um tronco comum de formação geral. Desde as reformas prometidas pelo primeiro-ministro Alexus Kossyguine, em 1965, as elites tecnocráticas reivindicavam em surdina (e já esboçavam) um “capitalismo” inconfessável: lucro e rentabilidade, o assalariamento liberado do nivelamento imposto pelo Centro, verdadeiro mercado do emprego e desemprego declarado, management à moda norte-americana, advento do “patrão” proprietário, direito ao enriquecimento pessoal, à livre concorrência e à propaganda comercial, ao trabalho das crianças e dos adolescentes, fim da assistência social, abertura das fronteiras etc.

Base social do liberalismo

A sociedade passava então a ser formada por uma grande maioria de assalariados16. O fim do crescimento criou os gargalos de estrangulamento da ascensão social. O acesso aos títulos de propriedade, às fontes de fortunas em dinheiro, iria desbloquear a situação. A massa operária, enganada pelas promessas de “autogestão” ou de propriedade coletiva, seria, de fato, excluída dessa grande redistribuição dos bens sociais. A “classe média” soviética (professores, engenheiros, médicos, pesquisadores), mal remunerada mas simbolicamente beneficiada por uma ideologia socialista que privilegia os valores não mercantis da cultura, seria uma das mais prejudicadas pelo mercado. Seria entre os novos comerciantes, os intelectuais midiáticos e a nomenklatura modernista que o liberalismo iria encontrar sua base social.

As reformas de 1986-1988 liberaram a iniciativa privada nas empresas e nas cooperativas. Ofereceram aos “circuitos clandestinos” oportunidades de lavagem de dinheiro e de novas remessas, “evadidas” para paraísos off shore graças ao desmantelamento do monopólio de Estado do comércio exterior.O espaço soviético tornou-se vítima do saque das matérias-primas e da desagregação territorial. Além dos nacionalismos periféricos, as tendências separatistas eram estimuladas pela equipe de Ieltsin, adepto da dissolução da URSS. Foi essa, na verdade, a condição para realizar a ruptura irreversível em benefício das elites russas: liberação dos preços, privatizações em massa e... captação da renda petrolífera. Os bloqueios de 1985, por exemplo, foram suspensos: desigualdades estimulantes, corrida ao dinheiro e luta pela sobrevivência, eliminação das “pessoas em excesso” graças à forte mortalidade nos acidentes do trabalho e outros, emergência de uma geração “que quer isso”…

A “crise do trabalho” passou a ser tratada em uma nova relação de forças, na qual a massa operária era socialmente desclassificada e coagida à “flexibilização”. Em 2005, uma propaganda para o Business Journal de Moscou resume a nova doutrina do trabalho através de uma expressão de Henri Ford pai: “Há dois meios de fazer as pessoas trabalharem: o gosto pelo salário e o medo de perdê-lo17.”

Metamorfose da nomenklatura

Mas quem teria imaginado, desde 1985, a direção soviética já “subvertida” pelo capitalismo?

O fator-chave para a reviravolta foi a metamorfose da nomenklatura que, com os novos meios de negócios ajudados pelos poderes, formaria a nova classe capitalista. Haveria uma alternativa para o desmoronamento do sistema e para a dissolução da URSS? Historiador do campesinato, especialista nas pesquisas sobre a coletivização stalinista da década de 30, Viktor Danilov contesta a tese da fatalidade: “Não havia falência da economia, nem da sociedade, não havia o crash da URSS, pelo menos não até o outono de 1988. Foram os grupos de interesses egocêntricos que induziram o caos”. Segundo críticos que seriam classificados como keynesianos, Gorbatchev teria perdido a oportunidade de uma transição gradual, controlada pelo Estado, que lhe sugeriam até em 1988 economistas como Abel Aganbegian, Leonid Abalkine, Nikolai Petrakov. Teria demorado um longo período, de dez a quinze anos. Os mecanismos de mercado teriam sido introduzidos ao mesmo em que se salvaguardariam o Estado e as garantias sociais soviéticas. “A perestroika ainda tinha um grande prestígio, o humor das pessoas era otimista, a URSS existia. As forças democráticas levavam vantagem. Além disso, Gorbatchev tinha a possibilidade de ampliar sua base social criando um novo partido comunista reformista18.”

A “terapia de choque” de Egor Gaidar e de seus assessores Anders Aslund e Jeffrey Sachs decidiu diferentemente a respeito. Uma história da perestroika deveria esclarecer o encadeamento de reformas e de decisões políticas que precipitaram a “solução”. Sem esquecer as pressões internacionais. A dívida externa passou, de 1985 a 1989, de 28,9 para 54 bilhões de dólares. Em 1990-1991, o G7 e o FMI indicaram o caminho a ser seguido, particularmente o das privatizações, cuja legitimidade é hoje amplamente contestada. O presidente Ieltsin aceitou os empréstimos condicionais e, portanto, o de colocar sob tutela o governo russo. Começou então para valer “a transição para a democracia e para o mercado”.

O "segundo eco" da perestroika

A redistribuição das riquezas e do poder, sua dinâmica desigual e conflituosa, combinada com a desagregação da União e com a abertura dos espaços soviéticos aos apetites exteriores geraram as crises de tipo novo que se vê radicalizarem-se vinte anos após 1985. As “revoluções” na Ucrânia, no Transcáucaso e na Ásia Central aparecem como o “segundo eco” da perestroika : trata-se, ao mesmo tempo, dos prolongamentos da desagregação e do produto das situações novas, cujas tensões são habilmente exploradas pelos “propagadores de democracia” ocidentais.

Mas quem teria imaginado, desde 1985, a direção soviética já “subvertida” pelo capitalismo? Em uma nota dirigida a Gorbatchev, Iakovlev, o ideólogo chefe do PCUS, recomendava a restauração da economia de mercado, “o proprietário como sujeito das liberdades”, a gestão econômica “nas formas ligadas aos bancos”, um mercado de capitais e... o fim do monopólio do Partido, qualificado de “ordem dos cavaleiros”! Isso foi escrito em 3 de dezembro de 198519. Iakovlev recebeu o cognome de “arquiteto da perestroika ”.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Sobre as “trinta trabalhadoras” que mudaram a URSS desde a morte de Stalin em 1953, ler URSS: une société en mouvement, ed. L’Aube, la Tour d’Aigues, 1988.
2 - Artigo assinado pelo economista reformista Abel Aganbegian, Pravda, 14 de fevereiro de 1982.
3 - Ler, de Nikolai Rijkov, Perestroïka: istoriia predatel’stv, Novosti, Moscou, 1992.
4 - Mediante proposta do chefe da diplomacia, Andrei Gromyko, último “líder histórico” no local, o que bastava para fazer os rivais potenciais se calarem.
5 - As nomenklaturas (listas) de quadros dirigentes são controladas pelo Partido-Estado nos diversos níveis do poder. Freqüentemente, são confundidas com a “burocracia”, mais ampla, e não incluem a intelligentsia.
6 - Cf. Nadine Marie-Schwarzenberg, La Russie du crime, ed. PUF, Paris, 1997.
7 - Inclusive, é evidente, em povoados semi-rurais e cidades “rurais”.
8 - Ler, de Basile Kerblay, La société soviétique contemporaine, ed. Armand Colin, Paris, 1980.
9 - É nessa época que os camponeses das “fazendas coletivas” obtêm o “passaporte interno”, esse documento de identidade que permitia que os cidadãos soviéticos viajassem livremente pela URSS.
10 - Sobre a modernização da URSS, ler, de Moshe Lewin, Le siècle soviétique, ed. Le Monde Diplomatique/Fayard, Paris, 2003.
11 - Cf. A extraordinária obra de Claude Cabanne e Elena Tchistiakova, La Russie. Perspectives économiques et sociales, ed. Armand Colin, Paris, 2002.
12 - Cf. “Du communisme fictif au capitalisme réel” in Les conflits verts, ed. GRIP, Bruxelas 1992.
13 - Ler, de Abel Aganbegian, Soulever les montagnes. Pour une révolution de l’économie soviétique, ed. Laffont, Paris, 1989.
14 - Vinte anos depois, o diagnóstico se agrava: equipamentos, infra-estruturas, transporte públicos, moradias etc. envelhecem inexoravelmente.
15 - Ler, de Jacques Sapir, Les fluctuations économiques en URSS. 1941-1985, ed. EHESS, Paris, 1989.
16 - No campo, é preciso distinguir os assalariados agrícolas das fazendas estatais (sovkhozes, ou “fazendas soviéticas”) dos semi-assalariados membros das cooperativas (kolkhozes, ou “fazendas coletivas”) que vivem, ao mesmo tempo, de suas lavouras familiares, de retribuições monetárias e em gêneros, ligadas às colheitas, e de benefícios sociais (pensões).
17 - Izvestia, Moscou, 28 de dezembro de 2004.
18 - L. Ia. Kosals, R. V. Ryvkina , Sotsiologiia perekhoda k rynku v Rossii, Editorial URSS, Moscou, 1998.
19 - Alexandre Iakovlev, Gorkaïa Tchacha, Verkhne-Volzhkoie Izdatelstvo, Iaroslav, 1994.




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