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GLOBALIZAÇÕES

A grande virada de Washington e o fim liberalismo

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A globalização, considerada como a unificação da economia mundial sobre um paradigma neoliberal, parece chegar ao fim. Os sintomas de sua desintegração são múltiplos, mas seu principal agente são os Estados Unidos de Bush

Philip S.Golub - (01/07/2005)

Os teóricos liberais estimavam que estaríamos entrando em um período pós-moderno no qual o Estado-Nação seria questionado pela sociedade civil e pelos mercados

Ao findar do século XIX, a conjugação do nacionalismo e do militarismo desferiu um golpe fatal à ordem econômica internacional, dominada pela Grã-Bretanha, e colocou um fim no longo período de paz posterior a 1815 na Europa. A estruturação de um estado alemão forte e militarizado, assim como as rivalidades interimperialistas, acabaram por comprometer definitivamente a capacidade Britânica de “ocupar o centro”.

Perdendo sua força, desde os anos 1880, os paradigmas que prevaleciam em meados do século, a saber o liberalismo econômico e o livre mercado, naufragaram quando a Alemanha wilhelmiena pretende deter a hegemonia européia em 1914. A primeira fase da globalização ocidental, colocada sob os auspícios britânicos, acaba em um mar de sangue. Em sua famosa obra sobre o declínio do liberalismo, o conseqüente ascenso do fascismo e o estouro de uma nova guerra mundial, Karl Polanyi1 mostra como a cooperação capitalista transnacional, encarnada pelas redes pan-européias da “altas finanças”, a quem “cabe por sua função impedir as guerras em geral” acaba sucumbindo ante as políticas nacionais: “O poder estava a frente do lucro. Por mais profunda que fosse as relações entre as regiões, era definitivamente a guerra que estabelecia sua lei para o comércio”. Apesar do nível avançado de integração econômica européia na segunda metade do século XIX , o tecido da interdependência capitalista foi pulverizado pela onda do nacionalismo.

Provocada pelos estragos de um “mercado se auto-ajustando”, esta onda culmina no fascismo. Enquanto fenômeno geral, o fascismo, que esmagou o liberalismo e o socialismo, foi uma “solução” mortal e patológica “ao impasse no qual se encontrava o capitalismo liberal”, uma reforma “da economia de mercado realizada a custo da destruição de todas as instituições democráticas”. A sociedade, segundo Polanyi, “criou meios de se proteger” do “mercado se auto-ajustando”, instituição que “não podia existir de maneira permanente sem destruir a substância humana e natural da sociedade”. Optou-se, então, por estados militarizados fortes e pela unificação da sociedade por detrás do Estado. Certamente, a história não é um eterno retorno dos mesmos fenômenos, entretanto a hipótese de Polanyi fornece um instrumento útil para analisar as graves crises de nossa época.

A desintegração da globalização

Ao contrário de Londres, que perde o controle que exercia, Washington escolhe desconstruir o sistema global, embora tenha contribuído para a sua construção

A globalização do fim do século XX, considerada como a unificação da economia mundial sobre um paradigma neoliberal, parece chegar ao fim. Os sintomas de sua desintegração são múltiplos, quer se tratem de guerras imperialistas, conflitos comerciais cada vez mais graves dentro e fora do núcleo capitalista, ou turbulências sociais que eclodem no mundo todo. Isto se dá em um contexto de desequilíbrios estruturais da economia mundial e do aprofundamento das desigualdades socias, tanto no interior dos países quanto entre eles 2 . Estas tendências à desintegração provocaram duas grandes reações. No nível social, a resistência se fortalece. Ela se traduz pela aparição de um movimento democrático mundial de transformação social, e também pelo aumento de populismos autoritários de direita. No nível do poder de Estado, a reação mais gritante foi a espetacular renovação do nacionalismo na China, Rússia, Japão, Europa3 e em outras regiões. Nos Estados Unidos, coração do sistema capitalista mundial, o nacionalismo assumiu uma forma particularmente exacerbada: o imperialismo.

Esta re-nacionalização da política mundial marca o fim do interlúdio liberal do pós-Guerra Fria. Muitos pensaram, no final dos anos 80 e nos anos 90, que o aparecimento de uma “aldeia global” (a revolução da informática permitiu comprimir o tempo e o espaço), a transnacionalização do capital e a criação de redes de produção planetárias permitiriam uma redistribuição do poder dos atores públicos para os privados, e “o desaparecimento progressivo do Estado territorial moderno como lugar principal do poder mundial” 4 . Os teóricos liberais democráticos estimaram que estaríamos, a partir de então, entrando em um período pós-moderno no qual o Estado-Nação seria duplamente questionado: por baixo, por uma sociedade civil fortalecida por um novo poder e, por cima, pelos mercados globalizados e autônomos.

As teorias pós-modernas

A composição e a política da administração de Clinton refletiam, pelo menos em parte, os interesses dessa classe cosmopolita, reduzida mas influente

O período pós-moderno transformaria igualmente a gramática da política mundial: posto que a interdependência criada pelos mercados mundiais e os atores transnacionais contêm os impulsos beligerantes do Estado-Nação Moderno, o « poder baseado na persuasão” (soft power) suplantaria o “poder baseado na força” (hard power). A opinião liberal democrática reuniria tanto os institucionalistas preconizando uma cooperação entre Estados reforçada como os pacifistas comerciais que atribuem ao reforço da interdependência e da convergência econômica o fundamento de uma paz democrática durável. O filósofo Jurgen Habernas, em uma perspectiva social democrática, acreditava que se assistia o aparecimento de uma constelação favorável das forças capaz de realizar finalmente o projeto, originário do período das Luzes (Aufklãrung), de uma paz kantiana fundamentada em uma “concepção cosmopolita do direito” transcendendo o Direito Internacional5 .

Mais à esquerda, os teóricos neomarxistas refletindo sobre a transnacionalização do capital, sobre a reconfiguração do Estado e as novas formas de governo mundial, colocaram a questão de saber se o imperialismo representava ainda uma categoria de análise útil. Alguns intelectuais, inspirando-se na tese de Karl Kautsky sobre o «ultra – imperialismo » (1914) segundo a qual a cooperação capitalista pode transcender as rivalidades inter- imperialistas provocadas pelas tendências monopolistas do Estado-Nação e dos cartéis nacionais, um certo número de intelectuais avaliavam, nos anos 90, que o capitalismo tardio tinha inaugurado uma era pós- imperialista6 . Nele eles viam os sinais da formação de uma classe capitalista transnacional, conscientes que seus interesses transcendiam o limite territorial nacional. O imperialismo clássico, ou a rivalidade pelo monopólio entre os Estados-Nação expansionistas, não eram mais uma opção no sistema capitalista interdependente governado por instituições supra-estatais que refletiam os interesses comuns da nova classe.

No fim do decênio, Tony Negri e Michael Hardt difundiram amplamente uma versão ligeiramente modificada desta hipótese ao formular, em sua obra Império, o postulado meta-histórico segundo o qual o império contemporâneo não é um frágil eco dos imperialismos modernos e sim uma nova forma fundamental de dominação7 . O império, segundo eles, tinha cortado o cordão umbilical que o ligava ao Estado-Nação e não era mais delimitado por um território: desprovido de centro político, o novo império global torna-se a expressão de um conjunto geométrico de relações de poder e de dominação criados pelos mercados globalizados em todos níveis da vida social. Em contraste com os sistemas de dominação verticais e concentrados dos antigos impérios, o poder, na nova configuração globalizada, é difuso, descentralizado e horizontal. Este fenômeno, por sua vez, conduz a novas formas transnacionais de resistência por parte das redes descentralizadas: as multidões. O império definido desta forma torna-se um reinado mundial sem limites e sem nome.

A força perturbadora

A elite de direita atualmente no poder representa o complexo militar–industrial, isto é, o setor menos autônomo e mais nacionalista da economia política americana

De distintas maneiras, portanto, estas perspectivas sugerem todas uma mudança de época, a passagem de estratégias de maximilização do poder do Estado-Nação moderno tem uma configuração pós-nacional, pós-moderna e da globalidade. Entretanto, no mesmo momento em que estas idéias eram formuladas, forças poderosas corroíam secretamente as frágeis fundações da ordem mundial capitalista liberal. Estas forças são, a partir de então, claramente visíveis.

A principal força perturbadora veio dos Estados Unidos que, sob a presidência de George W. Bush, se esforça em adquirir um monopólio mundial. Aí há uma certa ironia posto que os Estados Unidos foram o motor e o principal beneficiário da integração capitalista e da economia de mercado globalizado nos anos 90. A globalização reforçou a autonomia americana pois “a crescente mobilidade da informação, das finanças bem como dos bens de serviço liberou o governo americano de seus constrangimentos impondo, ao mesmo tempo, maiores constrangimentos a todos os outros países”. 8

Entretanto, a afirmação de um « nacionalismo (americano) robusto”, como Samuel Huntigton – propagandista do “choque das civilizações” - chama o novo ethos dos Estados Unidos, transformou profundamente a trajetória dos negócios mundiais: a globalização liberal e interdependente capitalista foi suplantada por uma política de poder imperial se afirmando como tal. Como Londres tinha sido, no século XIX, o centro da expansão de uma economia de mercado mantida por uma ordem política e reforçada por redes transacionais, tendo interesse que a paz reine na Europa9 , o prosseguimento da globalização no século XXI requer da parte dos Estados Unidos que eles continuem a apoiar tanto um sistema de cooperação institucional entre Estados e regimes liberais de governo da economia mundial.

Facções dirigentes díspares

O bloco de forças ligado a Bush tinha intenção de se liberar de uma “comunidade internacional ilusória” e derrubar o paradigma liberal em favor do nacionalismo

Enquanto ator principal da economia política internacional, os Estados Unidos estruturam o sistema mundial definindo os limites e as obrigações e decidindo o êxito de todas as negociações. Ao contrário de Londres, que perde o controle que exercia, Washington escolhe desconstruir o sistema global, embora tenha contribuído para a sua construção. Esta escolha reflete as opções e os interesses do bloco de forças nacional – imperialista que se formou à direita durante a guerra fria e chega ao poder em janeiro de 2001. Como escreveu Stephen Gill, pesquisador em relações internacionais, este bloco nacional está historicamente “ligado ao complexo de segurança, aos setores protecionistas em declínio e aos pensadores geopolíticos de credo realista” 10 . Ele se distingue das forças transnacionalizadas mais cosmopolitas dentro da sociedade americana, principalmente « os interesses econômicos (corporate interests) mais globalizados tendo necessidade de acesso aos mercados e aos capitais de outros países e cuja identidade em relação a entidade territorial americana é menos precisa”. Estes últimos, como seus homólogos do século XIX, são “capitalistas de grande importância”, retomando a expressão de Fernand Braudel, cujos interesses, cuja a própria existência, dependem da rede de cooperação transnacional.

Enquanto a composição e a política da administração de Clinton refletiam, pelo menos em parte, os interesses dessa classe cosmopolita, reduzida mas influente, a elite de direita atualmente no poder representa o complexo militar–industrial, isto é, o setor menos autônomo e mais nacionalista da economia política americana. O menos autônomo porque, estando dentro do Estado, sua existência e seu desenvolvimento dependem do Estado. O mais nacionalista, porque procura por definição maximizar o poderio nacional. Estas duas facções dirigentes apóiam-se, cada uma, em uma ampla base social.

O poder pela força

A vitória dos republicanos se traduziu por uma campanha visando debilitar ou mesmo destruir as Nações Unidas e a reforçar a autonomia americana

Como claramente mostra a divisão geográfica do voto na eleição presidencial de novembro de 2004, a base social dos internacionalistas liberais está concentrada nas zonas urbanas costeiras, de forte densidade demográfica, enquanto a principal base popular do nacionalismo e do militarismo se encontra nas zonas rurais, entre as classes populares e médias, no coração do país.

Esta disparidade sociológica se reflete muitas vezes na diferenças políticas marcantes. A equipe de Clinton, por exemplo, tentou modificar o equilíbrio institucional dentro do governo em favor do departamento do tesouro e se esforçou antes de tudo para favorecer os interesses comparativos dos setores mais internacionalizados do capital americano sobre os mercados recentemente globalizados.

Ao contrário, a administração Bush só teve por objetivo, desde que está no poder, reforçar o “poder pela força” (hard power) do país e mobilizar as forças armadas americanas para estabelecer uma ordem mundial disciplinada sob o controle monopolista. Como Condoleezza Rice indicava claramente, antes da eleição de 2000, o bloco de forças ligado a George W. Bush tinha intenção de se liberar de uma “comunidade internacional ilusória” e derrubar o paradigma liberal abandonando a política de internacionalismo hesitante dos anos 90 pelo nacionalismo, a força e a guerra. 11

Passos do bloco nacional-imperialista

O fenômeno se manifesta particularmente na vontade americana, cada vez mais firme, de alcançar uma supremacia militar absoluta e sem fim

A formação do bloco nacional-imperialista se fez em três etapas. A principio, os partidários radicais da Guerra Fria conseguiram, em parte, sabotar a diminuição da tensão entre Leste e Oeste nos meados dos anos 70. A necessidade de manter as alianças internacionais da Guerra Fria frearam a empreitada. Tentar marcar vantagem unilateral teria ameaçado a unidade “ocidental” e comprometido à legitimidade americana, já comprometida pela guerra do Vietnã. Nos anos 80, sob a presidência de Ronald Reagan, surge na seqüência, a “revolução conservadora” acompanhada da tentativa, uma vez mais, de afirmar a primazia americana pela mobilização militar e o padrão unilateral em matéria de política estrangeira e comercial. Enfim, terceira etapa, a fusão que se opera nos anos 90 entre o neoconservadorismo e o militarismo da « cintura da Bíblia » que provoca a vitória da nova direita no Congresso em 1994.

A vitória dos republicanos se traduziu por uma campanha visando debilitar ou mesmo destruir as Nações Unidas e a reforçar a autonomia americana em detrimento de todos os outros países. Lembremos que, durante os anos 90, o Congresso americano, freqüentemente aliado a um Pentágono cada vez mais autônomo em relação a presidência, recusa pagar as cotizações do país junto as Nações Unidas, impõe sanções econômicas unilaterais contra 35 Estados – membros da organização, vota a favor de uma legislação extraterritorial infringindo o Direito Internacional e recusa ratificar as convenções internacionais e tratados sobre o controle de armamentos de grande importância (como a Convenção de Otawa em 1997, que interditou a produção, comércio e utilização de minas anti-pessoal e o Tratado Global sobre a interdição de testes nucleares).

Embora tenha ratificado a Convenção sobre as armas químicas em 1997, o Congresso americano agiu de forma a nela introduzir derrogações que esvaziam este instrumento em sua substância. No início de 2001, a administração Bush renegava o protocolo de Kioto, assinado pelo presidente Clinton, rejeitava um programa das Nações Unidas destinado a controlar o comércio de armas leves, bloqueava os esforços visando agregar um protocolo de verificação à Convenção referente às armas biológicas e abandonava pura e simplesmente o Tratado relativo aos mísseis anti-balisticos (ABM).

Supremacia militar absoluta

O conflito que opõem Washington à Beijing, sobre os têxteis, expressa na verdade uma profunda inquietude da parte dos Estados Unidos diante do crescimento da China

Esta campanha culmina em 2003, com a guerra no Iraque e os discursos de legitimação vangloriando o império mundial. Atualmente, apesar do fracasso patente desta aventura imperial (qualificada de “sucesso catastrófico” pelo próprio George W. Bush) e uma crise de legitimidade sem precedente, a administração continua sua via monopolística.

Vemos esses sinais em vários domínios, mas o fenômeno se manifesta particularmente na vontade americana, cada vez mais firme, de alcançar uma supremacia militar absoluta e sem fim. Duas decisões governamentais recentes ilustram esta vontade: a de desenvolver armas nucleares miniaturizadas de primeira linha e a de adotar uma estratégia especial nomeada Global Strike. Esse programa de militarização do espaço deve ser anunciado em breve.

Seu objetivo é «estabelecer e manter uma superioridade espacial» para os Estados Unidos dotam-no da capacidade de, a partir do espaço, de “destruir centros de comando ou bases de mísseis em qualquer lugar do mundo” 12 . Estes dois programas se inscrevem diretamente na doutrina da supremacia estratégica esboçada na Estratégia de segurança nacional, da Casa Branca (2002), e a reconfiguração das forças armadas americanas à qual Condoleezza Rice tinha anteriormente apelado a fim de “enfrentar de maneira decisiva o aparecimento de não importa que força militar hostil[] e de reagir de maneira decisiva aos regimes desclassificados e a ameaça vindo de potencias hostis” .

Estabilidade mundial ameaçada

Na falta de uma autoridade política transnacional capaz de reverter esta tendência desintegradora nós caminharemos para a desordem

Um e outro ameaçam a estabilidade do mundo: o primeiro ao encorajar a proliferação nuclear e o segundo provocando uma nova corrida aos armamentos no espaço. No espírito da administração, parece que, a China e a Rússia, consideradas como futuras potências rivais respectivamente regional e mundial, não terão outra possibilidade de escolha além de seguir o movimento e consagrar para as despesas militares recursos, limitados que serão desviados da economia nacional, ou aceitar a supremacia estratégica potencial de Washington. O interlúdio de cooperação entre os Estados Unidos e estes dois países dentro dos limites da “guerra mundial contra o terrorismo”, terminou.

Conclui-se que procurar obter o monopólio é exatamente o contrário da interdependência. Os Estados Unidos representam o centro do sistema capitalista mundial e esta orientação tem conseqüências planetárias, algumas manifestas , outras insidiosas. Esses efeitos perturbadores apoderam-se pouco a pouco da economia mundial. Os desequilíbrios do sistema econômico mundial se traduzem na elaboração de dispositivos protecionistas, a concorrência econômica tomando a forma clássica de conflitos monetários e comerciais cada vez mais agudos entre países e blocos rivais.

O conflito que opõem Washington à Beijing, sobre os têxteis, expressa na verdade uma profunda inquietude da parte dos Estados Unidos diante do crescimento da China enquanto grande potência. O que opõe americanos e europeus a propósito do Airbus significa muito sobre os limites da cooperação transatlântica na nova configuração imperial.

As redes transacionais de cooperação capitalista, formais e informais e as instituições supra-estatais de regulamentação do capitalismo globalizado, construídas ou reforçadas durante os anos 80 e 90 se mostram incapazes de manter o sistema. E na falta de uma autoridade política transnacional capaz de reverter esta tendência desintegradora nós caminharemos para a desordem.

(Trad.: Celeste Marcondes)

n ten

1 - Este historiador da economia é o autor de A Grande Transformação (Editora Campus Ltda, Rio de Janeiro, 1980.) de onde foram tiradas as citações desse parágrafo.
2 - Com exceção única da Ásia do Leste, cuja performance econômica é devida a circunstâncias históricas particulares sem relação com a globalização, a fratura Norte-Sul se aprofundou nos últimos 20 anos. Sobre isso, veja o relatório anual do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) de 1999. A diferença de renda entre os países mais ricos e os países mais pobres passou de 30 por 1 em 1960 para 60 por 1 em 1990, e para 71 por 1 em 1997.
3 - Sob a forma de surgimento e implantação durável de movimentos e partidos xenófobos de direita radical e, em certos casos, de governos populistas de direita como o de Silvio Berlusconi na Itália, que felizmente confirma o celebre adágio de K. Marx segundo o qual a história se repete primeiro como tragédia depois como farsa.
4 - Giovanni Arrighi “The Twentieth Century”, Verso, Londres. (1994)
5 - Jürgens Habernas, La paix perpétuelle, le bicentenaire d’une idée kantienne, Les éditions du Cerf, paris, 1996.
6 - Ver “Imperialisme: a Useful Category of Historical Analysis?”, na Radical History Review, número 57, Duke Uiversity Press, 1993. Ver principalmente o artigo de Carl Parrini “The age of ultra-imperialism” e igualmente de Kess Van Der Pijl, Transnational Classes and International Relations, Ripe Series, Routlege, Londres, 1999.
7 - Michael Hardt e Antonio Negri, Império, Editora Record, São Paulo, 2003.
8 - Robert Wade, “The Americain Empire and its Limits", Destin Working Papers Series, n° 02-22, London School of Economics, 2002. Philip S. Golub, “ O mito enganador do pós nacional », Le Monde diplomatique, abril de 2000.
9 - O liberalismo e a paz se limitariam a Europa. No resto do mundo, a expansão européia se fazia pela coerção em meio a conquista colonial.
10 - Stephen Gill, American Hegemony and the Trilateral Comission, cambridge Studies in International Relations, Cambridge University Press, Londres, 1990.
11 - Condoleeza Rice, “Promoting the National Interest”, Foreign Affairs, janeiro e fevereiro 2000, vol, 79, número 1.
12 - Ver Tim Weiner, “Air Force urges Bush to deploy space armas”, The New York Times, 19 de maio de 2005.




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