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Em El Salvador, uma maquiadora se torna exemplo de organização sindical, mas ainda enfrenta boicote e concorrência aviltante

Phillippe Revelli - (01/08/2005)

O primeiro conflito do sindicato com a direção da Tainan se deu na ocasião do terremoto de janeiro de 2001

À primeira vista, Just Garments não se distingue em nada das outras maquiadoras da América Central: uma empresa de confecção situada em um vasto hangar, com sua luz néon e suas fileiras de máquinas de costura sobre as quais se debruça uma mão-de-obra majoritariamente feminina. Os salários são só um pouco maiores que antes. “Mas hoje”, declara Marlène Alvarado, uma funcionária, “o ambiente de trabalho não tem nada a ver com aquele do tempo em que a empresa ainda se chamava Tainan.”

Em maio de 2000, a sociedade taiwanesa Tainan S.A. instalou-se na Zona Franca de São Bartolo (periferia de São Salvador). Alguns meses mais tarde, uma dezena de trabalhadores decidiu formar uma seção sindical. O primeiro conflito com a direção se deu na ocasião do terremoto de janeiro de 2001. As instalações da empresa foram danificadas e muitas funcionárias perderam entes queridos ou viram suas casas serem destruídas pelo tremor. O diretor da Tainan, Wu Tao Chang, recusou-se, no entanto, a entrar em acordo a respeito de suspender o dia de trabalho e, embora as condições de segurança na fábrica fossem precárias, ele ordenou a retomada do trabalho. “Eu subi em uma cadeira e pedi para que os trabalhadores fossem para suas casas e nós todos deixamos a fábrica”, se recorda Ruben Orellana, um dos fundadores da seção sindical.

Essa combatividade surpreendeu tanto a direção da empresa quanto a Fenastras, a central sindical à qual se filia a seção da Tainan. A Fenastras não tem mais nada da organização combativa que ela foi nos anos de 1980. Em novembro de 1989, durante a guerra civil e quando se deu a grande ofensiva dos guerrilheiros da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) sobre São Salvador, um atentado a bomba dizimou a direção, e seus últimos dirigentes “históricos” foram obrigados ao exílio. Os atuais líderes – que gozam de excelentes relações com o patronato e o ministério do trabalho – mantêm as seções sindicais adormecidas para, em caso de conflito, propor seus serviços de mediador e negociar acordos com descontos, recebendo comissões ou porcentagens sobre as indenizações não pagas aos trabalhadores.

Fábrica ocupada

Quando a empresa anunciou o encerramento de suas atividades, os trabalhadores ocuparam a fábrica e lançaram um apelo à solidariedade internacional

Em Tainan, após ter tentado em vão convencer seus militantes, a Fenastras denunciou seu mandato. Eles se voltaram então para o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Têxtil. Às brutalidades e perseguições da direção, que tentava rachar o movimento, os sindicalistas responderam com uma mobilização crescente. Em 18 de abril de 2002, eles conseguiram sindicalizar mais da metade dos funcionários da empresa e, tendo atingido a cota legal, entraram com um pedido de negociação coletiva junto à inspeção do trabalho. Quatro dias mais tarde, a direção da Tainan anunciou o encerramento de suas atividades em El Salvador. Rapidamente, os trabalhadores ocuparam a fábrica para impedir a mudança das máquinas e lançaram um apelo à solidariedade internacional.

Nos Estados Unidos, a AFL-CIO os apoiou, enquanto a United Students Against Sweatshops (USAS) e a Campaign for Labour Rights1 interpelavam os clientes da empresa (GAP, Land Ends, Footlocker…) sobre o desrespeito ao seu código de conduta. Chamada aos Estados Unidos, María Luz Panameña, trabalhadora da Tainan, conseguiu entrar na assembléia geral dos acionistas da GAP e interpelou o presidente que acabava de se vangloriar da política social da firma: “Senhor Fish, eu venho de El Salvador e sinto-me orgulhosa de fabricar roupas para a GAP, mas o que o senhor está dizendo é mentira…”

Em 13 de junho de 2002, em 31 cidades dos Estados Unidos, manifestações aconteceram diante das lojas da Footlocker – que se recusou a pronunciar-se sobre a questão do respeito à liberdade sindical nas empresas que produziam para ela; em Taiwan, os militantes da Focus on Globalization fizeram manifestação em frente à sede da sociedade; no Camboja, os trabalhadores das fábricas da Tainan ameaçaram entrar em greve2; em São Salvador, os operários desfilaram diante da embaixada taiwanesa. No dia seguinte, a Tainan aceitou o princípio de uma reunião entre sindicalistas e a direção na presença de observadores internacionais.

Vitória e resistência

A situação inédita, nascida do acordo assinado com a sociedade taiwanesa, colocava em foco a atitude ambígua das firmas norte-americanas

Em 21 de novembro, enfim, reunidos em uma suíte do hotel Radisson de São Francisco, as partes em conflito chegaram a um acordo. A Tainan comprometeu-se a entrar com o capital necessário à reabertura de uma maquiadora com 120 máquinas – com a possibilidade de aumentar esse número até 600, se os pedidos o permitissem – e financiar um fundo de compensação destinado a indenizar sindicalistas vítimas das listas negras; os trabalhadores seriam representados na junta diretora; 50% dos lucros anuais seriam divididos entre os funcionários. A nova empresa se chamaria Just Garments (Confecções Justas).

Os trabalhadores, mesmo assim, não viram o fim dos seus problemas. Primeiro obstáculo: Ricardo Safi, representante de uma das grandes famílias de El Salvador, que possui 80% dos terrenos e prédios da Zona Franca de São Bartolo, recusou-se a alugar seus imóveis a uma empresa “sindicalizada”. Os outros proprietários seguiram seus passos3. Obrigada a ocupar instalações em mau estado, a Just Garments não teve condições de começar a produzir antes de outubro de 2003. Foram então as encomendas que não vieram.

Representante do Centro de Estudo e Apoio aos Trabalhadores (CELA), estreitamente ligado à experiência, Gilberto Garcia assistiu às negociações de São Francisco. Ele lembra que “o representante da GAP havia na época feito uma breve aparição, mas recusou-se a se engajar na condução da experiência.” A situação inédita, nascida do acordo assinado com a sociedade taiwanesa, colocava em foco a atitude ambígua das firmas norte-americanas, que se recusavam a cumprir seu papel.

Concorrência aviltante

A empresa enfrenta o boicote das outras maquiadoras, que se negam a fazer subcontratação com uma “sindicalizada”

Confrontadas com uma nova campanha de opinião, a GAP e a Lands End resolveram o problema fazendo doações à Just Garments, com a qual cortaram qualquer relação. A empresa foi também confrontada com o boicote dissimulado das outras maquiadoras. “A subcontratação entre maquiadoras”, explica Nelson Morales, o novo diretor, “representa uma parte importante da atividade do setor. Mas os colegas a quem solicitei recusaram-se a subcontratar conosco, sugerindo que isso não aconteceria se a empresa não fosse ’sindicalizada’.” À beira da falência, a Just Garments conseguiu in extremis seus primeiros pedidos em agosto de 2004.

A lista de pedidos encheu-se, e uma centena de operários trabalha, hoje, em condições diferentes das que prevalecem nas outras maquiadoras. As muchachas gostaram: “Eu posso conversar com a minha vizinha, me levantar para ir ao banheiro ou beber um copo d’água sem ser repreendida.” “Uma garota grávida não corre o risco de ser demitida.” “As horas-extras são pagas, não tentam nos “roubar”.”E, outro motivo de surpresa para as novatas: “Os sindicalistas não se escondem.”

No entanto, considera Morales, “nós somos uma empresa, confrontada com uma concorrência impiedosa e que deve demonstrar rentabilidade, não uma organização não-governamental vivendo de financiamentos externos. É delicado encontrar o equilíbrio entre o ideal e tais pressões. ”Dessa forma, os salários não são mais que alguns centavos maiores que o pagamento mínimo por hora exigido pela lei e, após um ano de ano de atuação difícil, a empresa, que conseguiu simplesmente equilibrar suas contas, não tem lucros para dividir entre os trabalhadores (como previa o acordo assinado com a Tainan).

Para poder um dia oferecer às suas trabalhadoras salários decentes, Just Garments trabalha pelo crescimento de sua produtividade – as trabalhadores e o diretor discutem aperfeiçoamentos para a cadeia de produção – e procura novos mercados no comércio justo. “Não se deve, entretanto, acalentar ilusões”, reconhece García. “Enquanto nossos clientes – marcas e grandes distribuidores – pagarem U$ 2,45 a dúzia de camisetas que serão revendidas cinqüenta vezes mais caro em suas lojas, nossa margem de manobra será pequena.”

(Trad.: Carolina Massuia de Paula)

1 - http://www.studentsagainstsweatshop...; Campaign for Labour Rights: http://www.campaignforlaborrights.org/
2 - Em 22 de janeiro de 2004, Chea Vichea, dirigente sindical cambojano, que havia assinado a mensagem de solidariedade às trabalhadoras salvadorenhas, foi assassinado.
3 - A respeito dos proprietários de imóveis nas Zonas francas, o estudo da PSCC (“Maquilas en Centramérica”) destaca que eles constituem um componente freqüentemente esquecido da cadeia de produção das maquilas e que, para eles, “a paz social” é um argumento vazio.




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