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EDITORIAL

Brasil: oportunidade perdida

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Corrupção e política econômica neoliberal transformam governo Lula em sonho desfeito

Ignacio Ramonet - (01/10/2005)

Provenientes de uma “caixa preta”, cerca de 10 mil euros eram distribuídos todos os meses a cada parlamentar corrompido

“Nem o Brasil, nem os brasileiros merecem isso”, declarou, abatido, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Ele se referia ao escândalo de corrupção que, há quatro meses, abala o país e atinge ministros e dirigentes do seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT). Desmascarado com júbilo pela grande mídia e atiçado por acusações públicas feitas pelas personalidades atingidas, o caso tomou ares de uma novela de televisão1 . Com a violência de um furacão devastador, a cena política está revirada.

Parece agora comprovado que assessores do presidente, em especial José Dirceu, ministro chefe da Casa Civil (uma espécie de primeiro-ministro), havia instituído um vasto sistema de propinas para comprar votos dos deputados dos partidos aliados ao PT2 . Provenientes de uma “caixa preta” alimentada pelas finanças públicas, cerca de 10 mil euros eram distribuídos todos os meses a cada parlamentar corrompido... Por outro lado, desde 2002, um mecanismo sofisticado de caixa dois permitiu o financiamento da campanha que conduziu à eleição do Presidente Lula.

Até agora, entretanto, não houve prova do envolvimento pessoal do chefe de Estado. Nem parece que os dirigentes políticos, membros do PT, comprometidos no caso, tenham enriquecido pessoalmente. Eram, se assim for possível dizer, “corruptores ativos” (e não “corrompidos passivos”) agindo em nome do que consideravam o interesse superior de seu partido.

Esperanças frustradas...

Com o PT no poder e com Lula no governo, os cidadãos esperavam o banimento definitivo dessas práticas deploráveis

Desde janeiro de 2003, o PT governou com o apoio de diversos aliados. Mas, apesar desses apoios, não dispunha de maioria na Câmara, o que o obrigou a procurar a neutralidade ou a sustentação de grandes formações conservadoras, como o Partido da social-democracia (PSDB), o Partido do movimento democrático (PMDB) e a Frente liberal (PFL). No Brasil, os parlamentares são tradicionalmente independentes das siglas às quais são ligados e não hesitam em mudar de filiação. São assim suscetíveis a todas as formas de corrupção. Esta é, infelizmente, como em muitos países, uma prática constante na política, qualquer quer que esteja governando. Porém, desta vez, com o PT no poder e com Lula no governo, os cidadãos esperavam o banimento definitivo dessas práticas deploráveis.

O PT não tinha feito da ética seu principal estandarte? Não tinha repetido que a “democracia participativa”, nas municipalidades e Estados que governava, constituía a melhor garantia contra a corrupção? Não tinha inventado, e exportado ao mundo, a idéia do “orçamento participativo” como modelo de controle coletivo da gestão das finanças públicas? Lula, nascido na miséria, e que tinha conseguido, por força de vontade e inteligência, achar um caminho em meio a terríveis desigualdades, não era o próprio exemplo da probidade?

A decepção atual tem a medida das esperanças nascidas com sua eleição em outubro de 2002. Pensava-se então que uma página tinha sido virada e que, para a massa dos deserdados do Brasil, havia enfim chegado a hora da justiça social3.

... E sonhos roubados

O paradoxo é que o PT corrompeu deputados de direita para que votassem leis de direita

Para alguns, no entanto, o escândalo atual não é uma surpresa. Há muito tempo, a esquerda do PT e os poderosos movimentos sociais (como o Movimentos dos Sem Terra) alertavam contra a deriva de um governo reticente em iniciar as indispensáveis reformas sociais4 , enquanto se dedicava a conduzir, encorajado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), uma política econômica muito distante das promessas feitas ao eleitorado popular. O paradoxo é que o PT corrompeu deputados de direita para que votassem leis de direita...

Evidentemente, as forças conservadoras, que se deleitam há décadas na corrupção, exultam e se permitem passar por moralistas. Em Washington, também não se lamentam as desgraças do presidente Lula. Sua inovadora diplomacia Sul-Sul desagradava. E o papel chave de Brasília na América Latina, impulsionada pelo novo eixo Venezuela-Cuba, e ainda pela Argentina, Uruguai e Panamá, que se volta cada vez mais à esquerda, também incomodava.

Dirigindo-se à nação, em 12 de agosto, o presidente brasileiro pediu “desculpas” a seu povo, afirmando que foi “traído por práticas inaceitáveis, que ignorava totalmente”. A próxima eleição presidencial será em outubro de 2006. Até lá, poderá o presidente Lula renovar a aliança com as classes populares, que o tinham como um ícone, e que hoje vêem seus sonhos roubados ?

(Trad.: João Alexandre Peschanski)

1 - Com o título “Escândalo das mesadas”, é possível encontrar uma cronologia bastante detalhada no sítio da enciclopédia livre Wikipedia – http://fr.wikipedia.org/wiki/Scanda...
2 - Nota do Editor: Na edição francesa, são citados partidos que tiveram parlamentares envolvidos no escândalo de alguma forma (mas não fazem parte da base do governo), junto com partidos que fazem parte da base de sustentação do governo, mas não foram envolvidos no escândalo. São citados, na edição francesa, Partido da Frente Liberal (PFL), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Popular Socialista (PPS), Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Verde (PV) e Partido Progressista Brasileiro (PPB).
3 - Ler “Viva o Brasil!”, Le Monde diplomatique, janeiro de 2003.
4 - Ler, de Emir Sader, “Governo Lula: uma ‘terceira via’ cada vez mais contestada”, Le Monde diplomatique, janeiro de 2005.




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