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ORIENTE MÉDIO

Arafat assassinado?

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Um ano após a morte do líder palestino, voltam a crescer – inclusive na imprensa de Israel – especulações e indícios segundo as quais ele teria sido envenenado por Telavive

Amnon Kapeliouk - (01/11/2005)

Em artigo publicado em Paris, os dois autores levantam três hipóteses: envenenamento, AIDS ou uma infecção. Um dele aposta na primeira possibilidade

Presidente da Autoridade Palestina (AP) e da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat se foi há exatamente um ano, em 11 de novembro de 2004, às três e meia da amanhã, no Hospital Militar de Percy, em Clamart, sul de Paris. Sabe-se que o estado de Abu Ammar – como o chamavam os palestinos – agravou-se brutalmente nas últimas semanas. Também é certo que o cerco israelense ao quartel general de Arafat em Muaqata, Ramallah, desde dezembro de 2001, obrigou-o a viver em condições psicológicas e físicas extremamente duras. Mas, para diversos dirigentes palestinos, que tornaram pública sua suspeita, entre o povo árabe e além dele, as dúvidas a respeito da morte do líder tinham uma resposta: o raïs havia sido envenenado pelos israelenses. Esta é também a opinião de seu médico particular (jordaniano), o doutor Ashraf al-Kurdi.

As mídias israelenses deram, nas últimas semanas, uma certa credibilidade o que não passava, até então,de convicção íntima ou rumor. Elas admitiram a possibilidade da “liquidação” do presidente palestino. Este termo brutal foi usado, por exemplo, em 30 de setembro por Yoram Binur, o correspondente da segunda rede de televisão para os territórios ocupados. Três semanas antes, o suplemento semanal do jornal Haaretz1 havia publicado a seguinte manchete: “Arafat morreu de AIDS ou foi envenenado”. Mas, em seu artigo, os jornalistas Amos Harel e Avi Isacharoff, citam um especialista israelense que classifica como “muito pequena” a possibilidade de que Arafat tenha contraído AIDS e destaca que, segundo diversos médicos, os sintomas levavam a crer mais num envenamento. Em artigo publicado em Paris, em outubro de 2005, e intitulado “La 7e guerre d’Israël”2 (A sétima guerra de Israel), estes dois autores levantam três hipóteses: envenenamento, AIDS ou uma simples infecção. E um deles, particularmente, aposta mais na primeira possibilidade.

A opinião dos médicos franceses

Que disseram os médicos do Hospital de Percy, um dos melhores na Europa em hematologia? Assinado no dia 19 novembro de 2004 pelo doutor B. Pats, médico chefe da equipe que cuidou do líder palestino, o relatório médico confidencial concluiu: “Ao décimo terceiro dia de sua internação no hospital e ao oitavo dia de sua internação na unidade de reanimação, o senhor Yasser Arafat faleceu, vítima de um acidente vascular cerebral hemorrágico maciço. Esta hemorragia cerebral foi o agravante de um quadro clínico que agrupava quatro síndromes.3(…) Consulta a diversos especialistas, em múltiplas áreas, e resultados dos exames realizados não nos permitiram reter a evolução de um quadro nosológico que explique a associação das síndromes.”

As intenções declaradas de Sharon

Um confidente de Sharon escreve: o primeiro-ministro “não se considera mais obrigado a (...) não praticar nenhum atentato contra Arafat

Esta confusão médica não é o único fundamento do rumor lançado pelos palestinos: ele se apóia também na intenção abertamente divulgada pelo primeiro ministro israelense, Ariel Sharon, de eliminar Yasser Arafat. Na primavera de 2002, o general Sharon ameaçou novamente. Apenas a promessa que foi obrigado a fazer ao presidente americano, George W. Bush, o impediu de partir para a ação. No Ano Novo judeu de 2004, o primeiro ministro voltou a insistir: “Arafat será expulso dos territórios”. Expulso ou morto? Sharon relembra que Israel matou o xequer Ahmad Yassin, chefe espiritual do Hamas, e, depois, seu sucessor, Abd al-Aziz Rantissi. Há alguma diferença entre Arafat, Yassin e Rantissi? Resposta: “Não vejo nenhuma. Tudo que fizemos contra esses assassinos, faremos contra Arafat4.”

Início de novembro de 2004. O jornalista Ouri Dan, um confidente do primeiro ministro, escreve que este “anunciou a Bush que não se considera mais obrigado a cumprir o que havia prometido no primeiro encontro que os dois tiveram, em março de 2001 (a saber : de não praticar nenhum atentato contra Arafat. O presidente Bush observa que é, talvez, preferível deixar a sorte de Arafat nas mãos do Todo Poderoso, ao que Sharon respondeu: às vezes, é necessário ajudar o Todo Poderoso5.”

Em Muqata, ninguém levou essas declarações mais a sério do que a unidade de elite do exército israelense, a Sayeret Matkal, que treinava para uma eventual tomada do QG de Arafat e — se fosse o caso — para a liquidação deste. O general Sharon teria até assistido a um desses exercícios. E todos sabiam que grande seu pesar era de ter “perdido” Arafat durante o cerco a Beirute, em 1982. O ministro da Defesa, Shaul Mofaz, e o ministro das Relações Exteriores, Sylvan Shalom, propuseram também a eliminação do líder palestino. E o correspondente militar da segunda região, Rony Daniel, descrevia Yasser Arafat como “ um homem morto que anda”...

Por mais determinada que fosse, a vontade dos dirigentes israelenses de se livrar do chefe palestino não seria suficiente para demonstrar o envenenamento. É necessário, então, voltar ao estado de saúde do raïs.

No dia 18 de agosto de 2004, eu assisti pessoalmente ao discurso que o presidente Arafat fez diante do Conselho Legislativo Palestino, reunido em Muqata. Durante duas horas, ele fez uma revisão dos problemas enfrentados naquele momento, repetindo duas ou três vezes – como era seu hábito fazer – as frases-chave de sua intervenção. Em pé, falando com a voz forte, ele não tinha a aparência de um homem doente.

“Abu-Ammar precisa repousar”

“Tudo vai bem, al-hamdou li-llah [Deus seja louvado] – mas você, Abu Ammar, perdeu muito peso em pouco tempo.”

No dia 28 de setembro, na ocasião do quarto aniversário da Intifada, revi Arafat pela última vez. Ele me saudou com o abraço habitual e perguntou sobre mim. Respondi: “Tudo vai bem, al-hamdou li-llah [Deus seja louvado] – mas você, Abu Ammar, perdeu muito peso em pouco tempo”. Seu rosto estava mais magro e ele me parecia flutuar dentro de suas vestimentas. “Não é nada”, respondeu. Durante o almoço, entrava ativamente nas conversas, enquanto comia – como sempre fazia, aliás. Mas parecia fraco. De repente, seu porta-voz Nabil Abu Roudeina me cochicha: “É melhor finalizar o almoço porque Abu Ammar precisa repousar.” Arafat me abraça novamente, e nós nos separamos.

Em outubro, seu estado de saúde se agrava. No dia 12, quatro horas depois do jantar, ele começa a sentir dores no ventre e a apresentar vômito e diarréia. Tratado como vítima de uma inflamação intestinal, não reage aos medicamentos. Os exames de sangue revelam que o número de plaquetas está muito baixo, mas o de leucócitos permanece estável. No dia 27, há uma piora súbita: Arafat perde a consciência durante 15 minutos. Yasser Abed Rabbo, que acabara de visitá-lo, me confessa: “Seu estado é muito grave, muito grave.”

No dia seguinte chegam médicos egípcios, depois tunisianos e jordanianos. Não conseguindo determinar a origem do mal, eles sugerem transferir o enfermo para um hospital francês. A sede do governo francês dá imediatamente sua permissão. O general Sharon, por meio do pronunciamento de seu chefe de gabinete Dov Weissglas, aceita não somente a partida de Arafat, mas também seu retorno quando estiver curado. Estranhamente, propõe de enviar médicos israelenses a Paris. Em 29 de outubro, pela manhã, os assistentes de Abu Ammar o transportam, do edifício no qual ele ficara fechado durante os últimos 35 meses, para um dos dois helicópteros enviados pela Jordânia. No lugar de seu eterno keffieh, o raïs usa um chapéu de pele e sorri estranhamente: não é o Arafat que conheço desde nosso primeiro encontro, em agosto de 1982, em Beirute Oeste sitiada. As lágrimas correm nos rostos das pessoas próximas a ele quando o helicóptero levanta vôo sobre Amman, de onde um avião médico da milícia francesa o transporta à Paris.

Consciente, mas à beira da morte

No dia seguinte chegam médicos egípcios, tunisianos e jordanianos. Sem determinar a origem do mal, sugerem transferir o enfermo para um hospital francês

Em Clamart, Arafat chega consciente, mas muito enfraquecido. Os primeiros exames não revelam evidências nem de leucemia, nem de tumores, mas sim de uma grave inflamação no tubo digestivo, que os médicos combatem com fortes doses de antibióticos e antinflamatórios. Seu estado melhora: ele caminha um pouco dentro de seu quarto, fala ao telefone com o presidente francês Jacques Chirac e com diversos dirigentes palestinos. Mas em 3 de novembro, ele entra repentinamente em coma. Arafat sofre de uma série de sintomas graves, atribuídos a uma toxina desconhecida que os médicos franceses não conseguem detectar. Só um milagre pode salvá-lo, dizem pessoas próximas do líder. Duas semanas após sua chegada, o presidente Yasser Arafat fecha os olhos para sempre.

Como já vimos, para explicar esta morte súbida, a imprensa israelense evocou três causas: infecção, AIDS ou envenanamento. A hipótese de infecção não tem fundamento médico: nenhum médico francês, palestino, egípcio, tunisiano ou jordaniano afirmou ter descoberto traços de infecção nos exames realizados. Além disso, se houvesse uma infecção por trás da enfermidade de Arafat, ela poderia ter sido combatida com o uso de antibióticos.

A suspeita de AIDS parece ter se fortalecido apenas com um fim: macular a imagen do raïs. Até porque o artigo já citado de Haaretz não traz nenhum elemento que a comprove. Uma pesquisa realizada pelo New York Times tirou essa hipótese de consideração. Os médicos franceses nem mesmo a mencionam. Os tunisianos chegaram a fazer um teste de HIV: negativo.“É inconcebível, assegura um especialista israelense, que uma doença que durou duas semanas, com terríveis diarréias, vômitos violentos, problemas graves no sistema digestivo e que produziu fenômenos sérios de coagulação tenha sido provocada pela AIDS6”. Na verdade, nenhum documento médico menciona esta enfermidade, revela o Ashraf al-Kurdi, médico pessoal de Arafat durante mais de 20 anos.

Estranho antecedente

Especialistas acreditam que se pode fabricar facilmente produtos tóxicos desconhecidos, alguns dos quais desaparecem depois de ter provocado efeito

As autoridades israelenses qualificam como “estúpidas”e “mal intencionadas”as acusações de assassinato. Do lado palestino, relembra-se a tentativa de assassinato de Khaled Mesha, um dos dirigentes do Hamas, ocorrida em Aman, em 25 setembro de 1997. Enquanto a vítima caminhava em plena rua, dois agentes do Mossad lhe injetaram veneno na orelha. Colérico, o rei Hussein exigiu que Israel fornecesse imediatamente o antídoto, sob pena de detonar uma crise realmente grave entre os dois países. O primeiro ministro Benjamin Netaniahu aceitou entregar o antídoto e, para acalmar os ânimos, liberou 70 prisioneiros palestinos, dentre os quais o xeque Yassin.

Comparação não é razão: os médicos do Hospital de Percy afirmam em seus relatórios não ter encontrado traços de nenhum veneno conhecido. Para assegurar os resultados das análises, eles pediram a avaliação de dois outros laboratórios – o da polícia e o do exército francês. Em vão. Contudo, especialistas acreditam que se pode fabricar facilmente produtos tóxicos desconhecidos, alguns dos quais desaparecem depois de ter provocado efeito...

Dirigentes israelenses não consideram a eliminação física do presidente palestino, a não ser que esta não tenha deixado“nenhum traço israelense”. De onde se conclui que pode ter ocorrido o uso de um veneno indetectável: “Foi sem dúvida o que aconteceu.” assegura Ehud Barak. Um jornalista e especialista israelense, que prefere também manter o anonimato, contou a vários conpatriotas que, a parte a face conhecida da doença do líder palestino, ele está convencido de que o raïs tenha sido envenanado. Mais: três personalidades do setor de segurança haviam discutido com ele, separadamente, qual seria o melhor método a utilizar, e teriam chegado à mesma conclusão: envenanamento. Era início de 2004...

Qualquer médico lhes dirá”

“Eles se iludem, se crêem que seus objetivos serão alcançados na era pós-Arafat”, declarou o primeiro ministro palestino. E acrescentou: “Um dia, sentirão falta de Arafat”

Médico dos reis hachemitas (da Jordânia), o jornadaniano Ashraf al-Kurdi também acompanhou Abu Ammar, de modo que conhece profundamente os relatórios médicos referentes ao seu tratamento. Pouco depois do falecimento de seu paciente, também ele declarou perceber indícios de envenenamento. Havia examinado Arafat durante a fase crítica de sua enfermidade, antes que o líder fosse transferido para a França, e ignorava os problemas sanguíneos que acabaram por vitimar Arafat. É por esse motivo que exigiu a criação de uma comissão de inquérito independente para proceder, finalmente, uma autópsia que determinasse a causa da morte. Dores nos rins e no estômago, inapetência total, diminuição das plaquetas, perda de peso considerável, manchas vermelhas no rosto, pele: “Qualquer médico lhes dirá que se trata de sintomas de envenenamento.7” Apenas esta comissão de investigação permitiria realmente saber se Arafat morreu ou foi assassinado.8

Yasser Arafat desejava ser enterrado em Jerusalém sobre a Esplanada das Mesquitas, terceiro lugar santo da nação islã. As autoridades israelenses se opuseram. Os dirigentes palestinos então escolheram Muqata, símbolo da última luta de Abu Ammar pela criação de um Estado palestino independente. Um túmulo do pai da nação em seu QG devastado por um exército de ocupação – existe símbolo mais poderoso, questionam os companheiros de luta de Arafat? Desde o dia seguinte à partida do líder, incontáveis cidadãos, sozinhos ou em grupos, turistas e moradores da região, iniciaram um tipo de peregrinação ao local.

A herança de Yasser Arafat – disse em fevereiro de 2005 Michel Barnier, ministro francês das Relações Exteriores na época, durante uma visita à Muqata – pertence ao povo palestino e à história. E os israelenses? “Eles se enchem de ilusões, se crêem que seus objetivos serão alcançados na era pós-Arafat”, declarou o primeiro-ministro palestino Ahmad Qoreï. E acrescentou: “Um dia eles sentirão falta de Arafat”.

(Trad. : Sílvia Pedrosa)

1 - Haaretz, Tel-Aviv, 9 de setembro de 2005. Na véspera, o New York Times atribuiu o falecimento a uma hemorragia provocada por uma infecção desconhecida, mas destacou que nada nos relatórios médicos comprovavam nem AIDS nem envenanamento.
2 - Hachette Littératures, Paris, 2005.
3 - “Uma síndrome digestiva inaugural ocorrida 30 dias antes e que evocou uma enterocolite; uma sindrome hematológica associada a uma CIVD (coagulação intravascular disseminada) grave, uma hemofagocitose medular isolada sem síndrome de ativação macrofágica sistêmica, uma icterícia colestática; uma síndrome neurológica com estuporação flutuante seguida de coma.”
4 - Yediot Aharonot, Tel-Aviv, 14 de setembro de 2004.
5 - Maariv, Tel-Aviv, 4 de novembro de 2004.
6 - Haaretz, 9 de setembro de 2005.
7 - Haaretz, 9 de setembro de 2005.
8 - Descondente com o trabalho da comissão nomeada em novembro, o Conselho Legislaivo Palestino criou no dia 5 de outubro uma nov a comissão de investigação encarregada de descobrir rapidamente a causa da morte do shahid.




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