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Caleidoscópio saudita

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Reportagem na "nova" Arábia Saudita governada pelo rei Abdallah. Quais os avanços reais na situação das mulheres, tolerância religiosa e liberdade política. Que chances há de transformar as concessões de um soberano esclarecido em direitos permanentes

Alain Gresh - (01/02/2006)

A Arábia Saudita poderia ser reduzida à segregação das mulheres, ao peso da religião e às decapitações públicas? Mas como ignorar essas tristes realidades?

Entre os jornalistas especializados em Oriente Médio circula a piada: "Na primeira viagem, voltamos com um artigo; na segunda, pensamos em escrever um livro. Só na terceira percebemos que é completamente utópico dar conta de uma realidade tão complexa". "Você fala sobre a Arábia Saudita de maneira objetiva?" A pergunta do vice-ministro da informação soava como uma ameaça, em 2000. Cinco anos mais tarde, o jornalista está livre para exercer sua profissão: pode viajar pelo país e entrevistar qualquer pessoa, inclusive alguns intelectuais que haviam sido proibidos pelas autoridades de falar à imprensa.

"Você fala sobre a Arábia Saudita de maneira objetiva?" A questão me foi colocada na sede do jornal em inglês The Saudi Gazette, em Djedda, por uma jovem jornalista que esconde os cabelos sob um lenço e ainda usa o véu que cobre o rosto. No entanto, não há nenhuma timidez em sua atitude, na sua maneira de colocar o colega ocidental na defensiva. Ela acabou de publicar um artigo sobre as complicadas relações entre a Arábia Saudita e a Líbia (as relações diplomáticas entre os dois países estiveram congeladas por muitos meses). O texto não agrada às autoridades e diz respeito à cúpula da Organização da Conferência Islâmica, sediada em Meca, onde conheceu chefes de Estado e dirigentes políticos.

Como responder? Como estar seguro de oferecer uma visão "objetiva" de um país tão diferente culturalmente, diverso em suas regiões, múltiplo em suas identidades? Mesmo quando o obstáculo da língua não existe, como se livrar dos tenazes preconceitos, das imagens de Epinal, das simplificações repousantes? A Arábia Saudita poderia ser reduzida à segregação das mulheres, ao peso da religião e às decapitações públicas? E mesmo evocando as mudanças sociais ou políticas, os avanços e os debates, como ignorar essas tristes realidades?

Em busca do "país real"

Existe aqui um "percurso obrigatório" para os jornalistas: eles conhecem as mesmas pessoas, os dirigentes políticos habituados com a conversa fiada, os intelectuais ou homens de negócios ocidentalizados que falam inglês e, sobretudo, compartilham a mesma visão. Porque se espantar pela semelhança dos artigos que resultam dessas conversas? Como escapar delas para chegar mais perto do país real?

Há alguns anos, os jornais falam com regularidade sobre os problemas da sociedade: desemprego, pobreza, prostituição, drogas... Até a AIDS foi objeto de debate público

Este "país real" está profundamente impregnado pelo Islã, tanto na sua visão de mundo quanto em suas práticas. Para o observador apressado, estas se resumem ao que se designa por "wahhabismo". No entanto, a Arábia Saudita está repleta de escolas religiosas que reclamam para si diversas tradições sufis, além de uma minoria xiita dinâmica. Mesmo o "wahhabismo" sunita, longe de ser homogênio, tem os seus debates internos e divisões, que vêm se acentuando nos útimos anos. É preciso estar disposto a ouvir esses homens e mulheres que se encontram no interior de um outro sistema de valores, que utilizam outras palavras, que desconfiam da imprensa ocidental, que acusam, às vezes com razão, de hostilidade ao Islã.

A Arábia Saudita, que acaba de se ligar à Organização Mundial do Comércio, paira por sobre a alta dos preços do petróleo: em 2005, sua receita cresceu em quase meio bilhão de dólares por dia. A riqueza é palpável; o dinamismo econômico impressionante; a bolsa, aquecida em 100% em 2004 e igualmente em 2005 [1]: tornou-se uma fonte de renda para inúmeras famílias. Em dezembro de 2005, 5,7 milhões de sauditas compraram ações da Companhia Petroquímica Nacional de Yanbu, num total de quase 2 bilhões de dólares.

As camadas superiores e médias da sociedade são mais ou menos acessíveis aos ocidentais. Mas e as outras — os "pequenos", os "sem classe", esses pobres coitados de quem o governo mal reconhece a existência? E os imigrantes, quase 6,3 milhões (para 19,7 milhões de nativos), que representam a maior parte da mão de obra?

É difícil medir a amplitude da questão social. A ausência de estatísticas detalhadas, de um movimento social e, mais amplamente, a fraca expressão das ciências sociais locais, tornam difícil a avaliação da pobreza, mesmo se a imprensa oferece uma ajuda inesperada. Há alguns anos - e a tendência se acentuou com a acensão do rei Abdallah ao trono, em 1º de agosto de 2005 - os jornais falam com regularidade sobre os problemas da sociedade: desemprego, pobreza, prostituição, drogas, etc. Até a AIDS foi objeto de iniciativas públicas: em 1º de dezembro, dia mundial da luta contra a doença, foi possível ver ambulâncias distribuindo folhetos de informação em Djedda.

As camadas superiores e médias são acessíveis aos ocidentais. Mas e os "pequenos", os "sem classe"? E os imigrantes, que representam a maior parte da mão de obra?

Petróleo caro, saída para o desemprego?

A nova e durável onda do petróleo cro permitirá resolver os problemas de emprego, educação, saúde? O primeiro desafio será oferecer emprego a todos, principalmene às dezenas de milhares de jovens que chegam ao mercado de trabalho, ao crescente número de mulheres que procuram emprego. Suas expectativas, seus desejos, suas frustrações determinarão em parte o futuro do país.

Basta assistir passar, na quarta-feira à noite, nas ruas de Riyad, os milhares de jovens desocupados, sem salas de espetáculo ou cinemas, sem lugares de encontro mistos, para imaginar o tédio que acomete aqueles que foram, além de tudo, expostos à cultura internacional através da internet ou da televisão via satélite. Não é de se espantar que os problemas de delinqüência e de drogas estejam crescendo. No final de semana alguns vão procurar distração em Bahrein, esta ilha-reinado ligada à Arábia por uma gigantesca ponte: 11 milhões de viajantes a atravessaram em 2004, e esse número não pára de aumentar. Eles partem à procura do lazer de que são privados.

Alguns jovens, não necessariamente os menos favorecidos, tomam um caminho bem mais perigoso. Muitos partiram em combate no Afeganistão em 1980, atendendo ao chamado do governo, com a ajuda dos Estados Unidos. Foram seguidos por aqueles que se indignaram contra os massacres na Bósnia ou na Tchetchênia e partiram para treinar nos campos talibans. Outros ainda, muitos milhares, encontram-se no Iraque.

Mobilizados a princípio contra o inimigo soviético ou nore-americano, alguns se voltaram contra o regime saudita, sobretudo depois do reino ter apelado às tropas estadunidenses, em agosto de 1990, para enfrentar o Iraque. Depois disso, do debate sobre a Jihad e o papel do islã, o extremismo intensificou-se. Particularmente em maio de 2003, depois que o reino foi vítima de uma onda de atentados [2]. No encontro da Organização da Conferência Islâmica (OCI), que aconteceu em Meca, de 7 a 8 de dezembro, e que consagrou o sucesso pessoal do novo rei Abdallah, uma declaração valorizou o Islã como religião do centro (wassatiyyah), que rejeita "os exageros, o extremismo e mesquinharia".

Sinais de renovação religiosa

Mais do que qualquer outro, o xeque Salman Al-Awdah, um dos pregadores mais populares do país, encarna esta evolução. Seu programa diário no canal MBC via satélite, durante o mês do ramadan, fez um sucesso enorme. Ele não se limitava às preces: aboradava também temas mais abrangentes, mais íntimos, mais pessoais, como a beleza. Suscitou críticas vindas dos meios conservadores. O xeque nos acolheu diante de sua casa, na volta da prece do ’asr (começo da tarde), que dirigiu na mesquita visinha. Na sala, três de seus filhos tomavam aulas com um preceptor. "A educação é o mais importante", comentou. Em seu escritório sumariamente mobiliado, um tapete de rezar, uma biblioteca, algumas ilustrações de árvores à parede.

O xeque popular sustenta: "no tempo do Profeta, os muçulmanos sofriam agressões, mas tinham um guia. Não procuravam a vingança, pois era contrário ao ensinamento do Islã"

Emana um certo carisma deste homem que oferece café verde, tâmaras e chocolates - "A tradição e a civilização", explica, sorrindo. O xeque Salman Al-Awdah é um dos precursores do movimento que, no fim dos anos 80 e durante os anos 90, renovou e permitiu ao Islã ocupar uma posição hegemônica, principalmente frente aos "liberais" e aos partidários do "modernismo", que pareciam triunfar no começo dos anos 80.

Com a crise do Golfo de 1990 a 1991, as controvérsias passaram do campo cultural ao político. Atualmente, a relação com os Estados Unidos e a situação interna do reino mobilizam esta corrente islâmica. Em 1994 [3] o xeque Al-Awdah foi detido e passou cinco anos na cadeia. Seriam repercussões de sua detenção a onda de suicídios de islamistas jihadistas, os atentados do 11 de setembro, a abertura política comandada pelo príncipe herdeiro Abdallah pouco antes de sua ascensão ao trono? O que quer que tenha sido, e embora continue profundamente ligado aos dogmas, o xeque evolui. Suas pregações tornam-se cada vez mais matizadas. Ele denuncia as leituras belicosas que alguns fazem da religião. "As relações com os não muçulmanos são determinadas pelo Corão, mas às vezes as pessoas simples não sabem ler, ou não conhecem o contexto. Na sura intitulada Muhammad, lemos, no versículo 4, ’Quando encontrar (alqaytoum) os ímpios, corte-lhes o pescoço até que se entreguem.’ Mas não podemos entender essa passagem fora de seu contexto, que é o combate. Aqui alqaytoum não significa encontrar, mas combater. Por outro lado, lembremo-nos da história do Islã. No tempo do Profeta (que a bênção de Alá esteja com ele), os muçulmanos sofriam agressões, mas tinham um guia. Não procuravam a vingança, pois era contrário ao ensinamento do Islã. Você sabe quantos morreram nos combates durante os vinte e três anos de sua pregação? De 250 a 300, em vinte batalhas. Hoje, mesmo a menor escaramuça faz muito mais vítimas".

O xeque Al-Awdah participou, em julho de 2003, do primeiro debate nacional organizado por iniciativa do príncipe herdeiro Abdallah [4]. Ele encontrou dirigentes religiosos xiitas diante das câmeras - um gesto corajoso, uma vez que muitos sunitas consideram os xiitas como hereges ou mesmo não muçulmanos.

Encontramos esta maior tolerância também no xeque Abdelaziz Al Gassim, outro precursor da sahwa, mas que foi mais longe do caminho da reforma. Qualificado pelo pesquisador Stéphane Lacroix, juntamente com outros, como "liberal islamista" [5] - uma denominação rejeitada pela maioria dos envolvidos - ele serve de referência aos jovens que têm flertado com o radicalismo. Eles procuram agora conciliar Islã e liberalismo político.

O xeque Al-Gassim dirige uma entidade jurídica que produz estudos sobre a charia e ao direito. Fala com calma e convicção, evoca com prazer a viagem turística que fez à França, em companhia de sua família, fala sobre seu desejo de retornar. Para ele, a evolução "mais importante é a abertura do campo religioso ao debate. O Estado sempre quis controlar a instituição religiosa, hoje procura sua abertura. Tanto que a morte dos xeques Ben Baz e Ben Uthaymin, dois grandes teólogos cuja autoridade era incontestável, criou um vazio que ninguém mais pode preencher. Isso torna mais difícil para o Estado de se servir da instituição (como o fez em 1990, quando apelou às tropas norte-americanas), porque esta perdeu uma parte de sua credibilidade. O Conselho dos Grandes Teólogos teve de aceitar a aposentadoria de alguns de seus membros antes de sua morte, o que nunca foi visto antes!"

"O Islã conferiu direitos importantes às mulheres. O que reivindicamos é o retorno ao verdadeiro Islã. O Estado está do nosso lado, as resistências vêm da sociedade."

Um debate contra o extremismo

Khaled é funcionário do ministério dos negócios religiosos. Dirige uma empresa de comunicação e também trabalha nas horas vagas como jornalista. Pertence a uma nova geração muçulmana praticante mais sensível às mudanças. Junto com alguns amigos, lançou, há um ano e meio, a Hamlah Al-Sekkina (que pode ser traduzido como "campanha para a tranqüilidade), para despertar, através da internet, jovens que se tenham deixado seduzir por idéias radicais.

"Nós tivemos 63 mil horas de debates com mil pessoas", explica. "Nós conseguimos convencer - uns mais, outros menos - cerca de 590 deles. Os debates são, na maior parte do tempo, anônimos, por razões óbvias de segurança: nossos interlocutores às vezes têm medo. Nós explicamos o significado de Jihad, o que significa a charia, a atitude que os muçulmanos devem ter em relação aos outros."

"A lógica do "preto e branco", às vezes é compartilhada até mesmo pelos liberais, lamenta Khaled. Seria preciso, segundo eles, escolher entre liberalismo e Islã. Nós não concordamos. Nós somos muçulmanos e liberais."

A cultura do diálogo não se impõe facilmente, ela se constrói pedra sobre pedra. "Nós e os outros: uma visão nacional coletiva para agir com as civilizações pelo mundo." Este é o tema do quinto debate nacional organizado pelo príncipe herdeiro, que agora é rei, e que reuniu em Abha, no meio de dezembro, dezenas de intelectuais e de dirigentes sociais e religiosos. Pela primeira vez os debates foram transmitidos ao vivo pela TV.

"É preciso primeiro aprender a dialogar entre nós mesmos", exclama Hammad Suhail Z. Abidin, que se prepara para ir à Abha. "Nós não podemos decidir quem é "kafir" - descrente - ou quem não o é, isso pertence apenas a Deus." Ela se vê acusada de "laicismo", o que aqui é praticamente sinônimo de ateísmo. No entanto ninguém mais tradicional que essa mulher, tão bem em seu discurso político - ela denunciou vários complôs sionistas - quanto em seu respeito às regras religiosas. Mas sobre os direitos das mulheres ela é irredutível.

Quando as mulheres buscam seus direitos

"O Islã, insiste, conferiu direitos importantes às mulheres, mais direitos do que às mulheres ocidentais. No entanto, na Arábia Saudita, predominam as tradições, maneiras de pensar que não têm nada a ver com a religião. A mulher tem o direito de dispor de seu dinheiro, como já era o caso das mulheres do Profeta. Elas faziam transações sem o consultar, mas nós precisamos de um mahram (tutor). O que nós reivindicamos é o retorno ao verdadeiro Islã. O Estado está do nosso lado, as resistências vêm da sociedade."

A segregação entre os sexos é brutal. Mas as mudanças dos últimos dois anos são reais. Já é possível, por exemplo, obter carteira de identidade sem a autorização de um tutor

A situação das mulheres evoluiu. Se comparamos a Arábia Saudita a outros países, o atraso é evidente e a segregação entre os sexos, sem igual. A porcentagem de mulheres que trabalham é muito pequena e elas precisam da presença do pai ou do marido para inúmeras tarefas. Mas as mudanças ocorridas nos últimos dois anos são reais. As mulheres podem hoje obter carta de identidade sem a autorização de um tutor, estão bastante presentes no setor dos negócios, conduzem delegações oficiais ao estrangeiro.

As recentes eleições na câmara do comércio e da indústria de Jeddah marcaram um dia histórico. Desde sua chegada ao poder, o novo rei anunciou a votação, prevista para setembro, para permitir às mulheres serem candidatas. Dois meses mais tarde, apesar de uma campanha hostil de muitos chefes religiosos, duas delas venceram (entre 12 membros eleitos). Além disso, o ministro do comércio e da indústria designou duas mulheres ao conselho da administração, entre as seis personalidades nomeadas.

Hatoon Ajwad Alfassi, intelectual liberal, está contente. Ela trabalha na universidade, mas está proibida de ensinar há cinco anos, sem saber bem o porquê. Escreve regularmente em jornais, fala inglês e francês. Fala de suas viagens à França: foi lá que decidiu usar o véu quando viajasse ao exterior. "Nós temos uma visão positiva do novo rei, que deu sinais importantes. Logo que chegou ao poder, recebeu dois grupos de mulheres, 40 pessoas por vez - funcionárias do ministério da educação, depois intelectuais - que vieram prestar o juramento de fidelidade (bay’a). Isso foi um feito sem precedentes e a televisão mostrou algumas imagens."

A sociedade saudita tende a se tornar mais transparente. Os problemas de violência conjugal também estão em primeiro plano. Um relatório publicado pela Associação Nacional dos Direitos da Pessoa mencionava que, dos 5 mil casos sob sua tutela, 30% eram relacionados à violência conjugal, o que a imprensa hoje mostra. E os jornais de Djedda denunciam um fenômeno crescente e preocupante: o abandono de recém-nascidos pelas próprias mães... Se o debate social cresce, as evoluções no campo político são mais aleatórias. Dependem da boa vontade do soberano e qualquer conquista corre o risco de ser colocada em causa no futuro, porque todas as regras políticas continuam incertas. As eleições municipais são um bom exemplo destas incertezas.

A experiência das eleições municipais

Anunciadas muitas vezes ao longo dos últimos anos, elas finalmente aconteceram no ano passado, entre fevereiro e abril, sucessivamente em diversas regiões do país, para eleger metade dos membros dos 178 conselhos municipais - a outra metade foi designada pelas autoridades. Na província do Leste, a competição eleitoral foi mais ativa. Qatif, um antigo porto no Golfo, é o centro do xiitismo político e religioso. Nos cinco departamentos, 148 candidatos disputaram. Havia 120 mil potenciais eleitores; 44 mil se increveram e 35 mil votaram, numa das porcentagens mais elevadas do país. Nesta região próxima ao Iraque, as tradições políticas desconhecidas em outros lugares do reino são antigas. Desde os anos 50, a região foi atingida por todas as ondas de politização vindas de seu vizinho: Nacionalismo árabe, comunismo, islamismo, etc.

"Eu obtive 24 mil votos", explica Al-Shayeb, um candidato vitorioso aliado dos religiosos xiitas. "A campanha eleitoral em si foi bem curta, mas a preparação foi maior. Comitês locais fizeram esforços reais para explicar às pessoas como se inscrever e como votar. Eles os buscavam na mesquita para levá-los ao escritório do comitê para se increverem." E, reconhece, "o Estado não interferiu na votação."

Depois do final do processo em todo o país, ainda foram necessários oito meses para que fosse publicado o regulamento interno dos conselhos e suas prerrogativas (que são basicamente consultivas). Duas semanas mais tarde, o governo designou a outra metade dos membros, personalidades freqüentemente escolhidas por suas competências. Em Qatif, Jafar M. Al-Shayeb foi eleito presidente do conselho municipal (mas o prefeito continua sendo nomeado); em outros lugares o prefeito nomeado acumula as duas funções.

O xeque Hassan Al-Saffar nos acolhe na grande sala de recepção de uma mansão em Qatif,. O homem é elegante, magro, usa a barba muito bem aparada e um turbante branco, símbolo dos dirigentes xiitas. Apesar de jovem, ele tem no passado uma longa carreira de ativista. Fugiu do país em 1980, depois da insurreição xiita que se seguiu à revolução iraniana de 1979. Só voltou em 1995 depois de um acordo assinado com a monarquia. Sua margem de manobra cresceu, mas continua refém das vontades políticas. Alguns de seus livros foram publicados na Arábia Saudita, mas outros tiveram de ser editados no Líbano.

O xeque é, acima de tudo, sensível às discriminações contra os xiitas. "Ée preciso acabar com isso. Certamente o diálogo nacional derrubou alguns obstáculos entre sunitas e xiitas, mas paramos no nível do debate. Uma forte pressão dos meios conservadores dentro da instituição religiosa é exercida contra esses contatos diretos. Às vezes também entre nós", reconhece. "Nós temos conhecido xeques sunitas importantes, como Salman Al-Awdah. Ele disse coisas positivas, eu penso que evoluiu. Mas ainda está submetido às pressões dos conservadores e não quer perder sua influência. Nós precisamos de iniciativas coletivas para facilitar a evolução, tanto entre os sunitas quanto os xiitas.

A repressão caiu sobre um movimento por reforma constitucional organizado entre 2002 e 2003, com a simpatia tácita do príncipe Abdallah. Três integrantes foram condenados a penas entre 6 e 9 anos

Concluindo, explica o xeque Al-Saffar, "nós não somos favoráveis às mudanças rápidas, nós não queremos transformar o país numa nova Argélia. Mas o Estado deve dar a palavra às diferentes correntes para criar uma relação de forças mais favorável à reforma. É preciso determinar as regras do jogo político e ali integrar as forças que o desejam: isso as torna mais responsáveis. Por enquanto, não há um projeto concreto e os poucos sinais positivos não passam de tinta sobre o papel."

Batalha pela reforma da Constituição

Esse relativo pessimismo também pode ser encontrado entre muitos intelectuais e militantes. No começo de 2004 foi divulgado um apelo por reforma constitucional, por iniciativa principalmente da renovação islâmica. Como o reconhece o professor Abdallah Al-Hamed, um de seus porta-vozes, eles quiseram afirmar uma presença autônoma: "Nós reivindicamos a transformação da monarquia absoluta em monarquia constituicional. A convocação de Riyad foi uma exortação à tolerância, à unidade, ao humanismo. Era exatamente o princípio daqueles que se reconheciam do Islã, porque eu pensava ser importante que se afirmasse uma corrente religiosa favorável à democracia para puxar o tapete daqueles que apelam à ruína do regime, e fazer recuar a violência. Nós pensamos que um Estado não pode ser islâmico se não é democrático, se não é regido por uma Constituição.

A demanda pela reforma constitucional foi longe demais para o Estado? Como quer que seja, a repressão caiu sobre um movimento de apoio à reforma que havia sido organizado entre 2002 e 2003, com a simpatia tácita do príncipe Abdallah, tão facilmente que acabou dividido pelo "cavaleiro solitário" dos islamistas. Para o poeta Ali Al-Doumaini, "nós fomos detidos ilegalemente, já que não violamos nenhuma lei. Nossos direitos de defesa foram ultrajados, a polícia chegou a confiscar, de dentro de nossas celas, os textos que havíamos preparado para nossa defesa. Felizmente nossas famílias possuíam cópias. O juíz nos impôs uma audiência a portas fechadas." A verdade é que a primeira sessão no tribunal havia suscitado na imprensa artigos bastante críticos contra o governo, difundidos principalmente pela internet.

Três homens foram severamente condenados: Seis anos para o professor Matrouk Al-Falih (nacionalista árabe), sete para o professor Abdallah Al-Hamed (islamista) et nove para o poeta Ali Al-Doumaini (antigo comunista). Nenhum deles cometeu crime algum, nenhum apelou à violência, todos defendiam uma reforma pacífica.

Porque o príncipe herdeiro deixou que acontecesse? A explicação mais usual leva em conta as lutas travadas internamente no governo, a dificuldade do príncipe Abdallah em afirmar sua autoridade. Isso mudou com sua ascensão ao trono e com a imensa popularidade de que goza - sua renúncia ao título de "Sua Majestade", e ao beija-mão foram bastante apreciados. "Depois que fomos liberados, explica Al-Doumaini, queríamos um encontro particular com o rei. Desejávamos vê-lo para reforçar as relações com ele, encorajá-lo a continuar pelo caminho ainda incerto da reforma. Nós só pudemos encontrá-lo em público. Cada um de nós foi entrevistado brevemente para afirmar que estávamos com ele no caminho da reforma, mãos dadas, corações unidos. O soberano respondeu que nós éramos bons cidadãos, que éramos seus irmãos e seus filhos." Al-Doumani espera poder recuperar rapidamente seu passaporte, para voltar a viajar.

Caleidoscópio: essa palavra designa "um cilindro onde fragmentos coloridos são refletidos por um jogo de espelhos angulares, [e que] bem cedo (1818) inspirou um uso figurado que exprime a idéia de uma sucessão rápida e mutante (de sensações, impressões) [6]. Ao final desta exploração caleidoscópica, qual imagem dominará a mente do leitor? A imagem das mulheres sempre oprimidas ou das que se libertam? A imagem de um Estado reformador ou fechado em seu conservadorismo? A de uma sociedade estacionária ou em movimento? Em todos os casos, esperamos que fique impregnada a imagem de um esboço certamente pouco nítido, mas mais colorido, de um país que não pode ser desenhado em preto e branco e que ainda está por ser descoberto.

(Trad.: Patrícia Andrade)



[1] Em relação a março de 1999, quando o país saiu de um difícil impasse, o índice da bolsa foi multiplicado por 10. Houve 60 milhões de transações por dia, contra 10 milhões no ano anterior.

[2] Le Monde Diplomatique debaterá no próximo mês a questão do terrorismo na Arábia Saudita, em relação à situação regional, especialmente o Iraque.

[3] Sobre o xeque e os acontecimentos de 1994, ler "Fin de règne en Arabie saoudite ", Le Monde diplomatique, agosto de 1995.

[4] Este diálogo aconteceu em Riyad (julho de 2003, problemática geral), em Meca (dezembro de 2003, sobre o diálogo intelectual), em Medina (junho de 2004, sobre as mulheres), na província do Leste (dezembro de 2004, sobre os jovens) e em Abha (dezembro de 2005).

[5] Ler Stéphane Lacroix, "Islamo-liberal politics in Saudi Arabia", in, Paul Aarts & Gerd Nonneman, Saudi Arabia in the balance, Hurst & Company, Londres, 2005.

[6] Dictionnaire historique de la langue française, Le Robert, Paris, 1992.


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