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IRAQUE

Quem são os insurgentes?

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Três anos depois da invasão de seu país pelos EUA, a resistência iraquiana mudou. Já não promove espetáculos brutais, como as decapitações. Mas, ao contrário do que diziam os EUA, a guerra deu vida nova à Al-Qaeda

Mathieu Guidère, Peter Harling - (01/05/2006)

As categorias freqüentemente utilizadas para descrever a oposição armada iraquiana fazem pensar em uma constelação de atores fingindo não ter qualquer relação entre si: antigos oficiais que permaneceram patriotas, terroristas estrangeiros, criminosos cínicos, árabes sunitas determinados a cobrar as benesses de um poder que lhes teria sido concedido há séculos, muçulmanos refratários a qualquer presença estrangeira, iraquianos simplesmente indignados pela ocupação (os POI ou “Pissed-off Iraqis” segundo o jargão militar da coalizão invasora), facções tribais que atuam com lógica de vendetta, baathistas incorrigíveis, etc.

Certas figuras chave que surgem, especialmente o jordaniano Abu Mussab Al-Zarqawi e o antigo acólito de Saddam Hussein, Izzat Ibrahim al-Duri, não aparecem, de forma alguma, como líderes incontestáveis. Como a oposição armada não criou uma representação política do tipo Sinn Fein (Irlanda do Norte) e não tornou público um programa político preciso, o que predomina é a imagem de uma multidão dividida, difusa e amplamente anônima. Porém, embora esta visão pudesse parecer pertinente, em 2003, não se deve subestimar o caminho percorrido desde então.

A emergência dos sunitas

De um modo geral, essa evolução pode ser expressa por uma forma de “decantação”. Sua composição, no início relativamente transversal — ou seja, multiconfessional – tornou-se quase que exclusivamente árabe sunita, na medida em que o processo político polarizou-se. A paisagem foi simplificada com a estabilização e expansão de alguns grandes grupos que é relativamente fácil descrever: o exército islâmico, a organização do Al-Qaeda no país dos dois rios, o exército dos partidários da tradição do Profeta, o exército de Muhammad [1], etc. Esses grupos tendem a dividir entre si um território a cada dia mais estruturado, com exceção de certas zonas como a de Diyala (próxima de Bagdá), onde a desordem perdura.

Na região de Al-Anbar, grupos humanitários iraquianos encontram hoje interlocutores com quem podem tratar de maneira quase institucional para obter salvo-condutos. Da mesma forma, motoristas rodoviários pagam, segundo um procedimento formalizado, um “seguro” que lhes permite atravessar a área – com a condição de que os bens transportados não sejam destinados ao inimigo.

Cada um desses grupos dispõe de uma verdadeira “identidade de empresa” obtida através de meios de comunicação sofisticados. Difundem materiais impressos ou audiovisuais que são reconhecidas por seus formatos gráficos, pelo padrão de suas apresentações e seus logotipos. Todos mostram-se extremamente volúveis no que diz respeito a suas razões de ser, suas leituras do conflito, seus desempenhos militares, ou suas orientações táticas.

Articulação e revisão dos métodos

A análise desses discursos revela uma outra forma de decantação: os exageros, contradições, ambigüidades e polêmicas que marcaram estes grupos por muito tempo foram substituídas por propósitos surpreendentemente uniformes. Ao longo do ano de 2005, o conjunto convergiu para uma retórica que mistura argumentos patrióticos e embasamento religioso de inspiração salafista – portanto, sunita. Debates a princípio muito acirrados sobre a legitimidade da jihad em geral, e de certos métodos em particular, foram relevados em favor de um consenso — talvez superficial, mas respeitado unanimemente. Por exemplo, ninguém mais reinvidica abertamente atos de decapitação, e menos ainda os filma – como foi o caso há apenas um ano [2].

Naturalmente permanecem divergências, o que causa tensões. Várias fontes (grupos humanitários, jornalistas locais e simpatizantes árabes) que entraram em contato com combatentes iraquianos relataram uma grande quantidade de críticas, expressas de forma privada, a respeito de Zarqawi, considerado responsável por numerosos assassinatos de caráter confessional (ou seja, anti-xiita). Certos grupos reinvidicam somente ataques contra a coalizão, o que demonstra um desacordo tácito quanto às operações que tenham como alvo civis ou mesmo de membros do aparelho de coerção iraquiano. Durante os últimos meses, a marinha dos EUA constatou uma série de incidentes na região de Al-Anbar (combates que não envolveram nenhuma de suas unidades, jihadistas estrangeiros encontrados assassinados, esforços de tribos para reafirmar sua autoridade nos territórios que ocupam). Isso sugeriu a existência de um “fosso crescente” entre combatentes de origem iraquiana e grupos completamente exógenos, instigados por um programa contrário aos interesses dos iraquianos. Esta constatação facilita uma estratégia norte-americana de contra-insurreição, que visa isolar e destruir os jihadistas (considerados irredutíveis), ao mesmo tempo em que negocia a reabsorção dos outros grupos, ampliando o processo político.

Entretanto, se diversos sinais apontam para a existência de tensões internas potencialmente centrífugas, as forças centrípetas as atraem. Atritos em escala local não impedem um alto grau de coesão num plano mais geral. O conjunto dos grupos parece se unir numa estratégia clara e aparentemente unânime. Em discursos oficiais, nenhum deles traiu o princípio de unidade, mesmo que somente de fachada, nem expôs publicamente suas recriminações quanto aos outros. Todos concordam em dizer que a formulação de um programa político seria um ato prematuro que arriscaria semear a discórdia.

No centro do alvo, o “inimigo interno”

No que diz respeito às operações militares, apesar das prioridades às vezes divergentes, todos se inserem no quadro de uma mesma doutrina informal, que surge através de um processo de debate e de reflexão coletiva em reação à segunda batalha de Falluja, em novembro de 2004 [3] . Trata-se – levando em consideração a incapacidade de qualquer defesa estática face à supremacia norte-americana – de se reorganizar constantemente nas zonas de vazio criadas pela descontinuidade do dispositivo coalizão-forças armadas iraquianas. Previne-se, graças a esta fluidez, qualquer progresso durável e cumulativo em termos de reconstrução. O trinômio “recuo, redistribuição, destruição” opõe um contra-ataque perigoso ao mantra “limpar, conservar, reconstruir” da estratégia concebida pelo governo norte-americano [4].

Sobretudo, as dinâmicas de guerra civil e de “guerra suja” jogam a favor da unidade no seio da oposição armada. A percepção de um inimigo que seria acima de tudo interno – personificado por um governo descrito como xiita, confessional e subjugado ao Iran – estimula a unidade. A minuciosa documentação dos crimes atribuídos às milícias xiitas ocupa agora um papel central nos esforços de propaganda dos diferentes grupos. Ao longo dos últimos meses, vários dentre eles colocado, explicitamente, o ataque a certas unidades iraquianas no topo de suas prioridades. Alguns chegam a anunciar a instalação de comandos dedicados exclusivamente à luta contra o inimigo interno.

O espectro da guerra civil é oficialmente dirigido contra as encenações e métodos perversos de um governo pronto a qualquer coisa para atingir seus objetivos, e disposto a cometer um genocídio – no dia em que tiver os meios para tal. A destruição com explosivos, em fevereiro de 2006, do mausoléu xiita de Samarra contribuiu para reforçar os laços no seio da oposição armada. Longe de enfraquecer Zarqawi, eterno suspeito em situações desse tipo, este acontecimento dramático serviu para isentá-lo. Todos os grandes grupos imputaram a operação ao Irã e a seus aliados locais. Todos multiplicaram as “reportagens” sobre as represálias adotadas contra os árabes sunitas, destacando o cinismo do adversário, disposto a bombardear seus próprios santuários em sua busca de pretextos para atacar. Várias investigações informais concluíram que tal operação, realizada durante o cessar-fogo, por indivíduos vestindo uniformes de comandos, em uma cidade dominada pelas forças xiitas, só poderia ser uma ação das milícias inimigas. Alguns ressaltaram que o grupo de Zarqawi – que controlou a cidade durante muito tempo, até perdê-la, no final de 2005 – teria tido um imenso prazer em demolir o mausoléu meses antes.

A “iraquização” da Al-Qaeda

A simples sobrevivência de um grupo como a Organização de Al-Qaeda no Iraque (Tandhim al-Qa’ida fi Bilad al-Rafidayn) testemunha a natureza complexa da oposição armada. A opinião comum, segundo a qual o Al-Qaeda seria um corpo completamente exógeno, composto por voluntários estrangeiros e obedecendo a uma hierarquia desligada das realidades locais, é uma ingênua ilusão. A organização comprovou uma capacidade indiscutível de canalizar, para o país, recursos financeiros e humanos das redes internacionais do djihadismo. Mas para poder operar no Iraque, ela necessitaria de uma sólida implantação local. Manter um contingente de pessoas dispostas ao martírio, por exemplo, exige uma logística cujos atores parecem ser essencialmente iraquianos (condução dos voluntários, fabricação de explosivos, trabalho de informação e planejamento tático, etc.). Sua imagem controversa e a concentração de eforços norte-americanos na busca de seus membros tornam a organização particularmente vulnerável à infiltração e à delação. Isso amplia a necessidade de ser aceita – no mínimo, passiva e relativavemente – por seu entorno imediato. Num quadro polarizado e caricatural, de oposição visceral entre “terrorismo” e “luta de liberação nacional”, Tandhi-Al Qaeda já teria desaparecido.

Sua resiliência se explica pela dimensão política da oposição armada, algo freqüentemente negligenciado, em virtude de caráter obscuro e secreto dos grupos. Eles estão igualmente envolvidos num jogo eminentemente político, quer requer ajustes ideológicos e práticos de acordo com relações internas de poder, evolução de recursos disponíveis, etc. A trajetória do Tandhi-Al Qaeda é reveladora, quanto a isso. A organização modificou-se até se tornar um fenômeno profundamente iraquiano. Esta transformação é realçada em parte pela opção tática do grupo, que “iraquizou” sua imagem pra sobreviver . Zarqawi, o líder jordaniano altamente controverso, foi pouco a pouco apagado. Deixou à frente do palco um porta-voz oficial de patrônimo iraquiano, Abou Maysara al-Iraqi. De modo revelador, seu nome evoca, em árabe, a noção de facilidade, de conforto, contradizendo as conotações de dificuldade ligadas ao pseudônimo Abou Mousab Al-Zarqawi. O comando das operações militares reivindicadas pelo Tandhim Al-Qaeda também foi confiado a uma personalidade iraquiana. Enfim, o grupo aderiu, em janeiro de 2006, a um Conselho de Acordo, reunindo-se a outros grupos locais de boa reputação. O Conselho elegeu como emir o xeque iraquiano Abdallah al-Janabi, herói do segundo bloqueio de Falluja.

O terror semeado pelos EUA

Mas a “iraquização” da Al-Qaeda é também o resultado da considerável pressão exercida pela coalizão adversária: a constante vigilância dos meios militares e de informação norte-americanos sobre a organização, conduziu à prisão ou à morte em combate de um número importante de seus eminentes membros, especialmente estrangeiros. Um organograma publicado em fevereiro de 2005, pela Nefa Foundation [5], mostra uma notável proporção de comandantes com nomes iraquianos (Al-Mouslawi, Al-Hiti, Al-Baghdadi, etc.). O aniquilamento da geração dos “árabes afegãos” — combatentes que passaram pela jihad no Afeganistão e que constituíam inicialmente a elite dirigente do Tandhim Al-Qaeda — teria precipitado a emergência de uma nova geração, composta de uma mistura de jovens iraquianos exaltados e de bandidos oportunistas, bem mais imprevisíveis e violentos que seus predecessores. Ironicamente, a obsessão norte-americana pelo Al-Qaeda no Iraque estimulou sua iraquização e seu enraizamento local. A capacidade do Tandhim na substituição de grandes perdas, recrutando em seu ambiente imediato, ilustra o “sucesso” de sua conversão.

Em resumo, a organização da Al-Qaeda no país dos dois rios tem um nome enganoso. Ela mantém apenas uma relação distante com a rede responsável pelos atentados de 11 de Setembro. A imagem de Osama Bin Laden é, certamente, marcante, mas somente enquanto ícone. Suas opiniões religiosas ou seus conselhos práticos não são solicitados – e ele próprio se encarrega, em seus pronunciamentos, de falar de generalidades. As orientações dadas por Zarqawi à jihad no Iraque revelam desavença com algumas das posições mais firmemente defendidas por Bin Laden. Em particular, a prioridade dada por Zarqawi à luta contra o “inimigo interno” se opõe à prioridade ao “inimigo externo”, de Bin Laden. Além disso, para o último, os xiitas fazem parte da ulemá muçulmana e, por isso, não são alvos legítimos.

A guerra do Iraque não deveria ser vista como um combate marginal, que demonstra a desorganização da Al-Qaeda. Trata-se de um conflito central, de um pólo de atração que desvia energias de outras frentes, como o Afeganistão, a Tchetchnia ou a Palestina e atrai recursos e atenção dos jihadistas de todo o mundo [6]. É, igualmente, um pólo de atração a partir do qual discursos mobilizadores e técnicas alimentam outros conflitos. Sintomaticamente, as inovações táticas e especialmente os atentados suicidas, se espalham das planícies iraquianas para as montanhas afegãs — e não o inverso.

No fundo, a caracterização norte-americana do inimigo deixa de lado um fato essencial: a articulação, no Iraque, das redes jihadistas e dos recursos locais é suficientemente flexível para ter sobrevivido a uma campanha contra-insurrecional que procurava explorar uma suposta divisão. Surpreendentemente, as perspectivas de guerra civil, que teriam sido rejeitdas pelas contrapartes iraquianas de combatentes estrangeiros acusados de atiçar o fogo, reforçam a unidade tática da oposição armada. Esta última está profundamente enraizada nas linhas de fratura da sociedade iraquiana. O adversário que os Estados Unidos enfrentam no Iraque é a conseqüência — e não a causa — da “guerra contra o terrorismo”.

(Tradução: Marci Helaine) marci.helaine@terra.com.br



[1] Para uma lista detalhada, ver o relatório do International Crisis Group, In Their Own Words: Reading the Iraqi Insurgency, Middle East Report, n° 50, Bruxelas, 15 de fevereiro de 2006.

[2] David Baran et Mathieu Guidère, “Sons et images de l’opposition irakienne”, Le Monde diplomatique, edição francesa, maio de 2005.

[3] David Baran, “Terre brûlée à Fallouja”, Le Monde diplomatique, edição francesa, dezembro de 2004.

[4] National Security Council. “ National Strategy for Victory in Iraq ”, Washington, novembro de 2005.

[5] Www.nefafoundation.org/misce...

[6] Cf. Thomas Hegghammer. “ Global Jihadism After the Iraq War ”, Middle East Journal, vol. 60, n° 1, Washington, inverno de 2006.


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