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TCHETCHNIA II

Dissidentes em Moscou

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Estigmatizada pelo governo Putin, a aspiração de independência da região rebelde tem, apoiadores também na Rússia

Anne Nivat - (01/05/2006)

A primeira guerra russa na Tchetchnia terminou, depois do vitorioso contra-ataque do final de agosto de 1996, com um cessar-fogo e acordos político-econômicos [1]. Mas a atual campanha militar, lançada em outubro de 1999, ainda prossegue, a despeito das negativas de Moscou [2]. A duração do conflito leva a inúmeras questões. Trata-se de genocídio? A Rússia teria mudado de objetivo com o tempo? O Islã desempenha um papel na guerra ou a usa para manipulação?

Adotada pela assembéia geral das Nações Unidas em 9 de dezembro de 1948, a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio define este último, caso extremo de crime contra a humanidade, como "extermínio intencional, sistemático e programado de um grupo étnico, lingüístico, nacional, religioso ou racial [3]". A maioria dos tchetchenos estima que este é exatamente o caráter das operações orquestradas pelo exército russo na República: eles se vêem como vítimas de um genocídio e não admitem que, juridicamente, haja dúvidas em relação a isso.

Em Moscou, por outro lado, os interlocutores são mais prudentes. Em 1994, o general Edouard Vorobiov teria se recusado a atacar a Tchetchnia e renunciado ao posto. Doze anos mais tarde, ele insiste em considerar a intervenção militar como errada porque "sempre existem outras possibilidades de resolver a questão". Mas não quer falar em "genocídio": trata-se de uma "luta contra o separatismo, a fim de conservar o território tchetchno junto à Federação da Rússia".

Até mesmo Lida Iousoupova, tchetchna que dirigiu durante quinze anos o escritório da organização russa Memorial dos Direitos do Homem em Grozny, reconhece a dificuldade de fundamentar juridicamente o recurso ao termo "genocídio", que alguns se permitem na linguagem corrente. Instalada há pouco tempo em Moscou para redigir sua tese de doutorado em Direito, ela no entanto observa: "depois do 11 de setembro de 2001, ouvimos nossos colegas freqüentemente afirmarem que não se pode utilizar esta palavra para qualificar uma ’operação anti-terrorista’. Mas por que Putin, que recebe o Hamas em Moscou, não poderia convidar Bassaiev? Na Tchetchnia, alguns combatem pela libertação, outros para impor a ordem constitucional. Mas quem se lembra do povo?»

Para que o mundo reconhecesse a existência de um genocídio dos tchetchnos, seriam necessários dados estatísticos que, como bem sabe Iousoupova, não existem: "Esperamos demais para fazer um recenseamento. Hoje, se tentarmos saber quantos tchetchnos estão mortos e quantos fugiram para a Europa Ocidental ou para a Rússia, seríamos surpreendidos. Já não existem quase tchetchnos na Tchetchnia!" De onde vem a amarga constatação a propósito da barbárie: "Eu reconheço que é muito complicado para um europeu compreender este conflito. Mas não é abominável destruir assim todos os elementos da cultura de um povo?" Depois da deportação, em 1944 [4], relembra a militante, "todos as antigas obras que relatavam nossa história, em tchetchno ou em árabe, foram queimadas em praça pública, em Grozny. Ninguém mais sabe explicar como foram construídas as antigas torres de nossas vilas nas montanhas: a tradição foi perdida. De trezentos edifícios, restam apenas cinqüenta! E nós nem mesmo temos acesso a elas por causa das tropas que estacionam nas montanhas.

Para Iousupova, o cúmulo do cinismo é quando os representantes do governo russo afirmam que, na Tchetchnia, recorreram a «métodos legais»! «Não é perverso se ocupar desta maneira de uma minoria étnica minúscula (apenas um milhão de pessoas), desencadeando um conflito que envolve a quase totalidade do Cáucaso?". Ela lança mais perguntas: «Quando os euopeus resolverem ouvir falar de todos esses pequenos grupos: karatchais, os balkars, os ingushes, os daguestaneses, etc será tarde demais. Porque é que, durante esta segunda campanha, o teatro das operações esteve fechado aos representantes das organizações internacionais e à mídia internacional?» Depois, dá sua opinião: «Porque a Rússia não tinha interesse que o mundo se desse conta dos métodos desumanos que usava para ’fazer reinar a ordem’ na Tchetchnia. A ’tchetchenização’ é a utilização, por aqueles que estão no poder, dos mesmos métodos – assassinatos, seqüestros, etc – tão caros aos represetnantes do poder russo."

Presidente do muito corajoso Comitê das Mães de Soldados, Valentina Melnikova insiste: "No fim das contas, não sabemos o que quer verdadeiramente o Kremlin, a não ser que Vladimir Putin recusa-se a negociar. As autoridades acusam a Al-Qaeda, mas são incapazes de apresentar um só documento provando a presença de mercenários estrangeiros na Tchetchnia. Neste conflito, tudo está escondido, assim como geralmente está tudo o que diz respeito ao exército. Putin e Ivanov acreditam cegamente nos relatórios de seus subalternos. Estes não passam por nenhuma verificação independente. Nenhum país civilizado teria deixado esta guerra se estender geograficamente como está».

Um último ponto (porém central) da propaganda russa: qual é o papel da religião no conflito russo-tchetchno? "Nenhum", responde a maioria dos tchetchnos, que, aliás continuam praticando o Islã "como antes", ou seja: moderadamente, graças à tradição sufi. "Envolveu-se o Islã, os islamistas e os fundamentalistas", explica Lida Iousoupova: "Mas por que apenas os muçulmanos são qualificados como extremistas? Por que não chamamos os skinheads que se pavoneiam pelas ruas das grandes cidades de ’fundamentalistas ortodoxos’?"

Melnikova não desiste: "assistimos a uma manipulação do fator religioso. Desde 1999 o Kremlin tem acusado wahabitas e fundamentalistas para esconder os verdadeiros culpados, que seria necessário combater e . Enquanto isso, a situação piora a cada dia. A liqüidação de Maskhadov radicalizou o conflito e ele só vai agravar. Quanto aos militares, eles não parecem desejar o fim da guerra, como se a situação fosse conveniente para eles. Enfim, a atitude adotada depois da catástrofe de Beslan [5] por Putin, que passou a nomear os governadores regionais antes eleitos por sufrágio universal, [6] mostra até que ponto nosso governo é incapaz: qual é a relação entre nosso modo de eleger os governadores e a ’guerra internacional contra o terror’?"

(Tradução: Patrícia Andrade) pat.patricia@voila.fr



[1] Trata-se dos acordos de Khasaviurt, assinados entre o presidente russo Boris Yelstin e Aslan Maskhadov. Chefe incontestável dos rebeldes independentistas, este último seria eleito presidente do país em janeiro de 1997, em uma eleição incentivada pela Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) e reconhecida pela Rússia.

[2] Em janeiro de 2006, o presidente Vladimir Putin afirmava mais uma vez: "A guerra acabou" Cf. sua entrevista coletiva no Kremlin, em 31/1/2005.

[3] A Carta das Nações Unidas e o artigo 8o da Convenção de Genebra obrigam a comunidade internacional a intervir para "prevenir ou estancar casos de genocídio". O artigo 6o do estatuto da Corte Penal Internacional também define o crime de genocídio.

[4] Em 23 de fevereiro de 1944, o povo vainakh (tchetchnos e inguches) foi maciçamente exilado, por Stalin, para a longínqua Ásia Central, em vagões de carga. Lá, eles encontrariam balkars, karatchais, tártaros da Criméia e alemães do Volga, todos acusados – sem provas – de colaboração com o inimigo alemão. O dia 23 de fevereiro, na época feriado comemorativo em homenagem ao exército vermelho, tornou-se, em 2005, o "dia da defesa da pátria".

[5] Em 1/9/2004, os alunos de uma escola foi transformados em reféns pelos independentistas tchetchnos em Beslan, na Ossétia do Norte. O resgate pelas forças russas resultou em mais de 300 mortos, dos quais a metade eram crianças.

[6] Antes que fossem avaliados pelos parlamentos locais.


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