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Irã, hipocrisia e interesses

Ilustração: Yili Rojas

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Por que a Casa Branca (e a mídia) querem transformar o Irã na “bola da vez”. Que medidas poderiam abrir caminho para um desarmamento nuclear completo

Antonio Martins - (23/05/2006)

“Produza a matéria, que eu produzirei a guerra”, teria dito William Randolph Hearst, magnata da mídia norte-americana, a um repórter enviado por ele para “cobrir”, em 1897, o “conflito” (até então inexistente) que levaria à anexação de Cuba pelos EUA. Uma lógica semelhante parece orientar o bombardeio midiático lançado, nas últimas semanas, contra o Irã. Se a opinião pública for convencida de que o país está disposto a produzir armas atômicas, e ameaçar com elas o Ocidente, então será possível defender um ataque militar.

Menos de três anos se passaram desde que os conglomerados de comunicação com alcance mundial endossaram as mentiras sobre “armas de destruição em massa” difundidas pela Casa Branca a respeito do Iraque. Esta insistência em repetir sem crítica os argumentos do poder é um sinal do quanto falta para assegurar o direito à informação, e de como a mídia pode ser convertida em instrumento de anestesia social e ameaça à paz. Mas vale a pena ir além. Que interesses estariam movendo a nova campanha de Washington? Ou, igualmente importante: como satisfazer o desejo legítimo das sociedades por proteção contra as armas nucleares?

Alguns textos publicados por Le Monde Diplomatique nos últimos anos ajudam a aprofundar a informação e o debate sobre estes temas cruciais. Um deles é “Quando os Estados Unidos provocam um confronto”, redigido em janeiro de 2005 por Walid Charara, jornalista especializado em assuntos árabes. O autor vê o Irã como grande obstáculo a um dos objetivos estratégicos centrais dos EUA: assegurar o controle do Oriente Médio e suas riquezas naturais – se possível, promovendo a chamada “remodelagem” da região.

Por sua população numerosa (70 milhões), sua localização estratégica e seu poder econômico não-desprezível, explica Charara, o Irã é o que se chama de “potência regional média”. Isso o transforma em possível parceiro do que o próprio Pentágono qualifica como futuros “concorrentes de mesmo nível” — ou seja, adversários (China, União Européia, Rússia e Índia) com potencial para desafiar, a médio prazo, o poder unilateral dos EUA. Para compreender melhor os objetivos geopolíticos que Washington adotou sob Bush, vale a pena ler também “A nova doutrina militar norte-americana”, de Paul-Marie de la Gorce.

O oligopólio das potências atômicas

Um amplo exame do dispositivo de direito internacional agora usado contra o Irã (o Tratado de Não-Proliferação Nuclear-TNP) foi o tema central da edição de novembro de 2005 do Le Monde Diplomatique. Em Sessenta anos de armas nucleares, Georges Le Guelte aponta a desigualdade flagrante como causa essencial da debilidade do TNP. Firmado em 1968, a partir de iniciativa dos cinco países que então possuíam armas atômicas [1], o acordo estabelece um oligopólio de potências nucleares. Autoriza os então detentores de artefatos atômicos a mantê-las; e procura obrigar todos os outros países a não desenvolvê-las...

Na mesma edição, Cyrus Safdari (O direito à tecnologia) descreve em detalhes as negociações mantidas entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) antes do início da crise atual. Sua impressão é de que, a cada concessão do Irã, a AIEA apresentava novas exigências. Além disso, as acusações atuais a Teerã teriam um sentido quase kafkiano: o país estaria sendo intimado a demonstrar que não desenvolve tecnologia que ’poderia’ ser usada, no futuro, para produzir armas atômicas... A mesma AIEA, contudo, teria adotado atitude inteiramente diversa em relação ao Egito e Coréia do Sul – dois grandes aliados dos EUA. Suas experiências nucleares secretas, muito semelhantes às desenvolvidas pelo Irã, foram descobertas pela agência, que, no entanto, contentou-se com uma “pequena repreensão”.

É admissível que um assunto gravidade tão grande quanto a difusão de armas nucleares seja tratado em meio a hipocrisia e interesses menores? Há quem julgue que não. Desde 1980, está em atividade uma ONG internacional denominada Médicos do Mundo para a Prevenção das Guerras Nucleares (IPPNW). Fundada por dois renomados cardiologistas (Bernard Lown, dos EUA, e Evgueni Chazov, da então URSS) e agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 1985, ela defende a abolição incondicional de todas as armas atômicas. Reúne 200 mil membros, espalhados por mais de 60 países. Não se limita a lançar propostas de longo prazo e demorada execução. Em seu site, é possivel encontrar, por exemplo, uma alternativa muito concreta para a crise iraniana. Assinado pela IPPNW e por diversas organizações e personalidades internacionais, um manifesto pede que o secretário-geral das Nações Unidas, Koffi Annan, intervenha no debate. Sugere-se até detalhes: constituir, tão logo quanto possível, uma “comissão de mediação da ONU, composta de personalidades de internacionalmente conhecidas” e encarregada de “encontrar saídas pacíficas num prazo de seis meses”.

Última pergunta: o público que assiste aos noticiários da TV não teria o direito de conhecer fatos como este?

Nosso dossiê:

> No Le Monde Diplomatique

Quando os Estados Unidos provocam um confronto, Walid Charara, janeiro de 2005

A nova doutrina militar norte-americana, Paul-Marie de La Gorce, março de 2002

Sessenta anos de armas nucleares, Georges La Guelte, novembro de 2005

O direito à tecnologia, Cyrus Safdar, novembro de 2005

> Outras Fontes

Médicos do Mundo para a Prevenção das Guerras Nucleares (IPPNW)



[1] Estados Unidos, União Soviética, França, Reino Unido e China.

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