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Morrer na Indonésia

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Não foi o tremor de terra – mas pobreza e desigualdade – o fator que determinou a morte de 5 mil pessoas, após o terremoto em Java. Para assegurar o direito à vida, em situações como esta, há uma alternativa muito concreta

Antonio Martins - (30/05/2006)

Cimento dos pobres. Este é o nome que se dá, na Região Especial de Yogyakarta, ilha de Java, à argamassa usada para erguer a maior parte das construções. A mistura é rica em areia – abundante e grátis, na ilha – mas raquítica em cimento. Seria uma temeridade, em qualquer parte, viver entre paredes construídas com esse material. Pior na Indonésia, um dos pontos do planeta em que repercute com mais força, na forma de terremotos e erupções vulcânicas, o choque colossal entre duas das grandes placas tectônicas do planeta: a Indo-australiana e a Eurasiana.

Construídos de acordo com as técnicas modernas, os hotéis e shopping centers de Yogyakarta – um tesouro de belezas naturais e História, que delicia visitantes europeus, japoneses e australianos – quase não foram atingidos pelo terremoto de sábado, 27/5. Mas... e as casas de quem serve os turistas? No subúrbio de Mandig Trirenggo, 80% das construções ruíram. Eram 5h54 da manhã, quando a terra começou a tremer. A densidade populacional da região [1] ultrapassa 1.000 habitantes por quilômetro quadrado – mais de seis vezes a do estado de São Paulo. O número de vítimas pode se multiplicar, nas próximas horas e dias.

“Esqueça: não temos tempo para limpeza, nem requintes”. O doutor Surapto conversou com John Aglionby, repórter do jornal inglês The Guardian, no instante em que “operava” a perna fraturada de um bebê de colo, no lobby do Hospital Senopati, o mais próximo de Mandig Trirenggo. Sem anestesia, o garoto alternava berros com a busca dos seios de sua mãe. “O centro cirúrgico está reservado para casos mais graves. O que podemos fazer, aqui, é dar alguma atenção a cada paciente e passar imediatamente para o próximo”, explicava Surapto.

Caía uma tempestade, do lado de fora do hospital. O repórter contou dezenas de pessoas esperando, cobertas com plástico ou jornal, algumas recebendo soro que vinha de bolsas penduradas em árvores [2]. Enfermeiros militares, que tentavam oferecer alguma assistência aos feridos mais graves, atordoavam-se a cada minuto, quando chegava um novo caso. As pessoas com ferimentos considerados menos graves eram simplesmente dispensadas. “Quase não posso andar, precisam fazer um raio-X das minhas costas” diria mais tarde, ao repórter, Isparwati, uma moça que se arrastava pelas ruas de Mandig Trirenggo: “Estou confusa e traumatizada. Minha mãe morreu e não podem cuidar de mim. O que está acontecendo"?

Prevenção ao alcance do ser humano

Durante milênios, os desastres naturais foram vistos como castigo dos deuses ou, ao menos, fenômenos cujas conseqüências os seres humanos eram incapazes de controlar. Era possível, no máximo, reduzir os danos, graças a certas técnicas de previsão. No Ocidente, admiravam-se, por exemplo, os métodos dos chineses, que antecipavam abalos sísmicos – e evacuavam regiões – graças à observação do galope dos cavalos, do grasnar dos gansos, da ondulação dos lagos.

Muito mudou, nas últimas décadas. Novas técnicas de construção criaram edifícios quase imunes aos terremotos. Surgiram, além disso, sistemas tecnológicos que permitem prever catástrofes. Desde 1949, Estados Unidos e Japão mantêm e aperfeiçoam, no Havaí, um centro de detecção e alerta sobre maremotos. Mesmo distante, ele captou, em 26 de dezembro de 2004, a formação do tsunami no Oceano Índico. A detecção ocorreu algumas horas antes de as ondas gigantes varrerem a Ásia e África. Mas não pôde ser anunciada, por não haver, nestes continentes, redes de difusão do alarme. Alcançada graças a saberes de toda a humanidade, esta conquista científica e técnica continua a beneficiar apenas uma minoria. Enquanto isso, mesmo em regiões de alto risco de abalos, muitos só têm um teto quando apelam para o “cimento dos pobres”.

Se existem condições para assegurar a todos o direito à vida, é eticamente aceitável permitir que tantos continuem sofrendo e morrendo? Le Monde Diplomatique e outras publicações debatem este tema em diversos textos. Poucos dias após o maremoto asiático de 2004, por exemplo, Ignacio Ramonet, diretor da edição francesa do jornal, publicou Após o tsunami. Os números expostos pelo artigo revelam como os seres humanos são desiguais, mesmo em relação ao direito elementar à vida.

Os números da desigualdade

“Uma catástrofe ’natural’ de intensidade idêntica causa menos vítimas em um país rico do que em um país pobre”, lembra Ramonet. E parte para os exemplos: “o sismo de Bam, no Irã, ocorrido em 26 de dezembro de 2003, e de 6,8 graus na escala de Richter, fez mais de 30 mil vítimas. Três meses antes, em 26 de setembro de 2003, um abalo mais violento (8 graus) na ilha Hokkaido, no Japão, não deixou mais do que alguns feridos, e nenhum morto. Outro exemplo: em 21 de maio de 2003, um terremoto de 6,2 graus atingiu a Argélia e causou mais de 3 mil mortes. Alguns dias mais tarde, um sismo mais violento – 7 graus – chacoalhou o noroeste do Japão e não deixou nenhum morto”.

Um mês mais tarde, o texto de Ramonet seria completado, no mesmo jornal, por outro, de Frédéric Durand. Ele lembrava que a ocupação dos manguezais pelos seres humanos, na Indonésia, havia liqüidado uma barreira natural entre o oceano e as populações. Em conseqüência, estas estavam, agora, diretamente sob influência das forças, muitas vezes destrutiva, das águas.

Diante das catástrofes, como assegurar ao maior número possível de pessoas o direito à vida? Como dar à humanidade condições de reagir a grandes catástrofes – como a que atingiu agora a Indonésia – cuja solução não pode ser alcançada apenas no plano nacional? Uma contribuição muito relevante ao debate deste tema foi oferecida, em 2004, pela Comissão Landau. Montada pelo governo francês, em 2003, ela reuniu um grupo de estudiosos (muitos dos quais com origem ou presença marcante nos movimentos sociais) dispostos a debater a hipótese de um sistema internacional de impostos.

Cidadania e distribuição de renda globais

Se a globalização cria uma nova esfera de poder, agora em plano internacional – perguntou a comissão – por que não permitir que os cidadãos controlem este poder? Por que não criar um espaço mundial de cidadania? Por que não oferecer aos seres humanos condições para debater e definir objetivos comuns, e tomar medidas concretas que permitam alcançá-los?

A Comissão Landau propôs, em resposta a estas perguntas, um sistema de impostos internacionais, cujos objetivos seriam redistribuir riquezas produzidas coletivamente e estimular o surgimento de uma democracia planetária. Os resultados do trabalho estão disponíveis na internet. Talvez provoquem polêmica. Mas, depois de lê-los, não é mais possível argumentar que a garantia da vida, nas condições extremas das catástrofes telúricas, depende apenas do salve-se quem puder.

NOSSO DOSSIÊ:

Le Monde Diplomatique:

> Após o tsunami, de Ignacio Ramonet

> A morte gosta da pobreza, de Frédéric Durand

Alternativas:

> Relatório da Comissão Landau

Cobertura do terremoto:

> Le Monde, França

> The Guardian, Reino Unido



[1] Yogyakarta foi capital da Indonésia durante a guerra de independência (entre 1946-1950), quando tropas holandesas ocuparam Jacarta. Abriga o templo budista de Borobudur e complexo hinduísta de Prambanan (ambos século 9), sínais da diversidade cultural e religiosa do país. Mantém o status de sultanato, herdado do império muçulmano.

[2] Segundo as últimas estatísticas disponíveis na segunda-feira, 29/5, havia 5.136 mortos, 20 mil feridos, 25 mil construções destruídas e 200 mil desabrigados

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