Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Aos super ricos, os super genes?

» A Ideologia da Mineração está em xeque

» Orçamento 2020 expõe o Bolsonaro das elites

» A esquecida questão da desigualdade energética

» Crônica de Cuba, em incerta transição

» “Direitos Já”: Uma perigosa contradição

» Cinema: Espelhos deformantes

» As mentiras da ciência a serviço do mercado

» Anatomia da próxima recessão global

» Passo a passo para frear a devastação da Amazônia

Rede Social


Edição francesa


» Les beaux jours de la corruption à la française

» Parler français ou la « langue des maîtres » ?

» Au Portugal, austérité et contestation

» Le piège du 11-Septembre

» Quand la gomme arabique fait tanguer l'Amérique

» Au Kosovo, la « sale guerre » de l'UCK

» L'école publique à l'encan

» Le régime de Khartoum bousculé par la sécession du Sud

» Les apprentis sorciers de la retraite à points

» Hongkong dans l'étau chinois


Edição em inglês


» September: the longer view

» Afghan peace talks: Trump tweets, Taliban fights

» An inexhaustible myth in times of extreme adversity

» What happened to social solidarity?

» Sudan: conflict, violence and repression

» Russia's appointed billionaires

» Another end is possible

» Arms sales: the Swedish model

» Soft power influence in the Arabian Gulf

» Life with bribes and kickbacks


Edição portuguesa


» Edição de Setembro de 2019

» Portugal não pode parar?

» Quem elegeu Ursula von der Leyen?

» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019



PALESTINA

Hamas: a prova do poder

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

Radiografia de uma crise sem fim: as razões da vitória do Hamas, as pressões internacionais sobre o novo governo, os riscos de um conflito entre os próprios grupos árabes e a hipótese de um acordo que restaure a luta pela libertação nacional

Wendy Kristianasen - (01/06/2006)

“Nenhum governo viveu tamanhas pressões até agora: estamos paralisados. Não há tempo para respirar nem para pensar.” Dr. Aziz Dwaik, de Ramallah, é o presidente do Conselho Legislativo Palestino. Diplomado em universidades norte-americanas, ele conhece bem o Ocidente. “Se o Ocidente quer o fracasso do Hamas, de acordo. Mas isto não levará nem à paz nem à prosperidade: o que veremos é uma radicalização dos palestinos e a região pagará caro por isso”.

Já faltam recursos. Ainda que a União Européia prometa retomar sua ajuda direta, sob uma forma ainda a definir, o cerco imposto por Israel e pelo Ocidente ao governo dirigido pelo Movimento Islâmico de Resistência (Hamas), desde as eleições de janeiro de 2006, leva a uma situação dramática na Cisjordânia e em Gaza, que faz recordar a do Iraque, durante os anos de embargo. Milhares de pessoas não dispõem de dinheiro, alimentos, remédios e gasolina. Os hospitais suspenderam os tratamentos que não sejam urgentes. Estas sanções, impostas a um governo resultante de eleições transparentes e desejadas por Washington, também provocaram tensões internas. De um lado, ficaram o Fatah e o presidente da Autoridade Palestina; de outro, o Hamas.

Dependem dos salários pagos pela Autoridade Palestina 700 mil pessoas. “Entre 120 mil e 167 mil novos funcionários foram contratados entre 2000 e 2006”, reconhece Mahmud Ramahi, Secretário Geral do Conselho Legislativo. “Nos últimos três meses do antigo governo, recrutaram-se 10 mil”. Estas novas contratações deveriam assegurar a vitória do Fatah. De um orçamento de 1,8 bilhão de dólares em 2005, 790 milhões são provenientes de impostos alfandegários, que Israel tinha de transferir, mas cessou de fazê-lo, e 360 milhões de impostos internos. O resto é ajuda internacional.

A Autoridade Palestina tem 70 mil membros das forças de segurança, 40 mil professores e 9 mil profissionais da área médica. “O salário dos professores representa um terço dos salários pagos pela Autoridade Palestina”, afirma Nasser Eddin Al-Shaer, vice-primeiro-ministro e ministro da Educação. “Alguns não são pagos há nove meses. A falta de pagamento acumulou-se e não nos resta sequer um dólar no ministério. O setor privado também sofre e sem auxílio não podemos fazer nada. As pessoas já estão sofrendo e não sabemos até que ponto chegará sua paciência. Já temos de enfrentar agitação social, política e greves”.

“Condições” ou chantagem?

O novo governo voltou-se para o mundo árabe e muçulmano. Egito e Jordânia distanciaram-se, por temerem uma repercussão interna do êxito de um governo dirigido por islamistas. Outros países prometeram seu apoio, confirma o ministro da Fazenda, Omar Abdel-Razeq: “35 milhões de dólares chegaram da Argélia antes de ocuparmos nossas funções; 10 milhões de dólares da Rússia serão empregados na área de saúde. Temos 70 milhões de dólares em depósito na Liga Árabe, 50 milhões prometidos por Qatar, 20 milhões pela Arábia Saudita, 50 milhões ou 100 milhões pelo Irã e 50 milhões pela Líbia. O problema é conseguir acesso ao dinheiro, pois os bancos estão sob pressão, particularmente dos Estados Unidos, para não transferi-lo”.

A União Européia, os Estados Unidos e outros fornecedores de ajuda impuseram três condições ao novo governo palestino: denunciar a violência; reconhecer o Estado de Israel; aceitar os acordos já assinados entre Israel e os palestinos. Porém, ao governo israelense não foi formulada nenhuma exigência. “É um chamado para despertar”, afirma Soraida Hussein, uma militante laica dos direitos da mulher em Ramallah. Devemos rejeitar as intervenções ocidentais e isto significa apoiar o Hamas. As pessoas votaram nele e sua escolha deve ser respeitada”.

Ghassan Khatib, um ex-ministro, membro do Partido do Povo (ex-comunista), exprime uma posição semelhante: “As pessoas no exterior não entendem bem como é forte aqui a oposição aos Estados Unidos. Se o governo falhar, o Hamas sairá engrandecido, por ter sido punido pelo Ocidente. Adquirirá força e legitimidade, será o único a ganhar. Será que Washington se dá conta disto?” Ele faz um alerta: “Se o Hamas quer que a Autoridade Palestina sobreviva, terá de fazer duras concessões. Arafat levou vinte anos para fazê-las e não se dá nenhum prazo ao Hamas. Em contrapartida, se ele fizer concessões, arrisca perder uma parte da sua base eleitoral.

No gabinete do primeiro-ministro Ismail Haniyeh em Gaza, é fácil perceber a tensão. O conselheiro político Ahmad Yussef exprime sua inquietude quanto à segurança de Haniyeh. A Segurança Preventiva, dominada pelo Fatah, não o autoriza a utilizar uma rota controlada por ela, obrigando-o a fazer o contorno por uma pequena via. Sorrindo, Haniyeb abre caminho através de um circo midiático: as câmeras crepitam enquanto posa diante de uma enorme fotografia da mesquita El-Aqsa, pendurada na parede atrás de sua mesa de trabalho. Ele mostra as jóias de ouro, oferecidas por famílias como ajuda ao governo, e telefona para Romano Prodi a fim de parabenizá-lo por sua vitória na Itália.

É prudente ao falar. “Respeitaremos os acordos com Israel, se forem do interesse dos palestinos.” A iniciativa da cúpula árabe de Beirute, em março de 2002, fundamentada sobre a coexistência de dois Estados, Palestina e Israel, com base nas fronteiras estabelecidas em 1967, “tem muitos aspectos positivos. Se tivermos hesitações, as tornaremos públicas, quando Israel aceitar esta iniciativa”. O governo israelense se prontifica a aceitar todas as resoluções das Nações Unidas sobre o conflito israelo-palestino? “Estamos dispostos a trabalhar com elas e levá-las a sério, se estiverem dentro dos interesses dos palestinos e se Israel também as aceitar”. Isto compreende a resolução 242 [1]? “Se os israelenses se retirarem, de acordo, agiremos conforme a situação. Mas a política unilateral que não nos leva em consideração, e que antes de nós tampouco considerava Mahmud Abbas, não é uma solução justa nem pacífica”.

Em Ramallah, o ministro da Fazenda, Abdel-Razeq, vai mais longe: “Devemos ver primeiramente o que os israelenses oferecem, em seguida não vejo obstáculos para a negociação. Se Israel se retirar unilateralmente e for criado um Estado Palestino independente, então poderemos negociar uma trégua ou mesmo uma solução fundamentada em dois Estados. Mas é preciso que as condições sejam justas, o que significa a retirada total de Israel respeitando as fronteiras de 1967, inclusive Jerusalém; o fim das colônias e a demolição do muro de separação; a permissão aos refugiados de voltarem e de serem indenizados, incluindo indenizações pelos sofrimentos de nosso povo sob a ocupação. Trata-se de reconhecer a realidade sobre o terreno”.

Este homem de jeito delicado ainda estava na prisão durante a campanha eleitoral e foi posto em liberdade sob condições para poder tomar suas funções, mas foi convocado perante um tribunal israelense no final do mês de maio. De 74 deputados do Hamas, apenas um nunca esteve na prisão.

O trabalho do Conselho Legislativo e das Comissões é realizado ao mesmo tempo em Ramallah e em Gaza, um sistema de vídeo possibilita a comunicação entre os eleitos das duas regiões. As autoridades da ocupação proíbem a maioria deles de atravessar as dezenas de quilômetros que separam as duas entidades, cada vez mais apartadas uma da outra.

Em Gaza, Ghazi Hamed, o porta-voz do governo, explica: “Dissemos aos europeus que estávamos dispostos ao compromisso político. Porém, o Ocidente deve cessar com a imposição de condições. Pois que garantia nos dá? E como podemos aceitar acordos que os israelenses rejeitam? Somos bem claros: se Israel aceitar a resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, também a aceitaremos. Mas Israel deverá dar o primeiro passo, porque não temos terras a oferecer, a única coisa que poderíamos oferecer é a segurança”.

Se os palestinos votaram no Hamas, é devido à sua integridade, não envolvimento com corrupção, por terem uma base social sólida e apresentarem um balanço positivo de sua administração municipal. Também pelo fracasso estratégico do Fatah [2]. Presidente do Centro Palestino para os Direitos da Pessoa Humana, em Gaza, Raji Surani nos precisa: “Como organização, o Hamas está bem à frente de seus adversários. É a única força nos territórios ocupados deixando os outros para trás. As pessoas lhe concedem o benefício da dúvida, visto que estes dirigentes e seus eleitos são pessoas comuns como nós. A realidade nua e crua é a seguinte: Continuamos a viver na dependência do ocupador que decide sobre a cor das nossas roupas íntimas, os medicamentos que ministramos às nossas crianças. Estamos sufocados. Israel designou Arafat como o patrocinador do terrorismo impondo-lhe um cerco. Mahmud Abbas [conhecido também por Abu Mazen] o substituiu e Israel não achou tempo para negociar com ele. E agora estamos sendo punidos por termos expresso livremente nossa vontade elegendo o Hamas. O que há de novo nisso? Já havíamos sido designados como inimigos. Mas o que está acontecendo agora, cria condições para que o Al-quaida ganhe terreno”.

Rawya Shawa, membro independente do Conselho Legislativo e uma das raras mulheres de Gaza a não usar o véu, irrita-se: “Eu era contra o Fatah, porque ele fazia a sociedade retroceder. É por este motivo que os eleitores votaram no Hamas. Eu o apoiarei enquanto ele combater a corrupção. Para uma sociedade muçulmana e conservadora como a nossa, sua vitória não representa uma mudança. Ele não imporá um governo do tipo komeinista”. É o que confirma, em Ramallah, Kahleda Jarrar, bastante laica, deputada do Conselho legislativo e membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). “O problema para as mulheres não é o Hamas, porém o Fatah que na última legislatura propôs leis muito retrógradas, com referência ao Islã no âmbito penal ou a limitação de uma pena de simplesmente seis meses para os crimes de honra”. Diplomada em Direito muçulmano, membro do Conselho Legisltivo do Hamas e ministra das Mulheres, Mariam Saleh insiste: ‘Sim, precisamos de reforma social: igualdade de direitos para a mulher no trabalho, reforma do Código da Família e das leis sobre a herança”.

O número de pessoas hostis ao Fatah é elevado em Gaza. Sufian Abu-Zeida, antigo ministro encarregado dos prisioneiros em Israel nos recebeu em sua casa perto do campo de Jabaliyya. O Fatah tirará proveito deste momento para superar suas diferenças internas e se reformar? “Infelizmente não creio”. Aqui o barulho dos bombardeios é mais próximo. Eles atingem prioritariamente os arredores das faixas de terra poeirentas, utilizadas pelas milícias do Fatah e do Djihad islâmico para atirar mísseis Qassam contra o Estado judaico, que na maioria caem no mar. A resposta israelense, desproporcional e ininterrupta atinge terras em Beit Hanun e Beit Lahya que contornam a rota em direção ao checkpoint de Eretz.

Não muito longe, em Sudanya, na cidade de Khaled Al-Yazji, antigo conselheiro de Arafat e ministro adjunto do Interior, sob Mahmud Abbas, uma detonação ensurdecedora quebra a tranqüilidade. O telefone toca poucas vezes: um avião ou um drone [veículo pilotado por controle remoto]. Não morreu nenhuma criança. Retomamos a conversa. “Não deixei o Fatah que é um self-service. Um pequeno grupo nos traiu. Já é tempo de ele partir. O Fatah é incapaz de reformar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), então deixemos que o Hamas tome conta disto”.

O Hamas deseja talvez pôr um fim à violência, especialmente aos ataques praticados a partir de Gaza e que, como seus responsáveis, em esfera privada, admitem, são inúteis e até mesmo nefastos. Há mais de um ano que ele aderiu estritamente ao tahdiah (período de calma). Jamil Hilal, sociólogo e membro independente do Conselho Nacional Palestino, acha que já é tempo de o “Hamas definir o que entende por resistência e, sobretudo, de tomar posição em relação aos atentados suicidas, assim como às suas vítimas.” Em 18 de abril de 2006, mais de uma dezena de pessoas foram mortas em Tel-Aviv no atentado suicida mais grave desde agosto de 2004. Por um lado, Mahmud Abbas denunciou um ato “repugnante”, por outro, o porta-voz do Hamas, Sami Abu-Zuhri explicou para a BBC que se tratava “de um ato de autodefesa (...) de uma resposta natural à agressão israelense...” Os palestinos continuarão sua resistência, mas ela deve limitar-se aos militares e aos colonos”.

Por que não se disse que havia sido o Djihad islâmico e não o Hamas que tinha cometido o atentado, e que o Hamas estava cumprindo o tahdia? Interrogado dois dias mais tarde, disse: “Não nos parecia favorável pronunciarmo-nos favoráveis à calma”, Dado que o Hamas não renunciou oficialmente à violência. Verdade é que na semana precedente, vinte palestinos haviam sido mortos em Gaza pelo exército israelense.

O movimento fez, portanto, um longo caminho, da luta armada a uma estratégia de união de todos os palestinos na luta contra os acordos de Oslo que “vendiam a Palestina” [3] . Foram necessários muitos anos para que o Hamas entrasse na arena política, uma maneira de reconhecer a Autoridade Palestina, criada precisamente pelos acordos de Oslo, depois para participar não só das eleições municipais, como também daquelas do Coselho Legislativo realizadas neste quadro.

Quanto mais dispersa a direção do movimento entre os diversos centros, mais difícil se torna o debate interno: em Gaza, onde foi criado o Hamas no início da primeira Intifada (1987), que quer manter seu papel dirigente; na Cisjordânia; e enfim no exterior (primeiramente em Amã, depois em Damasco). A vitória eleitoral, a qual o Hamas não esperava e para a qual não havia se preparado, levou-o a assumir uma parte da Autoridade Palestina. Nas municipalidades mostrou-se pragmático e não concretizou sua visão de uma sociedade islâmica, mas quanto ao futuro, permanece vago...

Um político moderado, Haniyeh, foi escolhido como primeiro-ministro, em detrimento do Dr. Mahmud Zahhar, o atual ministro das Relações Exteriores, mais radical e único sobrevivente da direção histórica (xeique Ahmad Yassin, Abdelaziz Rantinsi, Ismael Abu-Shanab foram assassinados pelos israelenses). Com seus 43 anos vive modestamente no campo de refugiados de Shati, em Gaza.

Mas enquanto o Hamas mantém suas estruturas clandestinas, grande número de seus altos funcionários ocupam doravante posições oficiais internas. O escritório político da organização no exterior, dirigida por Khaled Meshal, fala pelos e aos palestinos que vivem na diáspora. Assim, dentro da Palestina e no exterior suas bases são separadas, o que lhe confere uma certa vagueza. O movimento não deixou de alterar sua carta constitucional ou de negociar com Israel baseando-se nas fronteiras definidas em 1967. Mas o que ele fará no futuro, continua pouco claro.

No entanto, as prioridades atuais são o boicote internacional e as tensões internas entre o Fatah e o Hamas. Um dos obstáculos para uma coabitação frutuosa advém do fato de o Hamas não ter se juntado à OLP. Entretanto, se por um lado, a organização não é membro da OLP, por outro, todos os membros do Conselho Legislativo pertencem de direito ao Conselho Nacional Palestino (CNP), órgão supremo da OLP... Deste modo, o Hamas ocupa 10% das cadeiras do CNP sem ser membro. Durante muito tempo, a organização contestou o título da OLP “como única representante legítima do povo palestino”, contudo, desde a Declaração do Cairo, assinada por treze organizações palestinas, em 17 de março de 2005 [4], ele aceita reconhecer a OLP reclamando 40% das cadeiras no CNP.

Antigo ministro, deputado independente e possível ministro das Relações Exteriores em um governo de união nacional, Ziad Abu-Amr, afirma representar uma “terceira voz”. No seu escritório em Gaza, enquanto se ouvem os bombardeios, ele se surpreende com as posições do novo governo: “É irônico constatar que o Hamas tenha reconhecido a OLP como única representante legítima dos palestinos quando ele era apenas um movimento, e que, no entanto, recusa fazê-lo enquanto governo. Normalmente, um governo é mais moderado que um partido”. Ele retoma a questão sobre as tentativas malogradas de se criar um governo de unidade nacional: “O obstáculo era o programa político do Hamas. Os dirigentes teriam aceito ceder postos importantes, sob condição de que seu programa não fosse torpedeado. Quando falam de partilha de poder, não querem restringir sua capacidade de decisão, querem introduzir uma dimensão de autenticidade na política. Acham desonrante aliar-se aos nacionalistas decadentes. E com sua vitória eleitoral tampouco, ao menos nas primeiras semanas, pareceu-lhe necessária um aliança. “Todavia, prossegue nosso interlocutor, “com sua ampla vitória poderiam ter feito um acordo”.

Um dos pontos de atrito concerne o acordo sobre o controle da passagem de Rafah, entre Gaza e o Egito, como querem os fiscais da União Européia. O Hamas aceitou a decisão, mas não a maneira como foi tomada: “Ficamos sabendo pelos jornais”, explica um dos oficiais. A decisão de Said Siam’s, ministro do Interior, de criar, em abril, uma força de 3000 homens para ajudar a polícia e a segurança, criou uma nova fonte de tensão. Como líder, havia nomeado Jamal Samahadanah, um comandante dos comitês populares de resistência, procurado pelos israelenses. Mahmud Abbas declarou em seguida esta decisão como “ilegal e inconstitucional”. Não obstante, esta força começou a operar em 17 de maio.

Em Gaza, rodeado de guarda-costas, o porta-voz do ministro do Interior, Khaled Abu Hilal, afirma: “Temos um programa nacional. Eu me demiti das brigadas Al-Aqsa [5] para tornar-me o porta-voz de um ministro do Hamas, sem deixar o Fatah. Minha mulher integra o Hamas, meu cunhado a FPLP. Mas todos nós somos contra a corrupção”. Prossegue: “A força que criamos começará a recuperar as terras públicas que foram dispersas no clima de anarquia que conhecemos. Queremos o apoio das grandes famílias, dos clãs e dos moukhtars (prefeitos locais) para confiscar armas ilegais. Queremos reconstruir nossa sociedade arruinada, não só pela ocupação, como também por uma parte do Fatah.”

A tensão elevou-se mais um grau, quando Khaled Meshal acusou o presidente da Autoridade Palestina de estar de conluio com os Estados Unidos e Israel para desestabilizar o governo [6]. Os partidários do Fatah foram às ruas, houve agitações nas universidades e os conflitos causaram mais 40 feridos, levando Mahmud Abbas a cancelar um desfile das milícias do Fatah. Em 23 de abril, os membros deste movimento tomaram de assalto a sede municipal de Naplouse assim como a sede do ministro da Saúde, em Gaza, o qual havia anunciado uma redução de dois milhões de dólares mensais nas despesas públicas.

Em Ramallah, dois ministros tomaram, de maneira inequívoca, distância do Hamas. O primeiro-ministro adjunto e igualmente ministro da Educação, Shaer, afirma: “precisamos ser claros. O Hamas tem de ter interventores externos, mas aqui falamos de diálogo nacional. Não necessitamos de Khaled Meshal. Ele não representa o governo”. Abdel-Razeq explica: “A declaração de Meshal foi deturpada; ele visava apenas um grupo de pessoas, embora não seja o momento ideal para dizê-lo e algumas coisas, que ele disse, estavam erradas”.

Em 8 de maio, enquanto prosseguiam os confrontos em Gaza, provocando três mortes e onze feridos, Mahmud Abbas e Haniyeh encontravam-se para um debate. O espírito de reconciliação era também perceptível na declaração comum - assinada em 11 de maio pelos dirigentes de todas as organizações palestinas presos, incluindo o Djihad islâmico, em particular por Marwan Barghuti, líder do Fatah na Cisjordânia, e pelo xeique Abdel Halek Natshe do Hamas. Esta declaração implicava a aceitação de um Estado palestino independente sobre todos os territórios ocupados em 1967, o direito de retorno e a liberdade dos detidos. Também pleiteava um reforma na OLP. No mesmo dia em Qatar, Meshal clamava pela unidade entre o Fatah e o Hamas, porém, sobre uma (outra) plataforma de “libertação da palestina e de luta pela liberdade [7]”.

Será que tudo isto assinala um tipo de partilha de poder que evitaria o desmoronamento? Abdel-Razeq é otimista: “Chegaremos a uma colaboração entre o governo e o presidente, o que nos conduzirá finalmente a um governo de unidade nacional, se formos pacientes e fizermos compromissos ideológicos. O governo terá ele próprio de tomar decisões mais moderadas, o que o Hamas não pode fazer enquanto organização.”

Este cenário seria preferível. Mas se a crise financeira for evitada, o Hamas e o Fatah serão capazes de fazer compromissos necessários? O professor George Giacaman, fundador do think-thank Mouwatin (cidadão), com base em Ramallah, não concorda: “Nenhum dos dois lados está preparado para fazê-lo” Sua solução? Um governo de tecnocratas, com uma forte proporção de professores, poderia ser uma solução de compromisso. [8] Um outro cenário talvez mais verossímil, seria dar um passo rumo a um governo de união nacional, concedendo um ou dois ministérios.

E se tudo isso fracassar? “Demitiremo-nos com dignidade”, afirma Ghazi Hamed, o porta-voz do governo. Como observa Abdel-Razeq: “Se o governo cair, o Hamas continuará poderoso e o Conselho Legislativo assim como a ocupação permanecerão. Mas o sistema político vai se desmoronar.” Então, Israel deverá administrar diretamente os territórios palestinos. Esta perspectiva relançará novamente o debate sobre o papel da Autoridade Palestina. Agora que cessou o processo de paz, qual é seu papel, senão pagar os salários dos funcionários? Seja como for o futuro, o Hamas não desaparecerá.

Tradução: Simone Pereira Gonçalves simonepg@hotmail.com



[1] Resolução adotada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 22 de novembro de 1967, seis meses após a Guerra dos Seis Dias. Ela prevê particularmente o reconhecimento da independência e da integridade territorial dos dois Estados.

[2] Ler Hussein Agha e Robert Malley, “Palestina, Poder Quase sem Fôlego”, Le Monde Diplomatique, janeiro de 2006.

[3] Ler especialmente “Islamistes palestiniens, la nouvelle génération” e “Douloureux réveil pour le Hamas”, Le Monde Diplomatique, respectivamente junho de 1995 e setembro de 1996.

[4] Ler a declaração em inglês http://domino.un.org/UNISPAL.nsf/1ce874ab1832a53e852570bb006dfaf6/69b9d56df48732c/4.

[5] As Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa são uma milícia armada, ligada ao Fatah e criada após a deflagração da segunda Intifada em 2000; seus altos funcionários vêm, sobretudo, do Tanzim, grupo militante de jovens do Fatah. Elas provocaram ataques armados não somente contra os militares israelenses como também contra os civis.

[6] Jerusalem Post, 23 de abril de 2006.

[7] Palestinian Information Centre, 13 de maio de 2006, http://www.palestine-info.co.uk/am/publish/article_18196.shml.

[8] Contam-se cerca de 40.000 professores distribuídos aproximadamente de forma igualitária entre o Fatah e o Hamas.


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos