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Um adeus francês à África?

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Incapaz de promover de fato os direitos humanos e o desenvolvimento, associada com freqüência a governantes antidemocráticos e corruptos, a França vê suas zonas de influência na África ameaçadas pelos Estados Unidos e China

Admore Mupoki Kambudzi , Delphine Lecoutre - (01/06/2006)

“Fim do império francês na África [1]”, “A França retira-se da África [2]”, “Paris é ultrapassada [3]”... Os títulos alarmistas dos jornais franceses e estrangeiros multiplicam-se. Além disso, a literatura crítica da “Françáfrique” não pára de proliferar desde o início dos anos 1990, quando o envolvimento de Paris nos dramas tais como o genocídio em Ruanda acabou confundir sua imagem [4]. A crise é profunda: “Já seria hora”, advertiu Pascal Chaigneau, diretor do Centro de Estudos Diplomáticos e Estratégicos (CEDS), “se desejarmos preservar nossa credibilidade e nossos interesses, de abandonar a política de pequenos passos cambaleantes, para elaborar o que o presidente Senghor considerava uma visão do que a África deveria ser para a França e do que a França poderia fazer pela África [5]”.

Com o fim da guerra fria, a França perdeu progressivamente, de fato, seu “lugar privilegiado” no continente. Suas empresas enfrentam a concorrência das firmas chinesas e norte-americanas [6] e sua autoridade política na África francófona está sendo contestada: particularmente na Costa do Marfim, o presidente Laurent Gbagbo apresenta-se como o porta-voz das novas elites que desejam contestar seu “diktat” [7]; no Togo ou no Tchad, as oposições denunciam o apoio de Paris aos regimes autoritários no poder [8].

Inúmeros africanos consideram que a França sacrificou os interesses do continente em proveito dos seus próprios. Estimam que ela se fecha em uma retórica distante das realidades. Escritores, como o senegalês Boubacar Boris Diop, ou dirigentes políticos, como o centro-africano Jean-Paul N’Goupandé, repetem com força essas críticas [9].

Motivos da desilusão africana

As causas desses julgamentos, geralmente severos, são diversas. Em primeiro lugar, a política migratória restritiva adotada pela França, a partir dos anos 1990, choca profundamente o continente negro. Os africanos, arrastados às filas de espera humilhantes e intermináveis diante dos consulados, têm o sentimento de estar sendo tratados “como gado”. Eles se sentiram particularmente aviltados pelas leis Pasqua, adotadas em 1993 e nunca contestadas, as quais obrigam os estudantes a assinar um formulário que os obriga a deixar o território francês imediatamente após a obtenção do diploma. As recentes medidas tomadas pelo ministro do interior, Nicolas Sarkozy, reforçam o ressentimento.

Além disso, a França dá poucas esperanças de êxito aos jovens africanos. Durante sua permanência nesse país, eles têm a impressão de serem párias. Sentem que sistematicamente recai sobre si a suspeita de serem ilegais. Em contraste, não faltam exemplos de êxito dos africanos francófonos nos Estados Unidos e no Canadá. É o caso do astrofísico de origem malinesa, xeque Modibo Diarra, formado pela Universidade Pierre e Marie Curie (Paris) e pela Universidade de Howard (Washington), que se tornou navegador chefe da Nasa. Em conseqüência, os estudantes francófonos migram em massa para o Canadá e para os Estados Unidos. Dos vistos DV (diversity visa) concedidos pelos EUA, 35% contemplam africanos. O Senegal é o maior beneficiário, na África francófona, das bolsas de estudos para os Estados Unidos.

Progressivamente, o sentimento de ter uma relação específica com a França desaparece, diminuindo as antigas afinidades e a influência de Paris. A geração de africanos intimamente ligada à França, impregnada da sua cultura, parece estar em vias de extinção [10]. Os jovens nascidos na época ou após as independências não mantêm o mesmo vínculo com a antiga metrópole e os novos executivos africanos sentem-se muito à vontade com a globalização. Essas elites “emancipadas” sentem-se liberadas de seus laços, a ponto de preferirem, por exemplo, os Estados Unidos à França.

Os dirigentes africanos e os dirigentes administrativos encontram-se “anglofonizados” no seu modo de ação e nos seus centros de interesses. Assim, é cada vez mais comum encontrar jovens ministros francófonos (como, por exemplo, o Ministro de Negócios Exteriores do Senegal, xeque Tidiane Gadio) pronunciando seus discursos em inglês e adotando posições pró-norte-americanas.

Devastador apoio às ditaduras

Em segundo lugar, a França tem a reputação de apoiar, apesar da oposição de todos, os ditadores do espaço francófono. Para citar citando apenas os falecidos, Jean Bedel Bokassa (África Central), Joseph Mobutu (Zaire) e Gnassingbé Eyadema (Togo). Paris opôs-se, particularmente, às sanções impostas pela União Européia contra o Togo, em 1993. As contradições políticas da antiga metrópole estão se tornando cada vez mais evidentes. Provavelmente sofrendo do complexo de culpa do colonizador, a França afirma não desejar se ingerir nos negócios internos africanos – sem, contudo, permanecer indiferente. Por outro lado, ela preconiza a estabilidade das relações internacionais, o que a incita a fechar os olhos à natureza dos regimes locais constituídos. Além disso, os interesses econômicos de suas grandes empresas levam-na a determinadas condescendências. O mal-estar é decorrente, assim, da incapacidade de a França conformar-se aos seus grandes discursos sobre os direitos humanos. Essa atitude explica, em parte, a relação de amor e ódio que, por vezes, os africanos mantêm com ela.

Diante de tais incoerências, cada vez mais quadros políticos africanos íntegros e competentes estão dispostos a conquistar o poder de modo inconstitucional, para obter a democratização do seu respectivo país. O golpe de Estado de 3 de agosto de 2005, na Mauritânia, organizado pelo coronel Ely Ould Mohamed Vall visando pôr fim à ditadura do presidente Maaouiya Ould Taya, constitui um aviso endereçado à França – ou seja, a democratização do continente será feita com ou sem ela [11]. “Estamos contentes, queremos que a França e o mundo moderno saibam que hoje os mauritanos são livres”, afirmava um manifestante de Nuakchot [12]. Tal cenário já se produziu no Mali, em 1991, com o general Amadu Tumani Touré. Cada vez mais, os opositores vão procurar o apoio dos Estados Unidos, como o fez François Fall (Guiné).

Em terceiro lugar, a França parece estar diminuindo seu apoio ao continente negro: redução constante do orçamento da Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD), do número de cooperantes e de peritos destinados ao continente, bem como de expatriados. A APD aos países da África Subsaariana caiu de 3,1 bilhões de euros, em 1990 a 1,4 bilhão em 1999 – ou seja, uma redução de 55%. Na metade dos anos 1980, mais de 200 mil expatriados viviam no continente. Vinte anos mais tarde, esse número reduziu-se à metade. Além disso, os orçamentos dos centros culturais, que até então, pelo menos constituíam uma vitrine, foram amplamente cortados.

Matérias-primas, ainda saqueadas

Em quarto lugar, as populações aceitam cada vez menos a exploração de matérias-primas abundantes, sem que disso resulte uma decolagem econômica. O espaço francófono é rico: petróleo (Gabão, Congo, Camarões, Tchad), madeira (Gabão e Camarões) etc. Os lucros obtidos há décadas pelas firmas francesas, sem que haja melhoria das condições de vida das populações é contestado cada vez mais vivamente. Tais populações exigem uma relação equilibrada com a França e uma diversificação dos parceiros econômicos (China, Estados Unidos, Japão etc.). “Chirac Go Home. Bush Welcome”, proclamavam as faixas dos manifestantes em Abidjã, no outono de 2004. Após o encerramento da luta para a libertação política, a luta para a emancipação econômica e para o desenvolvimento do continente é o combate que muitos africanos desejam travar.

Um número crescente de Estados africanos francófonos manifestam desejo de acabar com os “pactos coloniais” e estão prontos para assinar acordos privilegiados com outras potências não-européias. A título de exemplo, podemos citar a troca de matérias-primas (particularmente o petróleo no Sudão) pela construção de infra-estruturas rodoviárias pela China. As obras permitem, também, o escoamento dos produtos chineses a baixo preço, disputados por todos, e sem nenhuma exigência em termos de democracia.

Em quinto lugar, a França parece não mais ter uma política africana clara. Como explicar uma defasagem tão profunda entre um discurso eloqüente, em nome do direito internacional, do então Ministro de Negócios Exteriores, Dominique de Villepin, sobre o conflito no Iraque, e uma abordagem tão sem ousadia relativa ao desenvolvimento do continente africano? É verdade que o ministro elaborou, no final de 2002, um “mapa da estrada” destinado a “uma africanização da política africana, entendida como a necessidade não de substituir os governos africanos, mas, ao contrário, de neles se apoiar para resolver os desafios com os quais eles se confrontam”. Não obstante, as autoridades francesas continuam com uma retórica obsoleta e paternalista.

Paris parece ignorar a emergência de verdadeiras potências africanas nos terrenos econômicos e diplomáticos: a África do Sul, o Egito, a Nigéria, a Argélia, a Líbia, o Senegal e a Etiópia. As Cúpulas França-África, reuniões solenes cada vez mais estéreis, traduzem essa falta de visão estratégica. Além disso, em termos de desenvolvimento econômico, a França insiste em privilegiar uma abordagem elitista e institucional em prejuízo de "uma abordagem ascendente”. Resulta desses fatos que o setor associativo africano (camponeses, mulheres, artesãos etc.) está reivindicando um verdadeiro papel nas opções políticas e sociais. A criação, no final de março de 2005, do Conselho Econômico, Social e Cultural da União Africana, servirá, particularmente, de espaço para um diálogo permanente entre os governos e todos os membros da “sociedade civil” [13].

Um possível caminho alternativo

Contrastando com os erros e as hesitações da França, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha garantem uma estratégia concreta, baseada em interesses bem definidos (por exemplo, o acordo de livre-comércio African Growth and Opportunity Act ou AGOA, Comissão Blair [14], etc.). Essa atitude tem, ao menos, o mérito da clareza do cinismo mercantil.

Cabe à França mostrar aos seus parceiros africanos que eles podem “sair ganhadores” de uma relação com ela, além de redefinir o que ela quer fazer em relação ao continente. Entre os dois extremos – tudo manter ou tudo abandonar –, talvez a França possa encontrar um justo meio-termo, tentando sanear suas relações com a África. Os países europeus talvez pudessem, então, quitar-lhe os erros do passado e fazer dela seu porta-voz privilegiado no seio do G8, bem como a mediadora inevitável da União Européia nas relações Norte-Sul…

A clarificação da política da França no continente negro já lhe permitiria valorizar o que ela conseguiu por meio de ações isoladas. Paris não sabe – ao contrário dos Estados Unidos – “vender” bem suas ações. A França continua sendo a principal contribuinte do Fundo Europeu de Desenvolvimento (FED) e continua a encorajar a ajuda de Bruxelas aos países do Sul, mesmo que a maioria dos Estados membros da União Européia pareça estar aderindo a uma visão estritamente comercial das relações Norte-Sul [15]. Paris é a principal contribuinte da Facilidade para a Paz da União Européia (250 milhões de euros) destinada a ajudar a União Africana na gestão e resolução dos conflitos. A operação européia de interposição “Artemis” em Ituri (República Democrática do Congo) entre junho e setembro de 2003, foi particularmente comandada por Paris. Além do mais, Paris concedeu à União Africana uma subvenção de cinco milhões de euros, em 2005.

Novas aspirações populares emergem e o crescimento da força da União Africana traduz uma vontade de afirmação política. O politicólogo Jean-François Bayart resumiu, com muita procedência: “Não partamos da idéia de que a solidariedade ou a intimidade franco-africana é natural. Ela foi construída pela colonização e pelas modalidades da descolonização. Hoje em dia, ela poderia ser reconstruída” e, de qualquer maneira “o retrato-falado da África dentro de dez anos não será nem francês nem inglês, ele será africano [16].”



[1] “The Fall of The French Empire”, The Wall Street Journal, 25 de maio 1997.

[2] Jeune África, n°2098, Paris, 27 de março – 2 de abril de 2001.

[3] “L’Áfrique a mal à la France”, Le Figaro, 28 de abril de 2005.

[4] Ler François-Xavier Verschave: La Françafrique: le plus long scandale de la République, Stock, Paris, 1998.

[5] VIe Forum de l’IHEDN sur le continent africain, Paris, 6 a 17 de junho de 2005, “La politique de la France en Afrique”, Défense nationale, Paris, janeiro de 2005, n°1, pp. 119-128.

[6] Ler Jean-Christophe Servant: “La Chine à l’assaut du marché africain”, Le Monde diplomatique, edição francesa, maio de 2005.

[7] Ler Judith Rueff, Côte d’Ivoire. Le feu au pré carré, Autrement/Frontières, Paris: 2004.

[8] “N’Djaména accuse Khartoum, la rue critique la France”, Le Monde, 16-17 de abril de 2006

[9] Ler Jean-Paul Ngoupandé: L’África sans la France, Paris: Albin Michel, 2002.

[10] L’África sans la France, op. cit., p. 33-40.

[11] Ler Mohammad-Mahmoud Ould Mohamedou, “Variation sur l’usage du coup d’Etat en Mauritanie”, Le Monde diplomatique, edição francesa, novembro de 2005.

[12] RFI, 5 agosto de 2005.

[13] Vide Delphine Lecoutre, “L’Union africaine a avancé d’un pas en direction de la société civile avec la création d’un Conseil économique, social e culturel.”, Marchés Tropicaux, Paris, 29 de abril de 2005.

[14] Ler Demba Moussa Dembélé, “As máscaras de Anthony Blair”, Le Monde Diplomatique-Brasil, janeiro de 2005: http://diplo.org.br/2006-01,a1220.

[15] Ler a obra coletiva L’Accord de Cotonou, les habits neufs de la servitude, Colophon, col. “Essais”, Bruxelles, 2002.

[16] Le Figaro, 6 de julho de 2005.


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