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LITERATURA

Quando os Estados Unidos foram nazistas

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Em Complô contra a América o escritor norte-americano Philip Roth revela o lado fascista de seu país. Num romance que é bem mais que ficção política, ele imagina o que teria acontecido se os EUA tivessem se aliado a Hitler em 1940...

Guy Scarpetta - (01/07/2006)

“Não se reescreve a história”. O ditado vale, certamente, para todos – exceto para os romancistas, a quem ninguém impede de imaginar o que poderia ter acontecido. Quando se trata de um escritor do quilate de Philip Roth, isso pode até ser o ponto alto do romance, o mais instigante, mas também o mais perturbador e mais adequado para sacudir nossos preconceitos. Em Complô contra a América [1], Roth imagina que, em 1940, Franklin Roosevelt, o presidente democrata, não pode disputar um terceiro mandato. Charles Lindbergh, aviador e herói das multidões, mas também anti-semita notório e simpatizante do regime nazista, recebe o apoio do partido republicano. Apoiado pela forte corrente isolacionista, que pretende manter os Estados Unidos fora da guerra na Europa, acaba conquistando o poder. O tema do romance é, portanto, a crônica desse ano fictício em que o presidente, logo depois de chegar à Casa Branca, apressa-se em assinar um pacto de não agressão com Hitler e depois com o Japão. Em seguida, põe em marcha, sob pretextos vazios, uma política de discriminação contra a comunidade judaica. Até o momento em que Lindbergh sofre um acidente de avião, Roosevelt retorna à cena pública e a história retoma o curso que hoje conhecemos...

Seria, como afirma a apresentação do livro, um tema de “ficção-política”? Não exatamente: a ficção-política consiste, na maior parte das vezes, em projetar no futuro uma espécie de anti-utopia, carregada de conotação crítica sobre o próprio presente (como no caso de Admirável mundo novo, de Huxley, ou A cadeira da águia o belíssimo novo romance de Carlos Fuentes). Mas Roth dedica-se, antes, a inventar um passado virtual. A função crítica não está ausente (como não pensar em certos fatos recentes, quando o autor constrói o cenário com os EUA virados para si mesmos, fazendo da mentira uma política de Estado e dispostos a sacrificar seus princípios, se assim julgarem necessário...). Mas ela se apresenta mais conforme a visão de Robert Musil: para este, o real não era mais que uma possibilidade entre outras. Cabia à arte romanesca explorar as possibilidades da existência humana, não menos reais do que o historicamente confirmado.

Um romance histórico de ficção

Numerosos romancistas nos últimos anos, não recearam abordar grandes temas históricos. Podemos lembrar de Passo de caranguejo, de Günter Grass; Estado de Sítio, de Juan Goytisolo; Desonra, de Coetzee; A Festa do bode, de Mario Vargas Llosa; Neve, de Orhan Pamuk; entre outros). Não que se trate de uma volta ao romance histórico, no modelo elaborado no século XX. É, antes, uma questão de explorar as zonas de sombra da história, o outro lado da verdade oficial, a parte tácita dos consensos coletivos. Esclarecer as ambigüidades de que a História, também ela, está permeada. Roth evoluiu também nesse sentido. Seus primeiros romances eram centrados na comunidade judaica de Nova Jersey, de onde saiu, em uma inteligente ruptura dos limites entre realidade e ficção, adequada para desequilibrar os efeitos de autenticidade ligados ao discurso íntimo ou pessoal (o que culmina nessa obra prima que é O Avesso da vida). Mas, já há algum tempo, Roth alargou seus horizontes, tomando como tema, por exemplo, as tensões e contradições da situação judaica em Israel (Operação Shylock), as ondas terroristas ligadas à contra-cultura norte-americana dos anos 70 (Pastoral Americana), os confrontos causados pelo macartismo, (Casei com um comunista),ou, mais recentemente, as tiranias do politicamente correto, com um fundo de retorno do puritanismo repressivo, revelado pelo caso Clinton-Lewinski (A marca humana).

Agora, com Complô contra a América, Roth parece ter dado um passo mais largo: seu objeto não é mais a realidade norte-americana, mas o fastasma, a “besta imunda” que nela está e que poderia despertar. Ele contribui com uma mudança na nossa maneira de ver o país, com o desembaraço de qualquer desconfiança ingênua, de qualquer credulidade cega.

Trata-se, portanto, de uma imaginação retroativa. O grande mérito do romance é conjugar um regime de pura fantasia, na ficção (o leitor não se esquece nunca que o que se conta a ele não é a verdade comprovada) e um regime de verossimilhança, de credibilidade, na narração (como nas narrativas realistas clássicas, simpatizamos com o herói, vivemos com ele as emoções, perguntamo-nos a todo instante como as coisas vão evoluir). O que faz Roth para conseguir tal paradoxo? Ele mistura aos fatos meramente imaginários uma grande abundância de fatos históricos reais (o terrível discurso antisemita feito por Lindbergh em 1941), biográficos (o comportamento atribuído, em tal contexto, a Roosevelt, a Fiorelo la Guardia, ao prefeito de Nova York, ou ao popular animador de rádio Winchell é perfeitamente coerente com o comportamento real desses personagens). Mas, sobretudo, enraíza a narrativa em um universo que conhece muito bem: a comunidade judaica de Newark nos anos 40. Tudo isso permite, sem perder o foco da intriga histórica, fazer proliferar anedotas, perfis, episódios privados e detalhes manifestamente colhidos de sua própria experiência de vida e que têm, para o leitor, o mesmo toque de autenticidade.

O olhar político das crianças

A jogada de mestre do autor foi ter feito a narrativa sob o olhar de uma criança judia de sete anos (a mesma idade do autor, na época em que os acontecimentos teriam ocorrido). Essa narrativa histórica pode ser lida também como um romance didático. O que nos prende é menos a história em si do que o modo como ela pode atingir e perturbar a vida de uma criança, e como pode contribuir na formação de sua consciência. Outra sacada, adjacente, é a demonstração de que a infância é muito mais profundamente política do que pensamos: é preciso, portanto, questionar a razão de um interesse tão vivo da sociedade em propagar o mito oposto...

O narrador pertence a uma família judia perfeitamente integrada (“tínhamos nossa pátria há três gerações”), tendo aderido aos valores e ao modo de vida norte-americanos – ainda que singularizados por traços de vida comunitária, que não causavam reais conflitos. É através desse microcosmo familiar que ele vai ter sua percepção dos acontecimentos políticos que afetam todo o país. O poder, em torno do presidente Lindbergh, dos lobbies pró-Hitler. O pacto de aliança dos Estados Unidos com as potências do eixo. A contra ofensiva empreendida por Wichell, que resulta em levantes anti-semitas com mortes na maior parte das grandes cidades estadunidenses. O que mais o marca e ameaça o equilíbrio familiar, entre tudo o que perturba sua vida cotidiana, é o alistamento do primo no exército canadense para combater o nazismo na Europa, de onde ele volta amputado e ferido; a maneira como seu próprio irmão começa a negar o mundo judeu onde cresceu, depois de um plano de “integração” que pretendia enviar os jovens judeus ao campo (para melhor desmantelar as comunidades); as situações vexatórias que seus pais sofriam; ou mesmo as rupturas violentas provocadas por essa situação, ocorridas no seio da família ou no círculo de amigos e solidariedade que o cercava.

Tudo isso filtrado pelo olhar de uma criança, que dá a certos dramas pessoais (a perda de sua coleção de selos) a mesma importância que às convulsões maiores da história. Sem poder evitar sentir as perturbações a partir de seus afetos privados, de suas antipatias íntimas (em relação a seu irmão ou a seu vizinho) e de suas admirações mais intensas (em relação a seu primo herói e mutilado). Misturando as ambivalências de sua relação com os pais e as vicissitudes de seu próprio romance familiar, no sentido freudiano (a significativa passagem em que ele faz uma tentativa de fuga que o leva a... um orfanato). Como se essa meditação infantil fosse a melhor maneira de traduzir para o leitor a forma subjetiva como a História é vivida, e de dar a essa história imaginária um prodigioso senso de veracidade.

Bush e sua política: raio em céu azul?

Outra grande solução de Roth, nesse romance, foi saber evitar um discurso pedagógico, ou maniqueísta, onde se oporiam os bons e os maus, as vítimas e seus carrascos. Não se trata aqui de um “conto político” (como se falava, no século 18, dos “contos filosóficos”), mas de um verdadeiro romance, onde os comportamentos humanos são explorados também em suas contradições, indecisões e complexidades. O primo vindo da Europa está longe de ser um herói imaculado. Ele se rebela, está no mau caminho, passa os dias desocupado, ou entregue a atividades suspeitas.

O próprio mundo judeu tem seus covardes, seus traidores (a tia do narrador, ou o rabino Bengelsdorf, que se alia a Lindbergh, para quem serve de álibi). O irmão do narrador, tomado pela propaganda oficial, não para de exalar ressentimento de sua origem. Winchell, o porta-voz da oposição a Lindbergh, é também demagogo da pior espécie. Já o novo vizinho italiano, que se instala no prédio do narrador para temor de todos, manifesta uma franca e espontânea solidariedade a seus vizinhos judeus perseguidos... É aí que Roth expressa a grande idéia de Milan Kundera: a história, para um verdadeiro romancista, é menos o objeto do que a luz que nos permite vê-lo. Na experiência humana, as zonas de paradoxos e ambigüidades escapam a toda redundância moral...

Poderia haver uma lição a tirar. No momento em que certos propagandistas liberais querem fazer crer que os EUA são consubstancialmente democratas, e que a desastrosa política de George W.Bush é apenas um lamentável arranhão em corpo são, coube a Roth sugerir, na contramão do consenso, que essa democracia é frágil, e que as forças que fizeram o país beirar o nazismo não estão de todo ausentes...

Foi necessária uma obra prima do romance permitir enxergar. Philip Roth a escreve com fabuloso poder de ironia, de insolência e de lucidez. No fundo, se devesse existir uma só razão para não cairmos no anti-americanismo primário, essa razão seria a existência, nos Estados Unidos, de um escritor como esse.

Tradução: Leonardo Abreu leonardoaabreu@yahoo.com.br



[1] Complô contra a América, tradução de Paulo Henriques Britto, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2005, 488 páginas, R$ 51.


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