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Ilustração: Espaço Coringa

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Em julho, no Le Monde Diplomatique, novos prazeres para quem enxerga o mundo imaginando que ele pode ser diferente

Antonio Martins - (07/07/2006)

Leva o nome de Barraca a obra que ilustra o texto percorrido agora por seus olhos. É parte de um trabalho coletivo intitulado Passagem, realizado este ano na Passagem da Consolação, como parte do projeto In Vitro, do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Foi produzida pelos artistas plásticos que se reúnem, em São Paulo, em torno do Espaço Coringa. Gravam, pintam, fotografam e querem mudar o mundo - mas não os chame de "artistas engajados". Desdobram-se por sua arte. Quebram a cabeça e perdem o sono para torná-la sempre melhor. Só não a vêem como retrato, nem ilustração, das lutas de outros. São participantes, não observadores. Ao propor novas formas de ver a realidade, não estarão sendo tão ousados e transformadores quanto, digamos, os que ocupam prédios, para tornar real o direito à moradia?

Le Monde Diplomatique aposta em novos olhares. Veja pela edição de julho. Destacamos as mulheres. Em alguns países da Ásia [1], que representam quase a metade da população mundial, preconceitos culturais e políticos estão suscitando o surgimento de uma aberração demográfica. Há um déficit crescente de mulheres – logo elas que, por serem menos expostas ao estresse, ao fumo e ao uso não-inteligente do álcool, naturalmente vivem mais. Para que se produzisse tal anomalia, houve uma combinação de dois fatores.

Mantiveram-se as estruturas sociais arcaicas, que concentram nos homens a propriedade dos recursos necessários para produzir e melhorar a vida (eles são favorecidos pelo direito à herança e, em alguns países, ao dote). Mas esta tradição, velha de milênios, recebeu o reforço inesperado das políticas e técnicas “modernas” de controle da natalidade. Resultado: se só é possível ter um ou dois filhos, praticam-se abortos seletivos. O que seria, em outras condições, um direito das mulheres, transforma-se em... uma forma de eliminar filhos não-homens! Leia em nosso dossiê 1 2 3.

Quando o “desenvolvimento” agride

Se o assunto são as trapaças de uma certa noção de desenvolvimento, vale conhecer, na edição de julho, os mega-projetos turísticos que agridem, no México e América Central, sítios arqueológicos deixados pela civilização maia. Incluem a construção de marinas, campos de golfe e hotéis de luxo. Suprema hipocrisia: as corporações que os implantam, e os políticos que os autorizam, apresentam tais projetos como... turismo ecológico. Nem tudo está perdido: um outro texto destaca uma forma nova de receber e hospedar viajantes. É o turismo comunitário. No próprio México, já é possível visitar certas regiões partilhando habitações, comida e modos de vida com comunidades indígenas. A atividade serve a elas como modo de sobrevivência alternativo, principalmente em tempos de pressão sobre a agricultura familiar.

Segundo a concepção (ainda) hegemônica de progresso, descobertas da ciência levam sempre a humanidade adiante. Quanta pretensão. O novo número de Le Monde Diplomatique aponta quanto tempo, recursos e – principalmente – vidas humanas foram perdidas, a partir dos anos, 90, quando se escolheu, como estratégia para combater a malária, o desenvolvimento de mosquitos transgênicos. Concluído o mapeamento genético do protozoário que provoca a doença e do inseto-hospedeiro, imaginou-se que o caminho era desenvolver um mosquito resistente ao plasmodium. Uma década depois, a ciência ainda está longe de chegar a ele. Enquanto isso, foram arquivadas soluções muito mais simples e capazes de promover inclusão social: a desinfestação das águas, a pulverização com inseticidas seguros e a distribuição de mosquiteiros, por exemplo.

Uma forma complementar de conhecer o mundo é se informar sobre o que ocorre em países ignorados pela mídia. Em julho, temos algo a dizer sobre a Líbia [A Líbia se reencontra com o mundo] e a República Democrática do Congo. O país diriido pelo coronel Muamar Kadhafi está se reabrindo (internet, TV por satélite, produtos importados) para o mundo, depois de uma década de isolamento. Dois aspectos curiosos: a) esta abertura não está sendo acompanhada de uma democratização real, embora haja avanços. b) preservam-se importantes conquistas, como um sistema de redistribuição de riquezas eficiente e direitos e liberdades das mulheres incomuns no mundo árabe.

Da Africa ao debate de idéias

No Congo haverá, 30 de julho, as primeiras eleições gerais desde a independência. O país parece a caminho de superar um período de guerras civis, Estado arrasado, poder dividido entre senhores de guerra. O principal risco, agora, é a rapina. As exuberantes riquezas do subsolo são cobiçadas por um punhado de empresas – ávidas de lucros, desinteressadas de participar na reconstrução nacional e, pior que tudo, muito poderosas...

Um dos charmes do Le Monde Diplomatique é o debate de idéias, sempre rico e abundante. Em julho, três textos cumprem este papel. Um ensaio sobre Economia enfrenta um dos principais dogmas do capitalismo: a suposta superioridade das formas de produzir baseadas no estímulo à competição e ao egoísmo. Também resenhamos o último livro do escritor norte-americano Philip Roth, uma ficção ambientada nos anos 40, período em que um setor significativo da sociedade dos EUA flertou com o nazismo. Conclusão possível: talvez George Bush não seja mero acidente. Por fim, sustentamos: a gratuidade, este ato de oferecer bens e serviços sem requerer contrapartida financeira, é pista para grandes tranformações sociais.

Nossa edição de julho discute ainda a situação (precaríssima) dos palestinos no Líbano, o papel (no momento, em declínio) da França nas relações internacionais, os sinais (aliviadores) de um acordo sobre o programa nucelar do Irã, que poderia evitar uma nova agressão norte-americana no Oriente Médio. O índice completo está aqui. Desejamos ótima leitura!



[1] Em especial, China, Índia, Paquistão, Bangladesh, Coréia do Sul e Indonésia

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