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ISRAEL

O high-tech encontra o ultra-ortodoxo

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Como o capitalismo israelense tira proveito da mão de obra barata (e obediente) das colônias para promover deslocalização interna e disputar mercado mundial em setores como a informática

Gadi Algazi - (01/08/2006)

Em Modi’in Illit, a nova economia reencontra a velha. Entre as empresas da era eletrônica que ali estabeleceram filiais, encontra-se Matrix, uma das maiores firmas israelenses de serviços de informática. Emprega cerca de 2 300 pessoas e pesa 500 milhões de shekels (89 milhões de euros) na bolsa de Telavive. É controlada pela Formula Systems, do grupo Formula Group, que vende 390,5 milhões de euros por ano em produtos pelo mundo. Para fazer frente à concorrência dos programadores mal-pagos da Índia, ela se voltou para uma outra mão-de-obra barata, que lhe permite beneficiar-se de importantes subsídios de Estado [1]: as mulheres ultra-ortodoxas da colônia, onde abriu um centro de desenvolvimento que deverá empregar 500 pessoas até o fim de 2006.

É o que chamamos "deslocalizar em seu próprio país": a 25 quilômetros de Telavive é possível ter acesso a terras roubadas, subsídios de Estado e recursos públicos, policiais e soldados para garantir a segurança dos investimentos e uma mão-de-obra cativa e disciplinada. O capitalismo israelense não flutua sobre um universo digital: é no projeto colonial que ele drena novos recursos à medida que se estabelece no mercado mundial.

As mulheres que trabalham para a Matrix em Modi’in Illit são consideradas eficazes e excepcionalmente produtivas: "O trabalho que um montador de outro lugar faria em uma semana corrida, sob pressão e dormindo no local de trabalho, as moças aqui podem facilmente fazer em três dias", declarou um responsável pela filial a um jornalista [2]. Aqui uma iniciante ganha 3,12 euros por hora. No segundo ano, sua remuneração mensal atinge 781 euros – e o Estado contribui com 1/5 do valor [3]. Um dirigente ultra-ortodoxo conta a outro jornalista que sua comunidade "tem o hábito de viver de nada. Então, quando alguém ganha um pouco, isto representa muito". O porta-voz da firma reconhece, por sua vez, que os salários destinados às mulheres de Modi’in Illit não refletem sua produtividade nem o valor de seus serviços no mercado internacional, mas "seu baixo custo de vida" – uma teoria do valor notável, que para nós é realmente desconhecida... A filial de Matrix em Modi’in Illit é estritamente casher. Rabinos locais supervisionam o local de trabalho. Além de seu interesse legítimo pelo modo de vida dos trabalhadores e seus valores, estes rabinos desempenham um papel crucial nesta empresa capitalista: as empregadas "vivem segundo um código religioso e profissional complexo", um código rigoroso [4]. "O absenteísmo entre elas é baixo. Mesmo mães com seis crianças faltam menos do que as que têm dois filhos em Telavive", afirma a um jornalista o diretor da Imagestore, outra firma de informática que também emprega mulheres ultra-ortodoxas. "Estas mulheres não dão problema. Elas trabalham e ponto, é tudo. Nada de pausa para café ou cigarro, nada de bate-papo no telefone ou de procurar promoção de viagem à Turquia. As pausas servem unicamente para comer ou amamentar numa sala especial. Algumas poder dar um pulo em casa, amamentar e voltar [5].

Jornalistas que visitaram a sede da Matrix ficaram impressionados com o silêncio que reina ali. As conversas pessoais são proibidas na sala de trabalho. "Se há uma que fala um pouco mais ou navega na rede, outra vai lhe dizer: Ei, isto é roubo. É como pegar alguma coisa que pertence à companhia”, conta Esti, uma das empregadas. Nós perguntamos uma vez se poderíamos fazer uma pausa de cinco minutos para rezar, mas o rabino respondeu que os antigos Sábios não faziam pausa e que eles rezavam o Shma’ [a oração mais importante do dia] mesmo trabalhando. Nós então retomamos a oração depois do trabalho. Estas regras são escrupulosamente seguidas mesmo longe da presença dos patrões. "Nós não fazemos coisas proibidas mesmo quando ninguém nos olha", explica, sorridente, uma operária, "pois alguém nos observa lá em cima [Yoni Shadmi, op. Cit.]."

No entanto não devemos confundir estas representações idealizadas e a realidade quotidiana. As operárias ultra-ortodoxas da Matrix ou de firmas similares seguramente encontram os meios de contornar as injunções dos rabinos e o controle nas oficinas. A notável disciplina que parece reinar também se explica pela ausência de outros empregos em Modi’in Illit – e as mulheres não têm carro para ir trabalhar em outro lugar.

Esta colônia é tão particular que lembra o "colonialismo interno" adotado Israel nos anos 50, quando foram instalados os novos imigrantes, muitos vindos do mundo árabe, na fronteira. Tinham a finalidade de proteger os territórios adquiridos durante a guerra de 1948, mas também de servir de mão-de-obra barata para a industrialização que se iniciava. Nos dois casos, a integração no projeto colonial israelense, com objetivo de povoar sua (nova) fronteira, condiciona a obtenção de direitos sociais fundamentais.

Um capitalismo colonizador

Há meio século, os "judeu-árabes" eram vistos como trabalhadores não-qualificados incompetentes, exatamente como hoje se considera que estas mulheres ultra-ortodoxas teriam saído das trevas para encontrar a luz – ou seja, deixaram seus lares para entrar em uma empresa capitalista moderna. De fato, estas mulheres têm um nível de educação e freqüentemente ganham a vida além de seus encargos familiares – pois seus maridos devem consagrar a vida ao estudo da Torá. O preço pago pelos colonos contemporâneos é mais elevado: o "colonialismo de fronteira" reforça as relações de dependência e de subordinação. Assim, em Modi’in Illit, os pobres são instrumentos do processo colonizador, mas, em última análise, também são vítimas dele.

Às vezes ouvimos dizer que, ao se modernizar, o capitalismo israelense estaria a ponto – talvez a contragosto – de renunciar ao velho colonialismo. O exemplo de Modi’in Illit mostra, ao contrário, que ele pode continuar colonial na era do digital, ir e vir entre os mercados mundiais e suas próprias colônias, entre a defesa da privatização desenfreada e as consideráveis subsídios públicos. Uma coisa é certa: este capitalismo não vai, por si mesmo, abrir mão do negócio colonial e não exercerá pressão suficiente sobre o Estado para que este se encarregue de eliminar tal negócio. Exceto se o projeto colonial israelense tornar-se um obstáculo, e se a resistência dos colonizados e seus aliados lhe impuser uma mudança.



[1] O governo israelense subvenciona os salários por cinco anos: www.tamas.gov.il

[2] Yoni Shadmi, “ Globalization killed the High-Tech Star ”, Maariv, 11 de novembro de 2005.

[3] Idem

[4] Ibidem

[5] Ruth Sinai, “ Modi’in Illit: The Zionist Response to Off-Shoring ”, Haaretz, 19 de setembro de 2005.


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