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ESTILOS DE VIDA

Uma aldeia global no Quebec

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Uma comunidade canadense de 446 habitantes, famosa pelo espírito de vanguarda, mantém-se integrada e dinâmica graças a espírito comunitário, uma instituição financeira alternativa e coragem para usar em favor de todos as novas tecnologias

Bernard Cassen - (01/08/2006)

É quase inútil marcar um encontro com um morador de Saint-Camille [1] em uma sexta-feira ao meio do dia. Se ele estiver na vila, é grande a probabilidade de encontrá-lo à mesa, com sua família e amigos, nas agradáveis salas do piso térreo do P’tit Bonheur, saboreando a pizza da casa. Às quatro horas da manhã, já se prepara a massa. Três voluntários vêm cortá-la a partir das sete horas. Três outros podem ser vistos na cozinha preparando muitas variedades, entre as quais uma vegetariana. É possível servir-se à vontade por 8,25 dólares canadenses [2]. Para matar a sede, há uma excelente cerveja artesanal, produzida a alguns quilômetros dali, e pode-se terminar a refeição com morangos de uma fazenda associada à cooperativa agroflorestal local, La Clé des Champs.

Se também não quisermos cozinhar para o almoço da terça-feira, temos a Popote Roulante, que também funciona através da cozinha do P’tit Bonheur. São as pessoas mais velhas da aldeia – “les ainés”, como se diz no Quebec – que preparam, voluntariamente (isso nem era preciso dizer), refeições entregues em domicílio ou servidas ali mesmo. Principalmente para crianças da escola pública vizinha, cujo nome – Cristo Rei – lembra que ela foi fundada no início do século passado pelas freiras da Ordem da Assunção. Tudo a preços imbatíveis: 4,5 dólares para os adultos e 2 dólares para as crianças.

Além de suas funções gastronômicas e de lugar de convivência, onde se pode bater um papo e tomar um café ou uma bebida, de passagem, o P’tit Bonheur, assim nomeado em homenagem ao cantor Félix Leclerc, é também uma associação sem fins lucrativos, destinada a todas as faixas etárias [3]. Ali acontecem reuniões, animações, exposições, cursos, conferências, teatro, música, café da manhã aos domingos, etc.

Mas não é apenas ali que estão a vida e a “agitação” de Saint-Camille. Esta manhã, por exemplo, um visitante não sabe nem como escolher entre três reuniões acontecendo simultaneamente em três lugares diferentes, uma das quais com uma delegação vinda do Mali... Tudo isso em uma vila com apenas 446 habitantes!

Como atores polivalentes... e sem diretor

Onde está o segredo? Como em uma trupe teatral em que os atores interpretam muitos papéis na mesma peça, os moradores de Saint-Camille não se acomodaram em uma identidade única: voluntário ou assalariado, consumidor ou produtor, prestador de serviços ou cliente, professor ou aluno, ator ou espectador, etc. Eles são diversas coisas de acordo com o momento do dia, da semana, ou do mês. Mas, já que falamos em trupe e peça de teatro, precisamos também de um diretor, para assegurar a coesão do grupo e a boa execução do texto. Haveria então em Saint-Camille um guru que tenha moldado a vila como uma seita? Só a idéia provoca gargalhadas, em uma comunidade onde cada membro preza muito sua independência, seguindo a linha de seu fundador, um certo Édouard Desrivières. Sua história [4] conta que em 1848 ele deixou a cidade de Quebec para vir cortar as primeiras árvores na floresta do que hoje é o território da vila. Édouard viveu sozinho ali por trinta anos.

Mas a espantosa alquimia de Saint-Camille, que delegações do resto do Quebec vêm observar de perto o tempo todo, não é produto de alguma “mão invisível”. Por trás dela estão as personalidades, fortes de alguns indivíduos visionários, determinados a assegurar a sobrevivência de sua comunidade, pessoalmente desinteressados, capazes de imaginar soluções fora dos caminhos conhecidos e de aproveitar todas as oportunidades. Além disso, suficientemente didáticos para fazê-las interiorizadas pela maioria de seus concidadãos e permanentemente “plugados” no resto de um vasto mundo que começa na vila vizinha e se estende pelos cinco continentes.

As idéias-forças devem ser buscadas na coesão social, territorial e sobretudo intergeracional; no desenvolvimento duradouro; na relocalização da economia; na educação popular; na democracia participativa; na capacidade permanente de inovação e criatividade; na prioridade à cultura; no internacionalismo... o conjunto funcionando como projeto local e sistema de pensamento global. Tudo isso com menos de quinhentos protagonistas? Mas claro, pois as experimentações sociais não se dão somente em metrópoles do porte de Porto Alegre ou Caracas. Uma pequena vila pode também ser uma aldeia global...

Na origem, experiência financeira incomum

Desde sua constituição como município, em 1860, Saint-Camille sempre teve uma reputação vanguardista no Quebec. A eletricidade chegou lá em 1880, para um moinho, e em 1896, para as ruas e casas. Em 1985, foi criada a sociedade financeira Le Groupe du Coin. Seus quatro acionistas, herdeiros desse espírito pioneiro, não tinham nenhuma intenção de realizar operações especulativas. Investindo cada um 1.200 dólares por ano, queriam dispor de uma ferramenta para frear a queda demográfica da vila – que contava com 1.100 habitantes em 1911 e passou a 440 em 2001, em conseqüência do desaparecimento de empresas de transformação e comercialização dos produtos da agricultura e da exploração florestal, e portanto dos empregos correspondentes.

Diante dessa morte anunciada, qual o plano? Primeiro, recomprar os locais que se tornaram vagos e destiná-los a atividades que pudessem fixar a população. Depois, graças a esta capacidade de atração, fazê-la voltar. O sinal de alarme tinha sido dado em 1992, quando a agência de correio local esteve ameaçada de fechar. Espetáculo sem precedentes em um lugar sem nenhuma tradição contestatória, “os habitantes saíram às ruas carregando cartazes”, lembra Jacques Proulx, um dos fundadores do Groupe du Coin. Esse agricultor aposentado, próximo do movimento Slow Food (ler o artigo de Carla Petrini, nesta edição), é uma figura bem conhecida de toda a província, como presidente da organização Solidarité Rurale do Que-bec. E sua fala é temível...

O Groupe comprou então o antigo mercado central, após seu fechamento, transformando-o em local de múltiplas vocações. Em 1988, alugou-o para a associação Le P’tit Bonheur, que se tornou progressivamente o verdadeiro foco de desenvolvimento da vila. Ela é presidida e animada desde essa época por Sylvain Laroche, outro fundador do Groupe. Há vinte e cinco anos, Laroche, então estudante na Universidade de Sherbrooke, decidiu voltar a viver em Saint-Camille. Ele não a abandonou mais, e é difícil imaginar a vila sem ele, pois é um mediador nato, curioso a respeito de tudo, com a qualidade de ser ótimo ouvinte, capaz de amenizar os conflitos. Pois a vila tem suas briguinhas, de vez em quando!

Após a compra do mercado central, foi a vez da residência paroquial, transformada, em 1999, em duas cooperativas unidas sob o nome – sem conotação pejorativa no Quebec – de La Corvée  [5]. Uma delas lida com habitação, oferecendo nove moradias para pessoas idosas; a outra, funciona como clínica de saúde, onde cada um, particularmente os aposentados vizinhos, pode receber cuidados ou mandar vir medicamentos previamente encomendados em uma farmácia de Asbestos ou da região. La Corvée é um elemento-chave da vida comunitária de Saint Camille, fundada na convivência e na solidariedade entre as gerações. No dia da Popote Roulante, no da pizza, e em várias outras ocasiões, as crianças se encontram com pessoas que poderiam ser seus avós. E estas participam ativamente de todas as atividades da vila, que tem cerca de vinte e cinco associações, capazes, juntas, de mobilizar 200 voluntários [6].

Com a internet, nova revolução

Em seguida, sempre graças ao Groupe du Coin, uma garagem abandonada transformou-se em centro multimídia. Suas possibilidades multiplicaram-se desde a chegada da fibra óptica a Saint-Camille, no fim de 2005, permitindo amplo acesso à Internet. Isso voltou a vida em direção ao teletrabalho. Atividades como as da Constructions Randard, que ergue e restaura pontes, puderam permanecer na vila. Gente como Martin Aubé, professor de física em Sherbrooke, pode gerir sua empresa de consultoria MEMO Environnement de seu escritório no campo.

De uma reflexão conjunta da municipalidade, da corporação de desenvolvimento, da escola e do P’tit Bonheur surgiu a idéia brilhante que permitiu à vila retomar o desenvolvimento. Aproveitou-se um programa, a École Éloignée en Réseau (EER) [Escola Distante em Rede], criado em 2002 pelo Ministério da Educação do Quebec (inicialmente em três comunidades, incluindo Saint-Camille; hoje, em treze). Transformou-se a escola Cristo Rei e a comunidade de parceiros em uma verdadeira e duradoura “comunidade aprendiz”. Tal sinergia, fundada na utilização das tecnologias da informação e da comunicação, guiou a caminhada de todos os dirigentes, inclusive a dos sucessivos prefeitos da vila, Henri-Paul Bellerose e Claude Larose. Eles apostaram nessas cartas. A chegada da fibra óptica foi uma de suas repercussões. Não era de se esperar menos do primeiro, membro do Groupe du Coin, nem de seu sucessor, antigo presidente da cooperativa La Clé des Champs. Essa cooperativa, cujos membros são em sua maioria muito jovens, comercializa 70% de seus produtos (legumes e frutas vermelhas) em escala local. Principalmente com o “dépanneur” (mercearia) da vila, ou diretamente com os moradores, que a contratam para fornecer regularmente cestos dos produtos da estação, acompanhados das receitas culinárias correspondentes [7].

Na verdade, esse procedimento é mal visto por alguns dos cerca de vinte e cinco agricultores “tradicionais” ainda em atividade. Eles produzem cereais, forragem e carne, além de explorar a madeira da floresta, enquanto os cooperados da Clé des Champs especializaram-se nos produtos florestais (excetuando-se a madeira) – e em particular o ginseng, que foi durante muito tempo o segundo produto de exportação do Quebec, atrás apenas das peles! A perspectiva de aquisição breve de duas dezenas de chácaras – também destinadas a essa agricultura local – por jovens casais (que a escola Cristo Rei espera que tenham muitos bebês), não irá necessariamente reconciliá-los culturalmente com os neo-rurais. Agricultura produtivista voltada para exportação contra agricultura camponesa visando a auto-suficiência alimentar local – esse conflito planetário está presente também nessa pequena vila do Quebec. E assim segue Saint-Camille, onde tudo faz crer que é bom viver, e que conta acima de tudo com sua inteligência coletiva para sobreviver. Entre os seus fundamentos, estão os de ética aplicada que Jean-François Malherbe, professor na Universidade de Sherbrooke, ensina na formação universitária extra-muros que implementou na vila. Nós esquecemos de lhe perguntar o que ele pensa dessa frase de Winston Churchill, que Laroche adora citar: “Melhor dar a mão às mudanças antes que elas nos peguem pelo pescoço.”

Tradução: Carolina Massuia de Paula carolmpaula@yahoo.com.br



[1] Saint-Camille está situada 35 quilômetros ao norte de Sherbrooke, capital de Estrie. Esta cidade, por sua vez, localiza-se 150 quilômetros a leste de Montreal, e bastante próxima (30 km) dos estados norte-americanos de Vermont e New Hampshire.

[2] Um dólar canadense = R$ 1,91.

[3] www.ptitbonheur.org

[4] Em 1908, em La Paroisse de Saint-Camille. Comté de Wolfe, Province de Québec [A Paróquia de Saint-Camille. Condado de Wolfe, província do Quebec], o terceiro cura da vila, Luc-Alphonse Lévêque, evocou a personalidade desse aventureiro, cujos últimos momentos “foram algo edificante para seus amigos”.

[5] La corvée normalmente remete a trabalho forçado, como a corvéia paga pelo servo medieval [Nota da Tradutora]

[6] Ler Joanne Gardner, A chacun son histoire. Recueil de vie d’ainés de notre campagne [A história de cada um. Relatos de vida dos ancião de nossos campos], La Corvée, Saint Camille, 2004.

[7] É o que faz, na França, a Associação para a Manutenção de uma Agricultura Camponesa (AMAP).


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