'Enviar matéria', 'envoyer' => 'Enviar', 'reference_de' => 'a referência de', 'par_courriel' => 'por email', 'a_destination' => 'Enviar para:', 'donnees_optionnelles' => 'Dados opcionais', 'separe_virgule' => 'separe com vírgulas se escrever mais de um', 'sujet' => 'Assunto', 'titre_vouloir' => 'Título da mensagem', 'nom' => 'Seu nome', 'adresse' => 'Seu e-mail', 'texte' => 'Texto que irá junto com a mensagem', 'envoi' => 'Enviar', 'annuler' => 'Cancelar', 'enviar_title' => 'Enviar referência deste documento por email', 'enviar_por_email' => 'Enviar', 'referencia' => 'A referencia de', 'enviado' => 'foi enviado a:', 'sentimos' => 'Sentimos muito', 'problema' => 'Houve um problema e não se pôde enviar a mensagem', 'hola' => 'Olá. Talvez esta informação possa lhe interessar.', 'leer' => 'Leia mais...', 'enviado_por' => 'Enviado por: ', 'direction' => 'mas sem um endereço eletrônico válido', 'podemos' => 'não podemos enviar a mensagem', 'fermer' => 'fechar', 'documento' => 'Olá. Talvez este documento de', 'interesar' => 'possa lhe interessar.', 'descargarte' => 'Na página web poderá fazer o download de:', 'source' => 'fonte', ); ?> 'Envoyer l\'article', 'envoyer' => 'Envoyer', 'reference_de' => 'la référence de', 'par_courriel' => 'par courrier électronique', 'a_destination' => 'Envoyer á l\'adresse:', 'donnees_optionnelles' => 'Données optionnelles', 'separe_virgule' => 'séparer les adresses par des virgules si vous écrivez á plusieurs personnes', 'sujet' => 'Sujet', 'titre_vouloir' => 'Titre du message', 'nom' => 'Nom', 'adresse' => 'Adresse mail', 'texte' => 'Vous pouvez ajouter un texte', 'envoi' => 'Envoyer', 'annuler' => 'Annuler', 'enviar_title' => 'envoyer l\'article par mail', 'enviar_por_email' => 'envoyer par mail', 'referencia' => 'La référence de ', 'enviado' => 'a été envoyé à:', 'sentimos' => 'désolé', 'problema' => 'Il y a eu un problème et le courrier n\'a pas pu être envoyé', 'hola' => 'Salut. Cet article t\'interéssera peut-être ', 'leer' => 'Lire la suite...', 'enviado_por' => 'Envoyer par : ', 'direction' => 'mais sans une adresse de courrier électronique valable', 'podemos' => 'nous ne pouvons pas envoyer le message', 'fermer' => 'fermer', 'documento' => 'Salut, les documents de', 'interesar' => 'pourraient t\'intéresser', 'descargarte' => 'Si vous visitez le site vous pourrez télécharger les documents suivants :', 'source' => 'Source', ); ?> 'Enviar matéria', 'envoyer' => 'Enviar', 'reference_de' => 'a referência de', 'par_courriel' => 'por email', 'a_destination' => 'Enviar para:', 'donnees_optionnelles' => 'Dados opcionais', 'separe_virgule' => 'separe com vírgulas se escrever mais de um', 'sujet' => 'Assunto', 'titre_vouloir' => 'Título da mensagem', 'nom' => 'Seu nome', 'adresse' => 'Seu e-mail', 'texte' => 'Texto que irá junto com a mensagem', 'envoi' => 'Enviar', 'annuler' => 'Cancelar', 'enviar_title' => 'Enviar referência deste documento por email', 'enviar_por_email' => 'Enviar', 'referencia' => 'A referencia de', 'enviado' => 'foi enviado a:', 'sentimos' => 'Sentimos muito', 'problema' => 'Houve um problema e não se pôde enviar a mensagem', 'hola' => 'Olá. Talvez esta informação possa lhe interessar.', 'leer' => 'Leia mais...', 'enviado_por' => 'Enviado por: ', 'direction' => 'mas sem um endereço eletrônico válido', 'podemos' => 'não podemos enviar a mensagem', 'fermer' => 'fechar', 'documento' => 'Olá. Talvez este documento de', 'interesar' => 'possa lhe interessar.', 'descargarte' => 'Na página web poderá fazer o download de:', 'source' => 'fonte', ); ?> 'Envoyer l\'article', 'envoyer' => 'Envoyer', 'reference_de' => 'la référence de', 'par_courriel' => 'par courrier électronique', 'a_destination' => 'Envoyer á l\'adresse:', 'donnees_optionnelles' => 'Données optionnelles', 'separe_virgule' => 'séparer les adresses par des virgules si vous écrivez á plusieurs personnes', 'sujet' => 'Sujet', 'titre_vouloir' => 'Titre du message', 'nom' => 'Nom', 'adresse' => 'Adresse mail', 'texte' => 'Vous pouvez ajouter un texte', 'envoi' => 'Envoyer', 'annuler' => 'Annuler', 'enviar_title' => 'envoyer l\'article par mail', 'enviar_por_email' => 'envoyer par mail', 'referencia' => 'La référence de ', 'enviado' => 'a été envoyé à:', 'sentimos' => 'désolé', 'problema' => 'Il y a eu un problème et le courrier n\'a pas pu être envoyé', 'hola' => 'Salut. Cet article t\'interéssera peut-être ', 'leer' => 'Lire la suite...', 'enviado_por' => 'Envoyer par : ', 'direction' => 'mais sans une adresse de courrier électronique valable', 'podemos' => 'nous ne pouvons pas envoyer le message', 'fermer' => 'fermer', 'documento' => 'Salut, les documents de', 'interesar' => 'pourraient t\'intéresser', 'descargarte' => 'Si vous visitez le site vous pourrez télécharger les documents suivants :', 'source' => 'Source', ); ?> Diplô - Biblioteca: O último imigrante
Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Chile conquista Constituinte – mas qual?

» O peculiar totalitarismo do século XXI

» Quem poderá salvar Veneza?

» Bolívia: não despreze a resistência

» O adereço de Guedes e o sentido do governo

» O Chile Rebelde quer ir além

» É possível pensar o Brasil após o neoliberalismo?

» América Latina: Povo sem pernas, mas que caminha

» Cinema: Entre a cruz e o maracatu rural

» Atingida por barragem e acossada pelos poderosos

Rede Social


Edição francesa


» Séisme sur les retraites en Argentine et au Chili

» Ce nouveau parti qui bouscule le paysage politique allemand

» La figure imposée du dernier poilu

» Les dossiers enterrés de Tchernobyl

» Une femme à la barre de l'Argentine

» La Chine au miroir de l'Occident

» « Choc des civilisations », à l'origine d'un concept

» Les Allemands de l'Est saisis par l'Ostalgie

» A Berlin, le face-à-face des intellectuels de l'Est et de l'Ouest

» Réveil politique à l'Est


Edição em inglês


» The fall of liberal triumphalism

» Sarah Seo on Americans, their cars and the law

» November: the longer view

» Ibrahim Warde on the rise and fall of Abraaj

» Fighting ISIS: why soft power still matters

» Life as a company troll

» The imperial magazine

» Setting Socrates against Confucius

» Price of freedom on the road

» Global business of bytes


Edição portuguesa


» Golpe de Estado contra Evo Morales

» Será que a esquerda boliviana produziu os seus coveiros?

» A era dos golpes de Estado discretos

» Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019

» Sempre uma coisa defronte da outra

» OTAN: até quando?

» Alojamento local-global: especulação imobiliária e desalojamento

» Rumo a uma governança participativa da vida nocturna de Lisboa


DISCRIMINAÇÕES

O último imigrante

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Que se passará com sociedade, cultura, arte e ciência na França, quando já não restarem árabes. Fábula inédita de Tahar Bem Jelloun

Tahar Ben Jelloun - (01/08/2006)

Nesta manhã, o último imigrante árabe – na realidade um berbere – acaba de deixar o solo francês. Tanto o primeiro-ministro, como o ministro do Interior viajaram para assistir a essa partida e expressar a Mohamed Lemmigri o reconhecimento da França. Mohamed não estava nem emocionado, nem magoado. Sentia-se apenas contente de estar voltando, para sempre, ao seu país natal. Recebeu de presente um camelo de pelúcia e uma pequena bandeira que trazia, de um lado, as cores azul, branca e vermelha e, do outro, a cor vermelha, com uma estrela verde ao centro. Ele a agitava, sem muita convicção, diante das câmaras dos canais de televisão e dos fotógrafos, que insistiam em obter um largo sorriso. Soltou uma gargalhada e guardou a bandeira dupla em um bolso do seu velho sobretudo.

A França respira. Não precisa mais resolver problemas para os quais não estava preparada. Ela vira uma pesada página de sua história colonial. Agora, como num passe de mágica, um século de presença árabe na França acaba de ser apagado. O parêntese fechou-se. O país não mais será incomodado pelos odores de uma cozinha muito condimentada, não mais será invadido por hordas de pessoas de costumes estranhos. O racismo não mais terá motivos para se manifestar. Ainda restam muitos africanos, asiáticos e algumas famílias dos países do Leste, mas que, aparentemente, não causam maiores problemas. Os africanos permanecem calmos, temendo sofrer o mesmo destino que os árabes; os que ocupavam ilegalmente os imóveis abandonados, na sua maioria, arderam, juntamente com os filhos, enquanto dormiam. Quanto aos asiáticos, são louvados por sua discrição.

A extrema direita é a única a lamentar a partida desses milhões de magrebinos. Mesmo estando satisfeita por ver realizada uma de suas mais caras aspirações, ela compreende que uma parte do seu programa vai se perder. Graças à presença deles, ela pôde se desenvolver, crescer nas pesquisas de opinião e nas eleições e, até mesmo, chegar ao segundo turno da eleição presidencial de 2002. Sem imigrantes norte-africanos, ela se pergunta o que poderia fazer e que espantalho exibir aos franceses, para se manter como força política. O partido do medo e do ódio viu-se, de repente, impotente. Isso poderia explicar a sua brusca mudança de direção e o seu inesperado humanismo. Particularmente em Marselha, militantes organizaram algumas manifestações, e escreveram nas faixas: “Devolvam-nos nossos árabes de quem tanto gostamos!”; “A França não é mais a mesma! Está lhe faltando um comerciante árabe!”. Num velho cartaz, riscaram a frase “3 milhões de desempregados = 3 milhões de imigrados em demasia” e acrescentaram “Precisamos dos árabes”! Um anônimo escreveu “Precisamos de ódio!”.

“Virar esta página, escrita em argelino”...

A limpeza do país levou alguns meses, mas quase todo mundo concorda que tudo se passou em condições quase normais. Na verdade, não deixaram escolha aos imigrados. Era aceitar deixar o país ou permanecer num centro de detenção perpétuo, uma espécie de campo de concentração apelidado de “Santiago do Chile”. Tudo estava pronto: os caminhões cobertos com toldos, as tendas acinzentadas, o arame farpado, os guardas e até as mortalhas. A maior parte das partidas foi voluntária. Questão de orgulho e de amor-próprio. O nariz! A honra está na ponta do nariz!

Os tradicionais protestos da esquerda e da extrema esquerda, bem como de determinados membros da Igreja, não fizeram o governo ceder. Ele permaneceu, como disse seu primeiro-ministro, “firme em suas convicções”! O ministro do Interior declarou: “Finalmente, a França conseguiu virar essa página escrita em argelino”. A um jornalista que lhe perguntava que língua era essa, o ministro respondeu: “É a língua do sangue derramado em uma terra que nos pertencia e que perdemos! Uma terra em que os benefícios da colonização foram notáveis”.

Mesmo que essas partidas tenham criado graves problemas para o país, o governo não deixou transparecer nenhum sinal de inquietação. Na verdade, as construções ficaram inacabadas, as fábricas tiveram que fechar, as empresas tiveram que demitir uma grande parte de seus empregados, os açougues e as mercearias desapareceram e alguns foram transformados em salões de cabeleireiros ou em lojas de telefonia. O lixo é coletado apenas uma vez por semana, pois as empresas foram privadas de um terço dos seus efetivos, o aeroporto de Roissy tem suas atividades diminuídas. Há também escassez de médicos e de pessoal nos hospitais. Mas o país vai bem. Há falta de muitas coisas, mas a França tem a sensação de estar livre ou antes, libertada. Que importam os sacrifícios que isso implica. Como disse um dirigente da direita autoritária, com sua voz fanhosa: “Era o retorno em massa, reação da França, ou a islamização de nosso país!”.

Doravante, os cidadãos aprendem a voltar ao trabalho como nos tempos em que não havia imigrados do Magreb. Tudo vai bem. Os franceses reencontraram a energia necessária para alavancar a economia, aprenderam o esforço e a flexibilidade, tiveram a coragem de abandonar as 35 horas, os partidos políticos readquiriram sua credibilidade, os sindicatos assinaram um contrato de paz social. Nada de greves, nada de manifestações. A paisagem humana voltou a ser branca, confiante, magnífica. Os parisienses estão, agora, particularmente corteses e indulgentes. Eles redescobriram o sorriso. Não protestam mais contra a política da prefeitura que envenena a vida dos motoristas. A França foi devolvida para ela mesma, como no bom velho tempo em que os magrebinos não ousavam sair de seus exíguos apartamentos. Tudo vai bem, ou quase. Há uma certa tristeza no ar, mas não sabemos se devemos atribuí-la ao retorno dos imigrados ou a um clima caprichoso.

“O distúrbio atinge a todos: tanto mulheres como homens”

Entretanto, já há algum tempo, fatos estranhos estão acontecendo. Jornalistas do rádio e da televisão pronunciam frases incompletas. Com lacunas. Com falhas. Não compreendemos o que eles dizem. Faltam palavras ou expressões inteiras em seus discursos. Eles se desculpam e depois continuam como se tivesse sido uma tosse ou um esquecimento involuntário. Esse distúrbio atinge a todos: tanto mulheres como homens.

Na imprensa escrita, eles substituem as palavras que faltam por perífrases do gênero:

“Esse fruto [1] que marca o início do verão e com o qual fazemos ótimas geléias não chegou ao mercado. Não me lembro mais como ele se chama.”

Ou então:

“O consumo de … [2] prejudica perigosamente a saúde.” “O… [3] misturado com leite faz mal ao fígado.” “Esse condimento vermelho, fino e saboroso, no momento não pode ser encontrado nas mercearias da França. [4]” “Não é aconselhável às crianças que bebam … em demasia [5]” “Parece que comer um … [6] no final das refeições ajuda a digestão.” “Os bancos, doravante, cobrarão a remessa de … [7]” “Johnny está chateado, sua… [8] foi roubada por ocasião do seu último concerto.” “Os professores não ensinam mais …. [9]. Nem …. [10] as palavras voaram.” “Atenção, disse o ministro do Interior ’os que fazem, como dizer, enfim, os que fazem…. [11] entre muçulmanos e terroristas são passíveis de perseguição’.” “A grande sala de espetáculo,… [12] no qual se produzem os cantores de sucesso foi fechada para obras.” “Os que nasceram sob... [13] terão direito a usar o nome da mãe.” “France Culture cancelou um programa sobre o famoso poema de Stéphane Mallarmé … [14]”.

Mais de uma centena de palavras correntes tornaram-se lacunas na língua francesa. O que aconteceu? Como, de repente, esses lapsos de memória se generalizaram e atingiram todo mundo? Trata-se de um fenômeno estranhíssimo. A imprensa demorou a reconhecer que o francês estava perdendo palavras. Recorreram a lingüistas que não deram nenhuma explicação convincente. Os políticos minimizaram esse fato, até o dia em que uma bibliotecária de uma pequena aldeia de Rennes, Saint-Brice-en-Cogles, viu cair de suas estantes os dicionários “Grand Robert”, “Grand Larousse”, o dicionário “Hachette”. Eles tombavam uns após os outros. Era impossível mantê-los nas prateleiras. Uma força os impelia, jogando-os no chão. A bibliotecária examinou-os, um por um, e nada viu de extraordinário. Recolocando-os no lugar, ela viu, ou pensou ver, um batalhão de sílabas que deles escapavam e se espalhavam pelo chão, como se fossem bolhas de sabão. Era uma visão, uma alucinação devida ao cansaço.

“A França gagueja. A França fala por perífrase”

Passado um momento, ela abriu o "Robert" e constatou que as páginas estavam vazias, estavam todas em branco. Falou para si mesma que deveria ser um erro de impressão. Mas os outros dois dicionários também tinham páginas sem ao menos uma letra. No chão, não havia mais sinal das sílabas. Volatilizadas. Perdidas no ar. Tinham partido, aliás, nas malas dos imigrantes que partiram.

A França gagueja. A França fala por perífrase. As palavras árabes que povoavam sua língua, desapareceram, fugiram. Como fazer para que elas voltem? Que lingüista poderá substituí-las com a maior rapidez para que essa língua recobre sua saúde, seu ritmo e suas sutilezas? Podemos abrir mão delas? A reunião interministerial sobre o assunto foi muito longa e nenhuma solução satisfatória foi encontrada.

O diretor da faculdade de Direito perguntou: “mas a quem pertence uma palavra? A quem a inventou, ou a quem a utiliza? Além disso, não nos esqueçamos que esses imigrados nada inventaram. Se fossem inventores, não teriam vindo implorar trabalho aqui!”.

“Normalmente”, respondeu-lhe o lingüista Alain Rey, o excelente coordenador do dicionário "Grand Robert" “uma palavra não pertence a ninguém em particular; uma palavra só permanece viva se for utilizada; palavras desapareceram ou caíram em desuso porque mais ninguém se servia delas. No entanto, o problema com o qual nos confrontamos ultrapassa nossas competências, pois se trata de um problema político e não lingüístico. O senhor diretor se engana ao insultar os imigrantes. Não se trata de substituir as palavras árabes que estão faltando por outras palavras, mas sim de fazer com que a língua reencontre a paz de sua existência e volte aos dicionários, aos romances, aos discursos, às conversas diárias, pois as palavras ausentes são palavras de uso corrente. Certamente, algumas delas são termos científicos ou militares de uso limitado, mas outras fazem parte de nosso dia a dia. Veja: eu bem que tomaria um pouco de líquido preto sem... não estando confortável sentado em... embora eu preferisse estar instalado em... ou à vontade em.... de cor... diante de um buquê de... e de...”

Interrompeu-se por um momento, olhou a platéia que esperava uma solução rápida e, a seguir, retomou o discurso, batendo palmas a cada palavra em árabe.

“Eu bem que tomaria um pouco de café sem açúcar, não estando confortável sentado em um tamborete, embora eu preferisse estar instalado em um divã ou em uma simples almofada ou à vontade em um sofá de cor carmim diante de um buquê de lilás e de camélias…”

Após um instante de silêncio, o reitor desculpou-se e pediu que Alain Rey prosseguisse:

“Como dar o aval à sua política semelhante a um barco com avarias? Com seus discursos, os senhores disparam grossos calibres, misturam esmeralda com benjoim, âmbar com qualquer soda, fazem qualquer coisa e aplicam aos jovens delinqüentes tarifas excessivas, apenas por sua origem árabe. Para os senhores, todos são traficantes de droga. Os senhores confundem o almíscar dos almiscareiros e o da civeta [15], o “camaïeu” e a cânfora, e colocam álcool na sua limonada…porque alguns se crêem vizires, outros sultãos ou almirantes e até mesmo califas no lugar do califa ao passo que eles fariam bem em ir consultar um “toubib” [16] e parar de considerar os estrangeiros como “clebs”… [17] Se eu tivesse que dar uma nota à sua política seria um zero redondo!

“Eles têm seu amor próprio e seu orgulho”

Alguém perguntou por que Alain Rey redescobria o uso das palavras ausentes. Sem olhá-lo, Alain respondeu: “Porque não tenho nenhum preconceito, gosto das línguas e dos que as veiculam. Como historiador e lingüista, interesso-me pela origem das palavras, centenas de palavras árabes entraram na nossa língua sem visto e sem controle nas fronteiras. Sem elas, as ciências não estariam bem. Não existiria a matemática sem os árabes, sem algarismos, sem álgebra e sem algoritmos. Naturalmente, elas se instalaram no francês, enriqueceram-no e se tornaram, simplesmente, indispensáveis. Nós as importamos, ou mais precisamente, tomamos emprestadas porque tínhamos necessidade delas e nunca ninguém pensou em, algum dia, expulsá-las, nem imaginou que elas nos abandonariam chegando até a ameaçar o equilíbrio psicológico da França!

“O que fazer, então?”, perguntou o ministro da Cultura, que não mais conseguia resolver suas palavras cruzadas.

“Que voltem os imigrantes expulsos!”, disse um secretário de Estado de origem argelina.

“Isso muito me surpreenderia”, observou Alain Rey. “Eles têm seu amor-próprio e seu orgulho”.

“Mas a França não agüentará que sua língua seja assim mutilada!”, disse outro ministro que preenchia, sobre uma página, um tipo de palavras cruzadas.

“Não poderei mais jogar o scrabble!”, acrescentou o ministro da Educação.

“A França! Mas a França nada faz por todos esses povos que falam sua língua, a escrevem e a embelezam!”, exclamou Alain Rey. “A França deveria aproveitar essa crise para refletir, ter um pouco mais de imaginação e de coerência na sua política. Não é estigmatizando o islã e os mulçumanos que este país honrará seus símbolos, nem seus valores. Senhores Inquisidores, boa noite!”

Murmúrio de vagos protestos.

Alain Rey saiu da reunião e deixou aqueles altos funcionários no limbo. Uma semana mais tarde, o chefe de Estado apareceu no noticiário das 20h. Seu semblante estava sério.

“Francesas, Franceses, Meus caros compatriotas, Assalâm Alikoum! Sim, vocês ouviram corretamente! Assalâm Alikoum quer dizer boa noite em árabe, ou mais exatamente, “a paz esteja convosco”. Sayidâti, Sâdati! Senhoras, Senhores! Serei breve, lâ outawillo alikoum. A França cometeu mais que um erro, uma grave injustiça, dholmun kabir! Após o 11 de setembro de 2001, algumas pessoas disseram “Somos todos americanos!”. Hoje, eu digo:“koulouna ‘árabe!” Somos todos árabes! “koulouna mouhâjiroun”. Somos todos imigrantes. Da maneira como agimos, nós atentamos contra sua dignidade e perdemos nossa alma e nossa dignidade, quero dizer karâmatouna. Eu sei que não serei reeleito. Pouco importa. Eu não me represento. Presto homenagem à língua e à cultura árabes, esperando que alguns deles concordem em voltar para reerguer a França. Assalâm Alikoum! Tahya França! Yahya Al Maghreb!” [18]

Tradução: Maria Alice Farah alicefarah@uol.com.br



[1] abricó

[2] álcool

[3] café

[4] açafrão

[5] soda – como equivalente a refrigerante [Nota da Tradutora]

[6] sorvete

[7] cheque

[8] guitarra – Guitare, em francês, corresponde a violão, em português, sendo que a nossa guitarra, seria guitare électrique. Mantive guitarra para efeitos de correspondência com a palavra derivada do árabe. [Nota da Tradutora]

[9] álgebra

[10] química

[11] amálgama

[12] Zênite

[13] X – Ceux qui sont nés sous X – é uma referência às pessoas que, quando do nascimento, foram abandonadas pela mãe, a qual tem o direito de manter o anonimato. [Nota da Tradutora]

[14] azul

[15] As palavras musc e civette são traduzidas por almíscar, sendo que o primeiro é o almíscar dos almiscareiros e o segundo, da civeta [Nota da Tradutora]

[16] Toubib significa médico. Mantive o termo por não existir uma palavra em português derivada do árabe para médico. [Nota da Tradutora]

[17] Crebs – significa cão. Mantida pelos mesmos motivos acima. [Nota da Tradutora]

[18] Até logo. Viva a França! Viva o Magreb!


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Movimentos Migratórios
» Criação da Cultura de Paz
» Imigrantes e Cidadania
» Mundo Árabe
» Idiomas

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos