Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Bolívia: não despreze a resistência

» O adereço de Guedes e o sentido do governo

» O Chile Rebelde quer ir além

» É possível pensar o Brasil após o neoliberalismo?

» América Latina: Povo sem pernas, mas que caminha

» Cinema: Entre a cruz e o maracatu rural

» Atingida por barragem e acossada pelos poderosos

» Como o Google favorece a manipulação política

» Por um novo Pacto das Catacumbas

» Chantagem do governo aos desempregados

Rede Social


Edição francesa


» La figure imposée du dernier poilu

» Les dossiers enterrés de Tchernobyl

» Une femme à la barre de l'Argentine

» La Chine au miroir de l'Occident

» « Choc des civilisations », à l'origine d'un concept

» Les Allemands de l'Est saisis par l'Ostalgie

» A Berlin, le face-à-face des intellectuels de l'Est et de l'Ouest

» Réveil politique à l'Est

» Les Allemands de l'Est, sinistrés de l'unification

» Le difficile chemin de la démocratie espagnole


Edição em inglês


» The fall of liberal triumphalism

» Sarah Seo on Americans, their cars and the law

» November: the longer view

» Ibrahim Warde on the rise and fall of Abraaj

» Fighting ISIS: why soft power still matters

» Life as a company troll

» The imperial magazine

» Setting Socrates against Confucius

» Price of freedom on the road

» Global business of bytes


Edição portuguesa


» Golpe de Estado contra Evo Morales

» Será que a esquerda boliviana produziu os seus coveiros?

» A era dos golpes de Estado discretos

» Pequeno manual de desestabilização na Bolívia

» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019

» Sempre uma coisa defronte da outra

» OTAN: até quando?

» Alojamento local-global: especulação imobiliária e desalojamento

» Rumo a uma governança participativa da vida nocturna de Lisboa


IDÉIAS

Guy Debord, o irrecuperável

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Lançada, na França, a obra completa do autor que dissecou a “Sociedade do Espetáculo”. Da crítica da arte à análise política, textos revelam pensamento que, ao destacar o caráter alienador do capitalismo, defendia o direito do ser humano a inventar sua própria vida

Guy Scarpetta - (01/08/2006)

É paradoxal a situação de Guy Debord no panorama intelectual francês; de um lado, todos o citam, fazem referência a ele, mesmo os personagens do espetáculo a quem ele sempre se opôs; de outro lado, impressionamo-nos com a indiferença da imprensa diante do lançamento do conjunto de sua obra em um só volume [1]. Tal livro, além de suas obras já publicadas, traz uma preciosa coletânea de cartas, intervenções, artigos publicados em revistas e notas inéditas. É sem dúvida um acontecimento que permite, de uma só vez, vislumbrar o desenvolvimento desse pensamento, ano após ano, e encontrar sua impressionante coerência. Mas é como se a partir de agora, Debord devesse estar submetido a clichês, a fórmulas estereotipadas e vazias sobre a “sociedade do espetáculo”. Isso em detrimento da indefectível orientação revolucionária daquele que não teve, em seus textos ou em sua vida, outro objetivo além de lesar a ordem vigente, ou ao menos não lhe fazer qualquer concessão.

No início dos anos 50, Debord integrava um pequeno grupo de jovens que, na linha de certas vanguardas do início do século, esforçavam-se na argüição de que a arte estava morta enquanto fosse entidade “separada”. Defendiam que, a partir de então, a poesia deveria transbordar para a vida. Dada, pensavam eles, tentou suprimir a arte sem realizá-lo; já o surrealismo quis realizar a arte sem a suprimir. Tratava-se justamente de superar esse antagonismo. Cada vida deve ser inventada e não sofrida passivamente; a cidade (no caso Paris) é o próprio lugar da “deriva”, das aventuras (donde o escândalo que fomentaram contra Le Corbusier, culpado segundo eles de uma concepção urbanística que tendia à “destruição da rua”). O objetivo é “criar situações” – o que implica um declarado desdém por toda a arte existente, e, de forma mais genérica, por toda a cultura “alienada”, ausente de experiência direta. Podemos assim tomar conhecimento da “decomposição” dessa cultura e imaginar (segundo Lautréamont) as técnicas que nos permitem mudar esta realidade...

“A sociedade do Espetáculo” e maio de 1968

Num segundo período (correspondente a grosso modo à passagem da “Internacional literária” à “Internacional Situacionista”), Debord alargaria muito seu campo de ação, politizando-o. A contestação da cultura desemboca, necessariamente, na contestação da própria sociedade. O encontro com Marx torna-se inevitável – ainda que se trate, neste caso, de um marxismo heterodoxo, antípoda do comunismo oficial (para Debord e seus amigos, foi a contra-revolução que triunfou no século 20, quando o Estado totalitário foi substituído pelo poder dos sovietes, ou quando os levantes libertários da guerra civil espanhola foram massacrados pela burocracia stalinista ).

Debord percebe acima de tudo o seguinte: a lógica da “mercadoria”, que Marx havia analisado no sistema de produção, estende-se agora a todos os aspectos da vida cotidiana. O lazer criado pela evolução tecnológica, longe de suscitar liberdades, acaba alimentando o espetáculo, fomentando necessidades artificiais, renovadas incessantemente, submetendo nossas vidas a representações manipuladas e afetadas, que acabam virando nosso liame com o mundo. Para Debord, é a época de novas cumplicidades internacionais, de alianças táticas avalizadas por “manifestos” (e o grupo não pára de se recompor), e também de uma intensa elaboração teórica – que resultaria em 1967 nesse livro decisivo que é A sociedade do espetáculo [2], implacável coletânea de teses exaustivamente trabalhadas.

“O espetáculo”, escreve Debord, “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, midiatizada por imagens”; a “sociedade do espetáculo” não é somente a hegemonia do modelo midiático ou publicitário; é, além disso, o “reino autocrático da autonomia mercantil, em que ela goza um status de irresponsável soberania e as diversas novas técnicas de governo que sustentam este reino”. Conhecemos o corolário: a difusão subliminar dessas teses, sua ramificação no meio estudantil, de Estrasburgo a Nanterre, e para terminar, os acontecimentos de maio de 1968, cujo espírito Situacionista aparece como um foco secreto, ardente, irradiante, talvez menos por sua influência direta (especialmente na Sorbonne, no “Comité de Manutenção da Ocupação”), do que por sua inspiração difusa. É ele quem vibra nos slogans, nos cartazes, na escrita que invade as ruas.

O que segue é mais sombrio. Debord se dá conta, em tempo, de que o que ele sugere pode, por extensão, cair no lugar comum – isto é, ser diluído numa “contestação” banalizada, conformista. De onde a dissolução de sua “Internacional” (que nunca teve, na melhor das hipóteses, mais de 15 membros), retiradas e exílios voluntários (principalmente para a Itália, em tempo de mostrar a verdadeira natureza do “compromisso histórico” solicitado pelos comunistas e de apontar, com incomparável lucidez, a manipulação e infiltração do poder estatal nas Brigadas Vermelhas).

Debord encontra então um mecenas: Gérard Lebovici, que publica seus autores prediletos (de Gracian a Orwell), e dedica uma sala à difusão exclusiva de seus filmes (já que toda essa aventura sempre esteve pontuada por uma singular atividade cinematográfica, que tentava destruir o espetáculo a partir de seu interior, usando suas próprias armas). Lebovici, seria assassinado em circunstâncias não bem elucidadas. Debord, cada vez mais irredutível e isolado em seu radicalismo, numa época em que a maioria dos partidários do maio de 68 se unem à ordem liberal instalada, dedicaria seus últimos dias defendendo-se das críticas, geralmente caluniosas, que eram feitas a ele e suas obras.

Os grandes traços do “espetáculo integrado”

Engajando-se em uma escrita a um só tempo clássica, subversiva, soberana, condensada, desabusada; não hesitando mais em evocar sua própria experiência (o que culmina no prodigioso Panegírico [3]), em primeira pessoa – não por narcisismo (pois também o narcisismo é ingrediente do espetacular), mas para sugerir que a resistência a um mundo integralmente mercantilizado serve também para afirmar que, contra tudo e todos, um outro modo de vida é possível além daquele que nos foi imposto.

O livro maior deste último período, é certamente “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo [4]”, de 1988, onde Debord estende e aprofunda suas análises de 1967, deixando-nos o mais penetrante diagnóstico do mundo contemporâneo, e as chaves-mestras de sua compreensão. Um ano antes da queda do muro de Berlim ele declara que a oposição entre as formas concentrada do espetáculo (os regimes comunistas) e difusa (o capitalismo ocidental) estava a ponto de ser superada, fundindo-se num “espetáculo integrado”, reinando universalmente sem cisão. Seus traços característicos? “A inovação tecnológica permanente” (por exemplo, o produto de informática imposto, que transforma todo usuário em cliente rendido); a “fusão econômico-estatal” (a absorção do Estado pelo mercado); a “generalização do segredo” (as verdadeiras decisões são inacessíveis, o modelo mafioso triunfa no âmbito estatal); o “falso sem réplica” (pela primeira vez, os donos do mundo são também aqueles de sua representação); o “presente perpétuo” (a abolição de toda consciência histórica).

Disso resulta um universo de servilismo voluntário sem precedente (a verdadeira novidade do espetáculo, segundo Debord, foi “ter conseguido submeter uma geração a suas leis”). “Quem sempre observa para saber o que está por vir não agirá nunca, e assim deve ser o espectador”. O momento, evidentemente, não é mais o das grandes utopias coletivas, o espetáculo invadiu tudo, absorveu tudo, incluindo as críticas parciais, localizadas, de seu sistema, que visam somente efeitos periféricos – já não é possível rejeitar radicalmente esse sistema. O que enfim, com Debord, não exclui uma certa dose de nostalgia: a regressão é tal que é possível ser revolucionário ao lamentar certos aspectos extintos do passado – justamente aqueles que o espetáculo aniquilou.

No conjunto, portanto, é uma obra apaixonante, onde podemos acompanhar o desenvolvimento de Debord em todas as suas etapas, nenhuma sendo a negação das precedentes. Imperdível é o destaque de certos textos ali publicados, até então inéditos ou impossíveis de serem encontrados. Por exemplo, a “Mensagem aos revolucionários da Argélia”, de 1965, na época em que o golpe de Houari Boumedienne depôs Ahmed Ben Bella; ou o impressionante artigo de 1967, sobre a revolução cultural da China, analisada em todas as suas contradições; ou ainda, mais próximas de nossa realidade, as “Notas inéditas sobre a questão dos imigrantes” de dezembro de 1985, em que Debord lança a mais perturbadora das perguntas a respeito: a quem exatamente os imigrantes devem “se integrar”, no momento em que o espetáculo está prestes a americanizar totalmente o que resta da França?...

Há muitas análises precisas, claras, antecipatórias, sem ceder ao lugar comum (opostas portanto aos estereótipos e falta de visão da esquerda conformista). Não se trata aqui somente de perceber que Debord nunca manifestou a mínima complacência com a “turma socialista”, ou com as ditaduras de terceiro mundo. É preciso que nos perguntemos por que, com ele, é a busca do ponto de vista mais revolucionário que gera o máximo de inteligência e lucidez sobre esses assuntos.

Um cinema contra a ditadura da imagem

Outra coisa notável são os extraordinariamente interessantes textos cinematográficos. Ainda que para ele se tratasse de destruir esse código a partir de seu cerne (atacando toda a fascinação do espectador ao dissociar sistematicamente imagem e som e afirmar a primazia do pensamento sobre o “visual”, freqüentemente levado a imagens documentárias e planos distorcidos), os filmes de Debord (sobretudo essa obra-prima que é In girum imus nocte et consumimur igni [5]) representam uma tentativa inédita de projetar na consciência (histórica e subjetiva), uma arte que a princípio dedica-se a sua supressão. Donde filmes que contêm ao mesmo tempo ensaio, confissão, meditação, compreensão do mundo através de imagens, sem paralelos além, talvez, de Jean-Luc Godard em suas últimas realizações (a nós resta lamentar que nenhum diálogo tenha sido possível entre esses dois gigantes que se detestavam cordialmente [6])...

Pode-se, claro, não apoiar incondicionalmente tudo o que Debord escreveu ou defendeu. Achar excessivo e injusto, por exemplo, seu repúdio quase sistemático a toda arte e literatura de seu tempo – enquanto fica claro que é exatamente toda essa efervescência criativa do século 20 que o espetáculo tende a destruir ou tornar indecifrável. Tampouco é proibido achar suspeita a tendência de Debord a gerar, dentro dos grupos de que se cercava, freqüentes rupturas, exclusões e expurgos – que se dirigiam às vezes aos mais próximos, reduzindo o caráter coletivo, e conseqüentemente político, de suas posições. Mas talvez, no fundo, esse era o preço de sua intransigência, de sua exigência quase absoluta de radicalismo – ele que sabia que todo grupo subversivo deve esperar ser, um após o outro, “desviado, provocado, infiltrado, manipulado, usurpado e refeito”. É esse radicalismo, em suma, que faz com que o pensamento de Debord seja hoje o único capaz de dar conta, de maneira crítica, de todos os aspectos da mercantilização do mundo e da “falsa consciência” que ela conseguiu propagar. É nisso que Debord se revela, apesar de todos os artifícios modistas para tornar seu pensamento inofensivo, profundamente irrecuperável. “É muito notório", escreve ele, "que em nenhum ponto fiz concessões às idéias dominantes de minha época”. Essa é a grande lição que ele nos lega; é preciso saber, como ele soube, fazê-la transbordar para nossas vidas.

Tradução: Leonardo Abreu leonardoaabreu@yahoo.com.br



[1] Guy Debord, Ogras, Coleção “quarto”, Gallimard, Paris 2006; edição elaborada e comentada por Jean-Louis Rançon, em colaboração com Alice Debord, 1904 páginas, ainda sem tradução para o português.

[2] Debord, Guy, Sociedade do Espetáculo, editora Contraponto, 1997, 240 páginas , R$ 38.

[3] Debord, Guy, Panegírico, editora Conrad, 2002, 77 páginas, 17,00 reais.

[4] Disponível, em português, no site do Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia (CISC):

[5] “De noite andamos em círculos e somos consumidos pelo fogo”, frase que em latim é um palíndromo, isto é pode ser lida de trás para a frente que é a mesma coisa, o que traduz a idéia de círculo.

[6] Essa proximidade contraditória entre Debord e Godard foi muito bem apontada por Cécile Guilbert (Pour Guy Debord, Gallimard, Paris 1996) em um dos melhores ensaios dedicados a ele.


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Intelectuais

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos