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Da barbárie e seus antídotos

Ilustração: Yili Rojas

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Em nossa edição de agosto, mergulho nos dilemas de um planeta que se vê impotente diante da guerra, mas procura reinventar-se por meio das redes de solidariedade

Antonio Martins - (15/08/2006)

Sociedade do espetáculo. Criado ainda na década de 1960, pelo sociólogo e filósofo francês Guy Debord, este conceito parece mais atual que nunca, em agosto de 2006. A ameaça que ele expressa – o advento de uma sociedade na qual o poder tornou-se intangível a ponto de reduzir os cidadãos à condição de espectadores – parece realizar-se no filme de horrores que se desenrola no Oriente Médio. Em contrapartida, Debord está vivo também na busca de novos meios para enfrentar a alienação e a indiferença. A multiplicação dos meios de comunicação alternativos (incluindo os blogs) permite, por exemplo, imaginar um mundo em que todos seremos produtores de informação, narrativas e interpretações. Na nova edição do Le Monde Diplomatique, quinze textos ajudam a compor, em profundidade, o mosaico de nossos dilemas.

Três artigos debatem os dramas provocados, no Oriente Médio, pela política expansionista israelense. No primeiro deles, Alain Gresh destaca algo que passou despercebido na maior parte das análises. Nos Estados Unidos, os neoconservadores trataram o conflito como “a nossa guerra”. É como se, depois de ter profetizado o “choque de civilizações”, a direita norte-americana se empenhasse em provocá-lo, contando para isso com a “mão de gato” de Israel. A capacidade dos EUA para exercer hegemonia política declinou sensivelmente, após anos de unilateralismo e de uma aventura frustrante no Iraque. A pujança de sua economia e finanças repousa num déficit externo colossal, cuja sustentabilidade é muito duvidosa, a médio prazo. A guerra é, hoje, o único terreno em que a supremacia de Washington é incontestável. Os neocons, cujo objetivo explícito é assegurar “um novo século norte-americano”, teriam em perspectiva alcançar esta meta nos campos de batalha?

Os outros artigos sobre Israel 1 2 descrevem a tentativa de mudar o mapa do país, anexando territórios palestinos na Cisjordânia, ampliando as colônias de ocupação e consolidando a “conquista” por meio do “muro de Sharon”. Surpresa: os textos mostram que a maior parte dos ocupantes não é atraída por argumentos ideológicos. São os pobres de Israel. O desmonte dos sistemas de bem-estar social, nos anos 80 e 90, roubou-lhes a possibilidade de uma vida digna. São agora empurrados para as áreas de ocupação. O Estado oferece-lhes imóveis subsidiados. Grandes empresas (inclusive nos setores de alta tecnologia) aproveitam-se de sua fragilidade e transferem parte de sua produção para as colônias, onde podem exigir trabalho intenso, e pagar salários reduzidos.

Da comunicação de massa às redes de solidariedade

Como você enxerga o surgimento da Wikipedia, a multiplicação dos blogs ou a audiência espantosa do YouTube? Nova forma de divertimento adolescente? O filósofo da Comunicação Manuel Castells pensa de outro modo. Para ele, podemos estar entrando numa Era da Intercomunicação, na qual estaria rompido um dos mecanismos mais usados para o controle das mentes durante toda a modernidade. Trata-se do poder de ocultar – algo muito mais forte, pensa Castells, que a capacidade de distorcer os fatos. Ao romper o oligopólio das grandes empresas de mídia, ao permitir que cada ser humano deixe a condição de mero consumidor e se transforme em produtor de conteúdos, escreve o filósofo, a internet pode neutralizar este poder.

Não é à toa, prossegue ele, que o movimento altermundialista está se apropriando rapidamente de recursos como os blogs, as mensagens via celular (SMSs), o Skype. Ferramentas como o RSS permitem conectar os blogs uns aos outros, formando redes que atuam "não só na organização, mas também no debate e intervenção". Já há, aliás, precedente de fatos políticos relevantes produzidos com auxílio das novas tecnologias. Em 2004, o então primeiro-ministro da Espanha, José Maria Aznar, perdeu surpreendentemente as eleições e o mandato, ao ver desmascarada, por mensagens de SMS, sua tentativa (e a da mídia tradicional) de atribuir ao ETA os atentados contra estações de trem de Madri. Faltará algo semelhante ao México? Lá, argumenta nosso editorial de agosto, assinado por Ignácio Ramonet, produziu-se, nas últimas eleições presidenciais, fraude em larga escala contra Manuel Lopez Obrador.

Mais três textos, na edição de agosto, debatem alternativas para um mundo em que a lógica dos direitos predomine sobre a da mercadoria. O jornalista colombiano Henando Calvo Ospina descreve a atuação internacional, nos últimos vinte anos, da medicina cubana. Ao oferecer tratamento gratuito de excelência, a milhares de pacientes em todo o mundo, ela demonstrou que é viável garantir a todos o direito aos bens e serviços necessários para uma vida digna. O italiano Carlo Petrini explica as bases de um movimento pouco conhecido no Brasil: o Slow Food, que pretende oferecer, como contraponto à alimentação industrializada e à agricultura produtivista, o respeito às culturas alimentares e o deleite da gastronomia – entendida como "tudo aquilo que é relativo ao homem, enquanto ser que se nutre". Bernard Cassen, diretor-geral do jornal, reporta a experiência de Saint-Camille, uma comunidade de 446 habitantes no Canadá, que enfrentou o risco de extinção graças a espírito comunitário, uma instituição financeira alternativa e coragem para usar as novas tecnologias em favor de todos.

Do Sul exótico ao real

Há décadas, uma das marcas editoriais do Le Monde Diplomatique é o esforço para produzir uma visão de mundo não-centrada nas nações do Norte – e, ao mesmo tempo, para des-folclorizar o Sul. A edição de agosto traz reportagem sobre Burkina Faso, um dos três países mais pobres (segundo o critério IDH) do mundo. Lá, graças a esforços coordenados de movimentos sociais, ONGs e autoridades, tem havido vitórias notáveis contra a mutilação sexual feminina – um costume praticado há séculos e atribuído erroneamente ao islamismo. Em parte, os êxitos agora alcançados são ecos do esforço de Thomas Sankara, presidente assassinado em 1987 e visto hoje como inspiração pela juventude que vislumbra a possibilidade de outra África

O Sul é, também, alvo de um fenômeno que ganhou há alguns anos dimensão global: é o turismo sexual de massa, que se espalha por países tão díspares entre si como Brasil, Tailândia, Goa, Índia, Jamaica, Marrocos, Senegal, Cuba e México. Nosso texto observa: vivemos num mundo em que novas condições de mobilidade facilitam o contato com outras culturas e geografias. No entanto, os mesmos obstáculos que nos impedem de desfrutar integralmente a condição de ser humano nos levam a buscar, em qualquer parte, apenas os prazeres superficiais.

Cinema, literatura, filosofia

Parece haver, hoje, em qualquer parte, uma aproximação entre os mundos da arte e da transformação social. Na maioria dos países, a política institucional torna-se um espaço tão opaco, e tão infecundo de mudanças, que a busca de saídas associa-se, de várias maneiras, à (re)invenção da realidade. Le Monde Diplomatique destaca, em agosto, três grandes per sonagens do mundo da cultura. O escritor e ensaísta marroquino Tahar bem Jelloun imagina, num conto inédito, o que será dos idiomas (e das culturas) européias quando o último imigrante for, enfim, expulso. O escritor inglês John Berger resenha La Rabbia [A Raiva], documentário em que Pier Paolo Pasolini constrói uma visão singular sobre o século 20, os riscos de eticídio e o direito ao sonho.

Eis que regressamos a Guy Debord. Sua obra completa acaba de ser lançada, no francês original. Ao ressaltar o caráter “irrecuperável” (pelo capitalismo) das idéias que a orientam, o crítico Guy Scarpetta acaba expondo a outra face da moeda: o Debord cuja acidez era movida, sobretudo, pela certeza de que o ser humano é capaz de inventar incessantemente a própria vida; e que qualquer situação que o prive de tal direito é simplesmente inaceitável.



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