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DOSSIÊ “GUERRA INFINITA” / INTERNET

Encalacrados na teia…

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Sinal dos tempos e das novas tecnologias: multiplicam-se, no ciberespaço, documentários que contestam a versão oficial sobre os atentados de 11 de setembro. A pergunta é: qual a credibilidade destes documentos?

(06/09/2006)

No que se caracteriza em muitos casos como um aprimoramento, as auto-estradas da informação estão repletas de caminhos secundários, de vias alternativas fáceis de utilizar, disponíveis para todos os que desejam sair das trilhas tantas vezes repisadas do "politicamente correto" e do etnocentrismo. Por isso, ao repercutir os atentados de 11 de setembro de 2001, a mídia teve de levar em conta e lidar com uma novidade inesperada: a Internet. Será a Web uma nova mídia? Ou será ela uma "contra-mídia"? A pergunta é tanto mais relevante quando se verifica como ela favoreceu a circulação de informações de outro gênero, enquanto os grandes veículos de comunicação prescreviam a versão unívoca, ilustrada com as infinitas imagens de pesadelo, a sua vulgata institucional endossada por exércitos de especialistas pretensiosos.

As "contra-informações digitais", que passaram a saturar a Web, eram produtos de um novo tipo de Internacional. Ela reunia internautas que queriam comunicar o que constatavam ou sentiam a respeito dos atentados em Nova Iorque e Washington em 2001. O modo de circulação viral próprio da Internet fez com que o antigo boca–a-boca encontrasse uma caixa de ressonância inédita. As ferramentas de correio eletrônico proporcionam uma fácil manipulação de arquivos e permitem fazer dezenas, e até mesmo centenas de contatos com um simples clicar de tecla.

O encontro de uma tecnologia relativamente nova com uma catástrofe histórica coincidiu com o surgimento dos blogs, sites de expressão pessoal. Além disso, não falta nos fóruns de discussão quem ouse questionar, sem o menor complexo, as versões oficiais, lançando mão de argumentos técnicos, econômicos ou políticos. [1]

Em cada internauta, um produtor de conteúdos

A Internet é uma ferramenta que, de maneira formidável, acaba com os complexos. Cada internauta é um ator do debate (do qual participa, não raro, de modo anônimo, algo que também tem a sua importância); e, sobretudo, um ator da informação "em processo de formação". Certamente, alguns podem ser tentados a mostrar certo zelo na busca da "verdade". Da mesma forma que se pode facilmente utilizar atalhos, interpretando dados digitais desprovidos de uma origem fixa; ou considerar a Web como uma descarga ao ar livre, o auxílio catártico propício para a afirmação de todos os rancores.

A Web instaura o fim dos intermediários, a total liberdade de palavra, o acesso instantâneo a todo tipo de informações, por meio de algumas palavras-chaves... Na esteira de uma desconfiança cada vez mais aguda diante dos meios de comunicação tradicionais, prontos a perpetuar o sistema, a Web – "utopia democrática e de valorização da cidadania", segundo a expressão consagrada – tornou-se o foro providencial dos anônimos, assim como dos "desviantes" e dos desconfiados.

O 11 de setembro de 2001 viu os farsantes e conspiradores tomados pelo frenesi de um verdadeiro faroeste da comunicação, no qual todos os golpes são permitidos, no qual "o primeiro que clica" leva uma vantagem decisiva na difusão da sua verdade. Assim, no intervalo entre a queda da primeira torre e o desmoronamento da segunda, vários nomes de domínios ligados ao evento foram registrados. Pode-se detectar nisso os sinais de um espírito empreendedor particularmente cínico; ou ainda, a vontade de se refugiar no virtual, na hora das grandes catástrofes.

Em função disso, floresceu "on-line" todo tipo de piadas mais ou menos duvidosas, de fabulações fantasiosas, de imagens que parodiavam o drama, de inquéritos alternativos sumários: expressões de um maniqueísmo que repintava o mundo em preto e branco, no qual o pseudo-científico entra em competição com o irracional mais absoluto. A maior parte desses mexericos não teve maior repercussão, a não ser na leitura divertida que deles faziam, on-line, os internautas aficionados por bobagens digitais. Mas, em certos casos, as coisas vão mais longe.

Isso ocorreu, por exemplo, com o "caso Meyssan". Em março de 2002, após uma hábil campanha de pré-promoção via Internet, L’Effroyable imposture [2] ("A pavorosa impostura") era lançado na França. Nele, Thierry Meyssan garantia que um míssil (norte-americano), e não um avião de linha, havia despencado sobre o Pentágono. O rumor espalhou-se em grande velocidade, sendo retomado por inúmeros veículos da mídia. Estes, mesmo criticando o autor, deram um inacreditável destaque para o livro. Paralelamente, surgiram inúmeros sites que davam sustento à tese do complô e repetiam as mesmas afirmações, dissecando as mesmas imagens. Em substância, os serviços de inteligência estadunidenses teriam fomentado os eventos de 11 de setembro com o objetivo de suscitar uma imensa onda de emoção e indignação, abrindo caminho para um rearmamento maciço e uma política guerreira.

Ao surfar sobre uma onda de ceticismo generalizado - em parte alimentada pelas vantagens incontestáveis que a administração Bush tirou dos atentados - e ao explorar a paranóia de uma parte do público, Meyssan adotou uma abordagem de inspiração revisionista. Ora, a informação é um trabalho que se aprende; ela tem as suas regras, tais como a verificação das fontes e dos fatos. Em função da liberdade que a Internet oferece, alguns investigadores digitais acreditam poder se emancipar. O que não exclui (longe disso) que alguns importantes veículos da mídia ou personagens inclinados a lições de moral, na imprensa escrita, radiofônica e televisiva, também passem alegremente por cima dessas regras…

Cinco anos após a catástrofe, esses casos eram dados como encerrados. Contudo, são cada vez mais numerosos os jornalistas, pesquisadores, professores e até mesmo políticos que questionam, não sem razões, a falta de transparência do governo norte-americano; e que pedem a reabertura do inquérito. A sua arma é a Web, mais uma vez.

Um documento fascinante e perturbador

Recentemente, Dylan Avery, um jovem internauta desconhecido, reabriu o "dossiê 11 de setembro", ao estilo da série "Arquivo X", realizando sozinho e em sua casa, por meio de um PC e com 2 mil dólares, "Loose change", "o novo filme que incomoda a América". Este documentário de 80 minutos, que pode ser acessado facilmente na Internet, parece obra de profissional. Ele retoma a teoria da conspiração norte-americana para explicar o ataque contra o Pentágono; mas também questiona, de maneira ainda mais ousada, a hipótese oficial sobre o atentado às torres gêmeas do World Trade Center. Baseando-se em numerosos documentos de vídeo, material de arquivos, trechos de áudio e animações em 3D, o jovem realizador produziu um documento fascinante e perturbador, que coloca totalmente em xeque a versão da Casa Branca [3].

Na esteira de Dylan Avery, milhares de internautas seguem em busca de indícios, esquadrinhando os filmes de vídeo dos grandes canais de televisão, os depoimentos que foram filmados na época, elaborando uma releitura dos diferentes inquéritos que foram conduzidos. Todos se interrogam acerca das "fraquezas científicas da teoria oficial". Muito além de eventuais dúvidas sobre a pertinência desses questionamentos, o simples fato de manter este tipo de discurso nos Estados Unidos, tendo como pano de fundo o Patriot Act, requer boa dose de coragem.

Mas o que pensar desses documentários? Qual é o seu grau de confiabilidade? Segundo Pascal Froissart, um especialista do rumor, "os objetos estéticos são soberbos: belas imagens, uma narração perfeita, reviravoltas depois de três minutos ou a cada três páginas, estrelas em ação... Tudo isso é terrivelmente eficiente, e de fato muito mais comparável com heróis policiais tais como SAS, OSS 117 ou James Bond do que com o Relatório da comissão Warren [4]. Aqui, não se procura tanto a verdade, e sim o espetáculo. Será que caberia a nós julgar quanto ao mérito da questão? Apesar do milhão de páginas que já devorei, eu não tenho competência alguma em pirotecnia, em terrorismologia ou em balística" [5].

Ora, é precisamente nesses terrenos que os (quase sempre pseudo) especialistas dissertam até o infinito. Como participar de debates que são estritamente técnicos, se você não dispõe do nível de competência requerido? E como dar crédito a todos os OVNIs – Objetos em Vídeo Não-Identificados – encontrados ao acaso da navegação na Web, quando se sabe o quanto a imagem (digital, por cima) é facilmente manipulável?

Pois esta é mesmo a principal dificuldade que apresentam todas essas teses, que se valem também das angústias de uma época que vem perdendo suas referências, enquanto vêm se erguendo espantalhos assustadores – sanitários, climáticos, econômicos, políticos –, os quais fazem assoprar seu mau vento sobre opiniões desnorteadas.

Tradução: Jean-Yves de Neufville jeanyves@uol.com.br



[1] Ler Divina Frau-Meigs, Qui a détourné le 11 septembre?, De Boeck, Bruxelas, 2006.

[2] Thierry Meyssan, L’Effroyable Imposture, Carnot, Paris, 2002.

[3] Outros documentários já andaram surgindo. Menos efetivos que o de Dylan Avery, eles encontram seus públicos via Web. Todos esses trabalhos vão no sentido de um questionamento da versão oficial. Dentre eles, vale assistir a Secret evil of 9/11, 911 Eyewitness, Reopen 9/11 ou The Great Conspiracy.

[4] Criada para investigar as circunstâncias do assassinato, em novembro de 1963, do presidente John F. Kennedy, a comissão Warren rejeitou a hipótese do complô em proveito daquela –muito criticada – de um matador único e isolado, Lee Harvey Oswald.

[5] Entrevista com o autor.


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