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Washington aposta na Índia

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Por que a Casa Branca oferece a Nova Délhi um acordo atômico que contraria toda sua retórica anti-proliferação nuclear? O que leva o governo indiano, uma coalizão que inclui os comunistas, a flertar com Bush?

Christophe Jaffrelot - (12/09/2006)

A origem da aproximação entre a Índia e os Estados Unidos está na ação do ex-presidente norte-americano, William Clinton, cuja visita em 2000 sinalizou uma primeira mudança – e de Atal Bihari Vajpayee, primeiro ministro da Índia entre 1998 e 2004, cujos opositores costumavam dizer que ele não tomava nenhuma decisão relacionada a política externa sem ligar para a Casa Branca. Mas nada mudou com a chegada ao poder de uma coalizão dirigida pelo Partido do Congresso, que incluía forças políticas – como os comunistas – de posição crítica frente à política da equipe Vajpayee em relação aos Estados Unidos. As manobras militares conjuntas, do exército, da marinha ou das forças aéreas tornaram-se rotina. Os Estados Unidos e a Índia fecharam um acordo de open skies (céus abertos) em 2005, com o objetivo de multiplicar as ligações aéreas entre os dois países. A Air India comprou 68 Boeings por 11 bilhões de dólares. Desde junho de 2005, as duas nações estabeleceram uma parceria estratégica que influenciou positivamente a visita do presidente Bush no ano seguinte.

Paralelamente, ocorreu a aproximação indo-israelense [1], que tornou Israel o segundo maior fornecedor de armas do país - depois da Rússia. Os comunistas obtiveram, é certo, a suspensão das manobras militares comuns aos dois exércitos, mas se trata da única concessão que lhes foi feita até hoje. Por que, então, a Índia se une aos Estados Unidos? Em primeiro lugar, porque Washington permite acesso a certos atributos de potência mundial. No âmbito militar, autorizaram os israelenses a vender o sistema de radar Phalcon a Nova Délhi, pouco tempo depois de a Casa Branca ter vetado uma transação semelhante com os chineses. Além disso, Bush também ofereceu caças F-16 e F-18. Ademais, a visão estratégica dos indianos vai ao encontro da estadunidense com relação a um ponto essencial: a luta contra o terrorismo. Após o 11 de setembro, boa parte dos políticos indianos acredita que os Estados Unidos se encontrem em uma situação semelhante a de seu país, na condição de vítimas das mesmas redes islâmicas, cujas origens estão no Paquistão. Essa relação de fato se mostra cada vez mais tática, provocada pela questão da Al-Qaeda e pela caça ao homem – Bin Laden – nas zonas tribais. Além das considerações estratégico-militares, a Índia aprecia outros aspectos dessa nova cooperação. Houve progressos significativos nos últimos meses no âmbito da energia e os norte-americanos comprometem-se a tratar o carvão indiano para torná-lo mais eficaz e menos poluente. Com relação à agricultura, os EUA estão prestes a dar aos indianos meios de fazer uma revolução verde de "segunda geração".

Um status nuclear de privilégios

A visita de Bush foi crucial, principalmente para a questão da energia nuclear. O presidente norte-americano reconheceu que a Índia se encontra em uma posição de privilégio. Disse que os EUA estão prontos a permitir a transferência de produtos sensíveis (incluindo urânio enriquecido), mesmo que seu parceiro não tenha assinado o Tratado de Não-Proliferação nuclear (TNP). Atribui a decisão aos supostos serviços prestados pelos indianos a favor da não-proliferação nuclear e da democracia. Apenas uma condição foi imposta: até o ano de 2014, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deverá ter acesso a 65% das instalações nucleares, com o objetivo de verificar se as tecnologias de uso duplo não estão sendo usadas para fins militares. Oito dos vinte e dois reatores permanecerão sob o controle das autoridades indianas, que poderiam com eles desenvolver um arsenal militar. A Índia, por sua vez, fez poucas concessões que ferem a soberania estratégica e militar nacional. Por que os Estados Unidos vão tão longe? Em primeiro lugar, porque suas relações com a Índia são a única "success story" de Bush em matéria de política externa, após um mandato e meio de Casa Branca. E, sobretudo, porque a Índia tem um peso cada vez maior no mapa geopolítico mundial, e Washignton conta com esse novo aliado para ajudá-lo a policiar o oceano Índico. Sobretudo, para isolar o Irã. Os Estados Unidos apostam na Índia, principalmente, para contrabalançar a crescente influência da China sobre a Ásia. Mesmo que Nova Délhi até o momento não tenha demonstrado certeza se entrará de vez no jogo estadunidense, caso o rompimento com os chineses seja uma condição para tal. Além da China já ser um importante parceiro comercial e ter potencial para passar da segunda à primeira categoria – e então destronar os Estados Unidos – em pouco tempo, os investimentos cruzados se multiplicam entre os dois países. Eles, inclusive, respondem conjuntamente às ofertas para a exploração de campos petrolíferos na Síria ou Canadá, por exemplo. Do ponto de vista global, essa intensificação das relações diplomáticas e estratégicas apóia-se em uma dinâmica nunca antes vista na economia. Atualmente, os Estados Unidos são os maiores parceiros comerciais da Índia. Eles representam 11,1% das transações comerciais no período de 2004-2005, contra 5,6% do comércio indo-chinês – e o primeiro investidor externo no país, com 17% dos investimentos estrangeiros diretos (IED) desde 1991.

A paralisia da União Européia

Além disso, a migração indiana rumo aos Estados Unidos dobrou em dez anos, chega a 2 milhões de pessoas e tem um papel determinante nessa aproximação. O censo estadunidense de 2000 mostra que os indo-estadunidenses têm uma renda média de 60.093 dólares por pessoa, sendo que a a média nacional é de 38.885 dólares por pessoa (apenas 6% dos indo-estadunidenses vivem abaixo da linha de pobreza). Isso é explicado pelo fato de que três quartos dos membros dessa comunidade têm nível superior. Longe de se limitar a considerações estratégico-militares, essa aproximação existe também nas numerosas transações econômicas e sociais. Mesmo se os militares recusem (por razões técnicas) os F-16 que Washington lhes oferece nesse momento, e ainda que o Congresso norte-americano rejeite o acordo prometido por Bush com relação à energia nuclear, os laços entre os dois países tendem a se fortalecer, na medida em que as relações entre a Índia e a Europa se enfraquecem. A primeira reunião de cúpula com a União Européia, que ocorreu em Lisboa, no ano 2000, sinalizou um desejo de retomar a cooperação. Esse encontro depois resultou, em junho de 2004, em uma parceria estratégica que definiu cinco âmbitos de colaboração: uma cooperação internacional cujo foco principal é a prevenção de conflitos, a luta contra o terrorismo, a não-proliferação de armas nucleares, a democracia e os direitos humanos; o reforço da parceria econômica através de diálogos setoriais e políticas comuns de regulamentação; uma cooperação em termos de desenvolvimento destinada a ajudar a Índia a atingir as "metas do milênio" de luta contra a pobreza; a intensificação de intercâmbios intelectuais e culturais; a institucionalização das relações entre a Índia e a União Européia. Dois anos depois, o balanço é muito incerto. No plano econômico, a União Européia que, há pouco tempo, era o principal parceiro comercial da Índia, foi destronada pela Ásia. A Associação das Nações do Sudeste Asiático (Anase) + 3 [2] totalizava 20% das transações comerciais do país em 2004 (contra 19% da UE). Além disso, a Índia representa apenas 1,7% das importações e exportações da UE, tornando-a seu décimo segundo parceiro comercial. Ainda em 2004, a Índia atraía apenas 0,3% do IED europeu. Contudo, é no plano estratégico-diplomático que a relação se mostra mais estagnada. Por um lado, o foco da diplomacia européia continua sendo Pequim. Chris Patten foi o único membro do conselho executivo da UE a levar Nova Délhi a sério ao longo dos últimos anos. Por outro lado, a Índia mostra-se hostil com relação a muitas iniciativas européias, como a criação da Corte Penal Internacional ou a Convenção de Ottawa sobre a proibição de minas terrestres. Sem contar a desconfiança frente à "ingerência" européia nos assuntos indianos que dizem respeito aos direitos humanos na Caxemira ou ao trabalho infantil. Na verdade, embriagadas pelo poder recém-adquirido, as elites indianas não procuram mais esconder seu desprezo por uma Europa em meio a um marasmo econômico. Para elas, a Europa está sem fôlego, com seu Estado de bem-estar social ultrapassado e, em suma, fadada ao declínio. Essa Índia nacionalista, tem sua revanche após séculos de colonialismo e neo-colonialismo. Mostra-se tão hostil com relação à UE que esta revida com atitudes que lembram a mentalidade colonial.

Discurso dúbio sobre a democracia

O caso Mittal Steel é um bom exemplo. Mesmo não se tratando de uma empresa indiana, o tratamento dado a ela pelos dirigentes europeus foi tal que, no final, a imprensa indiana fez bem em se manifestar contra o discurso dúbio de uma União Européia que joga ou recusa o jogo do capitalismo globalizado quando lhe convém. A Índia acolheu a Lafarge de braços abertos, quando ela se tornou um gigante do cimento, por que a União Européia não poderia proceder da mesma forma com o aço, em um cenário inverso? Os europeus afirmam que "a Índia e a União Européia compartilham de uma mesma visão de mundo apoiada no multilateralismo" [3]. Mas, o discurso indiano sobre a necessidade de um mundo multipolarizado é ilusório. Nova Délhi herdou, de seu engajamento terceiro-mundista no seio dos movimentos dos não-alinhados, um discurso de tom anti-imperialista dirigido, sobretudo, contra a hegemonia estadunidense. Esse legado apresenta evidentes afinidades eletivas com o projeto multilateralista europeu, que pretende promover um sistema de normas internacionais. Mas na prática, os indianos deram provas de um pragmatismo que chegou a ter ares da realpolitik pós-anos 1990. Para os seus dirigentes, os Estados Unidos garantem uma liderança insuperável, uma vez que a União Européia ainda não se encontrou e não figura entre os atores internacionais de maior força. A extrema valorização do poder constitui um fator de suma importância, na falta de consideração da Índia pela União Européia. Se Jawaharlal Nehru acreditava – assim como Mohandas Karamchand Gandhi – nos valores (nas normas, como se diz atualmente), as estratégias dos "think tanks" indianos consideram que fazer "da Índia a maior democracia do mundo" trará menos vantagens ao país do que os testes nucleares de 1998. Essa nova inclinação é perfeitamente coerente: o Ocidente escutou a Índia quando o país defendia os valores como o desarmamento e a não-violência, ou homens como o Dalai Lama? A União Européia está prestes a sair da tela de radar de um dos mais promissores países emergentes, dando essa vantagem aos Estados Unidos - agora aliado da Índia, por mais improvável que isso pareça, já que, há oito anos, Washington submetia Nova Délhi a pesadas sanções devido aos testes nucleares. Um bom exemplo dessa virada e do preço a ser pago pelos europeus é o acordo de cooperação estratégico-militar firmado entre indianos e estadunidenses em junho de 2005, no qual os dois países concordaram em agir conjuntamente na cena internacional, em operações cujo objetivo seja a manutenção da paz. É provável que esse acordo diminua o interesse dos indianos em selar algo semelhante com os europeus, mesmo que tal compromisso estivesse previsto como um dos objetivos da parceria estratégica que havia sido fechada... entre a Índia e a UE no ano anterior. Para tirar as relações indo-européias do limbo, onde elas correm risco de afundar, a UE deve, primeiro, criar um meio de existir no plano internacional. Algo não tão simples, após a rejeição de uma Constituição que seria vantajosa por lhe dar um ministro de relações exteriores. Mas se a dinâmica européia ainda não está definitivamente enfraquecida, uma iniciativa ambiciosa que poderia ser tomada pela UE seria fazer campanha a favor da entrada da Índia no Conselho de Segurança da ONU. A vantagem de tal iniciativa seria a de permitir que os europeus dessem um passo na frente dos chineses e dos norte-americanos, que são hostis – explicitamente ou não – em conceder aos indianos um assento no Conselho. Assistiríamos, então, ao tão esperado equilíbrio da diplomacia européia. O tropismo chinês da Europa é, de fato, paradoxal: embora a União Européia diga dar grande importância à democracia, ela concentra sua atenção na China, cuja situação é, desse ponto de vista, muito menos nobre do que o da Índia. Essa última se mostra mais atraída pelo discurso dos Estados Unidos, que conjuga a promoção da democracia em todos os níveis e a denúncia do autoritarismo chinês.

Tradução: Márcia Macedo marcinhamacedo@gmail.com



[1] Em 1991-1992, a iniciativa indiana de reaquecimento de suas relações com Israel visava Washington: a passagem por Israel era, de certa forma, um desvio de rota para "esperar" os Estados Unidos.

[2] A Anase + 3 corresponde aos dez países da Asean: Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia, Vietnã, Birmânia, Laos, Cambodja e Brunei, aos quais se juntam China, Coréia do Sul e Japão.

[3] Comissão Européia, "Commission staff working document. Annex to the Communication from the Comission, ’An EU-India Strategic Partnership’", Bruxelas, 16 de junho de 2004.


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